Ms. Betty Wayne
3 Capítulo 3 – Prelúdio Em “E” Menor
A noite era tão espessa que poderia ser tangível. As luzes da cidade eram ovinhos luminosos, que por trás do vidro do carro, pareciam de reluzir como cristal. Atravessavam quadras e seguiram por um zigue-zague de bairros de classe alta até alcançarem a casa da família alvo. Era o dia do ataque profetizado, e Betty nada poderia fazer senão esperar pacientemente de tocaia e impedir os assassinatos no ato. Regina estava consigo, ocupando dois assentos do banco traseiro em uma pose espaçosa enquanto brincava de embaçar o vidro para depois secar com a manga de sua camisa. Enquanto Betty fechava a cara, profundamente consternada para se expressar com palavras, Regina não conseguia encontrar o que dizer.
“Obrigada por me deixar ir com você, Betty.”
“Por que não fala um pouco, Robin? Me ajuda a me concentrar.” Betty falava para dentro, sentindo a garganta arranhar.
“É Regina, Betty! Mas alguns amigos mais chegados me chamam de Ruby também. Harley me chamava de outras coisas às vezes... Posso falar de qualquer coisa?” Seus olhos buscam por resposta percorrendo as ruas de Gotham através do vidro. “Estamos nos anos sessenta, porque essa cidade tem que ser tão gótica!? É depressivo. Talvez precise de um pouco mais de feng shui. Parece um cenário montado para alguma peça dramática sobre o mal do século. Eu gosto de cores vivas e de levar isso para as pessoas, por isso resolvi ser estilista. Uma vez eu desenhei um maiô tão bonito...”
Ainda que não desse importância para o que Regina dizia, Betty mantinha-se mais tranquila ao volante com algum plano de fundo para reafirmar a presença de uma companhia. Ela sentia seu estomago crispar como se estivesse com fome, mas estava apenas cansada de rodar tantas curvas fechadas, e culpava a si mesma por ainda não ter se habituado à isto.
“...E eu sei dançar twist como Bony Maronie, e uma vez TODO MUNDO queria dançar comigo. Eu estava em um show e conseguia levantar bem as pernas, o que é meio que difícil, e ficavam me olhando. Depois me seguraram e me levantaram, então eu pude ver os meninos no palco bem de perto com as guitarras e tudo. Então eles olharam para mim e é como se eles e Deus tocassem só pra mim por alguns segundos. Eu gosto de lembrar disso. Para sermos felizes o segredo é lembrar das coisas certas, não acha, Betty?”
“...Ah? Claro, Robin...”
Grupos de animais subterrâneos saiam para pilhar a cidade, percorrendo um grupo de óbvias má-figuras que no mínimo estariam conversando sobre bater carteira ou relatando aventuras de quando puxaram um vinte e cinco na Ilha Riker. Qualquer vigilante ficaria de olho neles assim que os visse. Regina gira a manivela para abrir a janela e coloca a cabeça para fora. Um irlandês meio vesgo, famoso no submundo por espancar mendigos e passar a perna nos colegas, se vira e aponta. Os olhos dos homens brilham ao encontrarem com os de Regina, e ela abre um largo sorriso de anjo, rendendo à eles graça e misericórdia por seus pecados. Tudo passara muito rápido, como um flash. O vento arrepiava os cabelos curtos da pequena Grayson, que soltou um gritinho ao além antes de voltar para o seu lugar e fechar a janela.
Betty, durante esse instante, pensava em cálculos e números, prevendo toda a ação dos envolvidos e possibilidades. Sua mente era como uma calculadora; sua memória fotográfica recordava a mansão e já a tinha mapeada em sua mente, com todos os pontos cegos onde poderiam ser surpreendidas caso alguns envolvidos já tivessem se adiantado para esperar a hora marcada. Seu sangue era, naquele momento, frio como o de um réptil incapaz de sentimentos ou como de um viciado em junk com mil marcas no braço. Para que não afundasse em uma apatia completa ou ataques de raiva, levara Regina consigo. Visualizava homens com as mãos nos coldres, esperando a hora de sacar.
Afinal chegavam ao seu destino, uma mansão de família grande onde um carteiro grisalho de cara magra e comprida acabava de deixar algumas cartas. Não... Os envelopes eram pequenos demais para que levassem consigo alguma surpresinha. Betty conhecia toda a Gotham, nem mesmo checava o endereço antes de avisar:
“É aqui. Ruby, quero que você troque de lugar comigo e comece a circular a casa até segunda ordem. Fique pronta para acelerar ou diminuir se eu precisar mandar. Sente-se em uma posição que facilite se abaixar.”
“Você está me deixando conduzir o Bettymóvel!?”
“Deixa de ser estúpida e vem logo aqui pra frente!” Falava com seu charme de mulher de caráter forte.
