O que já era ruim, agora tinha piorado. Godard e seu desentendimento com metade do grupo fez com que ele marcasse sua viagem para Goiás o quanto antes, mas o sumiço repentino de Aquiles mudou completamente os seus planos. Mesmo tendo dado um sermão no garoto há pouco tempo, Godard agiu como se nada daquela bronca tivesse acontecido. Por sua vez, Dórian tentara explicar de uma maneira que não fizesse com que Godard ficasse em fúria.


– O Aquiles o que?! — perguntou Godard, tentando não acreditar no que acabara de ouvir.


– Sim, ele sumiu. Nós estávamos com ele lá atrás, ele pediu privacidade para fazer xixi e então... — respondeu Dórian, interrompendo suas próprias palavras.


– Fala logo antes que eu te faça engolir os dentes! — ameaçou Godard.


– Godard! — gritou Levir, tentando repreender Godard por causa da ameaça.


– Fica quieto aí, cabeça branca! — rebateu Godard — Eu quero que esse cagão me diga o que aconteceu com o garoto. Você o conhecia também, como pode fazer isso?! — continuou a gritar Godard.


– Ele pediu para fazer xixi, eu e a Dona Nana deixamos ele fazer o que ele queria. Quando voltamos, ele não estava mais lá. — explicou Dórian

– Se isso aconteceu agora há pouco, ele não deve estar muito longe! — disse Godard, colocando uma pistola em seu coldre e pegando uma faca para segurar.


Godard saiu rapidamente do posto e foi em direção a mata. A partir daquele momento, todos se olharam e todas aquelas pessoas pareciam ter algo para dizer, inclusive Marcelo.


– Se tem uma hora que precisamos partir, essa hora é agora. Quem está comigo? — perguntou Marcelo.


Óbviamente, todos do grupo de Marcelo levantaram as mãos. Apenas Eve, Daniel, Samuca, Levir e Dórian não concordaram em partir, o que logo foi explicado pelo Missionário.


– Partir para onde? Só se for em busca do garoto, né?! Olha, todos nós sabemos que vocês odeiam o Godard e o Nico, mas não é isso que está em jogo e sim a vida de um garoto tão indefeso. Precisa repensar seus conceitos, meu caro Marcelo.


– Seja realista, Dórian. Esse garoto pode até ter sumido, mas e se tiver morrido?! — questinou Orácio.


– E se fosse a sua filha no lugar dele?! — perguntou Samuca, enfurecido com o pouco caso de Orácio.


Orácio rapidamente saiu de onde estava para tentar confrontar Samuca, mas logo foi impedido por Marcelo.


– Não briguem, rapazes. O Dórian está certo. Não temos só uma criança no grupo, muito menos só um adulto. Ninguém precisa pagar pelos erros que nós mesmos cometemos. Dórian e Nana podem até terem errado por não prestarem tanta atenção no Aquiles, mas mesmo assim aconteceu e agora esse garoto pode estar lá fora e precisando da nossa ajuda. Se ficarmos brigando, não vamos a lugar algum! — opinou Elisa.


Por se tratar de Elisa, Marcelo logo concordou com a ruiva.


– Ela tá certa. Um grupo não se resume a uma só pessoa. Devemos ir atrás do Aquiles! — ordenou o ex-coronel.


O grupo não resumia a uma pessoa até a Elisa começar a falar...– sussurrou Becca para Lua.

Rapidamente Marcelo formou os grupos que iriam para a floresta em busca de Aquiles. A formação ficou a seguinte: Otávio e Eve; Joel e Dórian; Lua, Samuca e Becca; Elisa e Levir, Orácio e Marcelo. Nana, Daniel e Fernanda ficariam no posto tomando conta de Olívia e Júlio. Porém, algo estava errado.


– Ué, cadê o Nico?! — questionou Marcelo, reparando que ele não estava ali.


– Deve ter se juntado a algum grupo de saqueadores. — debochou Orácio


– Ou então fazendo mais coisa do que alguém que só sabe falar. — provocou Samuca.


– Rapazes, parem já com isso. Precisamos ir imediatamente. Não temos mais tempo a perder! — gritou Elisa, dando um basta na discussão.


– Mas espera um pouco... — disse Becca, logo iniciando mais uma de suas implicâncias.


– O que foi agora, Becca?! — perguntou Lua, impaciente com a parceira de apocalipse.


