Mundo medonho

18 Confusão.


...

Adler estava sentado no banco do carro, com os pés fora do veículo, assistindo a conversa de Loch com alguns pescadores. O Medo estava deitado no seu colo, e Devit, Otsugua e Ronald continuavam no dentro do carro, esperando. Poucos minutos de conversa foram necessários para convencer os homens. A intrepidez de cada um os impossibilitou de desconfiar das intenções inventadas por Loch, o que era bom para ele. O carro foi colocado em uma balsa e dali a pouco eles estavam indo em direção à tal Ilha Medonha.

Ronald fez algumas perguntas para Adler e seu Medo, já que nunca havia ouvido falar da Ilha Medonha. Adler explicou cada detalhe, descrevendo a ilha como uma "casa" para os Medos. Todos eles foram isolados lá há anos e, mais tarde, foi o marco zero para que voltassem ao mundo. A ilha tinha uma flora retorcida, escura e assustadora. Das raízes até as folhas e frutos, tudo era em preto e branco. Sua fauna era composta de muitos animais comuns e todos eles com uma aparência "corrompida": corpo tão escuro quanto a noite, olhos tão brancos como marfim. Um farol antigo era o único resquício de civilização humana que ainda restava. A ilha inteira era selvagem por si só, mas para seus amados Medos, ela era adorável e juvenil, como uma virgem que não foi tocada pela tal loucura intrépida.

Adler fez uma pausa na descrição e resolveu falar mais do farol, quando a luz dele passou pela balsa, em meio a névoa. Disse que era uma construção imponente e resistente. Até parecia que havia sido criado para resistir ao tempo e até mesmo ao medo. Era a intrepidez materializada.

— Alguns Medos dizem que aquilo tem alma. — enfatizou Adler. — A construção em si não é tão forte, mas por algum motivo se abala por nada nesse mundo.

Quando Ronald perguntou o que poderia ter dentro do farol que o fizesse ser tão 'poderoso', Adler desviou o olhar, e o Medo pareceu desconfortável.

— É algum segredo? — perguntou o rapaz.

— Não, é que... — começou o Medo. —... reza uma lenda entre os Medos, que lá foi onde descobriram como tirar os medos de todos. Dizem que um cientista louco pela intrepidez deixa aquele lugar ainda vivo, e que é ele que impede da ilha ser totalmente medonha. Você tem noção do que é uma raça inteira de Medos não ter a capacidade de expulsar um único intrépido de sua ilha?

— Legal! Ele deve ser incrível! — um largo sorriso se abriu no rosto de Ronald, mas ele se desfez. — Queria que Agatha pudesse saber disso agora.

— Agatha é a moça dos cabelos azuis? — perguntou Adler.

— Sim, sim. Ela não é do tipo que pergunta, então deve ser a que menos sabe até agora. Podemos dizer que eu sou o que informa a ela das coisas.

— Oh. Ela está com os Scrupulum agora, não é? — o Medo parecia estar por dentro da situação. — Se quiser, posso falar com um de meus irmãos para que envie uma mensagem pra ela.

— Isso não seria dar informação para o inimigo?

— Estamos quase chegando até eles. Acha que vai fazer alguma diferença saber sobre o farol agora?

— Como eu posso saber que você não vai dizer algo além disso?

— Mr. Ronald, você duvida de mim?

— Já saboreei o medo antes. Posso ser intrépido agora, mas tenho ciência de como funciona uma traição.

— Pois bem. Te juro por aquele farol. — ele apontou uma das garras para a luz vinda da construção. — Lhe juro pela intrepidez que há nele, pelo perigo que aquilo representa pra mim e pra todos os meus irmãos, que não direi uma palavra sobre o que estamos fazendo aqui.

Então o Medo estendeu a mão. Ronald continuou desconfiado, mas apertou a garra da criatura.

— Posso acreditar que é verdade?

— Eu digo a verdade, e somente a verdade. — o Medo sorriu.

Dito isso, a luz do farol passou por eles enquanto o vento soprava e a água balançava levemente o barco e o carro.

...

Loch e os outros desceram na praia de areia cinza, e se viram diante da ilha ameaçadora. Animais pequenos tentaram atacar o grupo logo de início, mas Otsugua espantou todos, e criou uma "barreira". Enquanto Loch observava a fauna e a flora e Devit organizava as novas informações, o Medo de Adler foi atrás de Ronald para mandar a mensagem.

Adler se sentou de frente para Ronald, e o Medo ficou entre os dois. A criatura colocou suas garras na testa de cada um e pediu para que fechassem os olhos. Ronald começou a sussurrar o que gostaria que fosse passado, e quando terminou, tudo se materializou em um papel negro com letras brancas, que flutuava dentro da dimensão escura do fechar dos olhos.

