Mundo Sobrenatural
7 Uma feira de terror.
Notas iniciais
Aproveitem o cap!!
Comecei a acordar lentamente, minha cabeça doía um pouco e parecia que tudo girava a minha volta. Não sei se era efeito da luz forte que tinha acima de mim ou se era a dor que tinha em minha cabeça. Talvez tenha demorado minutos, segundos ou até mesmo horas até conseguir recuperar completamente o foco de visão, mas ao invés de ver o teto de meu quarto eu me encontrei com um teto completamente diferente, ao invés de ser de madeira marrom quase negra era branca com algumas rachaduras com uma lâmpada econômica de luz branca e forte que estava bem encima de minha cabeça.
Movi-me entre as cobertas que estavam sobre meu corpo e logo senti um forte dor tomou conta de meu braço esquerdo me fazendo voltar a ficar parada esperando que a dor parasse lentamente. Minha dor era tal que acabei prendendo a respiração, arfando de vez em quando para tentar respirar. Senti uma mão passando em minha testa e quando voltei a abrir os olhos vi o sorriso de Kley que tinha uma mão em minha testa.
— Vejo que despertou pequena. – disse ele sorrindo um tanto aliviado para mim, ao lado dele estava minha mãe, sorrindo aliviada e alegre enquanto seus olhos estavam marejados. Não compreendia, não entendia nada do que estava acontecendo. Silver também estava lá, com os olhos brilhando para mim, não sei se era por causa das lágrimas ou se era por causa da emoção. Todos os fantasmas também estavam ali preocupados, aliviados, alegres... – Tudo bem Maria?
— Apenas um pouco dolorida. – comentei levando a mão até a cabeça que ainda doía um pouco, mas então olhei para meu braço esquerdo percebendo que ele estava enfaixado desde os dedos até o cotovelo. Não entendi porque estava usando aquilo, até tentar move-lo e perceber que a dor era incrivelmente insuportável. Supus então que o teria quebrado em pelo menos dois lugares. – Mas o que aconteceu?
— Nós é que devíamos perguntar isso. – falou Silver se aproximando de mim e segurando minha mão boa. Seus olhos dourados brilhavam preocupados e culposos, talvez pelo fato de não estar no momento que tudo aconteceu. Foi então que me recordei de tudo, de quando cai da escada, de quando sai rolando toda sua extensão sentindo as dores em meu corpo até chegar ao final da mesma. E me lembrei daquele homem, que era o causador de tudo. – Caiu da escada tão de repente. O que aconteceu para cair daquela maneira? Você não era desastrada dessa maneira.
— Eu apenas escorreguei Silver. – menti tentando sorrir para ele, mas digamos que não sou muito boa em contar lorotas e me surpreenderia se Silver não desconfiasse de alguma coisa. Foi então que senti uma mirada sobre mim e ao virar meu rosto para o lado vi aqueles olhos vermelhos me encarando furiosamente, me acusando por ter mentido. – Não precisam se preocupar tanto. Mas agora eu queria descansar um pouco, estou ainda meio tonta.
Todos assentiram e logo saíram do quarto, apenas Shadow ficou, olhando para a porta por onde todos passaram. Eu virei meu olhar para a parte da frente, para aquela parede branca com algumas rachaduras que devia ter por todo o hospital. O cômodo ficou em silencio por alguns instantes, tudo o que ouvia era os batimentos de meu coração...
— Você mentiu. – finalmente Shadow se pronunciara e acho que havia me esquecido do tom profundo e cortante de sua voz, porque quando a ouvi nesse instante senti todo meu corpo se estremecer e meu interior se encolher, apertando fortemente. Seus olhos vermelhos pousaram em mim e por um momento me senti em um interrogatório sendo pressionada a sentir culpa e remorso por um crime fatal. – Você não escorregou, foi empurrada. Por aquele fantasma.
— Mas aquele fantasma não foi visto por ninguém. Nem mesmo por Silver ou pelos outros fantasmas que tinha na casa. – rebati voltando meu olhar para o seu, tentando esquecer a culpa e agora me concentrando em tirar as informações que queria dele.- Apenas eu e você o vimos, agora eu me pergunto o por que. – ele ficou calado, mas já era tempo dele contar o que tinha acontecido. – Você o conhece, tenho certeza disso. Quem é ele Shadow? O que ele quer?