– Só quero entender o motivo do Senhor Maneta ter que ir conosco. Não fica desproporcional isso?! — questionou a mulher.


– Bem, o Nico poderia fazer a dupla com o Samuca, mas ele saiu sem mais nem menos. Além disso o Samuca sabe onde podemos encontrar o Godard e, consequentemente, acharmos o Aquiles. Nós vamos encontrar esse garoto! — explicou Marcelo, se demonstrando muito firme no que estava fazendo.

As duplas e o trio saem na busca de Aquiles e Godard


No posto, Daniel tinha a tarefa de ficar cuidando de Fernanda, Nana, Júlio e Olívia. Porém, essa tarefa não lhe era tão convencional, já que sua irmã estava lá fora com o namorado e, nessa hora, tudo se passara pela sua cabeça.


Olhe só para ele. Tão bunda mole que ninguém nem pensou em escolhê-lo.– sussurou Nana para Fernanda, seguindo de uma risada de quem estava tricotando numa tarde até então calma.


Daniel percebera que era o assunto na conversa das duas e rapidamente tratou de defender-se.


– Pelo menos não sou tão inútil a ponto de ser designado para cuidar de crianças. — retrucou o garoto.


– Por que você não fica na sua, seu machista?! Lembre-se que você também é uma criança e estamos tomando conta de você. Só que isso não significa que somos obrigadas a aguentar alguém tão machista! — esbravou Fernanda.


– Você não sabe nem segurar uma arma, sua vaga... — disse Daniel, logo interrompendo suas palavras ao olhar para as crianças.


– É bom que meça suas palavras mesmo, estúpido. Não passará despercebido. O Marcelo ficará sabendo! — avisou Fernanda.


Samuca, Becca e Lua estavam andando. Becca fazia de tudo para ficar lado a lado com Lua, mas ela fazia questão de esperar o desacelerado Samuca. Isso já estava deixando Becca enfurecida.

– Você, além de não ter uma mão, não tem um dos pés também?! Parece uma lesma! — disse Becca, sem ao menos pensar nas palavras que estava proferindo.


Samuca olhou de relance para Becca, mas logo retornou a ficar cabisbaixo. A mulher riu da própria graça que fizera.


Becca, você pode parar de ser sem noção?! O cara não te fez nada!– insistiu Lua, repreendendo Becca.


Ele está querendo tirar você de mim!– explicou, revelando estar com ciúmes.


Eu não sou sua. Nunca fui!– rebateu Lua.


De repente Samuca interrompeu seus passos. Lua percebeu e também parou, menos Becca, mas propositalmente.

– Esperem! — pediu Samuca.

– O que foi agora?! — perguntou Becca, estressada.

– Alguém esteve aqui! — cravou Samuca.

– Como sabe? Virou vidente?! — debochou Becca.

– As pegadas. Elas estão se sobrepondo. Percebam, elas estão em direção normal e depois variando em zig-zag! — explicou Samuca.

– Eureca. Zumbis! — respondeu Becca.


– Deixa ele falar. Para de ser chata, Becca! — implorou Lua.


– Não, não são zumbis. Se fossem zumbis, as pegadas iriam se sobrepor a cada passo, mas não é o que aconteceu. Ou alguém veio andando contra a própria vontade, ou então estava mal demais para uma longa caminhada pela floresta! — disse Samuca se empolgando e gesticulando muito — Olhem só para as árvores. A maioria está preenchida por marcas de mão. Acho que nossa pista está esquentando muito! — completou ainda mais animado.


– Você tá viajando, isso sim. — comentou Becca, antes de sair andando.


Lua andou até o lado de Godard e parou. Então começou a observá-lo.


– Sabe, você é muito inteligente. Você é um verdadeiro sobrevivente. Você é um bom homem, Samuca! — elogiou Lua.


Ao ouvir isso, Becca olhou para trás e encarou Samuca. Ele tratou de mudar o assunto.


– É...talvez eu seja...quer dizer...obrigado. Então o que você fazia? — perguntou Samuca, voltando a caminhar.


– Bom, sua pergunta é muito relativa, mas eu entendi. Eu era assistente de uma bióloga marinha. Eu estava estudando para ser uma bióloga e a parte de assistente vinha nesse pacote. — respondeu. — E você?


– Eu costumava dar muito trabalho para minha irmã mais velha. Enquanto ela ralava para me sustentar, eu fingia que iria tomar um rumo na vida, mas ficava assistindo seriados o dia inteiro. Gostava daqueles de que explicavam como você estudar uma pista e encontrar o tesouro. Cara, era demais! — exclamou.


