My Dear Hooker
3 The Actress
Notas iniciais
Nina Fiorentini era uma atriz italiana. Ela era promissora, com 27 anos já tinha uma boa carreira. E Antonio, por esse e por outros motivos, se sentiu mais que grato por ter ela em seu filme. E são esses outros motivos que fizeram ele sair de sua casa quase de madrugada para ir se encontrar com ela.
Quem sabe ela tivesse uma agenda muito lotada ou quem sabe ele só quisesse impressioná-la por algum motivo, levando-a a um lugar bem mais chique que sua casa.
E lá estavam os dois, em um belo café de Nova York. Ele encarava ela disfarçadamente, admirando-a. Tinham falado sem parar sobre o filme durante mais de 20 minutos e ficaram em silêncio quando seus pedidos chegaram.
- Você está mesmo a altura do Thomas sabe? Parece que também é muito boa... — ele sorriu, tentando quebrar o silêncio.
Ela não respondeu e ele soube que tinha sido ignorado.
- O nome dele é Thomas? — Nina perguntou, depois de um tempo.
- Ah, é... Eu falei com ele hoje. Agora pouco.
- E foi interessante?
Antonio ficou em silêncio, pensando se devia mentir.
- Por que esse interesse súbito nele?
- Não é súbito... Estou curiosa desde que me disseram que iria trabalhar com ele. Ele parece muito bom no que faz.
- É, ele é bom — Antonio cruzou os braços.
Por que ela se interessava tanto? Nunca tinha falado com ele. Claro que Antonio podia difamar o ator, mas ele se sentiria mal com aquilo depois.
Nina podia estar apenas receosa claro. Ela podia estar pensando que por Antonio ser seu diretor, devia tratá-lo com formalidade toda hora e por Thomas ser um ator no mesmo nível que ela, podia tratá-lo com mais normalidade.
Se ele quisesse algum avanço, ia ter que desfazer aquela impressão. E quebrar aquele gelo todo.
- Anh... Nós podemos ser amigos apesar de tudo. Assim fica melhor trabalharmos por um período tão grande.
- Não sabia que precisaria de tanto tempo para gravar um filme tão simples... — ela levantou os olhos de seu capuccino e encarou ele — Quando gravei outros filmes desse tipo, não demorei tanto.
- É que... Eu... Quero algo bem feito. Preciso de tempo.
- Tudo bem... Então eu vou ficar presa nesse filme durante quanto tempo exatamente?
- Presa?
- Não gosto de ficar muito tempo em um filme só Gosto de mudança — fez alguns gestos com a mão enquanto falava — Ver outros rostos, outras histórias. Quero gravar muitos filmes enquanto eu viver. Ficar gravando só o seu filme pode me atrasar.
Antonio tamborilou os dedos na mesa. Como alguém pode falar que estava "presa" a algo? Ela devia fazer do melhor jeito possível. Mas ela era boa, com certeza faria sem nem se esforçar.
- Não pode escolher outra atriz se vai demorar tanto?
- Você é importante pra mim. É uma ótima atriz. É o que eu preciso — ele sorriu — Então, nem pense em sair desse filme.
Ela cruzou os braços, levemente emburrada.
Quando Antonio voltou para casa, ele estava cansado e já passava das duas da manhã. Mas ele estava feliz, apesar de ter sido chamado de lerdo. Subliminarmente, claro, porque ela era educada demais para chamar ele daquilo diretamente.
Ele pensou naquilo que ela havia dito. Quem sabe seu filme realmente estivesse atrapalhando o sonho dela mesmo. Então... Ele devia diminuir o tempo de gravação se conseguisse.
Tinha que conseguir.
Thomas aprendeu uma importante lição naquela noite. Mas isso ele só percebeu no final, quando deixou ela na própria casa.
Mas, por enquanto, ele estava apenas em silêncio, os olhos fixos no caminho. Se ela ficasse em silêncio também, ou pelo menos sem encará-lo tanto, ele poderia jurar que estava sozinho no carro.
- Por que me olha tanto? — ele perguntou, depois de um tempo.
- Não sei, estou tentando me lembrar de onde te conheço.
- Eu sou ator. Deve ter me visto em algum filme.
- Ah, deve ter sido isso — e o silêncio voltou.
Thomas não fez questão de quebrá-lo novamente. Ele tinha que admitir que não era lá muito comum ele chegar puxando assunto com qualquer um, ainda mais com uma mulher completamente desconhecida e que só tinha dado uma informação para ele.
Ela só falava também quando precisava dar alguma indicação para ele. Até que Katherine não morava em um lugar tão ruim como ele imaginou, em suas ideias iniciais.
- É tão bom como dizer ser ator?
- Tem seus lados bons — ele murmurou — E seus lados ruins. Mas acho que... É interessante. Nunca se sabe quando seu nome vai aparecer no jornal.
- Você fala como se isso não fosse fácil e divertido. Todos te dão atenção.
- Isso é ruim. Você não pode errar. Nunca.
- E o que é considerado um erro quando se tem a sua vida?
Eles ficaram em silêncio, o único barulho dentro do carro era o som do vento que entrava pela janela aberta dele. De repente, Thomas sentiu a garganta apertar e sentiu vontade de pensar na pergunta dela, mas apenas achou que era uma frase inteligente demais para uma conversa casual.
- Não sou eu que define o que é um erro. É a sociedade.
- E o que você acha?
- O que foi? — ele soou mais irritado que planejava — Quer me fazer refletir sobre alguma coisa? Eu vou te dizer apenas uma coisa: não posso mudar muita coisa no que os outros pensam. Você mais que ninguém devia saber disso.
Ele não soube porque exatamente disse aquilo na hora. Só estava com raiva do que ela tanto perguntasse. Como se pudesse entendê-lo. Ele não fazia questão de ficar questionando ela, ficava?
Fez uma última curva e entrou na rua que ela disse sem dela. Era uma rua sem saída e com algumas casas em ambos os lados. Ele dirigiu até mais ou menos o meio dela e parou, deixando que ela descesse.
- Só estou te dizendo que você tem sim o poder de mudar as coisas. E você tem bem mais que eu.
E fechou a porta, sem ser violenta. É, ele esperava que Katherine estivesse irritada e batesse a porta como mostra disso. Mas ela apenas andou para uma casa simples, com as luzes ainda acesas. Ele ficou lá no carro, encarando ela entrar na casa e sua silhueta se mover por dentro da mesma até se cansar e achar que já estava tarde.
Devia ir embora logo e tentar dormir um pouco. Não era hora de pensar naquilo que ela tinha dito, apesar de parecer muita verdade. Mas quem sabe ele só estivesse com muito sono.
Notas finais
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