— Não sei do que esta falando. – disse ele desviando o olhar do meu, sem perceber já tinha se acusado, já tinha denunciado a si mesmo mostrando que o que eu falava era verdade. Mas queria ter respostas, queria saber o que estava acontecendo na casa que agora teria que chamar de lar.
— Agora é você que esta mentindo. Eu vi a morte de Blaze, Shadow. Eu sei que foi aquele homem que a matou. – comentei me lembrando de, acho eu, ontem de manhã, quando tive a visão de Blaze sendo jogada escada abaixo. Shadow ainda não me encarou. – Eu quero saber Shadow. O que aconteceu com vocês? Foi aquele homem que matou a todos vocês? Foi ele?
— Não é da sua conta. – respondeu ele cortante, voltando o olhar para mim. E naquele instante as palavras ficaram presas em minha garganta, não sei o que vi nos olhos dele, mas seja o que for todo meu corpo pareceu travar, não sei se de medo ou surpresa. – Agradeço por ter dado liberdade para todos, mas esse problema não é seu e que continue não sendo. Apenas fique longe daquele homem, o evite o máximo que conseguir. Se não o fizer eu faço seus pais se mudarem de novo, ai poderei resolver tudo isso sozinho como venho tentando fazer a 127 anos.
Meu sangue gelou e meus olhos se prenderam aos dele. Não tive mais argumentos, apesar de saber que evitar aquele homem seria impossível. Mas outra coisa que sabia era que Shadow não tinha nenhuma capacidade contra ele, não poderia derrotá-lo seja lá o porque. Seja lá o que for que aconteceu com cada fantasma que agora me assombrava aquele cara estava envolvido e eu queria saber o que estava acontecendo para ajudar. Ia abrir a boca para falar quando de repente a porta se abriu e por ela entrou Kaira, completamente desesperada.
— Maria! – ela me abraçou com força, de uma maneira que até estranhei de não ter feito meu braço doer novamente. Claro que não deixei Shadow escapar, agora que sabia que ele estava tentando enfrentar aquele homem não poderia perdê-lo de vista. Falei bem baixo a palavra em japonês que Kaira tinha me ensinado e logo uma corrente azulada brilhante se ligou do meu pulso ao peito de Shadow. – Fiquei tão preocupada com você quando fiquei sabendo que isso tinha acontecido que obriguei meu irmão a me trazer aqui para te ver.
— Não sabia que tinha um irmão. – comentei logo que ela se afastou de mim e me mirou. Um sorriso brincalhão apareceu em seu rosto e logo ela mexeu a mão como se assim dissesse que isso não tinha importância.
— Ele esta no ultimo ano, e digamos, não somos nada parecidos! – respondeu ela dando de ombros e logo se deixando cair em uma, logo seu rosto se iluminou e parecia que uma grande idéia passou por sua cabeça. Juro que me assustei com o sorriso que ela deu. – Quase me esqueci. Amanhã a noite uma pequena feira vai se reunir no centro da cidade e vai ter um bocado de brinquedos legais de parque de diversões. Estava pensando de irmos juntas amanhã a noite. Quando vão te liberar.
— Não sei. Pergunte para o Silver, se o conheço bem ele deve ter feito todo o tipo de perguntas para o medico. – respondi e ambas rimos divertidas. Logo o clima começou a ficar mais calmo, os fantasmas iam aparecendo pouco a pouco, e logo todo grupo estava reunido dentro do pequeno quarto de hospital.
Eram conversas e mais conversas de todos os tipos e parecia que meu braço quebrado não era mais algo tão surpreendente. Chegou até o momento que todos assinaram, até Mephiles obrigou a Shadow assinar também, apesar dele estar de cada emburrada. Não sei o que aconteceu quando ele se aproximou de mim para assinar meu rosto ficou completamente vermelho e senti meu coração quase sair do peito. Não sei o que acontecia comigo, mas era outras coisas que queria descobrir.
Mais ou menos no final da noite eles me liberaram e pude voltar para casa com minha família. Kaira nos acompanhou até lá e depois voltou para casa, ainda me lembrando que amanhã sairíamos para participar da feira que teria no centro da cidade. Dormi um pouco incomoda a noite por causa do meu braço machucado mas não deixei nem um instante a ligação com Shadow, não sabia o que ele poderia fazer enquanto estivesse dormindo.
