Mundo azul
11 Azul céu 10
Fazia uma semana, e Oliver estava em seu quarto ou na biblioteca.
Carlos avisou Sophia sobre isso, de que ele precisaria de espaço para assimilar o roubo do irmão dela.
Mas isso a corroía.
Apenas Amélia se aproximava dele, e o rapaz não ia tomar café ou jantar.
Sophia se sentia culpada, imaginava que ele estivesse decepcionado até tentou entregar a ele, mas Oliver sempre a dispensava.
Ela fugiu a todo custo do cão de guarda, mesmo sabendo que Carlos avisou que ele não a atacaria, pois já tinha seu cheiro marcado.
Ele baixava a guarda perto deles, e era manso, mas o medo dela a fez ficar bem longe.
As câmeras foram instaladas e Sophia se sentiu aliviada por não ser Felipe a instalar. Haviam outros funcionários que faziam o trabalho e a casa estava sob proteção.
Trabalhou o dia todo, fizeram uma limpeza nas janelas que estavam pegando poeira e sempre que via o novo inquilino desviada para outro corredor.
— Não precisa ter medo, Sophia. — Amália até falou em tom gentil, mas estava ficando agoniada em ver que algumas partes ainda estavam sujas — Ele não vai nos fazer mal.
— Olha só o tamanho dele! — Exclama — Me perdoe, eu tenho medo de cachorros. .
Amália suspira, mas não brigando com ela:
— Vá preparar o café da tarde, pode deixar que eu termine por aqui.
Sophia pede desculpas e se apressa em ir para a cozinha.
Quando acabavam as coisas ela ia visitar sua mãe, estava se recuperando muito bem e já exercitava os dedos com ajuda do médico.
Seu pai também estava feliz, pois já conheceu vários lugares apenas sendo o motorista.
Ele disse que Carlos o chamava para comer, o que só fez os olhos dele brilharem, seu pai amou ainda mais o emprego.
Seus pais tiveram de lhe dar péssimas notícias em relação ao irmão, a polícia também foi avisada então teriam mais cuidados quanto a isso e Sophia sempre deveria estar mostrando seu rosto, para caso de aparecer coberto, já desconfiarem.
Sophia tinha recebido um adiantamento, pelos dias que estava ali, mas como tudo já estava em ordem ela apenas o guardava em seu quarto.
No hospital, Carlos pagou tudo, o pai avisou que usaria o que ganhasse para reformar a casa deles, e não permitiu que ela gastasse o dela.
“Use para você filha, agora é sua vez de seguir seu sonho”
Sophia se lembra do que seu pai disse, mas ela própria não sabia o que queria, pois nunca pensou nisso.
Ela tinha um hobby, gostava de cantar e cantarolar. Mas quando o irmão ouviu, disse que ela nunca teria futuro, ela acabou desistindo.
Mas agora pensava que poderia ir atrás do seu hobby novamente.
Estava pensando em estudar também, assim poderia se tornar independente quando Carlos não precisasse mais dela.
Ela estava começando a se acostumar naquele local, e estava com receio.
Se seu irmão for pego antes, o que será deles depois?
Já viu que o Sr. Carlos não os faria mal, mas eles tinham um acordo e quando acabasse, não teria mais motivos para permanecer ali.
Não é?
A água fervendo lhe lembrou o que deveria fazer e a moça deu um aperto nas bochechas.
Pensou se desta vez Oliver a ouviria.
Seu coração já palpita só de pensar, mas ela aperta o peito com a mão, como se pudesse arrancar aquele sentimento.
Não queria admitir que se sentia atraída por sua beleza, e a forma delicada que tocou no rosto dela só reforçou mais ainda esse sentimento.
Mas eles não se conheciam o suficiente, então para ela se tornaria exatamente o que Amália disse: pareceria mais uma interesseira.
Ela termina o café, prepara um sanduíche em sua mente, isso não chega nem perto do que uma pessoa do porte da casa deveria comer, mas Oliver que desejou assim.
Sophia até pensou que ele gostava de coisas mais simples.
Montou a bandeja e seguiu para o corredor onde Amália estava.
Verificando que o quatro patas não estava lá, sorri para ela.
— Acabei, acredito que ele apenas aceitará se for a senhora.
Ela para de limpar a janela e suspira para Sophia.
