Mundo medonho

17 Monocromia.


Agatha corta mais uma vez a cabeça de um Medo. Se acostumou com o sabre, e agora o maneja com uma velocidade impressionante. Seu medo parece ajudar-lhe, travando seus movimentos de repente, pegando de surpresa os Medos nos duelos. Ela era uma marionete, e as cordas que a faziam se mexer eram seu medo, enquanto quem controlava era o subconsciente.

Hugo bate palmas diante dos Medos se transformando em pó. Não para de sorrir diante da sua excelente aprendiz. Agatha algumas vezes se pergunta por que ele comemora e deixa que usem Medos para seu treinamento, sendo que eles são seus aliados. "Isso não seria uma traição indireta?" ela perguntou isso uma vez pra ele, e o mesmo respondeu: "Não é traição, porque eles deixam. Se eles pedissem por suas vidas, nunca os usaríamos para treinamentos. Mas eles fazem nada além de concordar."

Passado algum tempo, todos são avisados que é hora de partir. Toda a caravana começa se organizar, e logo estão viajando. Ainda não sabem que os Intrépidos já conhecem de seus planos. Agatha e Hugo passam mais uma vez a viagem inteira brincando com o caderno. Dessa vez, eles criaram um jogo que consistia em adivinhar uma conversa entre duas pessoas, e ao invés de palavras, o jogador usava símbolos, para dificultar o compreender do outro.

Horas se passam e ônibus para em frente a um prédio simples. Hugo desce, dizendo que era necessário todos ficarem. Alguns ficam olhando para o prédio pelas janelas, outros comentam, e foi nesse momento em que Agatha percebeu que não havia avistado Detetive e Diana fazia algum tempo. Procurou pelas cadeiras, mas não os encontrou.

Hugo saiu do prédio e avisou a todos que a próxima parada seria um porto, e de lá eles finalmente iriam para a ilha a qual usariam como portal para a Sociedade Medonha. Todos comemoraram, e o transporte ficou muito mais barulhento graças a ansiedade de todos em chegar até a Sociedade. Agatha perguntou a Hugo sobre o paradeiro de Detetive e Diana, e ele disse que eles estavam em outro grupo, em outro ônibus, que estava atrasado.

Chegando ao porto, todos foram divididos em três grupos que ficariam em três barcos pequenos, pelo motivo de que não queriam chamar atenção para si.

...

Passaram-se mais horas. Todos nos barcos deveriam fazer silêncio, e para ser menos chamativos ainda, usavam o capuz das capas. Algumas pessoas que olhavam os barcos de longe pensavam que os barcos carregavam aprendizes de magia negra para uma ilha demoníaca, o que "ajudou" aos Scrupulum para esconder suas identidades e reais intenções. Agatha olhava para o mar sereno e para a grossa neblina que se formava lentamente. Antes que percebessem, ninguém conseguia mais ver um palmo a sua frente.

— Estamos perdidos? — sussurrou Agatha.

— Não sei. — respondeu Hugo.

— Consigo ver um farol daqui. — disse o Medo que pertencia a Hugo.

— Você deve ter uma visão mais apurada, porque eu estou vendo nada.

— Duvida que eu consiga adivinhar o tempo em que vocês verão o farol também?

— Eu duvido.

— Beleza então. Vocês verão a luz do farol em três... dois... um...

Uma forte luz cegou todos por alguns segundos. Ela vinha de um farol, que se localizava em uma ilha ao longe. A neblina enfraqueceu, revelando a vegetação escura e retorcida da ilha, num bonito terror.

— Chegamos na "ilha portal" para a Sociedade Medonha, meus caros. — disse o Medo de Hugo. — Agora precisamos procurar a entrada para ela.

