O sol estava se pondo na cidade de Parvalle quando Nic Brooke saía às pressas de sua casa. Sua respiração ofegante e os músculos tensos já anunciavam que aquela seria a noite mais fria do ano e, possivelmente, de sua vida. Nic sentia calafrios na espinha enquanto ligava o motor do carro. Antes de dar a partida, olhou para a varanda principal e avistou Meg e Natalie brincando de soltar bolhas de sabão. Seu coração apertou e uma lágrima escorreu de seu rosto. Me desculpem por tudo, ele pensou.

Nic fez questão de estacionar seu carro a um quarteirão de distância de sua livraria e, antes de sair do veículo, passou uns bons minutos encarando os arredores para se certificar de que não havia sido seguido. Recolheu algumas anotações jogadas no banco de carona e correu em direção a porta, sem olhar para trás. Assim que entrou na loja, fechou as persianas e passou uma corrente com três cadeados na entrada, mesmo sabendo que aquilo não impediria a chegada do que estava para vir. Antes de se fechar em seu escritório, Nic recitou alguns dizeres em latim e desenhou com giz um símbolo antigo no piso de madeira.

Seu maior problema era o tempo. Ele não contava que viriam tão cedo e, por conta disso, sua despedida seria precoce e rápida. Sentou-se em sua escrivaninha e começou a escrever uma longa carta. As palavras fluíam de sua mente para a ponta da caneta com naturalidade, como se aquele movimento já tivesse sido ensaiado e repassado em sua cabeça seguidas vezes. Sua vista estava ficando turva com as lágrimas que foram brotando em seus olhos. Isso não é justo. Quando terminou de escrever, Nic colocou a carta num envelope e o selou com o carimbo do símbolo da família Brooke. Soube, naquele instante, que aquele símbolo não selaria apenas a correspondência, mas também o destino de quem a receberia. Outra lágrima escorreu em seu rosto. Nada disso é justo.

Rapidamente, Nic colocou a carta dentro de uma enorme caixa de papelão junto com algumas de suas anotações e um caderno. Deixou a caixa no canto da sala e imaginou que, no dia seguinte, quando toda a tempestade já tiver passado, Natalie a encontraria e a guardaria para seus propósitos. No topo, ele fez questão de colar um post-it.

No exato momento em que terminou de fechar por completo a caixa, um barulho alto irrompeu na pequena livraria de Parvalle. Nic soube de imediato que os cadeados foram quebrados e não havia para onde fugir. Ouviu-se passos pesados no corredor e uma estrondosa risada.

— Sabe que esse símbolo não vai me impedir, não é? — o homem abriu com um único chute a porta do escritório. Estava todo vestido de preto, com uma jaqueta de couro que cobria metade de seu corpo. Seu cabelo era comprido num tom castanho bem escuro e sua pele era tão pálida quanto a de um cadáver.

— É um símbolo de proteção da alma. Sei que não vai te impedir porque você não tem uma, mas a minha ainda está comigo. — Nic respondeu de forma ríspida. Apesar da firmeza de sua voz, seu corpo estava trêmulo e o medo o consumia. Seus estudos de anos não o prepararam para o momento em que ele ficaria frente à frente com uma criatura do Mundo das Sombras.

O homem pareceu irritado com as palavras de Nic, mas logo sua ira se dissipou e um sorriso medonho tomou conta de sua face.

— Você deve estar se fazendo muitas perguntas agora, Nic — ele andou alguns passos para frente e se sentou numa poltrona — Venha, sente-se aqui comigo.

— Por que está aqui? — Nic retrucou, ignorando o convite para se sentar junto ao homem.

— Porque me pediram para estar.

— Quem pediu?

— Você está sendo direto demais. Vamos, pergunte o meu nome. A minha idade. De onde eu vim. Sei que você sempre quis entrevistar alguém da minha espécie, consigo ler seus pensamentos.

Nic ficou alguns segundos encarando a criatura na sua frente. Sabia que não era um homem comum e que ele estava certo.

— Consegue mesmo ler meus pensamentos?

— Cada um de nós recebe um dom quando atinge a maioridade. Você sabe disso, Nic. Também recebeu um, mesmo não vivendo no mesmo mundo que nós.

— O que é você?

— Me chamo Oliver. Prazer.

— E o que veio fazer aqui?

Oliver deu uma longa respirada enquanto olhava para um ponto distante, como se procurasse as palavras certas para responder essa questão. Quando as encontrou, sua expressão ficou séria.

— Sabe, Nic, o Mundo das Sombras é um enorme segredo que mantemos desde os primórdios da existência humana. Quando os humanos surgiram, colocaram em risco toda a nossa realidade. A união das nossas espécies com a vida mortal ocasionou uma linhagem de mestiços que ameaça destruir nossa discrição e nos revelar...

— Eu sei que os Brooke são a linhagem mestiça mais famosa do país. Minha mãe pagou o preço pelo que revelou em vida, mas eu sempre mantive nossas histórias em segredo de todos. — Nic parecia cada vez mais irritado e eufórico — Por que está aqui?

— Vejo que não aprendeu com sua mãe. O simples fato de você ter se envolvido com uma humana já nos expõe. Sua esposa já começa a desconfiar das coisas e…

Os olhos de Oliver se arregalaram e ele perde a fala por um momento.

Nic havia esquecido sobre a habilidade de Oliver em ler mentes e deixa escapar um de seus pensamentos mais preciosos.

Meg…

— Você teve uma filha. Com um deles. Vocês são patéticos. — Oliver fala, pausadamente, tentando controlar sua raiva e indignação. Seus olhos, antes duas órbitas negras, agora se tornaram vermelhos. Seus dedos, aos poucos, alongaram e se tornaram de duas garras. Nic pode observar duas presas atrás de sua boca entreaberta.

A sala foi tomada foi sombras que surgiam e se aglomeravam ao redor de Nic, deixando-o cada vez mais desorientado. Sua vista foi ficando turva.

— Parem! O que vocês estão fazendo?! — ele gritava em direção às sombras.

Num movimento rápido, Oliver se deslocou para trás de Nic e segurou seus braços. Nic tentou relutar e escapar, mas estava fraco demais. As sombras tinham atordoado seus pensamentos e confundido seus movimentos. E, de repente, tudo ficou escuro.

...

Nic acordou, confuso, com o rosto encostado na lataria gelada de uma van. Estava amarrado no porta malas e paralisado. Seu corpo tremia com a junção do frio e das emoções que estava sentindo. Ouviu vozes de duas pessoas distantes e entendeu que Oliver era apenas um degrau até seu verdadeiro destino. Ele soube imediatamente que iria enfrentar a fúria da rainha do Mundo das Sombras. O som de passos foram se intensificando em sua direção e, de repente, um clarão.

Amo vocês, Meg e Natalie...

Me desculpem por tudo.

E seu grito ecoou noite adentro.