Mundo medonho
11 Gregório Edmundo.
Foram uma ou duas horas de viagem. Quando o trem parou, Adler carregou Ronald para fora da estação e então se deparou com outro problema: Aquela estação também tinha o sistema de segurança. Pensou uma ou duas vezes em sair correndo, mas percebeu que era melhor esperar Devit ali, do que apostar a sorte lá fora. Sentou-se num banquinho afastado e ficou esperando algum sinal de Otsugua.
...
Enquanto isso, Agatha, Detetive e Diana tentavam atravessar as fronteiras da cidade. Quando a explosão foi confirmada, as fronteiras foram fortemente fechadas para que não houvesse um alastramento dos Medos. Por esse motivo, vários policiais andavam pelos locais, prendendo qualquer um que fosse suspeito. E a definição de "suspeito" era: qualquer um que estivesse vadiando por aí.
Os três estavam escondidos por trás de uma mureta de concreto. A porta para fora da cidade estava bem próxima deles, mas protegida fortemente. Diana estava com o braço todo arranhado e sangrando, Detetive tinha alguns arranhões e cortes e Agatha estava do mesmo jeito que ele. A ideia de sair das fronteiras havia sido de Agatha, mas Detetive havia passado a viagem toda questionando a ideia da moça. Naquele momento, ele estava propondo uma aparição amigável aos policiais, porque seria mais fácil e melhor do que enfrentá-los de frente. A moça, irritada, mandou que ele provasse sua ideia, e assim ele o fez. Subitamente, Detetive se levantou puxando Diana consigo. Os policiais olharam e miraram neles, mas Detetive apenas levantou o braço dela, mostrando o estado caótico em que se encontrava. Ele puxou Agatha também, que subiu emburrada.
— Paz. — disse Diana, levantando a mão.
Os outros dois olharam pra ela com uma expressão de estranheza. Os policiais também. Por fim, eles levaram os três a um hospital próximo, sem fazer perguntas.
...
Levaram Diana para dentro de algum quarto, junto com várias outras pessoas que também tinham sido arranhadas por Medos, ou machucadas por Medrosos. Agatha e Detetive foram deixados no corredor, onde várias outras pessoas também esperavam seus amigos e parentes.
— Nem foi tão difícil. — disse Detetive, encostando na parede.
— Poderia ser perigoso. — Agatha também encostou na parede.
— Era menos suspeito.
— Já entendi isso. — bufou de raiva.
Demorou um pouco até que os dois conseguissem conversar de forma mais amigável e desenrolada. A conversa acabou chegando no boato de que Diana era de outro planeta.
— Faz algum tempo que ela diz que precisa viajar de volta pra casa. — disse Detetive. — Mas toda a vez que perguntamos onde ela mora, ela procura uma janela e aponta para o céu.
— Que bizarro. — comentou Agatha.
— Yeah. Talvez ela seja mesmo... — Detetive passou algum tempo quieto, até que foi agraciado com uma ideia. — Ei, do jeito que você é quieta, talvez consiga arrancar dela a informação, de mansinho.
— Eu tenho cara de que consigo arrancar informações?
— Nope. Mas quem sabe, né.
Depois de uma pequena discussão, Agatha decide ir no quarto da garota, apenas pra se decidir se acreditaria no boato de Detetive. Ela se dirigiu pelos corredores do pequeno hospital até chegar no quarto onde tinham mandado Diana. Estava vazio, o que impressionou Agatha, já que a quantidade de pessoas esperando por informações dos seus parentes e amigos lá fora era grande, o que dava a entender que havia muita gente ferida.
— Você está bem? — a voz doce de Diana entrou nos ouvidos de Agatha de repente.
— Ah sim, estou.
Aproximando-se cautelosamente, Agatha se sentou numa cadeira que havia do lado da maca onde Diana estava. Mesmo machucada, Diana não deixava de transparecer a mesma tranquilidade que havia demonstrado todo o percurso até ali. Os olhos violeta sempre pareciam sorrir.
— Você é tão tranquila. — elogiou Agatha.
— Sim. Todo mundo diz isso. É que aqui é muito bonito. A beleza das coisas me deixa tranquila... — ela começou a olhar para a janela.
—Aqui?
—É. Detetive já deve ter te contado que acham que eu sou de outro planeta.
— Que? Mas ele disse nada sobre isso. — Agatha mentiu de um jeito tão natural que até ela acreditou na própria mentira.