O outro dia foi tão normal quanto o primeiro e para mim passou mais rápido do que eu pensava. Estava muito concentrada em pensar no que estava acontecendo com os fantasmas, principalmente Shadow. Os outros agiam normalmente, mas era estranho não verem outro fantasma, então tinha algo de errado com eles, mas Shadow podia vê-lo, o conhecia e ainda por cima queria enfrentá-lo. Por esse motivo não tinha desfeito em nenhum momento a “prisão” que tinha feito. Bem que tive algumas pistas tipo, na aula de historia por exemplo.
— Na historia de nossa cidade percebemos que antes da guerra todas as casas eram limitadas a um certo espaço, sendo que os arredores eram rodeados por altas grades que isolavam tudo do mundo exterior. – comentou o professor enquanto fazia o desenho, ou pelo menos tentou fazer, da cidade. Mas o que chamou minha atenção foi a reação de Shadow. Ele pareceu ficar assustado. – Nossa floresta era bem maior e o rio que a cortava era bem mais volumosos e era o que abastecia nossa cidade, apesar de em dias chuvosos ser bastante perigosos e causar varias mortes.
Acho que ele só não saiu da sala com desespero porque estava preso a mim, fora isso parecia estar completamente apavorado. Depois de um tempo se acalmou, mas ainda parecia alerta a tudo que acontecia a sua volta. Cheguei em casa nesse mesmo dia cansada, mas sabia que Kaira não me deixaria desculpas para não ir a feira. Por isso desfiz a conexão que tinha com Shadow, pedindo para Mephiles ficar de olho nele e logo fui tomar um banho, tomando cuidado para não molhar o gesso.
Logo que terminei vesti um vestido negro de algodão que chegava até metade das minhas cochas e por cima um casaco de couro negro que ia até o joelho com botões na rente. Em meus pés coloquei um sapato boneca negro. Nada de muito especial. Sai do banheiro e caminhei até meu quarto e me encontrei com Silver já ali, preparado para ir também a pequena feira.
— Kaira ligou e disse para nos encontrarmos com ela lá. – disse Silve colocando as mãos no bolso do casaco branco e sorrindo de leve. – Mamãe esta quase nos empurrando para fora de casa então é melhor irmos.
Sorri para ele e caminhamos junto aos fantasmas até a porta da frente. Todos os fantasmas que no seguiam estavam empolgados, mas nem precisava dizer que um deles continuava da mesma maneira mal humorada que estava desde o inicio do dia de ontem. O centro da cidade não era muito longe, deveria se dizer, e não era muito difícil chegar lá pelas varias luzes que tinha iluminando o lugar. Eram luzes de todas as cores que iluminavam as tendas e os brinquedos. Parecia que toda a cidade tinha se reunido ali para os raros momentos de diversão.
Risos e gargalhadas eram ouvidos por todos os lados enquanto as pessoas iam de um lado para o outro para ir nos brinquedos ou comprar algo para começar ou levar de recordação. Praticamente a rua principal do centro tinha sido fechada para que as barracas e brinquedos fossem colocados, apresentações eram feitas nas ruas fazendo as criancinhas rirem ou até mesmo os adultos. Os fantasmas a minha volta estavam fascinados com tanta cor e beleza, com tanta alegria e diversão, até mesmo shadow deixou seu mal humor por um tempo para poder admirar com mais atenção as coisas que tinham envolta.
De repente senti meu corpo envolvido por dois braços fortes e não me surpreendi nem um pouco ao ver Kaira logo ao meu lado. O passeio então começou, Kaira primeiro quis comprar um algodão doce porque fazia muito tempo que ela não comia um. Logo depois fomos até o carrinho bate-bate, um brinquedo que há muito tempo não ia deveria dizer, já que desde que meu pai havia se convertido naquele monstro nunca mais encontrei motivos para ir em lugares alegres, até esse momento. Ri como nunca na vida pensei que voltaria a rir, até mesmo Silver ria enquanto brincávamos um com o outro naquele brinquedo tão memorável. Logo depois fomos para a uma das apresentações de circo onde eles acabaram puxando a Silver para o centro do lugar e fizeram ele “desaparecer” tive que segurar a boca do meu irmão para que ele não contasse o segredo do truque de mágica e logo continuamos.
