Mudança

1 Capítulo 1 - A Festa e os Convidados.


Esfrego os olhos e me sento na mesa,minha irmã,Gabrielle,sorri do outro lado.— Bom dia Anna.

— Bom dia.— Bocejo.

— Dormiu bem?

Dou de ombros.— Realmente importa?

Gabrielle pisca os olhos azuis,freneticamente.— Claro que importa,pra mim importa! Quero saber de minha irmãzinha dormiu bem.— Ela pega minha mão,que estava indo em direção a caixa de leite,e acaricia como polegar.— Dormiu?

— Gabrielle...— Puxo a mão,e abro a caixa de leite.— ...está se sentindo bem?

— Estou ótima!— Ela pula na cadeira.— Ah,fiz uma bolo de laranja pra você,hoje de manhã,sei que não gosta muito de laranja,mas o bolo você come. Não come?

— Você fez um bolo pramim?— A fito enquanto ela ainda tira o pano de cima da alguma coisa,no caso,posso ver agora,o bolo.

— Fiz.

— Acho que você não está bem.

— Eu estou bem!— Ela corta uma fatia. — Quer que coloca mel em cima?

— Quero.— Estendo a mão pra pegar o pote de mel,mas Gabrielle é mais rápida que eu.— Olha...é meu aniversário?

Gabrielle coloca a fatia em uma prato,e taca na minha frente.— Annabelle,se você não quiser comer,eu não me importo...mas você poderia,pelo menos,agradecer?

— Obrigada.— Puxo o prato pra perto de mim,os olhos claros de Gabrielle estão intensos.— Mas eu ainda não entendi o porquê disso...

— Quero que você vá em um lugar comigo,hoje a noite.— Ela sussurra e olha para os lados.— Falamos pra papai que vamos dormir na casa de...

Jogo a cabeça pra trás,em uma gargalhada,não deixando Gabrielle terminar a frase. Não posso negar,essa situação é engraçada,pois ontem mesmo,ela estava quase arrancando meus cabelos porque queria assistirGossip Girle eu queria assistir desenhos animados.

— Eu não vou,desculpa.

— Ah,qual é Anna?— Ela pega o copo de suco de maçã,que está na sua frente,provavelmente está sem adoçante nenhum,Gabrielle é psicótica em questão de corpo e saúde.— Você nunca sai de casa! Precisa conhecer gente nova...fazer amigos!

— Eu não preciso de amigos...tenho Peter! — Tomo um gole de leite puro. — Aliás,eu saio de casa!

Gabrielle ri. — Sai de casa pra ir a onde? Na escola? Na casa de Peter? Ah... — Ela dá uma tapinha na mesa. — Você vive quase enclausurada Annabelle,você não é normal.

Suspiro. — Eu só tenho medo de decepcionar todo mundo.

— Mas isso é viver! É decepcionar e ser decepcionado. — Gabrielle pega minha mão,nossa,mas que palavras lindas a dela! Ajudaram bastante maninha,obrigada. — Mas também...— Ela continua. — ...é ser surpreendido,beijado,abraçado,é chorar,mas também é rir. Isso é viver Annabelle. E o que você faz?

— Desenhar pra mim já é muito bom.

— Ah,pare de ser patética,não adianta registrar coisas bonitas no papel e...— Ela para por um instante,e se ajeita na cadeira. — E...e eu não sei! — Ela agita as mãos na frente do rosto. — Só desenhar não é viver,quero dizer,desenhar é muito bom mais...você não pode só desenhar.

— Eu amo desenhar Gabrielle,desenhar é minha vida.

Gabrielle se levanta. — Mas você também pode amar sair de casa,amar um cara,amar ...sei lá,beber.

— Amar beber? Quer que eu me mate?— Como,finalmente,um pedaço do bolo,está bom,até.

—Não!— Gabrielle bate as mãos na perna,e coloca os dedos dos olhos.— Olha Anna,apenas venha comigo hoje,eu imploro.

Abaixo os olhos pras minhas mãos,e me viro pra Gabrielle. — Eu só vou se Peter for junto.

