Mortos v2

1 Quando o fim é só começo


Notas iniciais
Diante de uma epidemia zumbi, um grupo de doze pessoas já passou por poucas e boas. Procurando o recomeço, será que eles encontrarão a tranquilidade que um dia tiveram? Encontrarão pessoas com o mesmo ideal de sobrevivência limpa que eles? É difícil. Mas o que é fácil em um mundo como esse?

''Caminhar, caminhar e caminhar. É o que temos feito desde que Careca planejou um ataque a mim, mas acabou encontrando as pessoas erradas. No final eu que acabei o surpreendendo, mesmo que quase morrendo, o vi agonizar e seus olhos implorararem por uma bala na cabeça, mesmo assim ela foi nas suas costas. Com certeza ele está sendo a refeição de algum zumbi, seja lá normal ou cardíaco, o que importa é que ele teve o que mereceu. Agora nós estamos em busca do que cada pessoa desse grupo merece: uma vida que beire a normalidade''. — José Godard

Ainda acho que esse Godard é o grande culpado de tudo isso– sussurrou Orácio para sua mulher Fernanda, cobrindo sua boca com as mãos, para que os outros não percebessem.

Mesmo assim, Godard já sabia que ele era o assunto na boca de todos que estavam ali, reunidos em uma caminhada que já durava dois dias.


– Aí careta, por que você não volta pra ''Turma da Mônica''? Ou então vem aqui em mim e fala o que você sussurrou pra tua mulher! — disse Godard em tom de desafio


– Por favor, não desçam o nível. Temos crianças aqui. — pediu Levir


Marcelo, o ex-Coronel da PM de São Paulo, observava e aguardava a hora em que ele deveria manifestar o seu desejo de manter Godard e Nico longe deles.


– Pois é, eu concordo com o Orácio. Vocês aí, Godard e Nico, deveriam estar bem longe daqui. Afinal de contas, tudo que aconteceu se deve ao fato de vocês dois terem chegado. Fora que ninguém aqui confia na dupla dinâmica. — opinou Marcelo, virando-se para Godard e encarando-o.


Em uma rápida resposta corporal, Godard jogou sua mochila no chão e desamarrou o seu coldre com seu facão.


– Talvez você queira discutir isso chegando um pouco mais perto. Você tá muito longe, não dá pra te ouvir claramente — respondeu Godard, já comprando briga com o policial.

– E quem você pensa que é pra pensar que tem alguma chance contra mim, seu inútil. Ninguém te conhece aqui. Só está conosco porque a minoria ainda tem esperança de que você não se torne uma pedra no nosso sapato. Quanto ao irmão problema aí, eu nem falo nada, só to esperando a sagrada hora de estourar os miolos dele. — continuou Marcelo com as ameaças


Nico puxou sua Besta na hora e a mirou no rosto de Marcelo, que estava do seu lado.


– Atira, vai! — gritou Marcelo — Se você for um homem de verdade, um larápio igual seu irmão, atira a merda dessa flecha! — pediu o policial


– Ele é meu primo. — corrigiu Nico, apontando a Besta pra um outro lado e acertando um zumbi que estava saindo de dentro da floresta. — Nem todos aqui merecem ter a vida prejudicada por causa de um cara que só se preocupa em tentar ser o mocinho. -


Um som conhecido veio a entrar no ouvido de todos que ali estavam: grunhidos de zumbis.


– Parem com isso. Temos preocupações maiores agora! — gritou Daniel, o irmão de Eve, sempre desesperado.


O grupo retornou a sua caminhada, mas dessa vez apressando os passos

30 minutos depois...


O grupo estava apressado para fugir da pequena horda que encontrara há alguns quilômetros dali. O cansaço que lhes abatiam já era conhecido, talvez até um costume pelo fato de andarem milhas e milhas por todo aquele tempo. O receio de Marcelo e seu grupo os impediam de pararem em qualquer lugar na beira da estrada. Porém, Elisa tinha a prioridade de cuidar do seu bebê, Júlio.


– Ali, tem um posto. — apontou Levir.


– Está anoitecendo. Precisamos parar, Marcelo — pediu Elisa.