— Naquele agora! – exclamou Kaira apontando para a roda gigante, iluminada por varias cores que piscavam de instante em instante em um ritmo hipnotizante. Mas Silver reclamou, dizendo que a segurança do brinquedo não tinha condições muito estáveis, então Kaira insistiu dando a desculpa que cada um iria em um e assim não teria risco algum, assim os fantasmas também poderia se dividir. Eu apenas sorria e via tudo aquilo como uma grande diversão. Há muito tempo não via as coisas daquela maneira, tanto tempo se passou desde meu ultimo sorriso verdadeiro... – Então vai ficar, Silver com Blaze, Sonic e Amy, eu vou com o Mephiles, a Rouge, Cream, Tails e Cosmo e a Maria vai com o Shadow! Assim não teremos problemas.
Silver fora obrigado a ceder, mas quando ouvi o nome do meu parceiro fantasmas não pude evitar abrir a boca para reclamar já que logo era puxada para a fila do brinquedo e colocada perto do mesmo bem no momento que nossa vez chegava. Quando dei por mim já estava dentro da pequena cabine do brinquedo com Shadow bem na minha frente olhando para a parte de fora da mesma, entre as grades de segurança que nos rodeavam.
Minha garganta deu um nó e meu coração acelerou, não me perguntem o porque mas estar sozinha com ele começava a me fazer sentir de maneira diferente, não sei como. Comecei a mexer minhas mãos nervosamente enquanto tentava me concentrar na paisagem do lado de fora. O sol já começava a se por e logo a noite dominaria, as luzes do parque ficavam mais intensas e a paisagem cada vez mais bonita. Paramos no topo do brinquedo e parecia que o clima tinha ficado mais leve com o doce vento que agora se chocava com meu rosto.
— Ver as coisas daqui de cima faz com que tudo seja tão... irreal. – ouvi ele falando, parecia mais para se mesmo do que para mim, mas mesmo assim olhei para ele vendo como seus olhos vermelhos brilhavam. Alegria talvez, mas seja o que for fez meu coração bater ainda mais forte e que um grande carinho por ele preenchesse meu corpo, me fazendo ter o impulso de segurar sua mão.
— Tudo parece irreal quando se vê de uma maneira diferente. – comentei, nem sabendo da onde tinham vindo aquelas palavras, mas estava tão distraída, perdida naqueles olhos vermelhos que nem prestei atenção no que quer que eu dissesse ou que ele falasse.
Não me perguntem quando nossos rostos começaram a se aproximar, não me perguntem porque isso estava acontecendo, não me perguntem nada do que aconteceu naquela cabine da roda gigante, porque tudo o que sei é que eu e ele começamos a ficar com os rostos bem próximos. Meu coração batia forte no peito e meus olhos se fechavam lentamente com medo de tudo aquilo ser um sonho. Podia sentir a aproximação, logo a distancia não existiria e eu daria meu primeiro beijo...
Mas a roda gigante se moveu e nós dois nos separamos pelo inesperado balançar da cabine onde estávamos. Meu rosto ficou completamente vermelho ao descobrir o que estava prestes a fazer. Desviei o olhar completamente envergonhada e tentando não pensar muito nisso, mas foi só então que percebi que ele ainda não tinha soltado minha mão e que seu rosto parecia ainda mais sereno enquanto olhava para o lado de fora da cabine. Chegou um momento que ele começou a mover o polegar sobre as costas da minha mão, fazendo leves caricias quase que automaticamente. Parei de respirar na hora sentindo apenas o contato frio de seu espírito em minha mão. Estaria me apaixonando por um fantasma? E ele por mim?
Quando o brinquedo finalmente parou eu e Shadow descemos e ele soltou minha mão. Talvez para não aparentar nada estranho para o meu lado já que quase todos ali não podiam vê-lo. Fomos até onde estava meu irmão e os outros, Kaira e Mephiles parecia discutir alguma coisa, Silver tentava fazer Blaze ficar quieta, Sonic e Amy pulavam de um lado para o outro parecendo estar brigando enquanto Tails, Cosmo e Cream viam tudo a sua volta com calma, como se fossem mais uma pessoa naquela feira.
