Music In The Dark
8 O Baile
Notas iniciais
Nada de excepcionalmente peculiar acontecer nas duas semanas que sucederam o grande vexame de Dom Juan Triunfante. O lustre do salão principal fora rapidamente consertado e todos os estragos causados por sua queda, devidamente reparados. A temporada de óperas continuava como se nada tivesse acontecido, e todos os habitantes e frequentadores do teatro evitavam mencionar o Fantasma da Ópera e sua amada Christine Daaé.
Naquele curto período de tempo, Anna e Meg se aproximaram bastante, e Lui ressentia-se pela amiga passar cada vez menos tempo com ele. Entendia que talvez fosse interessante a Anna ter uma amizade feminina com uma menina de idade próxima, mas não se conformava com a possibilidade de sua amizade não ser suficiente para ela. Queria se reaproximar, mas não sabia como. Quando foi anunciado o Baile do Equinócio, um festival de máscaras que ocorreria ali no Ópera Populaire, Lui viu sua oportunidade perfeita para tentar reatar sua amizade com Anna.
Assim que teve uma oportunidade de abordá-la sozinha, por vergonha de se dirigir a ela com Meg presente, o menino mascarado tentou a sorte:
-Anna, pretende ir ao baile hoje à noite? – usava um tom casual, como se não estivesse nervoso ao perguntar.
A morena olhou o amigo, desconfiada.
-Não me parece uma boa ideia. Haverá muito barulho, muita gente. Estou certa de que não me sentirei confortável.
-Venha, por favor! Ficarei com você o tempo todo, farei você se sentir confortável. Nem perceberá as pessoas à sua volta.
A menina percebeu que não conseguiria esquivar-se do convite sob aquele pretexto.
-Lui, eu não sei dançar!
-Eu te ensino! Por favor, me acompanhe. Não será a mesma coisa se você não estiver presente.
Anna suspirou, relaxando os ombros. Deu-se por vencida.
-Está bem, Lui. Vou ao baile com você.
Dali a uma hora, se iniciaria o grande baile. Em seus aposentos, Meg desesperava-se. Ainda não sabia o que vestir, como arrumar o cabelo e nem tinha máscara. Anna, por outro lado, estava calma. Não esperava impressionar ninguém, não precisava estar impecavelmente arrumada ou ser extremamente educada. Sua única ansiedade era por ter que estar em um ambiente infestado de pessoas. Quando Meg finalmente conseguiu se arrumar, as meninas já estavam atrasadas para a comemoração.
[Anna:
http://www.polyvore.com/anna/set?id=48222500]
—Meg- Anna chamou -, estamos em cima da hora!
A loira saiu do banheiro, onde se arrumara, rodopiando em seu vestido dourado, exibindo-se para a amiga. Anna, no entanto, só conseguiu reparar no fato de que a pequena Giry estava sem máscara.
— Cadê sua máscara? – perguntou.
—Eu não tenho! – Meg resmungou, chateada por não ter se lembrado desse detalhe. Com certeza, a essa altura, todas as máscaras dos camarins já estariam sendo usadas.
Anna suspirou, sem saber se achava graça ou se lamentava pela pouca memória da amiga, e foi até seu armário, abrindo uma gaveta em que tinha várias máscaras. Ergueu duas delas para Meg, perguntando qual a menina achava que combinaria mais com sua roupa.
Meg atrapalhou-se, sem entender por que Anna tinha máscaras guardadas em seu armário. Sem questionar, no entanto – pois sabia do passado obscuro da amiga – indicou a máscara da esquerda. Um belo disfarce, de porcelana branca com adornos dourados em suas extremidades.
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—Agora vamos, Meg, já demoramos demais.
Meg estranhou a amiga estar de calça, mas preferiu não comentar. Sabia que Anna em nada se identificava com as damas que frequentavam a Ópera e entendia que talvez a menina preferisse se distinguir delas, a tentar se encaixar.
As duas garotas se encaminharam para o salão principal, que já estava infestado por uma multidão de pessoas. Lui correu para perto de Anna assim que a identificou em meio ao mar de pessoas. Sua costumeira máscara parecia quase discreta em meio a tantas outras e, pela primeira vez em sua vida, ele se sentia quase normal. Cheio dessa recém-adquirida confiança, sorriu seu melhor sorriso para a amiga, que corou levemente e voltou os olhos para o chão.