O Medo surgiu nela, segurou a carta e começou a flutuar, se movimentando por aquele pedaço do espaço. Ronald e Adler conseguiam ver o Medo em uma forma de energia passando com rapidez pelo chão, como uma descarga de eletricidade. Ia seguindo uma trilha de pensamentos deixados no chão (os Medos eram capazes de vê-los naquela forma, por algum motivo desconhecido) e encontrou a moça num instante. Invadiu a mente dela sem problemas, deixou a carta lá e sumiu.

Todos abriram os olhos.

— Satisfeito com isso? — perguntou o Medo.

— Heh, até que sim. — disse o rapaz.

— Medroso. — caçoou.

...

Depois de vinte anos, o Medo de Adler não se lembrava da localização exata da entrada do portal, nem mesmo das localizações alternativas. Essas últimas eram abertas só as vezes, para confundir Intrépidos que tentassem ir para lá um dia achar o portal e no outro voltar com mais pessoas. A entrada mudava todos os dias.

Graças ao pequeno número de membros, demoraram mais do que os Scrupulum para encontrar a entrada. Otsugua que encontrou o lugar, que era um grande buraco no chão. A mesma gosma negra estava nas paredes dele. Cada um desceu e passou pelos mesmos túneis que os Scrupulum. Adler comentava o tempo inteiro sobre pequenos detalhes como a quantidade de poeira, a lisura das paredes e a aspereza do chão. Perguntou duas vezes pra Loch como se construía coisas debaixo d'água, e apenas se aquietou quando o seu Medo começou a contar sobre sua "casa", que era a Sociedade Medonha. Ronald brincava com a espada, tratando-a como um cajado, uma pistola, um guarda-chuva ou uma barra de peso. Devit testava algumas coisas com Otsugua e Loch apenas guiava o grupo.

Ao verem o final do túnel, se alegraram. Adler e seu Medo quase atropelaram Loch, querendo ver a Sociedade. Uma pena que apenas eles podiam passar por ali sem nenhum problema com o outro lado. Loch, Devit e Ronald precisaram entrar com cautela. O outro lado começava num bosque, o que facilitou os planos dos intrépidos em se esconderem no mato. Enquanto Adler era guiado por outros Medrosos para dentro da Sociedade, os três o seguiram de longe. Adler já tinha passado por situações parecidas milhares de vezes quando era capitão. Alguns sequestros e saques que tinha guiado dependiam de alguém que se infiltrasse e agisse no lugar de dentro para fora.

Guiaram Adler até uma praça. Era um lugar grande, com uma fonte feita de mármore escuro no centro, a qual era rodeada de várias casas e pequenos comércios que obedeciam a monocromacia de forma espetacular. Nunca nenhum dos quatro havia visto tão bom uso de três cores. A singularidade de cada casa, comércio e até mesmo do design da grande cidade era incrível, de fazer qualquer artista que entende de cores chorar de felicidade.

Deram uma chave ao Medroso e o apontaram para uma pequena casa cinza que ficava do lado direito da fonte. A fachada era feita de uma porta de madeira negra e uma janela do mesmo material. Por dentro, a casa era toda mobiliada com móveis brancos e pretos.

Adler conseguiu infiltrar os três dentro da casa e finalmente todos puderam relaxar um pouco. Eles estavam rodeados de Medos que odiavam a Intrepidez. Qualquer passo em falso e eram mais três Medrosos pra enorme lista medonha. Mas isso apenas os animava. Tão perto de seu objetivo! Tão perto, mas tão longe!

Precisariam localizar os Scrupulum e impedi-los de alguma forma. Mas por enquanto, apenas descansariam e pensariam no que era melhor. Também precisavam pensar em si mesmos. Estavam tão perto do Superior, que a oportunidade de acabar com a guerra assassinando-o era grande. Seriam dois coelhos numa cajadada só, se eles tivessem sorte.

...

Mais tarde, quando já era início da noite, um alarido começou a se formar nas ruas medonhas. Um caminho havia sido aberto, e era determinado por uma cerca de aço, onde vários Medrosos esperavam ansiosos alguma coisa. Adler foi até lá e perguntou a uma pessoa qualquer qual era o motivo de tanta agitação.

— Vai ser um desfile, disseram! O Rei vai passar por aqui essa noite. — ele parecia alegre.

O Medroso voltou para a cerca, animado. Medos conversavam alto, e Medrosos compartilhavam agitação entre si. Adler estava confuso.

— Você sabia disso? — perguntou Adler para o seu Medo.

— Não. Se temos um rei, deve ter sido uma eleição feita faz pouco tempo.

— E não pode ser o Superior, porque eu nunca ouvi alguém chamá-lo de rei. O que diabos...

Trombetas interromperam a voz de Adler. Medrosos montados em cavalos 'corrompidos' abriam o desfile. Eles estavam vestidos com roupas de soldado.