— E então para onde vamos agora? – perguntou Kaira se aproximando trazendo a cabeça de Mephiles debaixo do braço, enquanto o mesmo se contorcia tentando escapar dela que não permitia de nenhuma maneira. Kaira parecia não se incomodar com o fato que a maior parte das pessoas não podiam ver os fantasmas que nós víamos, ela brincava com eles e falava com eles como se fossem qualquer pessoa normal, mesmo que todos olhassem para ela como se a chamassem de louca. Suspirei, queria ser igual a ela.
— Ei garotos. – ouvimos dizer a nosso lado. Todos viramos o rosto para ver quem era e nos encontramos com uma senhora de pelo menos sessenta e tantos anos, a coluna encurvada ligeiramente, alta, a pele um pouco enrugada e o corpo quase todo tampado por um manto roxo meio negro. Eu, Silver e Kaira nos entreolhamos enquanto a senhora indicava com o dedo para que a seguíssemos para dentro de uma tenda roxa com partes azuladas um tanto chamativa. Relutantes, nos aproximamos e adentramos na tenda, sendo que na parte de dentro só tinha uma mesa com quatro cadeiras, mais nada. – Sentem-se, creio que vão querer o que tenho a dizer.
Assim fizemos, cada um sentou em uma cadeira sendo que eu fiquei entre Silver e Kaira. Um calafrio percorreu meu pescoço e olhei para todos os lados, vendo como cada fantasma se acomodava em um canto do lugar. Todo o cômodo começou a esfriar e chegou ao ponto que nossas respirações eram marcadas por pequenas nuvens de vapor branco que se condensavam na nossa rente por alguns instantes e depois desapareciam.
— Querem saber a sorte de vocês? – perguntou a senhora que se sentara na cadeira da frente parecendo não se incomodar muito com a temperatura do lugar. Kaira ficara com o rosto sério, encarando a senhora com muita atenção. Eu me perguntava o que estava acontecendo.
— Não acredito nisso de sorte. Nem mesmo em previsões do futuro. – falou meu irmão cruzando os braços, indignado e mirando a senhora com um rosto desconfiado. Pude ver como a velha sorria de uma maneira misteriosa e logo estendia a mão.
— Você também não acreditava em espíritos, mas agora pode vê-los como se fossem pessoas ainda vivas. – comentou a senhora fazendo eu, meu irmão e os fantasmas do lugar engasgarem de surpresa. Como ela sabia? Talvez a pergunta tivesse ficado muito na cara já que ela logo disse. – Vamos pequeno, me dê sua mãe e veremos se isso tudo é uma farsa.
Silver assim o fez, colocou a mão encima da senhora e ela logo virou a palma da mão de meu irmão para cima vendo as linhas que tinham nelas, analisando-as com suma atenção e soltando leves murmúrios de vez em quando. Todos, menos Kaira, esperamos ansiosos para ver o que ela tinha a dizer. Ela então ergueu o olhar.
— Teve uma vida muito sofrida meu jovem. Se esconde atrás da ciência e da razão para assim não demonstrar o medo que sente de ser esquecido por quem ama. – comentou a senhora e pelo rosto que meu irmão fez pude ver que as partes que eu não tinha idéia daquela frase eram verdades. Esperamos. – Mas logo você encontrará a felicidade e seu medo não terá mais motivos, porem, em seu caminho ainda tem muitas desventuras a serem enfrentadas e talvez seu coração possa ficar partido com um amor que nunca poderia ter acontecido. Mas tudo tem seu concerto.
A senhora soltou a mão de meu irmão e logo seu olhar pousou em mim. Por um momento seus olhos reluziram de uma maneira estranha, acho que de pena ou compaixão e me perguntei o porque. Ela se levantou e foi para a parte dos fundos da tenda e quando voltou trazia algo em mãos. Kaira ainda a mirava atentamente.
— Vejo que estava certa. – começou Kaira de repente fazendo todos a mirarem, enquanto a senhora voltava a se sentar na cadeira como se nada tivesse acontecido. – A senhora realmente possui o olho de Shinigame. Nunca conheci um exorcista que o tivesse, cheguei a pensar que era uma lenda.
