Ms. Betty Wayne

2 Capítulo 2 – Dupla Dinâmica


Betty “continuava, como sempre, profundamente atraída pelo estudo do crime e dedicava suas portentosas faculdades e seus extraordinários poderes de observação a seguir pistas e desvendar mistérios abandonados como insolúveis pela polícia oficial.” Enquanto isso, um atrito entre a senhora Wayne e Regina Grayson se via presente mais uma vez. Em uma tentativa infrutífera de tia Harriet para quebrar o clima tenso, a boa velhinha apanhava o jornal do dia e fazia perguntas sobre as palavras cruzadas. Todo o restante do jornal lhe parecia desimportante, pois era uma daquelas que ignoram ou fazem vista grossa ao grande mundo das ideias, tomando-o por “complicações desimportantes”. Se ignorância é uma benção, Deus abençoara Harriet como ninguém mais. Em situações sérias como aquela que se passava, sua existência era irrelevante e indesejada.

“Tia Harriet, por favor, nos dê licença.”

A saída de Harriet resultava em um silêncio completo. Betty e Regina agora mais pareciam dedicadíssimas atrizes posando para um retrato à óleo. Emburrada, Regina se recostava na parede e tinha os olhos vermelhos, enquanto Betty dera-lhe as costas sentando-se no banquinho do piano de cauda, estática como um inseto incapaz de sonhar. Regina mantinha seu cabelo curto e tinha olhos luminosos permanentemente inocentes, sua expressão contorcia de várias formas conforme ela experimentava sozinha o rebuliço de seus próprios pensamentos, até finalmente não suportar mais aquele silêncio.

“Quando você vai falar comigo afinal?”

“Não tenho o que dizer. Você está desequilibrada e quase se matou, e eu não a responsável por isso. Eu não sou alguém que você deve procurar para aparar suas asas e não te deixar se queimar. Pode avisar para Dent parar de me ligar para avisar dessas confusões.”

Um dedo comprido de Betty hesita sobre uma tecla do piano, conforme ela consegue engolir seco quase imperceptivelmente.

“Você podia pelo menos fingir que se importa!” Regina começava a se descontrolar. “Você age como se nada importasse enquanto a tia Harriet vive no mundo da lua! O que você espera que eu faça!”

“Você pensa no seu futuro? Eu não vou resolver isso pra você também, se é o que tinha em mente.”

“Eu vou ser famosa como a Sweet Little Sixteen!”

“Eu supostamente deveria saber quem é essa?”

“Duh! A música do Chuck Berry! Em que mundo você vive? Você se isola em uma droga de uma caverna!”

“Garota mal-agradecida.” Betty afinal parecia levemente magoada.

“Não! Você me salvou porque queria preencher o vazio depois da morte da Robin e quando cansar de mim vai escolher outra pessoa, depois outra, pra sempre! Isso é sujeira! EU ODEIO VOCÊ! EU VOU TE MATAR!

Já havia se trocado para pijamas e chinelos quando saltou para cima de Betty com um movimento acrobático agressivo, óbvio em um instante que não estava medindo forças. No último instante, Betty consegue segurar a perna de Regina e mantê-la fixa no chão, nervosa, não sendo capaz de ficar quieta por um só estante ou manter a boca fechada e livre de pragas. Não demorou para que começasse a ter algo bem semelhante ao ataque epilético ou um recém-nascido se debatendo, levando Betty a soltá-la e recuar assustada.

“Droga! O que há com você afinal!?”

Betty abandonou sua amiga em sua tensão constante, retornando infeliz ao seu quarto quase mancando como uma velha senhora, tal era seu nervosismo contagiado. Como por um estalar de dedos, Regina apaga.

Oh mommy mommy, please may I go
It's such a sight to see somebody steal the show (…)
All over St. Louis. Way down in New Orleans
All the Cats wanna dance with Sweet Little Sixteen

Três horas passadas, Betty não havia cruzado com mais ninguém na mansão e enfurnava-se na caverna como fora acusada de fazer. Deitava-se de lado em cima de seu carro, um personalizado com entalhes que lembravam caudas de tubarão além de um discreto morcego na frente. Contra sua vontade, sua mente adiantava-se e detalhava um esquema para desvelar os responsáveis por trás da pequena onda de crimes nos mercados de Gotham. Nem mesmo chegavam a ser crimes, apenas contraversões. “Não. Agora não.” Betty diz à si mesma, recostando a cabeça no capô do carro e apreciando a vista do teto irregular da caverna. Poderia transformar aquele lugar em um aposento subterrâneo completamente clean, mas ela achava que havia de ter algo de especial e tranquilizante na ideia de esconder-se em uma caverna.