– Pelo menos a sua vida mansa te ajudou um pouco, né?! — brincou Lua.


– Pra você ver, né?! Eu era um bom vagabundo! — entrou na brincadeira. — E quanto a ela?! — perguntou Samuca.


– Becca? Bom, eu a conheci no laboratório em que eu trabalhava. Não sei dizer com o que ela mexia, mas sempre encontrava ela lá. Uns diziam que ela ia lá para matar a saudade da namorada que...morreu num acidente bioquímico. — explicou Lua.


Imediatamente, Becca se virou para trás e foi em direção aos dois.


– Já chega. Vocês estão me perturbando com esses cochichos. Ou vocês param por bem, ou eu vo... — foi interrompida por um zumbi que apareceu de trás de uma árvore.


Em uma atitude de total reflexo, ela se esquivou do morto-vivo e o jogou no chão. Na sequência começou a dar pisões em sua cabeça. Mas não era apenas um zumbi, e sim, um pequno grupo de seis deles.


– Não fiquem parados, pombinhos! — gritou Becca, provocando Samuca e Lua.


Rapidamente, Samuca tirou seu falcão do coldre e já espetou na cabeça de um dos zumbis. Becca matava a maioria e Lua, mesmo que desajeitada, conseguia se virar.


– Estão acabando. Continuem! — ordenou Becca.


Um zumbi foi pra cima de Samuca, mas logo ele enterrou o facão em sua cabeça. Porém, o facão não queria sair da cabeça do morto e em um piscar de olhos Samuca estava em problemas.


– Socorro. Tire-o de cima de mim! — gritou Samuca, olhando para Becca, que percebera a situação, mas nada fez.


Samuca não iria resistir. Sua única mão estava tentando impedir que o zumbi cravasse seus dentes em seu ombro, sendo que ao mesmo tempo estava presa no cabo do facão. Foi só ele piscar e pronto...Lua deu uma martelada na cabeça do zumbi que estava em cima de Samuca.


– Meu Deus. Ele te mordeu, arranhou?! Desculpa, foi erro meu! — desesperou-se Lua.


– Fica tranquila, Lua. O erro não está nem perto de ser seu. — respondeu Samuca, fixando seu olhar para Becca, que também o encarou enquanto vira-se para voltar a caminhar.

Godard era mais um que estava desbravando a floresta. Sua única ''companhia'' era a sua Beretta e seu indispensável facão. Desde que ele saiu do posto, ele percebera que alguém estava o seguindo. Sempre que olhava para os lados, reparava em uma certa movimentação. Ele tentara não se distrair.


Depois de uma caminhada cansativa, Godard descobriu uma cabana. Ele olhou para o chão e logo viu pegadas que se sobrepunham umas às outras. No fim das pegadas, havia um pedaço rasgado de uma camisa.


– Bingo! — disse para ele mesmo.


Godard seguiu as pegadas até chegar na frente da cabana. Entre entrar silenciosamente ou entrar sem calmaria, ele preferiu chegar chutando a porta e já averiguar tudo que houvesse naquela cabana.

– É, não tem nada aqui! — disse decepcionado e guardando o pedaço da camisa rasgada no seu bolso.


De repente Godard ouviu passos velozes atrás dele. Ele virou para trás e não viu nada novamente.


– Quem está aí?! — gritou começando a se envolver com a situação.


Um zumbi apareceu pelas suas costas e, quando ele se virou para tentar matá-lo, foi surpreendido por uma flechada certeira no descerebrado. Era Nico com sua Balestra.


– O que significa isso?! Quer me matar do coração?! — perguntou Godard assustado.


– Eu sei que não tenho nada a ver com esse moleque, mas eu tenho certeza: ele não foi embora por vontade própria, por birra ou coisa do tipo. Ele não sumiu, foi raptado! — opinou Nico.


– Por que acha isso?! — perguntou Godard, começando a ficar curioso.


– Primeiro que temo um monte de pegadas se sobrepondo e não se sobrepondo pela floresta. Aí chegamos aqui e encontramos esse pedaço rasgado de uma camisa infantil. Seria muita coincidência ter duas crianças sumidas a essa hora e no mesmo lugar. — explicou.


Os dois começaram a ouvirem vozes vindo de dentro da floresta. Eles se abaixaram e perceberam que era Joel e Dórian.