— Ah!— Ela se vira para pia,e dá um soco que balança os copos.— Esquece esse Peter!— Ela volta a olhar pra mim.— Gentenovaque eu estou falando.

Cruzo os braços.— Eu não confio em você,preciso que outra pessoa vá junto...se o Peter não for,eu não vou.

Gabrielle enfia os dedos nos fios de cabelo loiro,e vai descendo por todo o comprimento,até chegar na cintura,onde ele acaba,cheio de cachos. Se eu tentar fazer isso,enrosco os dedos.— Ta...— Ela bufa.— Leva o seu amado Peter.

Estamos atravessando o jardim,posso ouvir a música abafada,de dentro da casa. A nosso volta,espalhados pelos jardim,estão grupinhos de adolescentes em volta de barris de cerveja. Peter está com uma das mãos no meu ombro.

É engraçado,Gabrielle está com o cabelo cacheado solto,com mini saia e salto,enquanto eu estou com meu allstar,uma calça jeans,e o cabelo preso em um coque,Peter não dispensou os óculos,que são,praticamente,os olhos dele.

Gabrielle discutiu com a gente,disse que passaria vergonha,mas eu e Peter nem nos importamos.

Ela abre a porta,e nós três damos de cara com um menino bronzeado e de dreads.— Oi Gabie.

— Josh!— Ela o cumprimenta com um beijo na bochecha.— Adivinhou que eu estava chegando?

— Não,na verdade eu estava indo buscar mais cerveja.— Ele balança um copo vazio.— Foi uma conhecidência muito boa.— Ele levanta as mãos pra tocar no rosto da minha irmã,e ela o estapeia,virando-se pra mim e me puxando pelo pulso.

— Esta é minha irmã,Anna,um ano mais nova que eu.

— Oi Anna.

— Annabelle,na verdade.

Faço uma careta,Gabrielle encravou as longas unhas na minha pele.— Mas pode chamar ela de Anna.— Ela fala por mim.

— Hm...fiquem a vontade,Gabie,e a irmã da Gabie,Anna.— Josh vai para o lado pra dar espaço pra passarmos,e Gabrielle me puxa pra dentro. Só agora percebi,a música não é mais abafada,e sim alta e gritante,nunca ouvi na vida.

— Ah,música boa,graças á Deus.

— Ei,Gabie.— Nós nos viramos,de volta pra Josh,ele está segurando Peter pelo peito.— Esse CDF* disse que está com vocês.

— Não,é mentira.

Olho pra Gabrielle,qual o problema dessa garota? Puxo o meu pulso,mas ela não o solta,me viro de volta pra Josh.— Ele é meu amigo.

— Ah...— Josh olha pra Peter,tirando a mão de seu peito.— ...foi mal.

Peter sorri e passa pela porta,ainda olhando Josh.— Eu não sou CDF.— Ele se aproxima de mim,vejo Josh sorrir,e sair,ainda bem que não se importou.— Oi.

— Oi.— Sorrio.

— Vem,vamos procurar Gene.— Gabrielle me puxa,e ela anda tão rápido que não posso pedir para Peter nos seguir. Quando me viro para ver Peter,ele está conversando com um garoto,de cabelo claro,que eu não posso ver o rosto,mas ambos parecem bem entretidos na conversa.

Volto a prestar atenção a minha volta,Gabrielle vira uma "esquina" saindo da espécie de corredor lotado que estávamos. Entramos em uma sala enorme,com luzes coloridas,como iluminação,aqui,a música está muito alta,e tem vários adolescentes dançando com copos e garrafas,de vários tamanhos.

Gabrielle começa a me arrastar pelo meio da multidão,e eu desvio de vários bêbados. Até esbarrar nela.— Ai.

Ela só me olha e me puxa pra seu lado,sua mão me aperta cada vez mais,Gabrielle não tem noção da força que tem.— Anna,esse aqui é o Gene,dono da festa.