As duas se atrapalhavam um pouco para trocar de posição em um carro de teto tão baixo; Oldsmobile 88, modelo de 1956. Minutos depois de uma ronda em torno da casa, eis que surge um furgão colorido pintado com cores psicodélicas, prevendo o movimento hippie que só começaria em 66. Para Regina era uma inspiradora vanguarda, já Betty, achou de péssimo gosto e de uma extravagância ridícula. Os jovens de 2X anos de idade dentro do veículo seguiam a mesma linha estética.
“Oh! Que carro lindo! E que brotinhos!” Regina se empolgava.
“Atrás deles! São nossos homens!”
“O que? Como sabe que eles são os zumbificados?”
Abaixada no banco traseiro, Betty orientava-se a princípio à partir dos sons, como um morcego. Juntando um tanto de sangue frio, Regina pisa fundo no acelerador e choca o Oldsmobile no furgão maluco. Como se já esperassem por alguma ação, o compartimento traseiro do furgão abre violentamente, rompendo a trava, revelando homens-coloridos e armados. Lembravam vagamente um grupo palhaços de circo. No interior das portas abertas, pôsteres de Elvis Presley, Bob Dylan e das Twistelletes. Grunhindo agudo, Regina faz uma curva veloz e consegue escapar da primeira rajada de balas. O furgão se mantém parado, mas os canos das armas perseguiam o trajeto do carro de Betty.
“Regina!” Betty mantinha-se impassível, o que ajudava a pequena Grayson a também manter a calma. “Vá para trás da casa mais uma vez e pegamos eles na próxima cruzada.”
Para o olho nu dos fãs, elas se escondiam atrás da mansão ou tinham ido embora. Não tardaria para que dirigissem até a entrada para dar partida à operação ou se certificarem de que não haveriam mais intromissões. Betty usava o tempo para preparar sua longa arma magnética, deixando-a bem posicionada para fora do vidro. Como previsto, o furgão aparecia de frente, encontrando-as. Com um clique no gatilho, a arma produz um zumbido forte e começa a tremer, magnetizando o motor do carro colorido. Uma explosão sutil e uma fumaça, e então o carro inimigo está morto. Pelos cálculos de Betty, nove homens deveriam descer e sair atrás delas. A senhora Wayne rapidamente sacava a pistola de dardos e saia do carro.
Mas o primeiro deles seria derrubado por Regina, abrindo violentamente a porta do carro e em seguida distribuindo golpes de kung fu antes que ele a tirasse de dentro do carro. A mira de Betty era impecável, e deixou os oito restantes adormecidos.
Regina mantinha o que apanhara preso ao chão e Betty mostrava um meio-sorriso de esquerda.
“Agiu muito bem, criança. Precisamos de alguém acordado para começar a falar!”
A polícia de Gotham era estritamente impontual, mas sirenes já podiam ser escutadas. “Faxineiros”, Regina os chamava, acreditando piamente que chegavam rigorosamente tarde por pura preguiça. Antes que a herdeira dos Wayne se visse envolvida nesse estranho evento, tratou de socar o sujeito capturado no porta-malas do carro e correr para o banco traseiro. Já se habituando ao ritmo apressado das rondas noturnas, Regina tinha as mãos no volante.
“Dirija!” Ordena Wayne.
O interrogatório tomou lugar na caverna, em uma pequena encenação. Amarrado de costas, não pode ver o rosto de Betty, apesar de não mostrar interesse em momento algum conhecer com quem falava. Pensou ter sido detido por algo como investigadoras do estado. Betty e Regina conseguiram informações muito facilmente, e até parecia que o homem tinha uma ânsia por falar que sabia todos os detalhes na vida dos “profetas”, como ele chamava as idolatradas Twistelletes. Agora Regina anotava o nome do restaurante onde as garotas eram assíduas para cafés da manhã. O mais importante ponto, elas não haviam escrito nenhuma das letras, apesar de serem creditadas.
“Não, isso é fachada!” O fã dizia, “O empresário delas fazia todo o trabalho. Isso é mais comum do que pensa, poucos são compositores hoje em dia. Agora que eu disse o bastante, será que vocês podem fazer o favor de me soltar? Eu juro que estava fora de mim e não sabia o que fazia!”
“Senhorita Wayne, eu trouxe biscoitos!” Uma voz esganiçada de velhinha somada ao som de passos na escada.
“Ei! BETTY WAYNE! Eu pensei que fosse a polícia! Me tirem daqui!” O fã se sacode na cadeira.
“TIA HARRIET!” Regina não sabe com quem gritar. “E você garoto, fique quieto!”
Mas a senhorita Wayne não se achava mais na caverna. Antes que se dessem conta, desapareceu nas sombras.
“Oh, queridas... Alguém vai ter que comer esses biscoitos!”
Harriet se torna de repente uma velhinha triste. Tentava entender o que fizera de errado, mas seus pensamentos nublados não permitiam. Nostálgica, lembrava-se de quando os antigos Sr e Sra Wayne faziam grandes festas no salão da mansão, esbanjavam todo seu luxo e tinham planos de transformar aquela caverna em um grande espaço luminoso para jogos. Não conseguia entender porque Betty Wayne envelhecera tão rápido.
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