Mundo medonho
12 Além do que se vê.
No fim da tarde, Adler ainda esperava por Devit e Otsugua. A estação estava começando a ficar menos agitada e provavelmente a segurança iria diminuir. O tédio de passar uma tarde inteira sem fazer algo além de ficar sentado — não porque tinha medo de ser descoberto, mas porque não tinha dinheiro — calmamente foi se desfazendo quando viu a esperança de fugir bater à sua porta, a medida que tudo se acalmava. Ronald não havia acordado direito, e apenas abria os olhos, repetia umas frases sem sentido e voltava a dormir. Adler continuou esperando algum sinal, até que percebeu que um dos guardas estava se movendo de forma estranha. O guarda desligou o sistema de segurança, e se aproximou de Adler, lhe entregando um bilhete.
"Devit está na primeira casa azul que você ver fora daqui. Só posso ficar nesse guarda até daqui a dois minutos. Vá embora logo."
Não precisou ler duas vezes. Adler saiu da estação e procurou a casa azul.
— Otsugua é tão útil, cara. Eu queria ser conectado a uma alma que nem ele. — dizia Adler no meio do caminho, para o ar. — Com essa habilidade de possessão dele, eu teria saído daquela prisão sem problemas.
Logo encontrou a casa. Bateu a porta e uma voz vinda de dentro perguntou:
— Qual é a senha?
— Abre logo essa porta, Devit! — disse Adler.
— Senha correta.
A porta foi aberta por Devit e Adler entrou na casa. Era velha, mas bem conservada. Tinha apenas dois cômodos (a sala e o banheiro). Depois de observar a casa, Adler colocou Ronald em uma poltrona e se sentou em um sofá. Devit se sentou no sofá oposto. Eram os únicos móveis dali além do criado-mudo e o tapete.
— Onde está Loch? — foi a primeira pergunta de Adler.
— Enquanto eu fugia da polícia, eu recebi algumas informações por telefone. Ele me deu o endereço dessa casa, dizendo que era dos Intrépidos. Não precisaremos ir atrás dele, já que ele terminou o que estava fazendo no laboratório e daqui a pouco vai vir pra cá, analisar Ronald com uns instrumentos e talvez nos mande pra um hotel pertencente a alguém dos Intrépidos.
— Parece um bom plano. Mas eles vão realmente deixar alguém como eu entrar lá?
— Lembro que tinham dado você como morto pros Intrépidos. Escondemos sua ridícula situação de Medroso, então talvez eles te considerem um fantasma, ou um sobrevivente.
— Como assim "sua ridícula situação"?
— Sinceramente, que tipo de capitão é derrotado por uma criatura dessas?
— Eu não tenho uma alma que segura Medos pra mim, tá?
O silêncio predominou por alguns instantes, até que Adler lembrou de uma coisa.
— Tem um espelho aí? — perguntou ele.
— Pra que?
— Qual é a utilidade de um espelho? — pergunta retórica.
— Tá, mas você quer se ver pra que?
— Faz um bom tempo desde que eu entrei na prisão. Nas poucas vezes que consegui me ver, eu parecia uma gueixa de tão branco que estava. Sabe o que é parecer uma gueixa de tão branco e cinzento que você está em todos os sentidos?!
— Quer saber se voltou ao normal?
— Exato.
— Você tem sorte. — ele tirou o objeto do bolso do colete. — Eu tenho um espelho pequeno. Pega aí.
Devit jogou o espelho e Adler o segurou. Levou um pequeno choque e abriu um sorriso ao se ver. Seus cabelos vermelhos haviam voltado. Os olhos e a pele gradativamente quebravam o frio cinza e voltavam a suas cores originais: os olhos ruivos e a pele pêssego. Adler admirou sua aparência jovem, mesmo tendo quase trinta e cinco anos.
— É tão bom voltar ao normal. — ele jogou o espelho de volta.
— Também acho. — Devit se olhou por alguns segundos, arrumou o cabelo escuro e guardou o espelho.
— Aliás, o que andou fazendo desde que fui preso?