Com a imensa ponta de interesse que Marcelo tinha por Elisa, ele seria capaz de mover montanhas pela ruiva. Só que seu egocentrismo falara mais alto.


– Não sei ao certo se devemos. Estamos totalmente expostos nesse lugar. — ressaltou Marcelo


– Sinceramente, estamos expostos só pelo fato de estarmos vivos — comentou o Missionário Dórian.


– Aleluia. Pela primeira vez na vida eu vou concordar com o Doritos! — ironizou Godard, errando o nome do religioso.


– É Dórian! — corrigiu.


– Que seja. O Capitão Nascimento aí pensa que nós somos atletas pra aguentarmos andar o dia inteiro. Esqueceu que temos crianças?! — disse Godard, lembrando das crianças que estavam no grupo.


– É engraçado. Você diz isso, mas há um tempinho atrás você queria matar um cara na frente delas. — falou Marcelo, relembrando do acontecimento de minutos atrás.


Godard ficou calado. Pudera, pois ele percebeu que estava sem moral pra falar de violência.


– Eu que não vou ficar andando. Zumbis não cansam, eu canso. — rechaçou Godard, indo em direção a porta da lanchonete do posto.


– O que você está fazendo?! — perguntou a Senhora Nana.


– Descobrindo se temos um ''Lar doce Lar'' aqui. — respondeu, dando socos na porta.

Nenhum som foi escutado após os socos. Com plena confiança, Godard destruiu as trancas da porta de vidro e entrou com a lanterna. Logo em seguida, Nico o acompanhou com sua Besta.


– Ao invés de coxinha, esfiha ou kibe, temos um monte de cérebro aqui no chão. E de graça. — disse Samuca, falando pela primeira vez após tudo o que aconteceu.


– Palavras confortantes. Com certeza não tinha melhores pra se dizer — ironizou Marcelo


Godard continuou caminhando lentamente pela pequena lanchonete. Ao chegar até o fundo dela, viu que o lugar estava seguro. Até aproveitou pra ler uma promoção que lhe chamou a atenção.

– ''Pague vinte reais e coma quantos hambúrgueres com ovo você quiser''. É, por isso que nem os zumbis vieram pra cá — debochou Godard.


Nesse momento, a porta da cozinha se abriu e dois zumbis o atacaram por trás. Godard conseguiu se esquivar e pegou um deles na base da facada. Com muita dificuldade, conseguiu cravar seu facão na cabeça do morto-vivo. Porém, a dificuldade lhe custara sua arma branca.

– Se abaixa! — gritou Nico, avisando sobre o outro zumbi e atirando com a Besta bem no meio de sua testa.


Godard olhou para Nico e agradeceu fazendo um sinal de positivo com a cabeça, que logo foi respondido da mesma forma.


– Você acabou com ele? — perguntou uma voz infantil


– Sim, acabei. Deveria ver como o rosto dele era feio! — brincou Godard, respondendo Aquiles, o garoto que ele encontrara há um tempo na estrada e então passou a cuidar do mesmo.


– Bom, acho que não tem mais nenhum comedor de Hambúrguer com ovo aqui. Podemos nos instalar — avisou Joel.


Algumas horas depois...


As velas estavam acesas e o grupo espalhado pela lanchonete. Nana e Dórian estavam com as crianças Aquiles e Olívia, filha de Orácio e Fernanda, que estavam conversando com Joel, Becca e Lua. Eve, irmã de Daniel e mais nova namorada de Otávio, estava com seu irmão e o amado.


No fundo da lanchonete, estava Elisa amamentando seu bebê e observando Godard, que também trocava olhares com ela. Este estava na mesa com Marcelo, Levir e Samuca. Nico estava isolado, fumando um cigarro na cozinha.


– Rio Grande do Sul. Haja o que houver, lá o clima é muito gelado e isso atrasa os zumbis. — opinou Marcelo, sobre um lugar que eles deveriam prosseguir viagem


– E morremos de fome, com todos os alimentos congelados? Desde que tudo isso aconteceu, o clima global mudou também. E agora sem meterelogia, fica difícil de saber onde está mais quente e onde está mais frio. Sinceramente, eu não sei. — opinou Levir também.