Olho pra cima,Gene tem o cabelo arrepiado preto,ou roxo...eu não sei,estamos debaixo de uma luz azul,e eu não estou conseguindo distinguir cores.— Oi,eu sou Anna.— Minha irmã olha pra mim,e sorri,em aprovação. Deve estar feliz por eu mesma me apresentar.

— Oi Anna.— Gene se inclina e beija meu rosto,ele está usando óculos,mas são muito mais estilosos do que os óculos redondos de Peter.— Seja bem vinda,e fique a vontade.

— Obrigada. — Aliás,não são só os óculos que são estilosos,ele todo é! E seus olhos são verdes esmeralda,penetrantes.

— Ah!!!— Gabrielle berra e solta meu pulso,sinto suas unhas se desgrudarem da minha pele,de tão gravadas que estavam.— Não acredito que Selina veio!— Ela corre em direção á um grupo de meninas,que estão vestidas,praticamente,iguais a ela.

— Como é patricinha...

— O quê?— Gene se inclina na minha direção,para ouvir melhor. Disse em voz alta,sem querer.

— Nada.— Sorrio.

Bato meu pulso na calça,e sinto arder,coloco ele na frente dos meus olhos,não consigo ver debaixo dessas malditas luzes. Mas parece que Gabrielle fez um estrago bonito,com toda a sua "delicadeza".

— O que você está fazendo?— Gene pergunta,olho pra ele,e ele está concentrado no meu pulso,igual eu.

— Acho...acho que Gabrielle me machucou.

— Sério? Deixa eu ver.

— N...— Tarde demais,Gene já está com o meu pulso,praticamente colado na cara,mas pelo menos,ele não está apertando onde dói.

— Desculpe.— Ele me solta,e eu coloco a mão no bolso.— Não posso ver se ela te machucou gravemente,estou meio bêbado.— Ele sorri e mostra a garrafa,que está na sua outra mão,parece cerveja.— Além dessas luzes desgraçadas não ajudarem.— Ele aponta pra cima,com o dedo indicador,que segura a garrafa. Olho rapidamente pra cima,e volto a olhar pra ele.— Isso foi ideia da Selina.

— Ah...ela é sua namorada?— Olho de volta pro grupo de meninas em que minha irmã se enfiou.

— O quê?— Ele ri,exageradamente.— Não...estou livre,e você?— Gene me olha intensamente,parece que querer ser sexy.

— Estou solteira.— Sorrio.

— Ah...— Ele volta a olhar pra cima. Mas dá um pulo,com o grito da minha irmã,apesar da música estar alta,minha irmã consegue superar.

— Aí está você!— Ela pega meu pulso machucado,de novo.— Quem mandou sair de perto de mim?

— Mas foi você que...

— Cala a boca.— Ela volta a me arrastar.— Venha conhecer minha amiga,Selina,e as outras.

Meus pés e minha cabeça estão doendo,perdi minha irmã e Peter,ótimo. Gene tem olhado pra mim o tempo todo,e está mais bêbado do que antes.

Gabrielle,depois que me apresentou pra metade da festa,disse que "agora estou segura" pois conheço todo mundo,e foi embora. Já Peter,desde aquela hora que não o vejo.

A porta da frente,que dá para o jardim com barris,está aberta,passo por ela,a sensação do vento no rosto é muito boa,depois de,mais ou menos,uma hora dentro daquela superlotação.

— AI! — Grito,esbarrei em alguém,e ainda tropecei em seus pés,quase caí,mas consegui me equilibrar. — Desculpa eu só tava...só tava procurando meu amigo...— Olho pra cima,pra ver quem foi o "felizardo" e me deparo com o garoto mais bonito da festa toda. O cabelo dele é cumprido o bastante para ser posto atrás das orelhas,uma delas é enfeitada com dois pequenos brincos de argolas prateadas. Seus olhos são negros e penetrantes,envolvidos por cílios enormes. Sua barba é mal feita,e sua boca,totalmente convidativa,guarda um sorriso lindo.

— Não tem problema. — Noto que suas mãos estão nos meus braços,provavelmente,eu iria cair se não fosse ele. — Você está bem?

— Uhum,eu acho. — Me afasto e ele me solta. — Obrigada.