—Boa noite, Anna. — ele cumprimentou. Mal percebera que Meg também estava lá, oferecendo-lhe apenas um breve aceno com a cabeça.
—Olá, Lui. — Anna disse, e Meg aproveitou para escapulir com Beaumont, que tinha a convidado para acompanhá-lo durante a noite.
—Você está especialmente bonita esta noite.
Anna corou novamente. Jamais se acostumaria aos elogios que Lui lhe dispensava.
—Obrigada. – agradeceu silenciosamente, olhando a sua volta. Os olhos de Lui pareciam querer penetrar em sua alma, descobrir todos os seus segredos, tal era sua intensidade. Anna não conseguia encará-lo por mais um segundo sequer.
—Dança comigo? — ele perguntou, passando a mão levemente por seus curtos cabelos castanhos, bagunçando-os. Sempre fazia isso quando estava nervoso.
—Lui, você sabe que eu não sei dançar. – a menina se aborreceu.
—É fácil, eu te ensino. – ele se aproximou -Vem cá.
Aproveitando o momento, Lui puxou Anna para perto de si, sendo tão delicado quanto conseguia, pois sabia que a amiga não estava acostumada a ser tocada. Lentamente, mas com vontade, envolveu a cintura acentuada da morena com uma mão, entrelaçando, com a outra, seus dedos nos dela. Anna hesitou, respirando fundo. Estar tão próxima a alguém era bastante estressante para a pequena, mas ela sabia que Lui era seu amigo e não a machucaria. Apesar do coração palpitante e da ansiedade que sentia, tentou manter-se calma e se concentrar em aprender os passos que o garoto lhe ensinava. Não demorou muito para que Anna aprendesse, bastando a Lui aguentar apenas um pisão em seu pé, sem mais qualquer sofrimento. Era-lhe extremamente agradável ter o corpo da menina tão próximo ao seu, o calor irradiando de um para o outro. No entanto, o jovem não era o único que dispensava seu tempo pensando sobre Anna. A uma certa distância, dançando e, descaradamente, apalpando uma outra qualquer, o conde de Chagny, Phillip, não conseguia tirar seus olhos gulosos e devassos da menina. Havia algum tempo que vinha fantasiando com ela, e esperava que, naquela noite, após embebedar-se em “coragem líquida”, como chamava à qualquer bebida contendo álcool, pudesse se aproximar da garota e conquista-la.
Anna percebeu o olhar ávido do conde sobre si, ruborizando e rapidamente desviando sua atenção. Preferiu concentrar-se em Lui e em coordenar seus passos com a batida da música. Dançar não era tão difícil quanto ela imaginara. Era bastante simples deixar que Lui a guiasse, com seu olhar doce, embora desejoso, e suas mãos gentis queimando sua pele mesmo através do tecido de suas roupas. Embora ela se sentisse estranhamente confortável em seus braços, não sentia nada em relação ao amigo, por mais que tentasse. Era agradável poder estar perto de alguém sem se machucar, mas Lui não a atraia.
—Anna? — Lui percebeu a distração da amiga, chamando-lhe a atenção.
Ela despertou de seu transe, firmando a mão livre no ombro dele, facilitando a dança. A música estava em seu fim e Anna percebeu estar muito insegura em relação a troca de pares. Suas mãos começaram a tremer moderadamente, o que ela tentou controlar, respirando profundamente. Lui percebeu seu nervosismo e usou a mão que a guiava pela cintura para acaricia-la candidamente, como tentativa de oferecer-lhe algum conforto. A menina expirou pesadamente, agradecendo o amigo em pensamentos.
Foi bastante difícil tentar sentir-se confortável dançando com estranhos. Embora a maioria dos homens fossem perfeitos cavalheiros, o coração de Anna acelerava-se de medo assim que seu par lhe tocava, e era quase impossível lutar contra os tremores que ameaçavam arruinar a dança. Todavia, apesar de seus medos e inseguranças, quem a observasse não conseguiria adivinhar seus receios. Phillip, o conde de Chagny, chegara a guia-la durante uma dança que, ainda bem, não durou mais de três minutos. O hálito de álcool, baforado involuntariamente no rosto da menina, a fazia prender a respiração por longos momentos, e a mão que deveria estar em sua cintura, conduzindo-a, teimava em escorregar por suas curvas até os quadris, apertando as poucas carnes que ali existiam. Anna ficou extremamente grata quando pode trocar de par novamente, dando um suspiro aliviado.