Os três barcos aportaram numa praia, a qual tinha uma areia cinzenta. Hugo e os líderes dos outros barcos guiaram todos para a praia com cautela, contando cada um, vendo se alguém estava faltando. Por sorte, havia nenhum desaparecido até ali, o que era ótimo. Depois de tudo acertado, entraram na floresta medonha. Andaram pelo matagal estranho, que era repleto de uma fina neblina, que não parecia natural. De repente, um zumbido cruzou todos. Hugo desembainhou a espada, pronto para atacar qualquer coisa que aparecesse. Pequenos animais escuros e de olhos brancos surgiram entre a vegetação, observando o grupo de longe, os guiando de forma indireta.

...

— Achei! — declarou alguém dos Scrupulum.

Tudo o que o grupo queria ouvir naquele momento era aquela palavra. Foram horas a fio procurando o portal, ou pelo menos algo que o evidenciasse. Muitos do grupo agradeceram ao descobridor do portal, enquanto outros apenas se preocupavam em entender como o portal funcionava. O Medo de Hugo abriu caminho, e foi o primeiro a entrar na caverna onde encontraram o objetivo. Muitos Medos saíram da cabeça de seus Medrosos e quiseram acompanhar de perto. A caverna onde estava a passagem tinha as paredes cheias de uma gosma negra. O Medo de Hugo saiu minutos depois do recinto, avisando a todos que havia nenhum problema. Disse também que a única coisa que precisariam fazer era passar pelo portal e esperar por todos do outro lado, e então, quando estivessem todos lá, finalmente poderiam continuar.

— Como funciona isso? — perguntou Agatha.

— O "portal" que a gente chama é uma passagem secreta pelo mar. Tem um túnel enorme, e no fim dele, está a Sociedade Medonha. — respondeu um dos Medos.

— Fomos os primeiros a descobrir isso?

— Menos perguntas e mais ação. — Hugo começou a empurrar Agatha para dentro da caverna, junto com alguns Medos.

Não demorou muito até todos atravessarem a entrada do "portal". Foram mais horas caminhando pelo túnel vazio e silencioso, e essas horas foram repletas de ansiedade. As paredes brancas com teias de aranha e o chão que mal apresentava poeira demonstravam que o lugar era usado raras vezes. O silêncio, que era apenas quebrado pelos sons dos peixes, tinha um quê de assustador. Os Medos andavam sobre duas patas, e pareciam analisar as paredes, como se pudessem ver além delas. Alguns seguravam as mãos de seus Medrosos como se fossem seus filhos. Parecia que todos estavam isolados de qualquer coisa no mundo, e a partir desse pensamento vinha a ideia de que eles poderiam morrer e ninguém perceber. Agatha não se agradou muito quando pensou nisso.

Todos ficaram felizes ao verem o fim do túnel. Saíram numa caverna, muito parecida com a da entrada. Eles apreciaram a visão da Sociedade Medonha, parando e admirando com surpresa como era a "Cidade dos Medos".

A primeira coisa que lhe saltava os olhos era a monocromia da cidade. Era formada apenas das cores branco, preto e cinza, em inúmeros tons. Carruagens passavam pelas ruas, Medrosos andavam livremente carregando seus Medos nos ombros. A grama era cinza, as árvores tinham o tronco negro e folhas brancas. Existiam casas bonitinhas e Medrosos de todas as idades estavam nas ruas brincando com os Medos, ou sentados em cadeiras de balanço na calçada, e até mesmo andando de bicicleta.

— Isso é a... Sociedade Medonha? — Agatha olhou tudo aquilo.

— Lar doce lar. — disseram os Medos, começando a correr livremente.

— O que a gente faz agora? — perguntou um dos Scrupulum.

— Vamos arranjar algum lugar pra ficar e... ver se a gente acha o Medo Superior. — disse Hugo, que parecia acostumado com o lugar.

Todos concordaram com o homem, e dali a pouco tempo foram guiados pelos Medos até uma grande casa desocupada. Mesmo estranhando toda a vivacidade do lugar, os Scrupulum se acomodaram como puderam. O quarto onde Agatha ficou era formado de vários tons de cinza, e nele havia poucas janelas. A moça passou todo o restante do dia deitada, procurando absorver com calma tudo que tinha visto. Em meio aos pensamentos, alguém bateu na porta.

— Pode entrar. — disse Agatha, sem se mover.

