Mundo medonho
13 O "tratado de paz".
A cidade em que Hugo, Agatha e seu grupo estavam seria o seu ponto de partida. De lá, eles iriam diretamente em direção ao Medo Superior. Agatha era a única que ainda mantinha resistência contra Hugo, já que não o conhecia. Gregório nunca conseguiria desconfiar de Hugo, e Diana parecia se preocupar com nada.
Os Scrupulum mandavam aquela cidade, por isso não foi difícil encontrar uma pousada onde o grupo poderia ficar. Agatha, no momento, estava em seu quarto. Ele tinha paredes laranja claro, chão branco, uma cama simples e um criado-mudo. Uma varanda deixava o brando e frio ar noturno invadir o quarto. Deveria ser o início da madrugada.
— Nunca ando com minhas próprias pernas. É sempre alguém me puxando, e eu acabo seguindo por não ter opção. — reclamou a moça de si mesma, com as costas na parede e com os pés "flutuando" fora da cama. — Antes era Ronald, agora é Detetive. Não consigo fazer nada além de seguir os outros? Mas o que eu faria por mim mesma? Lutaria com quais armas? Diria quais argumentos? O pior é que nada me resta além de ser arrastada.
Quando suas esperanças de ser autônoma estavam caindo, junto com sua autoestima, fazendo com que, se importar com suas decisões se tornasse algo fútil, alguém bateu na porta.
— Agatha? — era a voz de Detetive.
— Sim?
— Posso entrar?
— Tá. — ela já começava a exercer sua falta de posicionamento.
Ele entrou. Agatha estranhou o pijama branco, mas ele explicou que tinha recebido do hotel.
— Well, você deve saber que eu não vim aqui apenas pra dizer que ganhei um pijama novo. — Detetive se sentou na ponta da cama. — Queria saber se quer continuar com isso.
— Isso o que?
— Essa "aliança" com os Scrupulum. Você sabe que confio em Hugo por motivos pessoais, e que Diana faz nada além de concordar. Mas eu só percebi agora a pouco que acabamos 'arrastando' você, e a deixamos sem escolha. Sei que é meio tarde para perguntar isso, mas você quer continuar nessa 'mission'?
—... Por que só agora? Não vale de nada se eu disser que desconfio de Hugo com todas as minhas forças.
— Agatha.
— O que é?!
— Diga a sua resposta.
— Não quero continuar essa desgraça de missão.
— Então o que pretende fazer se a liberarmos daqui?
— Apenas não sei, tá? Só não gosto de ficar aqui. Não gosto da tensão de estar cercada de Medos.
— Você não gosta daqui por causa dos Medos... Got it. — Detetive se virou para a porta. — Pode entrar. Era o que eu estava pensando.
O Medo de Hugo subiu na cama. Agatha instintivamente recuou, preparando-se para qualquer ataque.
— Vamos resolver isso. — disse o Medo. Sua voz adocicada dava-lhe um ar menos perigoso. — De forma pacífica, por favor.
Demorou algum tempo, mas quando Agatha se convenceu de que o Medo não atacaria, relaxou.
— Estou aqui com um único objetivo: trabalhar a favor dos Scrupulum e colaborar para o retorno definitivo dos Medos para as almas humanas como sentimentos, sem guerra. — começou o Medo. — Pra ser sincero, eu sei que não consegue confiar em mim por causa do seus traumas que ganhou graças aos meus milhares de irmãos e meu chefe. Mas não posso fazer nada para tentar provar minha inocência diante da humanidade além de não mexer com ela.
Agatha encarou a criatura. Os olhos dela exalavam a mais pura sinceridade, mas mesmo assim Agatha sentia uma falsidade sutil neles.
— Me dê um bom motivo para confiar em você.
— Gregório não se tornou um Medroso. Tive inúmeras chances de fazer isso enquanto ele vinha para cá.
— Você pode estar tentando me convencer para capturar dois coelhos numa cajadada só.
— Daria mais trabalho. Eu poderia muito bem fazer Gregório ter um Surto e controlá-lo para me levar até você e transformar-te em uma Medrosa também. Acha que minha preguiça deixa eu formar planos tão complexados?
— Sua aparência revela claramente que você tem a capacidade plena de formar planos mais elaborados. É um Medo Psicológico.
— Hugo nunca parou pra pensar nisso. — a criatura se sentou na cama. —Sim, posso ser um Medo catalogado como Psicológico, mais inteligente e racional do que os Físicos e mais fraco que os Psico-Físicos. Mas você realmente vai me rotular como enganador apenas por causa de um título? Isso é um pouco precipitado.
— Pura precaução.
— Pois bem. Como prova de que todos os Medos aliados aos Scrupulum serão inofensivos a vossa senhoria, iremos lhe armar.
Detetive estendeu um sabre ainda na bainha. Ele tinha um punho de ouro. O Medo segurou e estendeu a espada para Agatha, que estranhou um pouco o ato.
