Mudei por Você
25 Mudança
Eu e Rafael, estávamos sentados ao chão, num canto da sala. Conversando sobre o futuro. O maldito futuro.
- Assim que Alice chegar, pegamos nossas coisas e levamos para a nova casa. Coisas só nossas, tipo fotos, lembranças, cartas antigas, roupas. Essas coisas.
- Não posso acreditar que eu vou virar uma dona de casa! Isso é horrível! Uma dona de casa com piercing na cara toda! É ridículo!
- É só tirar esses pregos da cara! – Ele conseguiu me fazer sorrir depois de tanto tempo novamente...
- Minha cara fica cheia de furos!
- Ué, os furos não tampam com o tempo? – Meu sorriso continuava estampado, e o dele começava a aparecer. Eu amava aquele sorriso! O pouco da alegria de quem amo me faz tão bem! Tão bem pro meu coração!
- Sei lá!
- Tenta ué!
Suspirei fundo, e comecei a tirar da parte de cima para baixo. Tirei o da sobrancelha, do nariz, do lábio e do queixo. Me senti fazia! Como se estivesse nua!
O olhei com desconfiança, querendo rir. Quem riu primeiro foi ele.
- Você fica mais bonita assim.
- Obrigada Rafa. – O sorriso estampado no meu rosto, logo desapareceu. – Rafael, e se não der certo?Meu pai não me quer com ele, e aí terei de ir pros Estados Unidos! Eu quero ficar aqui!
- Vai dar certo... assim espero. Hoje arrumamos nossa nova casa, e amanhã bem cedo começo a procurar um emprego.
A voz de Alice soou em nossos ouvidos. Ela estava gritando o nome do Rafael.
- JÁ VOU! – Alertou.
Ele se levantou, pegou a chave e correu para atende-la. Pela baixa janela, eu via os dois se abraçando. Consegui ler nos lábios de Alice, ela perguntando como eu estava, se estava tudo bem, e o que tinha acontecido.
Ele voltaram-se a porta, e logo os vi entrando.
- Clarie! – Alice exclamou ao me ver no chão. – Como é que foi? Deu muita confusão?
- Ela falou apenas a verdade. Quando nossos pais, ou alguém mais velho diz que “vamos conversar” quer dizer que só ele vai dizer o que ele pensa. A mãe do Rafa nos deu uma casa, já com móveis. Mais ela disse que não vai ajudar nas despesas.
- Bom, mais ela já fez muito de ter dado a casa e não matado vocês, né?
- Pode ter certeza, de que vontade de nos matar não faltou Alice. – Comentou Rafael, sentando-se novamente ao meu lado.
- Se eu fosse mãe de um de vocês, a essa hora já estariam a sete palmos do chão. Disso pode ter certeza! – Houve uma longa pausa, mais logo o silencio foi quebrado pela voz doce de Alice. – Vamos logo com isso. Temos um novo lar para arrumar.
Sorri de orelha a orelha, olhei para Rafael, e o sorriso foi retribuído.
- Já tem umas malas da Clarie no carro, só colocar essas novamente, e eu vou enfiar minhas coisas numa mala. Já volto.
- Não quer ajuda Rafael? – Perguntei.
- Ótimo! Aí vai mais rápido.
Alice pegou o resto das minhas malas e sacolas e colocou no porta-malas. Coloquei todas as pequenas coisas do Rafael embaladas numa sacola, e todas as roupas dobradinhas dentro da mala. Teria que treinar como ser dona de casa! Peguei algumas das sacolas mais leves, e coloquei e fui ao encontro do carro.
Para chegar lá, teria de passar por um certo banquinho de baixo de uma arvore. O banco em que Rafael me pediu em namoro, no dia em que tudo começou... Parei na frente do banco... parecia que eu via um filme na minha frente... de quando tudo começou! Desde o dia em que nevou, no qual conheci Rafael, até o momento em que ajudava Rafael a organizar as coisas. Vi a imagem de Isabella sendo morta, parecia que eu estava numa espécie de máquina do tempo. A mesma dor que invadira meu coração naquele dia, tomou conta de mim novamente. O mesmo medo que ficara em mim no dia em que disse ao meu pai que estava grávida... a mesma adrenalina que senti quando desabafei gritando. Soltando toda a angustia dentro de mim!
- Clarie! – A voz de Alice me chamando, fez com que meus pensamentos fossem embora. A fitei, como se estivesse com dor. – Você está bem?