— Sem problema. — Ele repete. — Você disse que estava procurando seu amigo?

— Sim,eu...

— Eu vi você e uma garota entrando,tinha um garoto logo atrás.

Sinto uma ponta de culpa,desde que chegamos eu nem fiquei perto de Peter,e eu só estou aqui por causa dele,pra ficar perto dele. — É meu amigo.

— Peter,certo?

Meu coração palpita mais forte. — Sim,sabe onde ele está?

— Ah,ele está ali...— O menino aponta pra um grupinho de adolescentes,sentados em cadeiras,perto de uma pequena árvore. —...com osmeusamigos. Pode ir lá.

— Obrigada. — Sorrio e o garoto passa por mim,deixando um rastro de perfume tão bom,que qualquer garota reviraria os olhos,menos eu,eu tenho alergia. Coço o nariz e desço os dois degraus da varanda,vou em direção ao grupo,e Peter me vê.

— Oi Anna,onde estava? — Ele ajeita os óculos.

— Fui sequestrada por Gabrielle,me desculpa...

— Abandonando o melhor amigo em festas? — Um menino loiro,o mesmo que eu vi conversando com Peter,se manifesta. — Nada legal.

— Desculpe,quem é você?

O menino se endireita na cadeira tem maravilhosos olhos azuis,um pouco mais claros que os da minha irmã.. — Sou David,mas pode me chamar de Dave.

— Sou Annabelle,me chame de Anna,se quiser.

— Oh,prazer Anna. — Uma garota,que quase não notei,dá um salto na cadeira. — Sou Lorena,Lena,se quiser. — Ela indica a cadeira do seu lado. — Sente-se conosco. — Olho para os lados,Peter não parece querer sair daqui,então me sento na cadeira de praia,o meu objetivo é ficar perto dele. — Olha,aquele ali é Willy... — Ela indica um menino com o cabelo castanho,que está encostado na pequena árvore,com os pés cruzados.

— Oi. — Ele acena.

— Oi.

— Ainda tem Selina e Brandon pra conhecer,mas Selina simplesmente sumiu. Brandon...

— Brandon está vindo aí. — Peter fala,e eu olho na direção que todos olham,Brandon é o garoto em quem eu esbarrei,a minutos atrás.

— Você demorou. — Lena fala. — Estava quase indo embora.

— Cala a boca. — Brandon coloca a garrafa wisky em cima do barril,que tem na nossa frente. — Eu nem demorei. — Ele se senta do meu lado. — Ah,oi princesa,resolveu se juntar a nós?

— O nome dela é Annabelle.— Lena pega um copo,e se serve do wisky.

— Pode me chamar de Anna.

— Oh,seu nome me lembra uma garota francesa que conheci...— Brandon coça o queixo,pensativo. — Ah,mas não importa. — Ele pega minha mão,meu primeiro instinto não é recuar,como quis fazer com Gene. — Prazer,Anna. — Ele encosta os lábios na palma da minha mão,estão gelados,provavelmente porque ele esteve aqui fora o tempo todo. — Sou Brandon.

— É,eu sei. — Puxo minha mão de volta e sorrio. Olho ao redor e vejo Peter indo em direção a casa com Dave. — Peter?

Todos olham na direção que estou vendo. Willy tem quase que se deitar na grama,pra árvore sair do seu campo de visão. — Ah,fala sério,Dave já vai se esconder com a carne do dia? — Brandon se vira para Lena. — Mas que saco!

— Carne do dia? O que seria carne do dia? Peter? — Não desgrudo os olhos dos dois. Peter encostou na parede,e Dave colocou a mão por cima de seu ombro,a apoiando na parede também.

Yep*. — Willy volta a se encostar na árvore e fecha os olhos.

Continuo sem entender esse negócio de "carne do dia" e volto a olhar para eles. — Ah...meu...Deus... — Arregalo os olhos,em meio as sombras,vejo a mão de Peter no braço de Dave,eles estão muito próximos. — Estão se beijando.

Notas finais
* Bi = Bissexual Yep = Yes,Sim.