– Goiás. Lá é quente, tem muitas represas. Logo os zumbis cardíacos não iriam resistir a tanto calor e teríamos água, além de peixe. — disse Godard


– Peixe?! Sério?! Otávio é alérgico a frutos do mar. Não podemos colocar nossa única esperança medicinal em risco — respondeu Marcelo


– Esse moleque é alérgico a viver também, né? — ironizou Godard


– Reclamando do que? Esse irmão da Eve não é lá muito corajoso também! — retrucou Marcelo


– Aí você já discute isso com ele. Não to mantendo ele vivo só pra extrair algo dele, que nem certas pessoas aqui. Se quer mesmo o papel de herói, deveria preocupar-se com todos e não só com seus interesses. — rebateu Godard.


Rapidamente Marcelo levantou-se e abriu os braços, pedindo a atenção de todos.


– Ok, ok. Quem quer ir pro centro-oeste, conforme propôs o nosso querido José Godard?! — perguntou Marcelo em voz alta.


Conforme o esperado, ninguém se manifestou. Nem mesmo Levir, Samuca, Daniel, Eve, Dórian ou até mesmo Nico. Godard olhou para o rosto de seus amigos e abaixou a cabeça como se estivesse surpreso


– Mas calma aí Marcelo. Não precisa ser assim! — se manifestou Elisa, provavelmente querendo ficar do lado de Godard.


– Por favor, não me interrompa. — pediu Marcelo. — Já que ninguém quer ir pro Centro-Oeste, me diz quem é a favor de seguirmos para o Sul?! — perguntou Marcelo


Lentamente, as mãos foram sendo levantadas até pelos amigos de Godard. Algo que o deixou completamente furioso.


– Tá certo. Vocês podem ir pro Sul, pro Sudeste, podem ir pra puta que pariu também. Amanhã cedo eu vou ir pra Goiânia, mesmo que seja sozinho, eu vou. Fiquem aí com o soldadinho de chumbo. — disse Godard em fúria, antes de ir para o lado de fora do posto.

Já do lado de fora, Godard fica escorado em uma bomba de gasolina e pensando na vida, sobre seu passado, sobre o grupo e sobre o seu futuro. De repente ele sente algo puxando sua camiseta, e logo trata de tirar o facão do coldre e se virar rapidamente.


– Sou eu! — gritou Aquiles.


– Fala baixo. Quer chamar a atenção dos zumbis? — alertou Godard


– É que você tirou o facão e me assustei. — explicou o garoto


– Relaxa. Eu também fiquei um pouco assustado. — respondeu Godard, colocando o facão novamente em seu coldre. — Enfim, vai lá pra dentro. Vou ficar aqui de vigia. É perigoso você ficar aqui fora a essa hora.


– Quando vou poder ficar de vigia? — perguntou inocentemente


– O dia que que não vai ser hoje, nem amanhã, nem depois. Enfim, entra logo moleque. O Doritos vai te fazer dormir.


Aquiles voltou para a lanchonete dando risada pela confusão com o nome de Dórian. Enquanto isso, Nico passou por ele com sua Besta pendurada no ombro. Ele estava indo em direção a Godard.


– E aí. — disse Nico, estendendo a mão oferecendo um cigarro a Godard.


– Opa. Não, to sem costume. Valeu. — agradeceu, logo retomando a atenção para a estrada.


– Como que estamos? Algum loucão até agora? — perguntou Nico.


– Loucão? — respondeu Godard com outra pergunta.


– Sim. Quer dizer, me desculpa, quando eu estava com o Careca...você sabe, ele era cheio de gírias. — explicou.


– Ah, o Careca. Me pergunto como vocês se encontraram e por que você nunca voltou pra Vila. — disse Godard, com muita curiosidade sobre tudo que aconteceu.


– Se soubesse o ódio que meu primo sentia por você, se recusaria a perguntar o motivo de nunca termos voltado pra Vila. Estávamos no laboratório do controle de doenças. Ele tinha me encontrado e me salvado de uma horda de zumbis. Depois disso ele me fez prometer que nunca mais ficaria longe dos olhos dele, pois ele não queria perder mais familiares.


– E você tentou fazer a cabeça dele? — perguntou Godard, ficando cada vez mais curioso.