- Sim. Estava pensando em umas coisas... – Me aproximei dela. – Alice, esse foi o lugar que Rafael me pediu em namoro. E aquele – apontei pro fusca, no qual os vidros estavam embaçados pela névoa –, foi o fusca podre, lixo, desgraçado em que o futuro morador desse planeta nada perfeito irá morar.
- Clarie, passado... o passado sim, irá fazer parte do futuro, vocês querendo ou não. Agora vamos logo com isso. Vocês serão felizes. Eu acredito no amor de vocês. – A leve brisa fria, passou por nosso rosto.
Voltei a arrumar as coisas. Caminhei até o carro, sem parar de pensar no “filme” em que acabara de me lembrar.
Coloquei as coisas no banco traseiro, e Alice colocou mais um pouco. Rafael vinha logo atrás com o dobro de malas que nós duas.
- É só isso! – Disse ele, jogando tudo no banco traseiro, deixando apenas um pequeno espaço.
- RAFAEL! – A voz do pai dele, soou como um trovão em nossos ouvidos. Logo ele surgira onde estávamos. – Eu levo vocês.
- Obrigado pai.
- Sei como é difícil a situação de vocês. Já passei por isso. Eu era amigo de um casal... eles engravidaram cedo, eu os ajudei muito. – Ele olhou diretamente para Alice que sorriu. – Faz tempo que não os vejo... saudades!
- Como era o nome deles? – Comentou Rafael passando o braço sobre meus ombros.
- Maria Helena e Carlos.
- O QUÊ?! – Assustei-me. Era muita coincidência, meus pais haviam passado por isso também adolescentes. – Meus pais se chamam Maria Helena e Carlos!
- Bom pode não ser os próprios.
- E vai que é? – Fui até o carro, e peguei o álbum de fotos. Mostrei uma das fotos dos meus pais juntos ainda na adolescência.
- É eles! Caramba, então você é filha deles?! Não creio! Aonde seu pai está? Tô morrendo de saudades!
- A essa hora deve estar indo para Itália.
- Ah que pena...mais ele se deu bem na vida! Chega de papo, sei que vocês não gostam desse tipo de assunto. Vamos pra sua casa filho.
- E as chaves?
- Está comigo. – Disse, checando os bolsos.
Rafael sentou-se no banco do passageiro, na frente, e eu e Alice nos apertamos lá atrás. Abrimos todas as janelas, para que arejasse um pouco, pois, estava abafado.
Minutos depois já estacionamos na frente de uma casa, de tom verde claro, com o quintal com uma grama com aparência fofinha.
- Eu ajudo vocês tirarem as coisas de dentro do carro.
Saímos todos lá de dentro, deixando as portas abertas. O pai do Rafael me deu as chaves da nova casa para que eu abrisse.
- A mais nova dona de casa. – Disse ele.
- Cara não me chama assim, eu me sinto velha. – Respondi pegando as chaves.
Abri o portão, e todos entraram. Coloquei a outra chave na fechadura, e girei.Coloquei a mão sobre a maçaneta, fechei os olhos e a puxei. A nova casa já era nossa.
- Ah que fedor! – Comentou Alice.
Estava mesmo fedendo! A casa, a tempos não entrava um ar.
- Nossa! – Exclamou Rafael, que logo entrou, para abrir as janelas.
Ainda estava parada na frente da porta. Alice, e o pai do Rafa, entraram para ver a casa. Os móveis eram lindos! Mais estavam empoeirados.
Eles viram a casa toda, e eu ainda estava entrando. Alice passou correndo por mim. Foi até o carro e pegou uma sacola cheia de panos rasgados. Parou na minha frente e tirou metade deles.
- Ajuda aí Clarie! Vai tirando o pó. Você é a dona da casa.
- Ah cala a boca Alice.
Ela saiu rindo, tirando mais um pouco de pano, para dar aos outros.
Comecei a passar pano sobre os móveis, e Alice me ajudava naquele cômodo.
Varremos, passamos pano, tiramos o pó, lavamos a louça, arrumamos a roupa e ficamos exaustos!
- É isso garotada! Agora vou pra casa. Alice, quer que eu te leve pra sua casa?
- Tudo bem. Eles devem estar querendo descansar. Tchau galera! – Alice me deu um longo abraço, e o mesmo em Rafael.
Assim que eles saíram, nos deitamos... descansamos, juntos... agora sempre será assim. Formaremos uma família...
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