— Sabe por que apenas eu permaneço por aqui? — Pergunta de repente e a menina apenas espera que responda — Pois mostrei a ele que não era qualquer coisa, provei de que estava para mostrar serviço e com isso estou até hoje — Ela não pega a bandeja, mas afaga os ombros de Sophia — Já está aqui por dias e eu vi: nenhum momento você atrapalhou Oliver, ou vestiu roupas impróprias para chamar sua atenção — Ela sorri gentilmente — Estou começando a gostar de você garota, então vá você mesma entregar o café para aquele garoto teimoso — Vira ela em direção a biblioteca — Ele está escrevendo, e se perde na concentração, não vai te ver entrar.
— Ma-mas, e se ele me expulsar?
— Ele não vai.
A certeza de que Amália disse, deu a Sophia confiança e andando calmamente ela segue para a biblioteca.
Não saberia como deveria agir quando ele a visse.
À medida que se aproximava o coração martelava incerto, mas permaneceu andando até chegar à porta.
Estava entreaberta e Sophia não o viu, então a abriu lentamente e o ranger da porta a entregaria.
Se ele estivesse acordado.
No centro da sala, caído no tapete felpudo, o garoto estava “morto”: papéis estavam espalhados ao seu redor, e no seu rosto.
O braço descansava por cima da cabeça e ela observava a bela tatuagem, a camiseta era preta de manga curta, e calça moletom.
A mesa na sua frente também tinha livros e um computador. A cadeira que deveria estar no seu lugar em pé, se encontrava caída de lado.
O cenário era engraçado: Oliver dormiu de tanto escrever e caiu da cadeira, no tapete macio e agora dormia como um bebê.
Sophia deu um sorriso largo, eternizando aquela cena em sua mente.
Apoiou a bandeja na mesa, e se aproximou sem fazer barulho se ajoelhando no chão.
Pegou algumas páginas espalhadas e viu as linhas escritas a mão.
Cada folha continha um número na página, como de um livro.
Oliver teria trabalhado em organizar tudo novamente, então Sophia pegou as que consegue organizar em ordem numérica.
A letra dele cursiva dele era linda, acreditando ser algo pessoal ela não ousou ler.
Levantou a cadeira e depositou as folhas na mesa, ainda restava a que estava em seu rosto.
Ela hesitou, não sabia se deveria pegar ou deixá-lo aí.
Mas a curiosidade fala mais alto e então se aproxima dele novamente e retira lentamente o papel do seu rosto.
Oliver dormia tranquilamente, a respiração calma. Se ela soubesse pintar adoraria marcar aquele momento, ele era mesmo uma pessoa muito bonita. Mesmo com vontade de tocar em seu rosto, ela sabia que seria falta de educação e com medo que ele acorde, Sophia apenas organiza os demais papéis na mesa e vai se retirar da biblioteca.
Mas bem na porta que estava aberta, o cão de guarda havia entrado e iria explorar o local.
A raça do animal era um pastor-alemão, a postura era de autoridade e poder.
A garota não sabia como respirar, o medo tomava conta, colocando a mão sob o peito tentava controlar o ritmo do coração.
O animal ao vê-la não mostrou raiva, pelo contrário apenas se aproximava com cautela e balançando a cauda.
Memórias de quando foi atacada surgem em sua mente, os cachorros mordendo seus braços, e costas, era como se a dor estivesse ali novamente e ela apenas deu passos para trás, sem rumo algum.
O animal começou a caminhar lentamente em sua direção.
Oliver estava ali deitado, como se nada estivesse acontecendo, vendo que ele poderia ser seu único porto seguro, a jovem sem exitar se aproxima a passos rápidos e se joga ao seu lado, a cabeça batendo no braço dele que estava estendido.
O rapaz acorda no susto sem entender, e se surpreende por ver Sophia deitada ao seu lado.
Mas ela parecia com pavor, os olhos fechados, a respiração rápida e encolhia as pernas.
— Sophia? — A chama calmo, mas sua voz parece não alcançá-la.
Ela coloca as mãos nos ouvidos, e ele vê que ela estava entrando em pânico.
Preocupado, Oliver usa seu braço onde ela apoiava a cabeça e a puxa para si, a respiração dela batendo acelerada em seu pescoço.
— Tudo bem Sophia, estou aqui — Dizia, mesmo não fazendo ideia do que a atormenta — Respira.
Parecia surgir um efeito, então Oliver se senta lentamente e a faz acompanhar.
Os olhos dela ainda estavam fechados e ela sussurra:
— Os cachorros… E-eles estão…
Então ele vê, à sua frente o pastor-alemão sentado, olhando com curiosidade a cena.
— Não vai se machucar Sophia — Ele põe as suas mãos sobre a dela, que ainda segurava a cabeça — Respire, conte comigo…. — Colocando a sua testa na dela, conseguiu finalmente ter sua atenção e juntos conseguiram fazê-la contar até quatro — Me diga o que vê, olhe ao seu redor.
