Morte Impossível
2 Capítulo 02 - Harry Liam
— Nunca me acostumarei a esse céu cinzento e triste de Manchester, oh, obrigado. – Ao descer do ônibus, fui ajudado por um rapaz forte que devia ter aparentemente uns vinte anos, por um breve momento senti falta dos meus tempos joviais e da vitalidade que eu possuía quando morava no campo com meus pais, foram-se os dias carregando sacos de trigo, todos os músculos que adquiri em meus sublimes anos na fazenda desapareceram com o andar dos ponteiros do relógio, ah, o tempo, ele não perdoava nem o mais célebre dos homens, quem dirá um mero detetive de trinta e sete anos que está sem um caso a mais de meio ano, bom, essa última parte torna-se irrelevante em correlação direta com o tempo, visto que, avisaram-me da carreira em que seguira, não reclamo e muito menos contesto minha escolha, porém, é de fato um problema ter a conta bancária ficando cada vez menos abonada.
Andei até a calçada observando o movimento daquela cidadela que muito me lembrava Londres, exceto pela falta dos figurões chantagistas em cada esquina, dos vendedores de flores e das crianças tentando surrupiar carteiras em cada beco, não que não houvesse tais aspectos nesse local, se eu me sentasse por cinco minutos em um simples banco amadeirado da praça que estava a poucos metros de mim, garanto que encontraria algo curioso relacionado ao aspecto nada senil da natureza humana, com essa confiança atrelada em minha mente, me aproximei de dois moços, também jovens, que estavam sentados em um dos bancos daquela praça humilde, e fiz uma proposta aos mesmos. Sentei em um banco distante dos dois jovens, olhei para meu relógio no pulso esquerdo, contaria exatamente cinco minutos, mas para minha surpresa, é claro, os tempos haviam mudado. Fazia quanto tempo que eu não vinha pra essa cidade em evolução? Uns três ou quatro anos? Um período considerável para mudanças, é isso que chamam de regressar enquanto se progride. Vi um sujeito todo esfarrapado de aparência acabada, apenas com seus ossos a mostra em seu corpo debilidade passar por uma moça que parecia meio desorientada e pegar sua carteira sorrateiramente, mas devido a seu corpo pequeno e chamativo, a moça foi capaz de avistá-lo e gritou por ajuda naquele mesmo momento.
— Socorro! Aquele esquisito pegou minha carteira! – Denominar a pequena criatura como esquisito era um termo correto, mas tirando suas roupas e o provável cheiro mal em seu corpo, ele não se diferia de alguns cidadãos raquíticos daquela cidade, não durou nem vinte segundos para um homem – para minha surpresa, o mesmo que me ajudou a descer do ônibus – ir atrás do trombadinha, dar um puxão em sua camisa e pará-lo, o rapaz magricelo caiu no chão como uma batata caindo de um saco, assustado e com medo de algum guarda aparecer, ele soltou a carteira e ao ver que o rapaz havia lhe soltado no mesmo instante, correu para os becos escuros onde os outros ratos o esperavam, mas aposto que ficariam desapontados.
— Obrigada! Mesmo, eu com essa bagagem jamais conseguiria ir atrás dele. – A simpática moça de cabelos negros acima do ombro agradeceu o homem alto com uma bela aparência, seu terno devia ter custado um bocado, mas logo percebi o que acabara de acontecer. O homem, um pouco constrangido, pediu emprestado 2 libras para a mulher, alegando que havia esquecido sua carteira e só precisaria pegar um metrô para uma tal Rua Harvey a uns quilômetros dali, a moça, grata pela ajuda, deu logo uma nota de 5 libras pro homem que de início, não queria aceitar, mas corado e segurando seu orgulho, agradeceu a moça e se retirou com passos lentos colocando a nota em seu paletó, eu havia acabado de me sentar, mas logo me senti na obrigação de me levantar, eu não havia perdido o velho hábito incomum de me meter em assuntos alheios.
