Notas iniciais
(Editado em 18/10/2016) Esse capítulo é curto. Na verdade, são os últimos parágrafos que eu cortei do último capítulo. Espero que gostem.

Anna encarava o Fantasma fixamente, sem saber como processar o fato de que ele acabara de pedir que ela não o deixasse. O homem quase podia enxergar um ponto de interrogação estampado no rosto bonito da menina.

—Fique comigo. — ele pediu, num sussurro, como se envergonhado por querer alguém para alegrar a escuridão de seu covil.

—O que eu faria aqui? – Anna indagou, inconformada, dando um passo a frente. Por que ele iria querer sua presença ali?, pensou, confusa. Por mais que a lógica lhe dissesse que era podia ser perigoso ficar ali, sozinha, com o Fantasma, o inconsciente da menina não deixava de trazer à tona o estranho magnetismo com o qual o mascarado parecera atrai-la no Baile de Equinócio... As mãos gentis, embora firmes, os olhos intensos, o refrescante calor que emanava de sua pele.

O Fantasma não hesitou em esclarecer as dúvidas que pareciam bagunçar a mente da menina.

—Faça-me companhia. – falou, com mais volume do que antes. –Fico muito sozinho aqui. Seria agradável poder desfrutar de alguma companhia, ocasionalmente.

Anna deixou um suspiro escapar, apiedando-se. Lembrou-se de que aquele homem passara por situações terríveis e jamais encontrara conforto junto a alguém. Tinha certeza de que ele não era mal, mas que apenas agia de modo a proteger-se, cansado de tanto se machucar. Ela sabia que faria o mesmo. Assim, dirigiu-se à cadeira que o ladeava, a uma distância segura. O Fantasma sorriu gentilmente, o que pareceu estranho aos olhos da menina.

—O que gostaria de fazer? – perguntou, docilmente.

Anna, nervosa, hesitou bastante antes de conseguir formular alguma resposta, olhando fixamente para o colo, incapaz de encará-lo.

—Bem – respondeu por fim -, é sua casa. Acho que você deveria saber o que fazer melhor do que eu.

Dirigindo um olhar ao órgão no centro da sala, o homem levantou-se e andou em sua direção. Sentou-se em frente ao enorme instrumento e começou a tocar uma melodia linda. A música preencheu a sala e a alma de ambos seres ali presentes. Anna, que até então apenas o observara, andou com passos apressados até o órgão, parando bem ao lado do mascarado, assistindo fascinada enquanto as mãos grandes e másculas percorriam, com maestria, as muitas teclas.

Depois das notas, seguiu-se um estranho silêncio, que pareceu prolongar-se pela eternidade, até que o Fantasma tivesse a coragem de quebra-lo.

—Escrevi para você. — ele sussurrou, gaguejando de vergonha.

Anna o encarou, sem saber como reagir. Ela pouco conhecia do mundo, mas tinha certeza de que aquela tinha que ser uma das músicas mais belas do mundo. Ele parecia tão gentil, tão sinceramente nervoso a respeito do que ela pensaria. Não achava ser possível que ele a fizesse mal. Mas por que ele teria feito aquilo para ela? Não fazia sentido. Sem entender nada, menina tentou sorrir, sem grande sucesso, obtendo uma careta desajeitada apenas. Mas o brilho em seus olhos expressou ao Fantasma o que ela queria passar.

—Mesmo? – questionou, incrédula. –É uma música muito bonita. Não sou capaz de me reconhecer nela, não sou digna de tal honra.

—Claro que é. É você, descrita em notas. — ele sussurrou a última frase, fixando os olhos no dela. Havia virado seu corpo para encará-la e agora estava de pé, fazendo com que ela se sentisse ainda menor do que já era.

—Como você se chama? – a morena perguntou repentinamente.

—Erik. Meu nome é Erik.

O Fantasma parecia emocionado em dizer-lhe como se chamava, e a menina lembrou que nem Christine, Madame Giry ou Meg referiam-se ao homem por seu nome. Talvez não o soubessem. Anna entristeceu-se pelo mascarado, que vivera sua vida toda no anonimato, às escondidas

Seu olhar voltou-se para observar o rosto do homem, muitas polegadas acima de seu próprio rosto. Os olhos, volúveis e mutáveis, revezando-se entre verde e azul, contrastavam lindamente com a pele alva e as sobrancelhas espessas e negras. Os lábios eram mais grossos do que ela se lembrava, carnudos e sensuais. A máscara, fixa ao lado direito do rosto, adicionava-lhe um ar de mistério, envolvente. Anna não se esquecera do que jazia embaixo da porcelana branca de seu disfarce, mas não deixava de achar Erik extremamente bem-apessoado. Verdadeiramente belo. Por um momento breve, sentiu o impulso de inclinar-se para frente e acariciar suas bochechas bem estruturadas ou passear os dedos pelos cabelos escuros, mas refreou seus desejos, espantada consigo mesma.

Erik percebeu que algo acontecia nos pensamentos da menina.

—Está tudo bem, Anna? — ele perguntou, aproximando-se dela, devagar. Não queria assustá-la ou inibi-la. A pequena reteve o impulso de se afastar, acolhendo a proximidade do Fantasma.

Ela apenas balançou a cabeça afirmativamente, muda.

—Pode me dizer o que quiser. — o Fantasma pegou o rosto de Anna entre as mãos, sussurrando docemente.

Ela balançou a cabeça novamente, em sinal negativo, dessa vez, mas deixou que Erik continuasse tocando seu rosto.

Por alguns instantes, ele ficou ali, apenas observando o rosto bonito da menina, admirando-a. Anna encarava-o de volta, se perdendo em seus olhos. Estava surpresa por conseguir deixar que Erik a tocasse. O alento que sentira na noite do baile voltara. O Fantasma sabia como confortá-la, mesmo sem palavras, apenas com olhares e toques. Seu coração palpitava, mas não mais por medo da aproximação.

—Você é linda. — ele sussurrou. Anna entreabriu os lábios, pensando no que dizer. Não estava acostumada a elogios. Sentiu seu rosto corar, levemente envergonhada.

—Obrigada. — Anna murmurou, recuando meio passo e colocando uma mecha atrás da orelha. Não sabia o que fazer, percebendo o homem começar a inclinar-se em sua direção.

Erik não pensou, ele agia por instinto. Se inclinou até ficar com o rosto na altura do rosto de Anna e pressionou os lábios contra os dela. A menina, surpresa, arregalou os olhos, nada acostumada àquilo. Imediatamente, começou a ficar nervosa. O que devia fazer? Ao sentir as mãos do Fantasma descendo até sua cintura correspondeu ao beijo, com toda a gentileza que pôde juntar, relaxando um pouco. É de se imaginar que aquele era o primeiro beijo de Anna – ela jamais o teria imaginado tão bom.

Notas finais
Nâo se esqueçam dos reviews!