— E como eu pensava, você é muito esperta criança. – comentou a senhora levantou um pouco o olhar e sorrindo de leve. Ela encarou Kaira a analisando atentamente enquanto a mesma tinha os braços cruzados e o rosto ainda sério. – Uma exorcista exemplar, conhece bem as regras de sua gente e sempre quis encontrar alguém igual a si. Questiono-me até quando duraria essa resistência com a mais importante das regras.
— E como uma exorcista você deveria saber que só usamos nossos dons para ajudar espíritos necessitados e que usá-los para ganhar dinheiro é completamente desonroso. – rebateu Kaira com um olhar penetrante que me fez estremecer ligeiramente. Ainda tinha muito o que aprender sobre os exorcistas e a cada dia que se passava tinha mais interesse sobre eles. – O olho de shinigame é usado apenas para saber o que aconteceu com os fantasmas sem precisar voltar um dia de sua vida, ele também permite que vejamos a linha de tempo de uma pessoa ainda viva, mas essa habilidade é muito importante para ser usada como forma de lucro.
— E quem disse que eu não a uso de uma maneira correta? – perguntou a senhora sorrindo levemente para Kaira que ergueu uma sobrancelha confusa. – Viajo com esse parque de cidade em cidade, de país em país procurando ajudar os exorcistas que tem um futuro um tanto sombrio pela frente. Foi coincidência eu ter parado em uma cidade com um problema tão grande e uma exorcista tão peculiar.
— Problema? Não tem problema algum aqui. Eu e meu irmão cuidamos para que isso não aconteça, fomos treinados por nosso pai para isso! – exclamou Kaira indignada, devia estar se sentindo insultada, mas a mirada da senhora parou em mim e pude sentir meu corpo se congelando de uma maneira que nem eu pensei que poderia acontecer.
— Aqui tem um problema, um que poucos podem ver, mas muitos podem sentir. Não é mesmo pequena? – ela se dirigia a mim e eu não sabia como responder. Todos os olhares pararam encima de mim e meu rosto ficou completamente constrangido. – Me dê sua mão pequena, quero ver o que te aguarda pela frente.
Levei minha mão até a dela, já deixando a palma para cima. A senhora olhou, olhou e olhou e cada vez parecia que sua expressão ficava mais séria, mais preocupada... Engoli em seco e esperei que ela começasse a falar sobre mim, mas a cada segundo parecia para mim horas e estava começando a me perguntar quando ela começaria a falar.
— Pobre criança... Tão jovem e já tendo que lidar com esses problemas. – comentou a senhora e logo seus olhos se pousaram em mim, e pela primeira vez pude ver que a cor deles eram de um cinza peculiar, quase azulado. – Desde pequena você sofreu e por isso é como é agora. Seu futuro não me permiti que te fale sobre ele por isso só lhe aconselho: fique atenta criança, tome muito cuidado a onde vai, não fique sozinha nunca e tome conta de quem ama. E o mais importante... Não morra — Meu corpo estremeceu quando a senhora falou aquilo e pude sentir como o sangue deixava meu rosto o tornando mais pálido do que já parecia. A senhora então tirou da caixa que tinha trago um pequeno colar com um estranho pingente que tinha o formato de um circulo com vários fios de varias cores passando por dentro parecendo formar uma teia de aranha enquanto a sua volta tinha algumas pequenas penas. Não era muito grande e devia admitir que era bonito. – Isso é um purificador de sonhos, mas também pode te proteger de más influencias. Nunca o tire pequena, pode te salvar nessa sua aventura.
Peguei o colar e o mirei atentamente podendo jurar que tinha um ligeiro brilho azulado reluzindo no mesmo. O coloquei envolta de meu pescoço e pude sentir como estava bem mais calma, como se realmente estivesse sendo protegida. Saímos da tentada daquela mulher e começamos a caminhar quase sem rumo pela feira. Eu mirava atentamente o pequeno colar que tinha ganhado e me perguntava se aquilo realmente poderia me proteger do que quer que estivesse a espreita.
Chegou um momento que passamos de frente ao cemitério da cidade. Pequeno e nem um pouco chamativo, mas o vento frio que saiu de lá não ajudava muito a torna-lo um lugar calmo. Cheguei a olhar de relance para ele, vendo como se estendia até uma certa área, com as lapides erguidas com cruzes, ou até mesmo anjos, mostrando o lugar onde certa pessoa estava enterrada. Mas o que me chamou atenção naquele lugar foi um leve brilho azulado que passou rapidamente de uma lapide para outra e pude jurar ver uma pequena figura.