— Belíssimos nadas. Dentro da Unidade todos começaram a desconfiar de todos e ela se tornou secreta. Sem a presença de “pai”, eles me julgaram suspeito e me lançaram pra trabalhar num escritório dos Intrépidos e lá eu passei alguns anos sem fazer algo útil, igualmente como você.
— Tiveram coragem de fazer isso contigo?
— Sim, sim.
— Hã?! — uma voz interrompeu a conversa.
Ronald acordou de súbito. Ele não tinha ideia do que estava acontecendo.
— Oh, boa noite, Ronald. — disse Adler.
— Antes de qualquer coisa, se acalma. Vamos explicar tudo. — disse Devit antes de qualquer outra manifestação vinda de Ronald.
Depois de algumas horas tendo que explicar toda a situação ocorrida em detalhes, eles deram o ultimato:
— Loch vem aqui examinar você.
No exato momento em que a frase foi dita, alguém bateu na porta.
— Qual é a senha? — perguntou Devit.
— Abre logo essa porta, Devit! — era a voz de Loch.
— Senha correta! — Adler foi até a porta e a abriu.
Loch parecia mais descontraído do que na primeira vez que Ronald o vira. Mesmo assim, não deixava de parecer sério e imponente.
— Há quanto tempo, Ronald. — disse ele, acenando.
— Isso digo eu. — disse Ronald.
Devit se sentou no mesmo sofá que Adler, e Loch pediu para que Ronald deitasse no sofá vazio. Loch arrastou a poltrona até chegar perto do braço do sofá onde estava deitada a cabeça de Ronald. Depois disso, colocou luvas e começou a examiná-lo.
— Está na terceira fase. — disse Loch, depois de uma leve examinada com os olhos. — Nada muito mal. O Medo deve estar adormecido, para repor as energias que gastou enquanto dominava o garoto. Se eu fizer uma simples cirurgia agora eu posso retirá-lo com segurança e capturá-lo para pesquisa.
Loch pediu que Devit trouxesse uma caixa com algumas ferramentas cirúrgicas. Quando Loch as teve em mãos, pediu uma toalha para colocar embaixo da cabeça de Ronald, para caso algum sangramento ocorresse, não tivesse a necessidade de limpar o móvel. Ronald continuava parado, mas tinha receio do que iria acontecer. Cuidadosamente, Loch retirou um bisturi e fez um pequeno corte nas têmporas do rapaz, e delas começou a sair um líquido viscoso e escuro. Utilizando-se de uma pinça, puxou com cautela uma minúscula garra, e com ela, saiu um minúsculo corpo. Ao terminar de retirar o pequeno Medo, Loch "costurou" a pele de Ronald e terminou a operação.
— Já? — perguntou o rapaz, quando ouviu um "terminei" vindo de Loch.
— Já. — respondeu o homem, analisando o minúsculo Medo com os olhos. — Pensou que fosse demorar?
— Logicamente.
— Quando um Medo adormece, ele diminui consideravelmente de tamanho. Fica fácil tirá-lo por causa disso. — ele deu uma risadinha, como se aquilo fosse óbvio. — Às vezes esqueço que vocês sabem nada sobre os Medos.
— Nunca me dizem nada e as informações são escassas. Pedir para que eu saiba como funcionam os Medos é a mesma coisa que me pedir procurar um olho numa terra de cegos!
— Pergunte sobre o que quer saber. Acha que eu te colocaram como um interrogador pra quê?
— Como é que você queria que eu adivinhasse?!
— Enfim, agora você já sabe. — Loch se levantou, guardou a criaturinha em um saco plástico especial, arrumou as ferramentas e dobrou a toalha.
— Ah, Loch. — disse Devit, antes que esquecesse. — Há alguma forma de você arranjar um hotel em que a gente possa ficar? Três pessoas vivendo numa casa com um cômodo só é desconfortável.
— Providenciarei.
Quando Loch ia começar a sair, Adler o interrompeu.
— Não há solução pra mim, não é? — Adler estava deitado no sofá, com os pés no encosto.
— Ainda não. — Loch sorriu, como se debochasse da falta de esperança de Adler. — Não perca as esperanças, rapaz.