– É com ele mesmo que eu vou tirar satisfação! — esbravejou Godard, apontando para o Padre.


Ele saiu da cabana e foi pra cima de Dórian. Joel e Nico tentaram separar, mas Godard não saía de cima do Padre.


– Saia de cima de mim, seu pecador! — gritava Dórian.


– Você foi o culpado pelo sumiço dele. Se tem alguém aqui que pecou, esse alguém é você! — continuou a gritaria, mas agora saindo de cima do Padre.


Dórian se levantou e limpou sua camisa que estava suja de terra.


– Primeiro que eu tenho Deus no coração e jamais serei um pecador. Segundo que, você é o único que pode ser o mais responsável pelo garoto. Não foi ele que te encontrou e sim você que o encontrou. — falou Dórian


Godard apenas encarou Dórian e ficou cabisbaixo.


– Não to dizendo que a culpa é sua, filho. Só que aquele garoto tinha apenas você como um ponto de confiança. Depois do que aconteceu com o pai dele, você foi a referência maior para ele e você não pode escolher isso. Quer dizer, você pode, mas não quer escolher, pois sabe que teria que fazer uma coisa terrível para mudar isso. Esse garoto tá aqui fora precisando de ajuda e o que menos precisamos é de conflitos. — completou o Padre.

Era tarde da noite. Estava muito frio e a única fonte de calor era uma fogueira, cercada por Godard, Aquiles e o cachorro Goiaba.

– De onde vem tanto frio?! — perguntou Aquiles, tentando se aquecer no esfregar das mãos.

Godard por um minuto parou de cravar sua espada no chão. Ele olhou para Aquiles, se levantou e entregou seu casaco para o garoto.

– Isso deve resolver o problema. — disse, voltando a sentar-se.

– Obrigado, Senhor Godard — agradeceu Aquiles de maneira formal

– Eu estou tão ruim assim?! — perguntou Godard em tom de brincadeira

– Não. Desculpa. É que meu pai sempre disse para eu tratar bem as pessoas que eu não conheço e, de certa forma, me ajudam. — explicou o garoto


– Só não me chame de ''Senhor''. Mesmo que eu não acredite nessa palhaçada de igreja, ''Senhor'' está no céu. Eu sou só um...um... — disse Godard, tentando se definir.


– Um cara muito legal! — completou o garoto.


Godard retornou ao seu passatempo de ficar enfiando seu canivete no chão e retirando-o logo em seguida. Em questão de segundos, Goiaba deu um bote na mão de Godard.

– Seu vira-lata lazarento! — disse enfurecido, se levantando para atacar o cachorro impulsivamente.

Godard parou e olhou para Aquiles, em seguida guardou o canivete em seu coldre. Timidamente se assentou no tronco em que estava.

– Você ia machucá-lo?! — perguntou Aquiles curioso

– Foi sem querer. Não pensei nisso. Não viaja garoto! — respondeu Godard, tentando se esquivar das perguntas do garoto

– Entendi. É que meu pai era veterinário e líder de um movimento que combatia a violência contra animais. Seria estranho, pois você não me lembra muito ele, se fizesse isso então... — comentou o garoto

– Como assim ''não lembro ele''?! — perguntou Godard sem entender

– Sim, ué. Você não lembra nada do meu pai. Só que você pode ser alguém melhor que ele, tenho certeza que sim. — respondeu o garoto.

Imediatamente, Godard se levantou e começou a olhar indignado para Aquiles.

– Quem você acha que eu sou?! Algum parente seu?! Você está ficando maluco, garoto. Eu nunca fui pai de ninguém e nunca vou ser pai de ninguém. Você sabe o que é ter um pai, não é?! Agora você vai saber o que é não ter um pai! — começou a se exaltar Godard. — Você vive com a esperança de que um dia isso mude, enquanto todos a sua volta te olham estranho. Ter que aprender a se virar sozinho, pois ninguém vai te estender a merda da mão. Você sabe como é o mundo lá fora?! Não?! Pois agora você vai aprender da pior maneira possível, porque você está sozinho! — continuou gritando.

Aquiles ficou boquiaberto, enquanto olhava fixamente para Godard. Godard encarava Aquiles enquanto estava ofegante. Goiaba era apenas um telespectador.

– Você tem razão: você nunca será meu pai. Meu pai não era mal que nem você. Eu te odeio! — rebateu o menino, logo depois correndo em direção a floresta.

