Mundo das Sombras
2 Capítulo I

O desconhecido.
A espera pelo que nunca acontece.
Esses são dois fatores que produzem na espécie humana a emoção que conhecemos como medo. A mistura de ansiedade com a impaciência origina uma realidade regada de suspense e horror a qual eu, particularmente, conheço muito bem.
Meus olhos ardiam à medida que ia adentrando a casa. A noite seria fria, disso eu tinha certeza. O crepúsculo trazia consigo uma rajada de ventos, pelo menos naquele mês de inverno. Eu percorria cômodo por cômodo, procurando a pequena Beatrice que se escondia em algum buraco daquela enorme e velha mansão. Apesar de meu aniversário de dezoito anos acontecer dentro de alguns dias, não me importava em ceder o tempo para a distração que era brincar de pique esconde com minha irmã mais nova.
Não demorei muito para encontrá-la dentro do armário do quarto de hóspedes. Acomodei-a em meus braços, sorrindo. Beatrice é a mais nova da família, tem apenas cinco anos de idade. Seus olhos são coloridos em um tom esverdeado que fazem lembrar aos da minha mãe, e seu sorriso vem acompanhado de uma pureza única. Talvez fossem os motivos pelos quais tanto me apeguei a ela desde que veio ao mundo. Alguns anos após o falecimento do meu pai, minha mãe se casou com Adrian, meu padrasto. No início não foi fácil aceitar a nova configuração da família. Eu sentia falta de quando éramos só eu e meus pais, mas sabia que a saudade sempre seria minha maior inimiga.
— Meg, você é tão bonita — Beatrice resmungou enquanto tocava em algumas sardas que tenho espalhadas pelo nariz — quero ser assim quando crescer.
Eu gostava do tempo que passava com Beatrice na velha casa dos Brooke. Aquela mansão havia passado por todas as gerações da família do meu pai e, como sua única herdeira, caberia a mim assumir todo aquele terreno um dia. Eu gostava do cheiro de lavanda espalhado pelos cômodos, o rangido do piso de madeira e a estética dos móveis velhos, ainda da Era Vitoriana. Minha mãe e Adrian trabalham na administração da livraria da cidade que também pertence ao legado dos Brooke e, por isso, ficam boa parte do dia fora. Antes de Beatrice nascer eu passava as tardes sozinha na mansão, costumava me trancar na biblioteca do segundo andar e devorar as obras das antigas coleções de meu pai. Aquele era seu lugar favorito de todo o mundo. Eu me sentia próxima a ele quando folheava os livros empoeirados das estantes que circundam toda a sala.
Enquanto brincava com Bea, sentia borboletas no estômago imaginando como seria o último ano do colegial que estava prestes a começar. A instituição de ensino de Parvalle fica localizada no centro da cidade, há exatos vinte minutos da mansão dos Brooke — que fica isolada na parte florestada da cidade. Estudei lá boa parte da minha vida, excetos nos anos que se sucederam a morte do meu pai, quando preferi estudar em casa. Foi uma época difícil. Minha mãe e eu vivíamos reclusas da cidade, quando aparecíamos ao público era certo que lidaríamos não só com os olhares tortos, mas com todas as perguntas que nem nós conhecemos as respostas. Isso aconteceu até minha mãe conhecer Adrian. Ele nos ajudou a superar o luto e voltar a ter forças para viver a vida que tínhamos antes. Sou grata a ele por isso, mesmo deixando claro que jamais seria possível ocupar o espaço que meu pai teve e ainda tem em minha vida.
Senti a ansiedade me consumindo aos poucos. Não queria acreditar no clichê que o último ano do ensino médio transformaria a minha vida. Tantas coisas já haviam mudado bruscamente a minha vida até então que eu não sei se eu seria capaz de lidar com mais mudanças. Preciso de ar.
— Bea, o que acha de ficar lá em baixo com a Izabel enquanto vou ao mercado comprar nossa janta?
Beatrice fez uma careta inicial protestando pelo final da brincadeira, mas logo depois se animou e desceu as escadas correndo e cantarolando. Izabel é nossa governanta desde que Adrian se mudou para cá, ela cuida das tarefas cotidianas para manter a casa em ordem. No início, foi complicado encontrarmos alguém que concordasse em trabalhar na parte isolada de Parvelle, principalmente depois da morte de meu pai. Foram muitos os rumores na cidade que espantaram todas as possibilidades de recebermos funcionários novos. Todas, exceto uma. Izabel se mostrou imediatamente interessada no trabalho quando viu que minha mãe estava grávida da minha irmã.
Desci as escadas da mansão sentindo meu coração palpitar mais forte a cada degrau. Abri a porta de entrada e senti o vento gelado do anoitecer batendo em minhas bochechas, deixando-as instantaneamente num tom avermelhado. Respirei fundo. Ter pele sensível nesse clima é um castigo, pensei. Tirei a bicicleta da garagem e me coloquei a pedalar pela estrada de pedra em direção ao centro da cidade. O trajeto até lá estava tomado pela paisagem branca típica do inverno, daquelas que transformam qualquer cenário de filme num cartão postal. Eu gostava de viver naquela parte de Parvalle, apesar dos apesares. Era bonito, quieto e bastante isolado. Talvez isso fosse um problema.
Estava tão imersa em meus pensamentos e distraída com a estonteante paisagem que não percebi dois grandes olhos vermelhos cruzando o meu caminho na estrada. Faço um movimento rápido para desviar e a bicicleta derrapa entre as pedras, me jogando para longe. É, eu definitivamente deveria ter comprado um capacete. Estatelada no chão, me levanto aos poucos para averiguar os danos da queda com cuidado. Minha calça foi customizada com um rasgo que ia da coxa até o joelho, onde uma grande mancha escura crescia pela minha perna. Sangue. Puta merda.
Ouvi um rugido por perto e olhei ao redor, subitamente me lembrando da criatura que se colocou no meu caminho. Foi tudo muito rápido, não consegui identificar nada na cena além de uma sombra de estatura média, envergada e com dois olhos vermelhos. Era um lobo. Ou talvez um cervo. Um coelho gigante?
Levantei minha bicicleta do chão que por sorte não havia sido danificada pelo impacto e retomei meu caminho, atenta a todo e qualquer barulho ambiente. Pedalei o resto do tempo com a sensação de estar sendo observada, mas não parei em momento algum, nem mesmo quando o ferimento da minha perna começou a doer. Passo o resto da noite pensando naqueles dois olhos vermelhos, brilhantes como diamante rubi. O que aquela criatura estava fazendo perdida tão perto da cidade e da civilização? Aqueles olhos. Não conheço animal selvagem algum com aqueles olhos, tão intensos e expressivos. Tão humanos. Talvez esse mistério me acompanhe por um bom tempo.
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