— Nossa... pensei que havia trazido mais cinquenta libras comigo, acho que acabei esquecendo por sair tão rápido de casa. – A mulher dizia isso olhando em sua pequena carteira da cor marfim que cabia na palma de sua mão, pelo visto, ela havia caído em um dos golpes mais comuns das grandes ruas inglesas, ou ela era, assim como eu, uma descendente do campo, ou muito ingênua.
— Com licença, hm, você não acabou de perder cinquenta libras?
— Oh! Então o senhor achou? Pensei que estava ficando louca, que havia esquecido em minha casa. – Para o desapontamento da moça, eu não lhe mostrei nota nenhuma, mas apontei para o homem alto que havia lhe ajudado momentos antes.
— Será que dei uma nota errada pra ele!? Nossa, que descuido, vou até ele pedir de volta, acho que nem ele percebeu. – Fiz um sinal para que a mulher parasse, e com um olhar ríspido e um sorriso confiante, me coloquei no lugar da pessoa que recuperaria seu dinheiro sem precisar fazer todo um estardalhaço.
— No caso, ele dirá que não deu a nota de cinquenta pra ele, e não poderá confirmar isso, veja bem, cara... – A mulher hesitou me olhando com estranheza, mas logo disse seu nome.
— Sophia.
— Pois bem, Sophia, eu vou pegar sua nota de volta, e não, não espero nada em troca, apenas não sou o tipo de pessoa que aceita esse tipo de golpe bem em frente meus olhos cansados, ainda mais quando se é um golpe contra uma bela moça bondosa como você. – Parece que a mulher havia corado levemente com meu elogio sincero, porém, não sabia mesmo se ela era bondosa, apenas realcei esse adjetivo para que ela ganhasse ainda mais minha confiança, por mais que minha aparência não ajudasse tanto, mas, deixando de lado tais futilidades, fui em direção ao homem que estava encostado em um poste como se estivesse esperando alguém, provavelmente algum de seus comparsas, esse tipo nem se comparava com os marginais americanos que andavam com canivetes e tinha hábitos bem hostis.
— Hm, ei, olá! – Toquei no ombro do homem que olhou para trás cerrando seus olhos não entendendo o que eu poderia querer.
— Ah, você é o homem que desceu do ônibus.
— Vi sua atitude nobre ali atrás mon senhor, fiquei admirado com a coragem que alguém pode ter para enfrentar um ser desnutrido e uns vinte centímetros mais baixo, e com isso, vim lhe fazer uma proposta. – O homem pareceu não compreender minha ironia, devia ter o cérebro ocupado demais pensando em qual bordel gastaria seu dinheiro sujo na madrugada.
— Proposta? É algum emprego?
— Não, infelizmente não estou na posição de oferecer emprego, quando eu mesmo estou à procura de um! – Com tal frase proferida, o homem pareceu desanimado e me olhou torto, voltando a se encostar no poste sujo daquela avenida.
— Então o que quer? Eu tenho que partir, tenho compromisso. – Vi seu nervosismo quando ele começou a piscar incessantemente.
— Você gostaria de ganhar cem libras? – Quase que como uma reação automática maquinaria, o homem se virou completamente para mim novamente e seus olhos agora pareciam ter um brilho de uma criança quando consegue um doce depois de muito insistir aos seus pais.
— Bom, claro, quem não gostaria hoje em dia?
— Bem, eu sou um apostador, meu caro, gosto de fazer todos os tipos de aposta, e ali atrás vi que o senhor também é o tipo de gente que gosta de jogos. – O homem pareceu não entender o que eu realmente queria.
— Quer apostar cem libras jogando? Infelizmente eu não tenho nem um tostão!
— Bom, e aquelas cinquenta libras que a moça ali atrás lhe deu agora por compensação em ajuda-la? Sou um bom observador, sabe. – O rosto do rapaz se contorceu naquele momento, ele parecia bem nervoso e sem jeito, tanto que levou suas duas mãos em seus bolsos do paletó, o dinheiro estava no direito, pelo que pude notar.
— Ela me deu cinco libras, cara.