Extraordinariamente, os braços de seu próximo par pareceram-lhe muito confortáveis. A mão que segurava a sua, desnuda, estava bastante gelada mas, mesmo assim, um calor peculiar emanava daquele homem, alentando-a. A mão grande, de dedos longos e fortes, que repousava em sua cintura, a guiava quase sem se fazer sentir, de tão delicada que era sobre sua pele coberta. Os olhos da menina encaravam o peitoral de seu acompanhante, parcialmente coberto por uma camisa branca. Lentamente, ela ergueu o rosto para tentar identificar quem era aquele homem que parecia atraí-la com tanta intensidade. Os olhos dele, verde-água, imediatamente encontraram os seus, fitando-os abertamente, sem medo ou timidez. Anna estava completamente tomada por aqueles olhos, até perceberem a quem eles pertenciam, dando um salto assustado para trás. Era o Fantasma da Ópera! Ela nunca o havia visto tão de perto – certamente não o bastante para perceber o verde-água de seu olhar -, distinguindo-o apenas pela máscara que usava. Naquele salão, em que todos estavam mascarados, demorara muito para perceber quem dançava com ela. Agora que percebera, seu coração palpitava e a menina não conseguia acreditar que, por alguns instantes, sentira-se atraída por ele.
Mesmo percebendo o susto da menina, o Fantasma não pronunciou palavra alguma. Ofereceu-lhe apenas um sorriso sutil e um suave afago em sua cintura, tentando acalmá-la. O sorriso dele logo se esvaneceu e seus olhos prenderam-se a algo atrás de Anna. A menina voltou a focar-se nos compassos da música, tirando sua atenção daquele homem que ela sabia ser perigoso.
Não demorou para que Anna sentisse um forte puxão em seu braço e fosse arrastada às pressas para fora do salão, parando apenas ao chegar ao corredor de entrada. Confusa, a morena resmungou, tentando soltar sua mão do aperto de ferro do Fantasma.
—Desculpe. — ele sussurrou, transtornada, afrouxando o aperto que matinha na mão dela. — Christine está aqui com Raoul. Sinto muito por meu comportamento, ainda é muito difícil para mim tentar aceitar que perdi meu Anjo. — o Fantasma parecia estar se lamentando consigo mesmo mais do que falando com Anna.
A garota deixou um suspiro escapar de seus lábios, e bagunçou o cabelo de leve, sem saber o que dizer. Hesitou.
—Por que me arrastou junto com você? — perguntou, franzindo as sobrancelhas.
—Bem, eu não podia ficar lá. – ele disse, entre gaguejos, envergonhado.
—Mas eu podia.
O Fantasma a olhou com surpresa — era difícil que alguém não se intimidasse com ele. Sua mera presença normalmente bastava para impor medo. Não que ele quisesse amedrontar Anna, mas era fascinante perceber que ela não parecia ser afetada – ou afastada – por sua aura negra.
—Então, volte. Eu não ligo. — ele blefou, mas a morena não sabia que o homem não queria que ela o deixasse.
Anna deu meia-volta e voltou para o salão. Já não estava com ânimo para o baile, no entanto. Despedindo-se brevemente de Lui e Meg, ela dirigiu-se ao seu quarto, a fim de dormir. Deitou-se do jeito que estava vestida, sem incomodar-se em tirar sapato e máscara. Logo ouviu o som de passos, caminhando na direção de seu quarto, acompanhado por gritos bêbados. Ela reconheceu a voz- era Phillip. Anna tentou ignorar os ruídos, mas não podia deixar de pensar que talvez ele a tivesse seguida. Lembrava-se bem de suas mãos escorregadias e dos olhares indecentes que lançara sobre ela. Ouvindo a porta se abrir, Anna estendeu o braço, alcançando o vaso de flores que enfeitava a mesinha ao lado de sua cama e escondendo-a atrás de seu corpo. Tirando o travesseiro de cima da cabeça, Anna viu o conde a observar com um olhar malicioso. Ele estava se aproximando dela lentamente, aos tropeços, e o cheiro de álcool dominou o quarto inteiro.