Regina se espreitava atrás de si na caverna, podia sentir.

“...Hey.” Era ela.

“O que você quer?” Respondera numa voz monótona, desinteressada, chata e mais mil adjetivos negativos.

“Me empresta seu carro?”

“Depois de tudo aquilo é isso que você me pergunta!?” Levanta subitamente “Nunca! É o MEU calhambeque está ouvindo!? É o Bettymóvel agora, certo!? Também é a minha caverna! A minha mansão e a minha cidade! Agora vá embora!”

“...Era brincadeira.” Inversamente, a raiva desprendida de Betty causara uma reação positiva na pequena Grayson. “Desculpe pelo que aconteceu antes, mas em minha defesa, não foi minha culpa.”

“Garota...”

“Não, eu sei! Mas é sério! Lembre-se, o baile inteiro começou a brigar e eu notei no jornal que a tia Harriet segurava! Falava dos fãs das Twistelletes se tornando arruaceiros. Assim que acordei, chequei nos jornais antigos que você guarda e recortei eventos violentos que coincidem perfeitamente com os concertos que elas fazem em tour. No mundo inteiro!”

Betty arregalou os olhos e piscou várias vezes com a mudança repentina de comportamento, enquanto Regina revelava papéis cheios de colagens presos por um clip e os deitava em cima do carro. Bastou poucos minutos de análise nos documentos para que ganhasse a clara admiração de Betty. Paris. México. Nova Zelândia. Assassinatos e roubos movidos por massas descontroladas demonstrando comportamentos análogos entre si. Não contendo a empolgação, Regina abre um largo sorriso e dá um pulinho batendo os pés.

“Eu sei que parece uma desculpa, Betty, mas é possível... certo?”

“Não, não. Na verdade, faz completo sentido. Você demonstrou na sala todos os sintomas de uma espécie secreta de hipnose usada pelos antigos índios Patchugas. Devia ter notado!” Contraia os olhos, repreendendo à si mesma. “Mas você fez tudo isso em apenas três horas? Você é mesmo um prodígio!”

“Uma hora, viu? As outras duas passei dormindo!” Era mentira.

“Muito bem, minha cara Regina! Esse é um caso para Betty Wayne!!”

A Dupla Dinâmica se aplicava à investigação com devoção. Betty não parava de fazer telefonemas. Nos intervalos, ressaltava seu ponto sobre como um telefone em casa poderia ser usado como fonte inesgotável de informação se as pessoas soubessem tirar melhor proveito. Também reclamava do problema que tinha para contatar criminosos sem sair da mansão. “Quando eles conseguem um telefonema para me retornar, não podem discar o número errado ou já contam como uma chamada. Isso me rende certo atraso algumas vezes.” Com a influência de boa família dos Wayne, conseguiram registrar contato com toda a banda além de seu produtor.

Conseguiram encomendar o disco debut das Twistelletes para chegar em menos de vinte minutos, chamando os nomes certos com alguns telefonemas e pagando uma exorbitante taxa de urgência. O quadro negro da caverna mantinha ranhuras das tentativas frustradas de Regina para decifrar um código à partir das letras das músicas. Assim que se vira livre para ver o que ela fazia, Betty interrompe.”

“Isso não vai dar em nada. Você poderia enxergar os índios Patchugas movimentando os lábios sem dizer nada, porque acreditavam estar falando pelo-plano astral. As músicas devem levar o trabalho adiante usando um tipo de frequência exata para mensagens subliminares.”

O disco de vinil recém-chegado era inserido muito cuidadosamente por Regina em um aparelho único operado via manche. Á partir de um visor vetorial, Betty revelava as frequências ocultas até encontrar alguma mensagem subliminar audível. Regina tinha outros pensamentos em mente:

“Não estrague o disco, por favor! Eu adorei essa banda! ...Tirando essa parte de criar zumbis assassinos etecetera.”

“Calada! Espere!”

Um padrão vocal misterioso começa a se formar:

“Irmãos e irmãs! A palavra mágica é Constantinopla! Libertem sua raiva para o assassinato.” Nome... Endereço... Data... “Não poupem a família. Amém!”

Living is easy with eyes close, misunderstanding is all you see (…)
Strawberry Fields Forever