— Oh. — aquilo pegou Diana de surpresa. Ela desviou o olhar para o chão. — Então...
— Isso é verdade?
—... Sim. — ela sorriu, e voltou a olhar para a janela. — Vim do Planeta 34. — sussurra.
— Isso... não existe... — Agatha disse com a intenção de passar despercebida.
— Como tem tanta certeza? O universo é bem grande. — mas Diana ouviu.
— Agatha, você é demais! — Detetive entrou na sala, alegre. — Seu amigo do departamento de informação deve ter te dado muitas aulas, hein?
—Você mentiu... — Diana por um segundo pareceu desapontada, mas deu uma risadinha quando percebeu a habilidade de Agatha em mentir. — Boa, boa... — e ela lembrou de um amigo que sabia mentir muito bem. E começou a rir, numa mistura de saudade e nostalgia.
—...Ela está bêbada. — disse Agatha, ao perceber.
— Com certeza. Ou a comida dela estava estragada. — complementou Detetive.
— Comida de hospital é ruim mesmo.
— Eu sei. Nenhuma tem gosto decente.
Algum tempo se passou e eles ficaram ali. Os médicos deram alta para Diana e os três saíram do hospital. Sem saber pra onde ir e com todas as linhas telefônicas congestionadas, eles acabaram indo para uma cafeteria próxima, uma das únicas aberta e intacta. Quando chegaram, ficaram sentados em uma mesa de fora, fazendo belíssimos nadas porque estavam sem dinheiro.
Hugo, que tinha conseguido escapar do seu apartamento há pouco tempo, estava tomando um café na mesa do lado. Ele havia colocado sua capa numa bolsa, e estava procurando pessoas para fazer a missão de ir até o Medo Superior. Seu Medo estava dormindo, porém, agora na sua mente. O homem estava se levantando para ir embora quando percebeu a presença dos outros ali. Ele se aproximou com receio da mesa deles.
— Seu rosto me é familiar... — ele olhava para Detetive. — Gregório Edmundo?
—... Hugo?! — o rapaz se levantou de repente.
— E aí, rapaz! — os dois se cumprimentaram com um aperto de mão
— Lembra da Diana? — ele apontou para a moça.
— Diana? — Hugo virou os olhos para Diana, não se lembrando muito do nome. Mas ao ver os olhos violeta, uma onda de memórias o atropelou, fazendo-o parar de prestar atenção ao redor.
— Alô? Terra, chamando... — Diana disse, enquanto ria com a cara de besta que Hugo acabou fazendo, o acordando do transe de memórias.
—Ah, sim, claro, lembro... — ele respondeu a pergunta de Detetive.
— Alguém me explica o que tá acontecendo? — Agatha estava perdida no meio daquela conversa.
—Eita, nem lembrei de apresentar você. Desculpa, Agatha. — Detetive tomou um pequeno susto com a voz da moça. — Hugo, essa é Agatha, Chapéu Cinza dos Intrépidos. Agatha, esse é o Hugo, meu amigo desde o ensino médio.
—Olá, Hugo. — disse Agatha, tentando ser amigável.
—Olá, Agatha. — ele imitou o tom de voz dela.
— Anda fazendo o que, rapaz? — Detetive convidou Hugo para sentar junto com eles, e ele aceitou.
— Trabalhando com os Scrupulum.
Quando ouviram o nome da malta, os três ficaram tensos.
—Então você é um Medroso? — perguntou Diana.
— Sim. — ele bateu um pouco na própria cabeça, e mandou que seu Medo acordasse e saísse.
A criatura saiu sem pressa, e pulou na mesa, fazendo os Intrépidos recuarem seus braços do móvel.
— Tudo bem. Ele não vai atacar, eu juro. — Hugo puxou o Medo para perto de si, e o pôs no colo, como se fosse um gato. — No momento eu estou precisando de pessoal pra ir comigo tentar negociar a volta dos Medos ao seu estado original com o líder deles.
— Líder? — perguntou Agatha.
— O Medo Superior. Provavelmente o cara que deu o Grito.
— Mas e o pessoal dos Scrupulum?
— A maioria se espalhou por aí por causa dessa explosão ou não tem coragem pra me acompanhar. — suspirou. — Essa é a parte ruim de todos serem Medrosos.
Diana e Gregório deram uma risada com o trocadilho não intencional de Hugo. Agatha não entendeu, e por isso ficou quieta.