Ela esperou que ele se aproximasse o quanto quisesse, observando cuidadosamente cada movimento. A menina tremeu levemente ao sentir o conde prostrar-se sobre ela, subindo na cama e colando seus corpos. Ela fechou os olhos, enojada, enquanto sentia os lábios dele tocarem seu rosto, molhando-o com sua saliva. Anna esperou o momento certo, ergueu o vaso e o espatifou contra a cabeça oca de Phillip, atordoando-o, mas sem força suficiente para machuca-lo muito. Rapidamente, levantou-se e saiu correndo em direção ao salão onde o festival ainda fervilhava. Imediatamente identificou Lui dentre a multidão e correu para perto dele – que agora lhe parecia um porto-seguro -, segurando-lhe a mão.
—Anna? Está tudo bem? – o amigo perguntou, preocupado. – Você está pálida.
—Estou bem. Não tenho tempo para explicar agora. Apenas prometa que não vai me deixar até que o baile acabe. – Lui, intrigado, assentiu com a cabeça, apertando-lhe a mão afetuosamente. E Anna e Lui tiveram que ficar o resto da noite se escondendo, mesmo que ele não soubesse o porquê. Ambos só puderam parar depois que Raoul, Christine e Phillip tivessem ido embora.
—Obrigada, Lui. – a menina agradeceu, aliviada.
—Vai me explicar o que aconteceu?
—Não posso. — ela disse, suspirando. Não achava que o amigo acreditaria nela -Boa noite. – despediu-se do amigo com um beijo na bochecha, como agradecimento, e voltou aos seus aposentos.
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Quatro semanas haviam se passado desde o baile. Os lamentáveis incidentes causados pelo conde serviram para aproximar Anna e Lui. O jovem mascarado percebia cada vez mais sua atração pela amiga, admirando-se de cada pequeno detalhe que dissesse respeito a ela. Sentia-se grato por ter reconquistado sua amizade, mas sabia que tinha concorrentes. Fortes concorrentes. O que Lui não sabia, entretanto, é que o próprio Fantasma da Ópera, secretamente, tornara-se o maior admirador de Anna, embora seu coração ainda fosse devoto à Christine. Ele observava a menina escondido e fantasiava com ela a cada segundo.
As janelas do quarto de Anna, naquela manhã, mostravam um tempo terrivelmente nublado e chuvoso. Ela estava acordada desde madrugada, sabendo ser inútil tentar voltar a dormir, pois seus pesadelos certamente voltariam para atormentá-la.
Meg entrou correndo no quarto de Anna, verificando que eram dez horas da manhã.
—Anna! Minha mãe pediu um favor. Nós temos que sair para pegar os vestidos encomendados para a próxima ópera na cidade, e ela pediu para você deixar isso com o Fantasma.
—O que é isso? — Anna perguntou, observando o envelope que Meg a dera.
—É o salário dele, ela acabou de surrupiar do bolso de Firmin. — a loira olhou para o relógio de novo. — Tenho que ir. Espero que se lembre do caminho.
Anna lembrava exatamente os vários caminhos para chegar ao covil do Fantasma da Ópera, embora não quisesse ir até lá e ter que vê-lo. Seu último encontro com ele tinha sido bastante peculiar, e ela não sabia como iria encará-lo depois do baile. Além disso, por mais que soubesse como chegar no covil, Anna nunca sabia voltar. Eram caminhos diferentes. Ela esperava conseguir se lembrar dessa vez, e não ter que pedir novamente a ajuda do Fantasma. Anna andou pelos corredores confusos e cheios de armadilhas, chegando à casa do Lago mais rápido do que se lembrava de ter feito antes. Ela não precisava realmente passar pelo Lago pelo caminho que tinha pego.
—Olá, Anna. — o Fantasma falou de algum lugar atrás dela.
Ela não o procurou, achando que ele estava usando o ventriloquismo de novo. Assim, surpreendeu-se ao sentir as mãos dele segurando-a por trás pela cintura. Assustada, seu coração se acelerando, rapidamente virou-se, tirando as mãos grandes de seu corpo.
—Madame Giry pediu para eu te entregar isso. — Anna disse em alta velocidade, segurando o envelope para que ele o pegasse. Ela suspirou, ansiosa por sair dali –Adeus.
O Fantasma guardou o envelope no bolso, um pouco aborrecido. Deixou escapar um suspiro. Anna se virou para ir embora, mas ele não queria que ela fosse. Sua presença era agradável e ele sabia que a menina era teimosa e não iria querer que ele a mostrasse o caminho de volta — era bem capaz de ela se machucar em uma das armadilhas. Ele não queria que isso acontecesse.
—Não vá. — foram as duas palavras que escaparam de seus lábios.
Anna deu meia volta e o encarou incredulamente.
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