Parei de andar, bem na porta daquele cemitério que era rodeado por uma pequena cerca de meta e o pequeno portão estava simplesmente escancarado. Os outros continuaram parecendo não perceber minha ausência. Bom, pelo menos eu pensava que todos não tinham percebido até sentir uma mão em meu ombro.
— Aconteceu alguma coisa? – perguntou Shadow ao meu lado me mirando um pouco estranhado. Eu apenas neguei com a cabeça e continuei a olhar para o cemitério. Senti como ele segurava minha mão e tentava me puxar para longe. – Vamos, é melhor achegar até os outros.
— Mas tem alguma coisa lá dentro. – comentei fazendo minha mão escorregar da dele e começar a entrar no cemitério. Alguém poderia me informar da onde vinha esses meus ataques de coragem? Antes eu teria passado rente ao cemitério, mas lá estou eu indo ver o que tinha lá dentro. Shadow veio atrás, e queria acreditar que era porque estava preocupado.
O vulto azul cortou novamente o cemitério indo de uma lapide a outra, se afastando cada vez mais de mim. O chão do cemitério era gramado, mas mesmo assim podia sentir a terra molhada e fofa que tinha logo de baixo, parecia até um pouco lamacenta. Se não tomasse cuidado era muito provável que escorregasse ali. Quando cheguei perto da lapide que vi aquele pequeno vulto azul parar olhei por trás dela vendo o pequeno fantasma de uma garota que tremia sem parar atrás daquele bloco de pedra.
— Ola. – falei fazendo a pequena se assustar e se afastar rapidamente se escondendo em outra lapide enquanto eu quase caia pelo susto que ela havia me dado com o rápido movimento. – Desculpa. Não queria te assustar. – comecei a dizer, apesar de me lembrar bem que da primeira vez que vi um fantasma que se assustou foi eu. – Pode vim, não vou te fazer mal.
— Ele esta vindo. Ele esta vindo. – murmurava a garota uma vez e outra enquanto olhava para todos os lados parecendo procurar alguma coisa. Ela tinha um brilho azulado, não era igual a Shadow e os outros, era como se fosse mais um espectro do que um espírito. Sua identidade como humana parecia estar sendo apagada e a cor azul a tornava quase transparente e completamente fantasmagórica. – Tenho que fugir tenho que me esconder.
— Calma, quem esta vindo? Por que tem medo dele? – os olhinhos dela, que antes deviam ter sido de um incrível negro, me encararam cheios de medo e pânico. Seus cabelos chegando até metade da cintura que tinham leves rasgos de loiro caiam um pouco em seu rosto e seu pequeno corpinho parou de tremer. Ela voou até mim e tocou em meu braço e pela primeira vez vi uma marca em meu pulso, como se fosse uma queimadura.
— Você foi marcada por ele, ele vai atrás de você, vai tentar mata-la. – falava a pequena e Shadow parou do meu lado, parecendo ficar tenso. Não compreendia o que estava acontecendo, ou entendia e não queria aceitar. – Ele quebrou seu braço... – comentou apontando para meu braço engessado. – Ele não conseguiu uma vez, mas vai tentar mais uma vez, tem que se esconder!
— Mas de quem? – perguntei já um pouco assustada. Shadow colocou uma mão em meu ombro e apertou de leve, a pequena então olhou para todos os lados e voltou a se esconder atrás de uma lapide.
— O Colecionador de Almas. – murmurou se encolhendo mais contra a lapide. – Ele vem aqui toda a noite, pega as almas que não conseguem fugir e as levas para um lugar para prendê-las. Quando as almas aqui acabam ele vai até a cidade e mata mais pessoas. Isso aconteceu com minha mãe... Mas eu consegui escapar e agora ele esta atrás de mim e se conseguir me pegar ele vai voltar a matar...
— Como ele mata? – perguntei. Era humano ou fantasma? Por que fazia isso? Quem era ele? Eram tantas perguntas que não sabia se uma noite ia ser o suficiente.