Em seguida, vieram sete dançarinas. Todas eram Medos. Seis se dividiam em três e ficavam atrás de uma principal. Essas seis eram consideradas 'Medo de Fantasmas', uma subcategoria do "Medo do Sobrenatural", que fazia parte dos Medos Psicológicos. Altas, seus braços eram revestidos de algo que parecia mangas muito largas. Apenas suas três garras eram expostas. Cada dançarina se movia como uma serpente, graças suas caudas que se arrastavam pelo chão, ao invés de pernas.

A "líder" das dançarinas era um Medo Físico. Era um 'Medo de Aranhas', e você já deve imaginar sua aparência. Sua altura era de 1,60m, aproximadamente. Andava sobre duas pernas sem garras, e ostentava quatro braços em cada lado. Tinha quatro olhos pequenos que pareciam analisar tudo. A dança que fazia era complexa e era fácil se perder no meio do festival de movimentos que os oito braços faziam.

Depois das dançarinas vinha a banda. Composta de vinte Medrosos e Medos (apenas Físicos), ela tinha os mais variados instrumentos: Tinha de flauta doce até banjo. Uma música linda e medonha tocava e agradava a todos os Medrosos e Medos.

Após a banda, mais dois cavaleiros passaram e atrás deles, finalmente o rei. Adler não conseguiu acreditar no que viu. Teve que olhar mais de uma vez, tentar convencer a si mesmo, tentar perguntar pro seu Medo se não era um engano, ou algum tipo de...

— Medo? Não, aquilo não é um Medo, tenho certeza. Aquilo é um humano, Adler.

Quem perturbava Adler estava sentado em um trono branco, numa carruagem escura que era puxada por dois cavalos corrompidos, que ao invés de terem os olhos brancos e a pele escura, tinham os olhos escuros e a pele branca. A carruagem era rodeada de vários Medos catalogados como 'Medo de Altura', que faziam escolta. Eles tinham braços maiores que o corpo, e por isso andavam com eles ao invés de usar as pernas. Na barriga havia um buraco que os atravessava, o qual parecia simbolizar o 'frio na barriga' que alguém com medo de altura se sente ao estar numa situação alta.

O rei acenava para os Medos e os Medrosos. Sorria com escárnio, e falava com sarcasmo para alguns. Era um humano relativamente alto, com a pele totalmente cinza e cabelos negros pontudos. Usava uma roupa luxuosa branca e preta. Seus olhos eram totalmente brancos, e irradiavam uma fraca luz.

— Digam vivas para seu rei! — gritavam os Medos de Altura.

E todos os Medos e Medrosos saudavam o rei, gritando-lhe vivas, e saudações.

— Que o rei viva para sempre! — gritou um dos Medos, e todos repetiram.

Adler estava confuso. Nem seu Medo sabia daquilo. Só a Sociedade Medonha sabia da existência do rei? Os Medos que estavam nas terras intrépidas estavam tão desinformados assim?

...

Em uma das sacadas, alguns integrantes dos Scrupulum assistiam o desfile também. Todos estavam desnorteados, sem entender. Duas perguntas eram ditas por todos: "Desde quando temos um rei?" e "O que é o rei?". A natureza do rei era desconhecida pela maioria. "Era um "Medo de Humanos"? Era um "Humano Medonho", um humano corrompido?". Perguntas e mais perguntas surgiam a cada passo dado pelo desfile.

...

Perto do fim do desfile, eles estendem uma bandeira. Ela era cinza e tinha uma ampulheta negra no seu centro. Na parte de cima dela, estava um desenho simples de uma cidade. Embaixo, escorria uma areia escura, e dentro dela estava o rosto de um Medo. O significado dela, o rei fez questão de declarar:

— É um ciclo! — disse ele. — A ampulheta revela um ciclo. Um dia, os humanos caem sobre nós, nos colocam pra baixo e fingem que não existimos. Porém, haverá o dia em que nós seremos colocados pra cima, e nos derramaremos sobre a humanidade!

Os Medos gritaram de satisfação ao ouvir o curto discurso.

A Sociedade Medonha dava um passo à frente diante das duas organizações. Dona da maior parte da verdade, ri diante das outras que achavam que sabiam de tudo sobre os Medos. Na verdade, alguém ri. Sempre, alguém está rindo em algum lugar.

"Tudo como planejado. Tudo como planejado!" repete uma voz dentro da mente do rei. "Você é incrível, meu rei. Mesmo sendo um mascote." a voz parece mudar, como se a personalidade de quem fala também mudasse. "Diga a verdade, somente a verdade: Vocês são tão burros, não é? Acham que se escondendo em casas vão se esconder de nós? Apenas por que nos catalogaram e nos criaram, acha que nos entendem?"

E aquilo ri. Tudo tão bem, tão fácil, tão simples, que chegava a ser engraçado. Muito engraçado.