— Já se passaram vinte anos com essa desgraça de Medos e parece que nada muda.
— É preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê.
Loch saiu da casa antes que Adler pudesse retrucar. Um momento de silêncio se passou, e então Devit começou a arrumar algumas coisas que havia trazido para começar a esperar a "providência" de Loch. Ronald perguntava se havia se livrado totalmente do medo, e Devit fez questão de dizer-lhe a resposta. "Loch apenas cortou a raiz. A árvore continua lá. É preciso esperar que ela apodreça ou pensar em algo para utilizá-la, e ambos necessitam de paciência."
Passaram-se três horas, e então alguém bateu na porta. Desta vez, Devit nem Adler perguntaram qual era a senha, porque era provável que quem estivesse lá fora não soubesse. Ronald abriu a porta e se deparou com um motorista. Atrás dele, estava uma picape.
— O garoto com cabelo turquesa. Seu nome é Ronald, certo? — perguntou ele.
Ronald concordou com a cabeça, distraído com o veículo ao fundo.
— Isso é o que eu chamo de estilo! — declarou Adler, empurrando Ronald pro lado. — Loch ganhou o meu respeito agora!
— Você muda de opinião com tanta facilidade... — Devit se aproximou do motorista e sussurrou: — Esse de cabelo vermelho é assim mesmo. Talvez ele lhe encha de perguntas no caminho. É natural.
Adler parecia uma criança quando entraram todos no veículo. Tinha um "leve" fascínio por automóveis. Ele se acomodava, elogiando tudo. Durante a viagem, fez, no mínimo, umas cem perguntas para o motorista, que as respondeu pacientemente. A viagem não demorou muito, o que foi um alívio para o motorista, que na metade do caminho estava cansado de ser interrompido em seus pensamentos por perguntas de Adler.
Loch era ótimo com escolhas. Foi possível perceber com a qualidade que o hotel exalava por si só. Não era algo luxuoso, mas tão bom sendo simples que ganhava as "cinco estrelas" com facilidade. O veículo parou em frente ao amigável estabelecimento e os três desceram. A secretária já sabia qual era o caso deles e os guiou para seus respectivos quartos. Cada um tinha um papel de parede azul claro e o chão era cinza. Uma grande, branca e confortável cama estava no centro, na direita dela estava um criado mudo com um pequeno e elegante abajur, enquanto na esquerda estava uma porta para o banheiro. À direita do quarto tinha duas portas de vidro que davam para uma pequena varanda. Dela, era possível ter uma boa visão da cidade.
Ronald pulou na cama, e ficou girando de um lado para o outro, aproveitando o espaço que nunca tinha tido numa cama. Certo tempo depois ele parou de rolar e começou a encarar o teto. Passou todos os eventos ocorridos até ali na sua cabeça. Preocupação se formou em seu rosto.
— Onde Agatha se meteu?
Ele imaginou inúmeras coisas que poderiam estar acontecendo a sua amiga. Não se importava muito com o fato de que ela, Detetive (só sabia o nome porque Agatha havia dito uma vez) e a Medusa o tivessem abandonado.
A forma compreensiva e calma como Ronald lidou com aquele acontecimento faria muitas pessoas se indignarem. Ora, como alguém perdoa com tanta facilidade pessoas que o abandonaram quando ele as havia salvado?
O rapaz sabia que seria um estorvo para eles, sendo um Medroso. Não se entristeceu, sabendo que faria o mesmo se estivesse numa situação parecida. Quando percebeu que estava ficando ansioso acerca do que havia acontecido com cada um, riu de si mesmo.
— Não se esqueça, Ronald. — disse ele pra si mesmo, gesticulando. — Eles tem Agatha, e ela é implacável.
Dita essa conclusão, se levantou da cama e foi ao banheiro tomar uma ducha. Enquanto a água lavava sua alma e o shampoo o seu cabelo, o rapaz cantarolou qualquer coisa que o fizesse lembrar de casa. Cantarolou baixinho, apenas para si mesmo.
Fale com o autor