Goiaba se empolgou com a correria de Aquiles e saiu corrento atrás do garoto, enquanto latia, pensando que era uma brincadeira.

Godard começou a correr atrás do menino, para impedir que ele sumisse em meio a escuridão e então chamasse a atenção dos zumbis ao redor.

– Volta aqui, fedelho! — gritou Godard.

Marcelo e Orácio caminhavam por uma estrada de terra, localizada perto da floresta. Como os dois eram os únicos que mais queriam a exclusão de Godard e Nico do grupo, era mais do que óbvio o assunto deles na caminhada em busca de Aquiles.


– Tem certeza de que devemos fazer isso? — perguntou Orácio.


– Fazer o que? — respondeu Marcelo com outra pergunta.


– Procurar esse garoto. Ele sequer tem uma família, Marcelo. A única pessoa que tem uma ligação a ele é o Godard, mas se não encontrarmos o garoto, o Godard vai embora e, caso o garoto apareça depois, vai ser só ele. Vale a pena? — questionou Orácio com seus argumentos nada convincentes.


– Temos uma regra na polícia: buscas por pessoas desaparecidas precisam durar pelo menos 72 horas. Menos que isso, não devemos interromper as buscas, a menos que apareça alguma evidência de morte. — explicou Marcelo.


– Temos? Cara, não existe mais essa de ''regras da polícia''. O mundo acabou, não tem mais regras a serem seguidas! — disse Orácio indignado.


– Se quiser ir embora, vá. E outra, você não concordar em seguir regras, mas ao menos existe alguma humanidade aí dentro de você?! — perguntou Marcelo, dando um tapa no peitoral de Orácio.


Orácio ficou intimidado com as palavras de Marcelo e nem se propôs a questionar mais. Ele mostrava o quanto era covarde diante de pessoas mais fortes e mais determinadas que ele.

Otávio e Eve já estavam numa caminhada bem longa. Já tinham até saído da floresta e chegado no pé de um morro. Então decidiram parar para um descanso.

– Andamos muito. Precisamos de um descanso, se não a gente não chega nem na metade do caminho. — disse Otávio.


– E aonde vamos? Não iríamos apenas vasculhar os arredores para tentar achar alguma pista sobre o Aquiles? — questionou Eve.


– E estamos fazendo isso. Falei isso porque ainda precisamos voltar para o posto e você sabe que o caminho não é tão curto assim. — respondeu Otávio.


Os dois se olharam apaixonadamente e deram um beijo.


– Não importa o que aconteça. Eu vou estar sempre do seu lado! — disse Otávio.

Eve o olhou fixamente. Otávio ficou esperando uma resposta, já que depois de dizer aquilo, seria broxante ele não ouvir nada.


– Você não vai me dizer nada? — perguntou Otávio.


– Você sabe que eu também quero estar do seu lado. — respondeu a menina


Otávio soltou Eve, virou-se para trás e olhou para cima. Estava pensante.


– O que foi, Otávio? Eu não fiz por mal. — desculpou-se a irmã de Daniel.


– Eu não te entendo, Eve. Você diz gostar de mim, mas age totalmente diferente. Eu não sei...realmente não sei.


– Não sabe o que?! — perguntou a menina, bastante curiosa com o que estava a dizer Otávio.


– Casa! — gritou o ex-estudante de enfermagem.


– Oi?! — perguntou sem entender.


– Ali no alto do morro. Uma casa! — respondeu.


E realmente, no alto do morro havia uma casa. Muito grande por sinal, toda feita de madeira e aparentemente aconchegante. Da chaminé, estava saindo uma fumaça, o que logo indicava que havia gente ali.


– Vamos subir lá? — perguntou Eve.

– Se quiser ficar aí parada... — debochou Otávio, iniciando mais uma caminhada, mas dessa vez até a tal casa.

No posto, Nana e Fernanda tricotavam roupas para Júlio. O tempo passara muito rápido e o garoto estava crescendo. Enquanto isso elas batiam um papo bem longo, além de fofocarem também.

Olhe só para isso. Parece aqueles franguinhos tentando ser um galo.– sussurrou Nana, falando de Daniel.

Daniel não era surdo e percebeu que era assunto na boca das duas. Então não demorou que se exaltasse.