O Medo de Hugo abriu a porta com cautela, e conferiu o espaço.

— Tudo bem aí? — perguntou.

— "Uhum". — disse Agatha.

— Heh, posso ficar um tempo aqui? Hugo está dormindo e não há nada de interessante lá fora.

— Você está na sua 'casa'. Deveria ser o lugar mais interessante de todos.

— Pelo contrário. Já conheço esse lugar, por isso não tem tanta graça.

— Me convenceu. — ela deu uma risadinha

Agatha encostou as costas na parede. O Medo se sentou na borda da cama, e acabou se deitando. Passou algum tempo olhando para o teto, devaneando. Depois, se virou para Agatha.

— Deve ser muito estranho pra vocês.

— Sim, é.

— Somos tão estranhos, né? Tão surpreendentes. Você ainda se lembra do que pensava de nós no início?

— Não condizia com nem metade do que eu sei agora.

— Hehe.

O Medo olhou novamente pra cima. Mudou de assunto rápido.

— Hugo tem uma mente estranha e confusa. Confesso que tive dificuldade de transformá-lo em Medroso completo.

— Por que me dizer isso?

— Aquele cara não serve para a intrepidez por natureza. — ele ignorou a pergunta. — Tem medo comum. Se ele me enfrentasse, talvez ele se tornasse Intrépido de verdade. Não eu fisicamente, quero dizer. Quando entrei na mente dele, vi um montinho de mim. Em uma das conversas que tive com ele, descobri o que era aquele montinho.

— E o que era?

— Restantes do maior medo dele. Não me transformei nele porque aquilo não era tão forte a ponto de guiar sua vida. Ele tem medo de conhecer a profundidade dos sentimentos. Mas adivinha só! Ele está caindo neles.

Agatha franziu as sobrancelhas.

— O que eu digo pra ele?

— Sei lá. — "ótimo conselho, Agatha", pensou a moça.

— Digo pra ele parar de ser idiota, imbecil, ansioso... Medroso?

— Qual é o problema dele mergulhar nos sentimentos?

— Senhorita, quem se ferra nessa história sou eu. Não quero ter que ouvir os devaneios dele, porque nunca entendo o que ele realmente quer dizer. Ele diz coisas confusas. Acha que é por que eu sou um Medo?

— É bem provável.

— Hum. Você poderia ajudá-lo, então.

— Não.

— Por quê?

— Só não quero.

— Vá lá, nunca te pedi nada.

—... Sou uma negação em ajudar pessoas.

— Você ajuda Ronald, por que não ajuda Hugo?

— São pessoas completamente diferen... espera aí, como você sabe de Ronald?

— Suas memórias foram fáceis de ler. — sorriu.

Agatha suspirou. Talvez ajudar Hugo não fosse tão complicado. Ela não tinha noção da gravidade do problema, mas achava que, se o próprio Medo dele havia requisitado sua ajuda, ela era capaz. Com isso em mente, ela sorriu amarelo, concordando com o que o Medo pedia. A criatura saiu do quarto alegre. Agatha se sentiu fazendo um bom favor. Talvez ajudar Hugo não fosse tão ruim assim.

...

Mas agora, estamos em um lugar diferente. É frio, como a antiga cela de Adler. Mas dessa vez, não é uma prisão. É um esconderijo. Um lugar silencioso, escuro, pequeno, sujo...

— Ah não. — sussurra uma voz. — Não... não... não não não não não não... por favor, me diga que é mentira. Diga que o que acabou de me dizer é mentira.

— Eu digo a verdade, e somente a verdade. — uma fraca luz emanava de dois olhos brancos na escuridão. Um sorriso branco surgiu, como uma lua minguante emerge na noite.

—... Eles estão...

— Sim! Sim! Não é maravilhoso?

— Não é! Desistam disso!

— Você não pode nos parar. Sabe por quê? Você nos alimenta! É nosso adorável mascote. Graças a você teremos o primeiro mestiço.

— Mestiço?

— Sim... Você vai ver... — o sorriso se alargou. — ...César.