— Ele possui a pessoa, faz ela fazer coisas que nunca imaginou em fazer, depois faz ela ficar louca e por fim ou faz ela se matar ou ela morrer com alguma doença. O importante para ele é ter a alma. – respondeu a garota e logo tudo ficou escuro e gritos foram ouvidos. Shadow segurou com força minha mão, ele e a pequena brilhavam no escuro o que me permitia ver o caminho onde estava. – É ele! – gritou a pequena se encolhendo atrás da lapide. – Ele vai vir me pegar! Ele vai me pegar!
Não tive tempo de fazer nada a pequena desapareceu deixando eu e Shadow sozinhos. Pude ouvir os gritos de meus amigos procurando por mim, mas minhas pernas estavam paradas no lugar. Shadow me puxou em uma direção que supus ser a direção onde os outros estavam, mas antes que ele pudesse me levar para a entrada do cemitério alguma coisa o empurrou para longe e eu cai no chão.
— Me impressiona que tenha sobrevivido. – falou uma voz a minha frente e quando levantei a cabeça me encontrei com o mesmo homem que tinha me empurrado da escada e quebrado meu braço. Ele me sorria de uma maneira estranha como sempre fazia, abaixado para ficar mais ou menos da minha altura. – Mais difícil de livrar do que eu pensava. Será que se eu fizer igual a aquela outra garota...
Logo imagens inundaram minha mente e pude ver como Rouge era arrastada cemitério a fora, cheia de machucados e hematomas. Aquele homem que agora estava na minha frente a empurrou para dentro de um buraco que tinha ali perto e por mais que ela gritasse nada o homem fazia. Meus olhos se arregalaram quando ele começou a jogar a terra que estava do lado do buraco lá dentro enterrando Rouge viva.
— Conseguiu ver de novo, não é pequena? – me perguntou sorrindo quando parei de ver o que tinha acontecido. Meu corpo tremeu e tudo o que queria era sair de lá, mas meu corpo não respondia. Ele então segurou meu queixo e ergueu meu rosto me obrigando a mirá-lo direto nos olhos. – Você não sabe a onde se meteu garota. Mas acho que tem o direito de pelo menos saber quem vai te matar. Meu nom é Nazo, o Colecionador de Almas.
— O que quer de mim? – perguntei sentindo meu braço doer fortemente. Minha respiração ficou agitada enquanto sentia como ele apertava com mais força a mão em meu rosto. Ele sorriu ainda mais.
— Então você mesma não sabe o que protege, se é que sabe o que protege. – pude ouvir como as vozes se aproximavam ele também tinha percebido isso. Ele olhou de leve para trás e logo voltou a olhar para mim. – Eles só estão usando você para se salvar, garota. Quanto antes entrega-los para mim melhor vai ser para você. Afinal, para que se preocupar com fantasmas que você nem sabe quem foram ou como morreram se você já tem seus próprios problemas?
— Não acredito em uma palavra do que você diz. – rebati tendo novamente meu surto de coragem. As vozes chegavam mais perto e parecia que lentamente as luzes da cidade voltavam. Ele me encarou e riu de leve.
— Então sabe como eles ficaram presos naquele sótão não é? Sabe o que escondem, como morreram. Se sabe tanto assim deles porque então não resolve o problema deles e os liberta de uma vez? – a questão que ele apresentara era boa, eu não sabia nada sobre nenhum dos fantasmas que tinha em meu quarto, apenas Shadow podia me contar o que aconteceu, mas tinha certeza que ele não o faria. E pareceu que meu rosto confirmara as suspeitas de Nazo. – Como confiar em pessoas que você nem ao menos conhece?
As vozes chegaram ao ponto de estarem muito próximas. O Colecionador de Almas se aproximou do meu rosto e sussurrou um “te vejo depois” e logo atravessou meu corpo, como se eu fosse uma pessoa normal. Mas toda minha energia se foi e parecia que minha alma tinha sido arrancada apesar de ainda estar respirando e sentindo meu coração bater como louco em meu corpo. Por um momento tudo ficou embaçado, depois pude ver Shadow na minha frente, sua boca mexia mas eu não conseguia ouvir um som. Logo depois apareceram meu irmão, Kaira e os outros fantasmas, mas logo que isso aconteceu perdi a consciência.
Notas finais
Bjsss
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