– Todos os dias. Mesmo assim ele se recusava a me ouvir. Então encontramos um grupo de motoqueiros na estrada. O líder deles resolveu bater de frente com o Careca, pedindo nosso Jeep. Pra quê...o Careca acabou com ele em questão de segundos e foi aí que os outros se juntaram a nós dois. Todos os dias o Careca fazia com que jurássemos lealdade a ele. Foi se tornando uma espécie de líder, e nós, os comandados dele. Os dias se passaram e um dos motoqueiros não aguentou as ordens do meu primo. -


– Ele se matou? -


– Antes fosse. O Careca fez com que o cara desejasse ser morto. Ele...ele estuprou o cara na frente de todos nós. Os dias se passaram e o Careca se lembrou de você ao ver o Samuca e os outros em um hospital antigo. Sequestrou eles e tudo isso aconteceu.


– Ainda bem que você chegou a tempo de meter uma bala nas costas dele. Você salvou minha vida Nico. Eu só...obrigado. — agradeceu Godard, sem saber para onde olhar.


Godard sabia que, naquele grupo, não havia ninguém mais que ele pudesse se abrir de forma sincera. Os outros com certeza lhe incriminariam por algo ou então o olhariam com uma certa desconfiança, mas apenas Nico entenderia o que Godard fez até agora e porque o fez.


– Só nos livrei de um problema maior. Se Careca tivesse te matado, talvez não estaríamos aqui agora. Ele voltaria e faria questão de matar todos, mas não sei se teria coragem de me matar. Eu não sei o que o Careca faria comigo se ele estivesse vivo nesse exato momento. Ele tem coragem para muitas coisas, mas pra isso eu tenho minhas dúvidas.


– Que bom que você o matou então. Já temos problemas demais! — disse Godard, esboçando uma risada.


E o dia tão problemático acabara ali. Godard, como sempre, ficara acordado, enquanto o resto do pessoal tentava acreditar que poderia dormir com os dois olhos fechados, sem estar preocupado zumbis.

No dia seguinte...

Godard estava adormecido; escorado na bomba de gasolina, como se fosse um zumbi largado. Não durou por muito tempo, até que Aquiles foi te acordar.


– Ei, Godard! — chegou o menino todo animado — Acorda, por favor, acorda! — implorava o menino.


Godard, mais uma vez assustado, acordou desesperado e tirando o facão de seu coldre e direcionando na posição em que Aquiles estava.


– Não! — gritou o menino, chamando a atenção dos outros sobreviventes do grupo.


– Que merda, Aquiles! — disse enfurecido — De novo?! O que você quer agora, moleque?! — perguntou furioso.


– Eu só...eu só... — Aquiles tentou responder, mas foi perdendo a coragem.


– Vai. Faz o que você quiser. Eu não sou seu pai! — respondeu Godard, com tamanha grosseria.


E assim foi. Aquiles correu em direção a Dórian e Nana. Talvez o garoto só quisesse brincar e, como Godard era a sua única referência paternal, ele foi pedir permissão. O garoto foi aos prantos com o padre e a já cinquentinha Nana.


Godard entrou na lanchonete e viu os olhares se voltarem para ele. Até que Levir se aproximou.


– E aí. Como vai ser? — perguntou o pai de Elisa.


– Como já deveria ter sido. Vou pra Goiás. — respondeu Godard totalmente decidido.


– Eu também vou. — disse Nico, ajeitando a Besta em seu ombro e apenas esperando Godard.


Marcelo parecia gostar da situação, assim como os outros do grupo dele. Era nítido que ninguém gostava de Godard e muito menos de Nico.


– Você não pode fazer isso, Godard! — insistiu Elisa


– Pensasse nisso antes de abaixar a cabeça pro soldadinho de chumbo aí. — retrucou Godard.


De repente, a porta dos fundos se abriu e Nana entrou gritando.


– Meu deus, meu deus. Ele sumiu! — gritou desesperada.


– Ele sumiu, Godard. Eu estava com ele até agora, eu virei as costas e ele sumiu. Meu pai do céu, não me conceda essa tragédia! — completou Dórian desolado.


– O que diabos aconteceu?! — perguntou Godard entrando em desespero também.


– O Aquiles...ele sumiu! — respondeu Dórian.