— Nós, Medos, não morremos por métodos comuns. Por mais "físicos" que pareçamos, já que fomos criados a partir de cérebros, temos uma estranha capacidade de regeneração corpórea, além de conseguirmos absorver projéteis. Por isso, balas de chumbo, prata ou qualquer outro material não nos danifica. Apenas esse metal especial pode nos cortar, e ele derreteria se estivesse em uma arma de fogo. — O Medo tirou o sabre da bainha. A lâmina fluorescente era em um tom forte de vermelho e se assemelhava aos sabres de luz de Guerra nas Estrelas. — Néon é a única substância que consegue nos causar danos.
— Mas néon não é um gás nobre?
— Sim, e meio raro. Porém, olhe pra mim. Eu sou seu medo "encarnado". Por que não poderia existir uma lâmina feita de néon?
—... Bom argumento.
Agatha segurou a espada com a mão direita. O sabre era leve como algodão, e a lâmina era muito, muito gelada. Ela arriscou uns golpes no ar, e acabou deixando-o cair.
— Eu... não sei mexer com armas. — disse ela, pegando a espada do chão. — Não vale de muita coisa.
— Hugo te ensina. — o Medo sorriu. — Ele é o mais habilidoso com essa arma, depois da líder.
— Sério?
— Sério. Temos um tratado de paz? — o Medo estendeu a garra.
Agatha, mesmo relutante, estendeu a mão e apertou a garra. Com o tratado selado e com os dois lados em paz, tudo parecia se tornar mais fácil. Hugo treinaria Agatha durante a viagem até o Medo Superior. Detetive se retirou do quarto de Agatha junto com o Medo, deixando-a só. Ela passou algum tempo admirando a espada brilhante, mas a guardou na bainha e, desligando a luz, dormiu.
...
O outro dia amanheceu agitado. Agatha acordou com a barulheira e logo recebeu ordens de arrumar as coisas para uma partida. Saindo do prédio, Agatha se deparou com um ônibus, onde algumas pessoas entravam. Para se situar, fez simples perguntas entre as pessoas que passavam, e descobriu que estavam de partida para o Medo Superior. A rapidez na decisão de ida foi devido ao sigilo e a velocidade da operação. Caso os Intrépidos fossem atrás deles, pelo menos contariam com o fator da distância.
Agatha entrou no ônibus e se sentou em um par de cadeiras vazias, as quais eram as primeiras de todas as outras, depois da cadeira do motorista. Enquanto nada de interessante acontecia, resolveu olhar um caderno que achara no banco. O caderno não tinha nome e vários rascunhos nas folhas eram seu conteúdo, o qual Agatha tentava entender. Alguém se sentou ao lado dela, mas esta não quis dar muita atenção.
— Esse caderno é meu. — disse Hugo, que apareceu do lado de Agatha de repente.
— Não sabia. — disse ela, depois de se recuperar do susto.
— Tudo bem... — ele fez uma pausa. — Teria algum problema se eu o quisesse de volta?
Agatha estendeu o caderno para o dono, ainda sem olhar para ele. Hugo pegou e sentou-se na cadeira ao lado, lugar onde ela achara o caderno.
— Por que vocês usam capas vermelhas e cinzentas? — o pensamento de Agatha acabou saindo pela boca.
— "A humanidade sem medos é psicótica." — citou ele. — "O medo traz o equilíbrio para a própria natureza. O mundo era um grande cinza. Agora, ele está totalmente branco, sem a cor escura dos medos. Os Medrosos são os únicos que veem o sangue derramado pela loucura intrépida e ousada. São os únicos com escrúpulos, e por isso, veem o mundo na cor escarlate cinzento."
— Ah... — ela entendeu o motivo da cor das capas. — Isso que você acabou de citar é...?
— O último parágrafo de um dos nossos manifestos. Todos os integrantes dos Scrupulum devem ter ele em mente, mesmo que apenas a última frase. Eu o tinha rascunhado nas últimas folhas do caderno pra não esquecer...
— Parecia letra de médico.
— Heh, ela fica assim quando eu escrevo com pressa.
Graças ao tédio, uma conversa nasceu de repente. Hugo gostava de dar ideias e escrevê-las, e Agatha era uma fábrica de possibilidades novas para muitas situações. Cada ideia interessante que surgia na conversa, els desenhava/escrevia no caderno, transformando as folhas em um conjunto de mapas de suas mentes. A paisagem da janela foi ignorada durante toda a viagem, mas a caneta e as folhas se sentiram mais amadas do que em qualquer outra vez. Cada linha preenchida com palavras, esquemas e desenhos parecia se animar, e exalava criatividade e uma sensação confortável. Forcas, jogos da velha, adedonhas, anagramas e alguns outros jogos com palavras também foram inseridos. Tamanha inteligência divertida e convertida nas linhas e letras diferenciava Agatha e Hugo de qualquer outra pessoa do ônibus. O tédio se revelava um grande caixote de surpresas, de onde poderia surgir muita coisa, até mesmo uma amizade.
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