– Sua velha gorda, qual o seu problema?! Vocês me julgam, mas não sabem fazer merda nenhuma. Se fofocar ajudasse a sobreviver, vocês seriam as únicas no mundo. Vocês não passam de um peso morto nesse grupo. — desabafou Daniel.


Fernanda pegou o revólver deixado por Orácio e rapidamente apontou para Daniel. Como reflexo, ele tirou uma pistola de seu coldre e também apontou para Fernanda.

– Parem já com isso! — gritou Nana, entrando no meio do confronto dos dois. — Temos duas crianças aqui, vocês não percebem?! — gritou exaltada.


– Se você não fosse uma velha fofoqueira, talvez isso não estivesse acontecendo! — rebateu Daniel.


Nana fitou Daniel, quando a porta da frente começou a ser esmurrada. Todos ficaram em silêncio pensando que fossem zumbis ou então alguém tentando invadir.

– Socorro, socorro! — gritou uma voz infantil.

Nana correu para abrir a porta, sem ao menos pensar.


– Nana, não! — gritou Daniel.


Ela abriu a porta e então zumbis adentraram. Nana se foi ao chão e sentiu na pele o que era ser devorada por aquelas criaturas. Era o fim da Dona Nana.

Outros zumbis entraram e foram de encontro a Daniel e Fernanda. Daniel criou uma barreira com mesas e cadeiras.

– Corre pra cozinha com as crianças. Eu cuido disso! — gritou o garoto.

– Não. É perigoso aqui! — respondeu Fernanda.

– E é seguro em algum lugar?! — ironizou o irmão de Eve.


Fernanda pegou sua filha Olívia e o filho de Elisa, e então entrou na cozinha para se esconder. O número de zumbis era muito grande, será que Daniel aguentaria, ainda mais sendo ele um inexperiente matador de zumbis?

Godard, Nico, Joel e Dórian ainda estavam na frente da cabana. Após toda aquela discussão, eles pareciam ter chegado a um consenso. Só que nada seria fácil: um grupo de zumbis também encontrou eles ali dando sopa.

– Deus todo poderoso, tenha piedade de nós! — implorou Dórian desesperado.


Godard começou a ficar zonzo e então passou mal.

A correria entre as árvores era intensa. Sem uma lanterna para ajudar, Godard tinha apenas o auxílio da luz da Lua. Ele consegue ver um zumbi zanzando entre as árvores, e então se esconde atrás de uma delas.

– Arghh! — ouviu Godard, percebendo que um zumbi havia o pegado pelo braço.

– Seu pedaço de bosta! — disse Godard enfurecido.

O rapaz pegou o morto pela gola da camisa e começou a chocá-lo contra a árvore, até que seu cérebro fosse danificado o suficiente para matá-lo.

Noite de surpresas mesmo. Mais dois zumbis apareceram por trás de Godard e então o encurralou na árvore.

– Filhos da puta. Saiam! — gritou Godard, tentando manter as criaturas distante com suas mãos.

De repente Godard vê que um dos dois zumbis está com a atenção voltada para outra coisa, que é Goiaba mordendo sua perna. Ele aproveita e mata um dos zumbis, com uma cravada de canivete bem dada!

– Aí está você, garoto! — alegrou-se Godard.

Porém, Godard percebeu que Goiaba ficou quieto rapidamente. Ele olhou para o chão e viu o zumbi mordendo o pescoço do cachorro.

– Seu desgraçado!

Godard pegou o zumbi pelas costas e arrebentou seu pescoço na árvore.

– Ahhh, Goiaba... — lamentou Godard, enquanto acariciava o cachorro em seu leito de morte.

– Ele está bem? — perguntou uma voz familiar.

Era Aquiles. Godard imediatamente foi na direção do garoto e parou em sua frente.

– Bem?! Seu showzinho custou a vida do pobre cachorro. Ele era tão inocente quanto você, mas a sua vontade de aparecer foi maior do que você o teu sentimento pelo coitado. Sua falta de querer enxergar a realidade foi o que o matou. Agora olhe só para ele: jogado, mordido e sem entender o que aconteceu com ele! — esbravejou Godard.

Aquiles mais uma vez foi às lágrimas com as duras palavras de Godard. O estresse dele era muito pesado para o garoto aguentar.

– Aconteça o que acontecer...não chore. Você é forte demais para isso. — disse Godard, tentando normalizar a situação.

O dia amanheceu e Godard já estava enterrando Goiaba. Ele jogou a terra em cima do buraco que tinha feito com as mãos. Era um duro momento.