Os olhos dela se abriram, e foi recebida pelo azul dele, as testas ainda unidas, ela sentia sua pele macia.
O azul dos olhos dele, estavam calmos, belos como o céu de manhã, um rio parado, cristalino.
— Azul — Disse ela apenas.
— O que mais?
Os fios de cabelo dele se misturaram ao dela, e a moça voltando a si, compreende que a situação é bem complicada: sua visão baixou aos lábios dele, as respirações conjuntas, a proximidade…
Era só ela mexer um centímetro que se beijariam, mas conseguindo respirar normalmente, Sophia afasta cabeça lentamente e Oliver vai para trás.
— Está melhor? — Pergunta ele.
— Si-sim — Ela se mantinha de costas ao cachorro, ciente que ele estava ali. — Eu, tenho medo de cachorros, pois fui atacada quando criança.
— Sinto muito — Ele olha para trás dela e percebe o cachorro — Fique aqui — Sophia obedece e então Oliver se levanta e guia o animal até a porta da biblioteca, o acaricia e depois fecha a porta — Está tudo bem.
Ela encolhe os ombros, era a segunda vez que ele a ajudava e se sente culpada.
— Me perdoe, Oliver — Diz ela — Por tudo isso.
— Não tem que pedir desculpas — Ele diz e se aproxima da mesa, vendo o café — Eu quem devo lhe pedir, afinal a ignorei a semana toda. — Sorrindo ele senta na mesa — Venha, vamos tomar café.
— Tem certeza?
— Claro, desejo conhecer você melhor.
Hesitante, ela se sente na cadeira à sua frente, e Oliver lhe estende a xícara, só trouxera uma, justamente para ele.
Mas se ela tomasse seria um beijo indireto? Corando com o pensamento ela recusa a xícara e pega um pedaço de pão.
Ele sorri e serve para si o café.
— Meu pai me contou as coisas, mas gostaria de saber por você mesma. — Ele toma um gole do café — Me fale sobre você.
Ela lhe conta tudo: sobre a família, como parou ali e do irmão. Oliver ouvia tudo atentamente sem atrapalhar.
— Não se culpe pelas atitudes do seu irmão — Ele diz quando ela acaba — Vamos te ajudar com sua família, a jóia era da minha mãe, mas é um bem material, não algo que a faça voltar — Ele olha para a mesa — Mesmo que seu irmão nunca volte, não se culpe por isso.
— Ele é orgulhoso, irá voltar e esfregar na minha cara que está rico — Disse ela — Virou rotina para ele magoar as pessoas.
— Então vamos esperar a hora certa para prendê-lo — Ele respira forte — Só preciso que meus irmãos não saibam disso, ou vai se tornar um tremendo circo.
— Seus irmãos?
— Sidney e Cristofer, meus irmãos mais velhos, vivem aparecendo em manchetes e um roubo seria comentado por muito tempo — Cruza os braços — Sempre me mantenho neutro, ou aqui já estariam vários jornalistas.
A moça havia esquecido esse lado, os Crawford eram bem famosos, mas ela não acompanha sites de fofoca e não sabe tanto.
— Não temos tanto contado, desde a morte da minha mãe.
— Sinto muito.
— Não se preocupe, já eram babacas antes.
Ele ri e Sophia o acompanha.
Amália estava na porta, vendo a cena e se emocionou, ela acariciava a cabeça do cachorro. Logo chamou o animal e ele a acompanha pelo corredor.
Oliver tocou em Sophia sem mostrar incômodo, e ainda estava falando sobre si mesmo e ali vendo os dois sorrirem, ela pensou que o garoto poderia ser feliz outra vez.
Discando o contato de Carlos no telefone ela diz empolgada quando ele atende:
— Ela é boa senhor, está fazendo bem a ele.
— Fico muito feliz com a notícia! — Responde ele empolgado do outro lado.
Estava numa reunião, mas atendeu sem pestanejar o telefonema.
— O que foi meu pai? — Cristofer pergunta, sentado ao seu lado na cadeira elegante.
— Nada não — Responde ainda sorrindo e desliga o telefone — Só seu irmão.
— E desde quando ele dá uma boa notícia ? — Retruca ele — Só sabe ficar o dia todo escrevendo naquele quarto e não vem trabalhar.
— Ele está trabalhando e respeita seu irmão.
O outro bufa, e manda continuarem a reunião.
Carlos nem presta mais atenção, pois estava mais que contente em saber que Oliver estava mais comunicativo.
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