Morte na ponte

1 Capítulo 1 - Um caso por acaso


Notas iniciais
O que espera por Conrad em Molinar?
Vamos ver?
Aguardo vocês nos comentários.

A chuva caia com uma força tão grande que parecia um segundo dilúvio. Seus pingos grossos inundaram com facilidade as ruas de Molinar, uma pequena cidade que tinha na agricultura a sua base econômica. Pouco mais de quinze mil pessoas formavam a população daquela típica cidade do interior. As nuvens cinzentas já haviam devorado o sol quando eu ainda estava na estrada a caminho de Perolândia, mas quando avistei o trevo que dava acesso a Molinar tratei de fazer uma parada de emergência na cidadezinha que a placa indicava ficar à direita da rodovia. Conheço meu carro, naquela hora sabia que ele não iria agüentar mais 40 quilômetros de viagem.

Quando cheguei a Molinar meu carro deu seu ultimo suspiro. Quebrou ali mesmo. Também suspirei, mas de alivio por ter tomado a decisão correta. A chuva engrossou ainda mais e junto com ela trovões nasciam no céu. A tarde estava mais escura. Desci do carro e entrei na primeira lanchonete que vi. Nos vinte metros que caminhei sob a chuva me deixou tão molhado quanto os paralelepípedos. O cheiro de café era forte, resolvi ficar numa mesa próxima ao balcão.

- Boa tarde moço – O rapaz falava sem pausas. – Temos café quentinho e bolos também.

- Aceito o café... – Não tive tempo de pedir o bolo, o rapaz voltou para a cozinha da lanchonete como um raio. A água na rua já estava subindo de nível, em instantes a fina lâmina d’água se transformaria em uma forte enxurrada.

- Aqui moço. – Como um raio ele voltou. Um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar, o rapa era a prova disso. Ele era tão rápido que não conseguia observar seus traços. O café que me trouxe tinha gosto de simplicidade, aquilo fazia dele o melhor café preto do mundo.

- Aceita mais alguma coisa? – A garçonete tinha uma voz doce, usava saia jeans azul e longa, por baixo do avental branco vestia uma blusa vermelha. – Fitei seus olhos verdes quando agradeci e pedi a conta. – O senhor acha mesmo que vou cobrar por essa xícara? – Um sorriso enfeitava seu rosto. Pela fala logo deduzi que ela não era uma “simples funcionária.”

- Se não vai me cobrar é porque tinha veneno no café. – Brinquei.

- Tinha sim, cafeína. – O sorriso virou gargalhada. – Posso? Indagou enquanto repousava a sua mão na cadeira. Assenti com um sorriso cordial. — O senhor não é daqui. Como veio parar nesse fim de mundo? – Me olhava firmemente enquanto buscava informações. Percebi que com ela não tinha cerimônias, era como se já fôssemos íntimos.

- Sou do Sul. Escrevo para uma revista. – Menti. Não podia simplesmente dizer que er Alexis Conrad, investigador de atividades paranormais, soaria como loucura. – Parei aqui para abastecer. – Um trovão ressoou e a assustou. – Calma, o apocalipse ainda não chegou. – Tentei brincar, mas o seu semblante ficou tão frio quanto as gotas que caiam no telhado da lanchonete. Assim, de repente, o trovão a transportou para um abismo que eu não conseguia ver.

- Pessoas morrem toda vez que chove assim, sabia? – O tom lúgubre de sua voz era acompanhado de trovões cada vez mais fortes. Quase me assustou. – Para eles o apocalipse chega mais cedo. – Seu olhar se perdeu em um horizonte particular.

- As estradas estão horríveis, acidentes são mais comuns em condições como as de hoje. – Eu sabia que ela não estava falando de estradas e acidentes. Era algo mais profundo, mais próximo à sua realidade local.

- Na ponte, a Desnaturada sempre leva alguém em dias assim. – Não fazia idéia do que significava aquilo, ela falava pra mim ou pra si mesma? E por que estava me falando sobre isso? Talvez ninguém desse crédito a ela em casa. Precisava de ouvidos, sim, era isso. Emprestei os meus. – O senhor acredita em fantasmas? Assombrações? Essas coisas assim, sabe?

- Acredito em tudo o que há a mínima chance de existir. – Tentei desconversar. Ela não se importou com a resposta e me contou a história da Desnaturada.

- Ela morava em uma fazenda que fica a um quilômetro da ponte. Quando voltava pra casa com sua criança a chuva estava como hoje. Dizem que dois rapazes que vinham da lida na roça cruzaram com ela na ponte velha e... – A pausa foi longa, algumas lágrimas rolaram em seu rosto. – E... bem, você pode imaginar. Foram cruéis. Depois do estupro apedrejaram sua cabeça, ela ficou com o rosto deformado. Seu vestido estava com a alça rasgada e manchado de sangue. – A história realmente me interessou.

- E o bebê? – Perguntei.

- Ninguém sabe. Desde esse dia, ninguém que conheça e acredite na história ousa passar pela ponte em dias assim. Pessoas morrem de forma estranha, saltam da ponte na maioria das vezes... — Ela foi chamada no balcão e se retirou. Fiquei analisando a história. Se aquilo era verdade, eu precisava agir, um trabalho fora dos planos, odiava casos assim.

Notas finais
E então...o que Conrad fará a partir de agora?
Acompanhe nossa jornada e saiba no próximo capítulo.
Abraços.