Morte na ponte

2 Capítulo 2 - Descobertas


Notas iniciais
Conrad toma conhecimento da história do espírito conhecido como a Desnaturada. Agora precisa agir o quanto antes para evitar mais um de seus ataques violentos contra os céticos ou desavisados que passam pela velha ponte de pedra.

Um pigarro seco cortou meus pensamentos. Levantei os olhos e vi um homem alto e magro, negro de olhos pretos como ônix. Sua camisa azul de gola pólo estava seca. Sinal que ele estava ali há muito tempo.

– Boa tarde, meu nome é Jorge. – Se apresentou ainda em pé. – Posso ter um minuto de prosa?

– Claro. – Sentou-se e colocou sobre a mesa uma pasta marrom. – Muita chuva não é mesmo? – Tentei iniciar uma conversa.

– Sim, muita. De minha mesa ouvi a sua conversa com Paulina. – Ele era direto nas palavras e não temia soar como um mal educado que ouve conversas alheias. – O que o senhor achou dessa lenda? – Tirou da pasta um notebook. – Acha que dá uma boa reportagem para sua revista?

– Achei uma lenda urbana interessante. Pode ser que atraia muitos leitores. E o senhor, o que acha? — Realmente queria saber a opinião dele.

– É uma lenda que assusta pessoas de Molinar há muitos anos... 17 anos de suicídios e assassinatos creditados a um fantasma que não existe. Hoje sou jornalista. Na época era fotógrafo amador e fui um dos poucos que tirou fotos da cena do crime. Na verdade fui o primeiro a chegar, um pouco antes da polícia... até. Por isso pude tirar fotos tão perto do corpo. Caso se interesse em escrever algo sobre isso, tenho fotos e recortes de jornais em casa que podem te ajudar.

– Humm. – Aquilo me surpreendeu. Entendi o que ele queria. Se fazer conhecido por meio de minha “reportagem”. Em todos os lugares havia gente desse tipo? Perguntei-me. – Ainda tem essas fotos? Sou muito curioso.

– Tenho algumas aqui. Digitalizei e guardei no meu notbook. Espero que o senhor tenha estômago forte. – Virou a tela em minha direção. Agradeci por não ter comido o bolo, se tivesse feito isso com certeza estaria colocando pra fora cada pedacinho.

– Horrível...que tipo de monstro faria isso?

– O homem. – Disse com frieza e sinceridade. – A noite está chegando, vou pra casa. Se seu carro precisar de algo além de gasolina posso ajudar. Meu irmão é mecânico. Pode dá uma olhada ainda hoje pra você.

– Preciso sim, obrigado... Jorge. – Se despediu e fiquei mais uma vez só. Minha mente tentava encaixar as peças. A morte violenta podia facilmente despertar a fúria de um espírito, isso ocorreu com a Desnaturada. Nesse caso eu costumo encontrar o que eles precisam para ter a sua paz. Queimar seus ossos funciona, mas não se faz isso com a mesma facilidade que seriados de TV mostram. Mas quando o espírito quer justiça as coisas se complicam. É nessas horas que precisamos da diplomacia. Fazer um acordo com um espírito revoltado às vezes dá certo, às vezes não. Quando seu assassino está morto, podemos apresentar um pequeno osso de seu corpo e...digamos que eles se resolvem na outra esfera. Se estiver vivo não podemos entregá-lo, por razões éticas, os Direitos Humanos são considerados em nosso trabalho. Quando não há diplomacia e acordos, tratamos de presentear o coveiro com um 14º salário antecipado em troca de um favor. Só assim temos acesso aos restos mortais do espírito inquieto sem sermos presos.

– Mais um café se me contar seus pensamentos. – Paulina tinha voltado.

– O bebê sumiu, certo? – Ela acenou positivamente. – E os criminosos? – Tinha a esperança de eles estarem mortos e enterrados em Molinar.

– Nunca foram descobertos. – Tirou o avental e minha esperança foi correnteza a baixo. Uma luz prateada brilhou diante de meus olhos.

– Seu colar é muito bonito. – Uma lua feita de prata com detalhes que reproduziam a imagem de São Jorge.

– Quando meu pai me adotou ele me deu isso de presente, o santo tem o nome dele. – Sorriu.

– Não me diga que Jorge é seu pai? – Outra surpresa. Um caminho se abriu naquele labirinto.

– É sim. – Falou com uma voz alegre.

Resolvi ser direto.

– Você me levaria até a ponte? – Ela arregalou os olhos claros. – Não se assuste, se você acredita mesmo na Desnaturada eu sei como pará-la definitivamente. Só você pode me ajudar. – Ela relutou, insisti um pouco mais e passei a segurança que ela precisava. Paulina concordou, com uma condição.

– ...Que eu não pise na ponte. – Esperta, pensei.

Notas finais
Gostaram? Comentem e vamos juntos trilhando essa estrada... ou tem medo de pontes? :)