– Ei... — disse Aquiles, cutucando Godard.

O garoto entregou uma goiaba para Godard. Ele se agachou e colocou a fruta sobre o túmulo improvisado do cachorro.

– Uma goiaba para o maior comedor de goiabas que eu já conheci. — disse Godard, em tom de despedida.

– Ei, Godard. Tá aí?! Acorda, Godard! — gritava Joel desesperado, enquanto o sacudia.

Godard se levantou e logo cravou o canivete em um dos zumbis que se aproximavam dele.

– Você esta bem?! — perguntou Nico, enquanto dava um tiro de balestra em um dos zumbis que apareceram.

– Espero ficar! — respondeu Godard, enquanto acompanhava Nico na matança.

A situação no posto estava cada vez pior. Os zumbis não paravam de entrar pela porta. Até que uma mão pegou a canela de Daniel por debaixo das cadeiras e mesas, e então o derrubou. Era um zumbi.

– Droga, droga, droga! — gritou Daniel.

Quando ele estava prestes a ser mordido, ouviu barulho de tiros. Era o grupo que estava voltando e salvando sua vida.


– O que aconteceu aqui?! — perguntou Marcelo, enquanto atirava na cabeça do último zumbi que ali estava.


– Eles apareceram de repente. Não sei como explicar! — respondeu o garoto.

– Essa não... — lamentou Joel, enquanto olhava para o corpo de Nada todo estraçalhado.

– Droga, Nana... — lamentou também Marcelo, ficando cabisbaixo.

– E cadê a Fernanda?! Olívia?! — perguntou Orácio desesperado.

– Estão escondidas na cozinha! — respondeu Daniel.

Todos que voltaram — exceto Eve e Daniel — estavam reunidos ali e perceberam que todos também foram atacados por grupos de zumbis.

– Nós também fomos atacados! — disse Elisa, enquanto todos repetiam a mesma frase.

– Mas espere aí...cadê a Olívia?! — perguntou Levir.

– Ela está com a mãe na cozinha, já falei! — respondeu Daniel.

De repente Orácio saiu de dentro da cozinha, carregando Fernanda nos braços e sem nenhum sinal de Olívia. Lágrimas escorriam de seus olhos.

– A Olívia...a Olívia...levaram...levaram...minha princesa... — tentou dizer o que tinha acontecido, mas sem condições de falar.

– Ah, isso não pode estar acontecendo! — disse Marcelo indignado. — E a Fernanda?! — perguntou Marcelo.

– Ela está desmaiada. Parece que alguém a golpeou na cabeça! — respondeu Orácio, ainda aos prantos.

– Calma, nós iremos achá-la. Quem fez isso não está muito longe! — disse Marcelo, recarregando sua pistola.


Godard saiu andando para fora do posto. Rapidamente Marcelo foi atrás dele e parou em sua frente.

– Mas aonde você pensa que vai, maluco?! — perguntou Marcelo, sem entender o que Godard queria fazer.

– Preciso fazer uma viagem! — respondeu, sem olhar nos olhos do ex-Coronel da polícia.

– Você não vai a lugar algum! — rebateu Marcelo.

– Tenta me impedir e você vai se arrepender de ter nascido, soldado de chumbo! — retrucou Godard.


– Marcelo, deixa. Godard está indo ao lugar certo. — disse Dórian, parecendo saber o que Godard queria e iria fazer.


Godard parte pela estrada e todos ficam olhando para ele pelas costas.


– E minha irmã? — perguntou Daniel.


– Ainda não chegou, filho! — respondeu o Padre Dórian.

Eve e Otávio chegaram até o alto do morro, mas logo foram recebidos de maneira hostil. Alguém estava os vigiando com uma arma, como se fosse uma espécie de guarda.


– Mais nenhum passo ou eu estouro o miolo de vocês! — gritou uma voz grossa, mas feminina.


Porém, um homem apareceu e tratou o assunto com a maior normalidade.


– Ei, Carmen, abaixe essa arma. São crianças, não precisamos agir de uma forma que não somos. — pediu o homem, abaixando o fuzil da tal Carmen. — Me desculpem, crianças. É que a Tia Carmen aqui é muito abismada com visitas. Sejam bem-vindos. Vocês serão muito bem recepcionados aqui e não se esquecerão desse lugar tão cedo, minhas lindas crianças! — disse o homem, em tom de hospitalidade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.