—Ei, se a gente quiser, a gente pode ir? — perguntou Detetive.
—Claro. Mas talvez tenha alguns problemas com o pessoal e...
—Por que a gente iria com ele? — Agatha franziu as sobrancelhas, enquanto olhava pra Detetive.
—Sei lá. Mudar um pouco de lado, maybe? — Detetive não tinha medo das consequências. Na verdade, nenhum Intrépido teria. — Por quê? Tem algo melhor pra fazer?
—... Não. — Agatha não sabia como reagruparia com os outros Intrépidos, já que a maioria dos que estavam na sua base se tornaram Medrosos. E não tinha dinheiro nem informações para ir procurá-los na base de outra cidade.
—Ótimo! — Diana sorriu, batendo uma palma. — Vamos falar com o seu pessoal? — ela olhou para Hugo.
— C-certo... — ele se sentia nervoso quando ela o encarava. E aquele sorriso, também...
Agatha insistiu em impor condições, caso eles fossem mesmo para aquela missão. Hugo as aceitou com facilidade, porque por dentro não acreditava que os Scrupulum iriam aceitá-los na missão. No momento em que os dois lados concordaram em trabalhar juntos, Hugo ligou pra Fernanda dizendo sobre a proposta. Ela discutiu com alguns outros integrantes da malta que estavam ali por perto e, por algum motivo, eles concordaram. Fernanda pediu a localização de Hugo, e quando ele a deu, ela mandou um carro buscá-lo. Horas depois um carro escuro e simples parou em frente à cafeteria. Durante a viagem, Hugo fez algumas explicações sobre a missão:
— Precisamos viajar daqui até a a ilha onde os Medos foram originalmente levados para pesquisa. — ele mostrou um mapa do litoral, e apontou para uma ilha não muito distante. — Então lá vamos ter que descobrir a entrada para o esconderijo do Superior. Por enquanto, vamos focar em apenas saber como chegar lá, e não em como o Superior pode ser.
— Mas se a gente não conhece ele direito, como é que vamos tentar negociar algo? Ele pode ser um enganador nato, como todos os Medos. — argumentou Agatha.
— Temos os Medos do nosso lado. Os Scrupulum têm voz lá.
— Aliás, por que sua líder não vai na missão? — perguntou Detetive. — Pelo que eu percebi, você está sozinho nessa.
— Bom... — Hugo coçou a nuca. — Vai soar bem bizarro, mas ela precisa impedir os Muglins de escravizarem a raça humana.
—Muglins?
—São extraterrestres. — disseram Hugo e Diana ao mesmo tempo, sem querer. Diana deu uma risadinha com a coincidência. Hugo também, mas parecia triste por ela.
—Enfim. — desistiu do desânimo e continuou. — Os Medos se comunicam com o Medo Superior. A maior parte dessa comunicação fica só entre eles, mas o Medo de Fernanda acabou vazando algumas informações. Como o Medo Superior sabe de todos os temores dos seres humanos, ele também sabe o que os causa. E entre vários segredos terríveis e inocentes, há aquele que diz que nosso planeta não é o único com vida. Na verdade, há vários outros, só que eles estão bem longe. Eles estão sob a autoridade do Conselho Intergalático, que funciona como uma organização que deixa tudo em ordem. Como nós, da Terra, não nos submetemos às regras deles, temos uns pontos a menos com o pessoal de lá. A pior parte é que... uma das regras é nunca abusar da tecnologia para mudar a natureza do cérebro. E nós quebramos essa regra. — Hugo desviou os olhos para o seu Medo, que tinha voltado a dormir. — Isso foi o cúmulo da nossa rebeldia contra o Conselho. Por isso, eles estão mandando os Muglins, uma sociedade violenta por natureza, para nos parar. Fernanda, junto com outros integrantes dos Scrupulum, vão viajar até as naves deles para tentar negociar um tratado de paz.
—Eita. — disse Detetive, depois de toda a explicação. Ninguém precisou dizer mais nada.
O carro passou pela fronteira sem problemas (os Scrupulum eram amigos de alguns batalhões da polícia), e logo eles estavam indo para longe, em direção a uma cidade que ficava a vários quilômetros dali. A conversa parou por alguns instantes, mas Detetive e Hugo sempre começavam alguma, do nada. Este último pegou um caderno e começou a rabiscar nele qualquer coisa. Antes que ele guardasse, Agatha percebeu desenhado parte do rosto de Diana.
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