— Poderia me mostrar então seus bolsos? Ela me disse que por engano, acabou lhe dando cinquenta libras, mas não quero acusa-lo nem nada do tipo, não sou assim, mas minha aposta pode se basear justamente nisso, aposto cem libras, em troca das cinquenta libras que você tem aí, relaxe, eu não contarei nada pra moça, apenas disse que iria perguntar se ela lhe deu o dinheiro por engano mesmo, sabe, eu gosto de ganhar uma nota, mas gosto de apostar alto também, e acho que você não aceitaria se eu não lhe ofertasse algo maior do que você poderia me ofertar caso perdesse, certo? – O homem pareceu empolgado mais uma vez.
— Então que aposta é essa? Se eu ganhar, pego cem libras, mas se eu perder, dou as cinquenta que a moça me deu por engano?
— Exato!
— Parece bom, mas que tipo de jogo propõe?
— Um jogo simples, que todos aqui devem conhecer: Cara ou coroa.
— Como? Quer fazer uma aposta se baseando apenas em sorte?
— Meu caro, acontece que não acredito em sorte nem em azar. – Fiz uma pausa enquanto olhei para os lados. – A aposta é simples, vou chamar duas pessoas quaisquer que estão passando por aqui, pedirei para que elas joguem duas moedas para cima, enquanto eu, jogarei outra. Para que eu vença, as três moedas devem estar na mesma face, todas em cara, ou todas em coroa, mas pra você vencer, elas podem cair de qualquer forma, tirando as três em cara ou as três em coroa. – O rapaz pareceu não acreditar na proposta, era algo vantajoso demais pra ele.
— E por que diabos você apostaria algo desvantajoso pra você?
— Como eu disse, gosto de apostas, que graça tem, se não houver emoção? E como disse antes, se não for algo que não lhe dê vantagem, duvido que aceitaria.
— Haha, você é maluco, cara! Mas tudo bem, vamos lá, aceito. – O rato caiu na ratoeira, eu nem precisei usar dos meus argumentos infalíveis, bem, aquilo acabaria rápido. Fiz dois jovens pararem em minha frente e expliquei a situação para ambos, lhes dei duas moedas de uma libra, mas antes, as mostrei para o homem alto para ele confirmar que eu não estava trapaceando com uma moeda viciada, assim como também mostrei a minha, e ao mesmo tempo, jogamos as moedas pra cima, os dois homens as pegaram com a mão direita e colocaram nas palmas de suas mãos esquerdas, assim como eu.
— Não tem como você vencer, eu posso não ser inteligente mas as probabilidades pra você são bem menores! – O homem olhava ansioso para nossas mãos, seu olhar afiado e confiante de quem ganharia cem libras logo se trocou por um rosto contorcido ao ver todas as nossas três moedas com a face virada para cara, ele olhou para mim e voltou a olhar para as moedas com a boca semi aberta.
— Bom, a probabilidades eram de fato maiores pra você, mas parece que o que você chama de sorte, acabou me atingindo dessa vez, pois bem, agora preciso devolver as cinquenta libras pra moça que está esperando. – Estendi minha mão para o rapaz esperando que ele colocasse o dinheiro, previ que o mesmo sairia correndo, mas como era uma esquina movimentada e várias pessoas passavam por ali, ele não teve escolha, retirou o dinheiro amassado do seu bolso e colocou em minha mão com um olhar de raiva, logo depois, saiu andando rapidamente proferindo algumas palavras de baixo calão.
— Ei, eu vi o que aconteceu! Você é maluco em apostar cem libras? E então... aquele homem realmente sabia que tinha cinquenta libras não é!? – A moça se aproximou de mim um tanto ofegante e surpresa.
— Minha cara, aquele rapaz atuava junto com o homem magricelo que lhe roubou, o homem pequeno tirou cinquenta libras da sua carteira enquanto fugia, ele guardou no bolso do homem alto quando ele o soltou, o homem alto então lhe pediu dinheiro apenas para que tivesse essa desculpa de que você poderia, por engano, ter lhe dado uma quantia a mais sem querer, porém, quando fosse questioná-lo, ele poderia negar, e você não teria como provar, pensando que poderia ter deixado o dinheiro em sua casa, como já estava pensando, e por que o magrelo não correu apenas com a carteira sem a intervenção do homem alto? Oras, eles não queriam que você chamasse algum guarda nem a polícia, aqui não é Londres e ele poderia ser identificado, portanto fizeram isso, mas eu vi tudo, e aqui está, cinquenta libras, amassadas, mas ainda são cinquenta libras! – Estiquei a nota para que a mulher pudesse pegá-la, e para os dois jovens ao meu lado, dei duas notas de dois dólares para cada um.
— Por que está dando dinheiro para os dois? – A mulher me olhou inquieta.
— Oras, porque eles me ajudaram em meu ‘plano’.
— Plano!?
— O velhote nos disse para ficar sentado observando, e se ele se levantasse do banco, era pra gente ir atrás dele e ficar andando como se estivesse esperando um táxi, mas antes, nos deu duas moedas e disse para que eu e Mike a mantivéssemos em nossas palmas da mão esquerda viradas com a cara pra cima, não entendi muito bem, mas ele também disse que nos daria outras moedas quando nos chamasse, e que ao jogarmos tais moedas para cima, pegaríamos elas com a mão direita, e fingiríamos coloca-la na palma da nossa mão esquerda, onde estava a moeda que nos deu antes, eu e Mike deixamos as primeiras moedas bem afundadas em nossas mãos, e quando pegamos as outras que jogamos para cima, fingimos coloca-la rapidamente na mão esquerda, sem que pelo visto o homem percebesse, visto que ele olhou mais para as mãos do velho, cara, você acabou de enganar ele não é? – O garoto havia se tocado agora do que havia acontecido, assim como a mulher morena que parecia espantada.
— Mas isso foi arriscado! Como previu que isso iria acontecer? Digo, que o homem me roubaria, sendo que o vi sentar no banco antes disso acontecer, e também, como fez com que sua moeda ficasse na cara, visto que você mostrou as mãos limpas para o homem alto antes de jogá-la para cima?
— Gosto da curiosidade feminina, mas isso foi simples demais. Eu realmente não sabia que isso aconteceria, mas sabia que alguma coisa do tipo aconteceria, um pequeno furto, ou algum charlatão vendendo algum diamante falsificado, eu pretendia fazer tal aposta com o primeiro que visse, felizmente foi um alvo fácil, mas satisfatório por ser um crápula da pior das espécies! E quanto a minha moeda... foi sorte! – Sorri abertamente enquanto os dois garotos pareciam impressionados, eles pegaram seus dólares e se afastaram dali, a mulher em minha frente me agradeceu várias vezes.
— O senhor não é daqui também, né?
— Felizmente venho de Chelsea, não que eu não goste daqui, mas jamais trocaria aquele lugarejo.
— Conheço muito bem lá! Eu sou de Londres, mas gosto daqui, vim para o dia de ação de graças na casa de uns amigos, acho que eles não se importariam se o senhor desse uma passada por lá, iriam gostar de conhecer alguém inteligente assim, acho que deve ter ouvido falar dos StoneFord, não é? – A moça me entregou um cartão com o endereço dos famosos ricaços do centro de Manchester. – Se o senhor não tiver nada para fazer...
— Antes de mais nada, por favor, eu tenho só trinta e sete anos, pode me chamar de Harry, Sophia. Tenho planos pra hoje a noite, mas quem sabe, posso dar uma passada na mansão, sempre quis adentrar em uma casa assim, e seria um prazer ter a companhia de alguém tão simpática. – A moça novamente ficou corada com meus elogios, dessa vez, bem sinceros. Vi ela se afastando enquanto acenava, olhei para o cartão que havia me dado, e em seguida, me lembrei do porque estava naquela cidade. Do bolso da minha calça retirei uma carta que havia recebido dias atrás, uma carta que dizia que um assassinato iria ocorrer na mansão Stoneford, em Manchester.
— Então, observar e seguir a ex namorada de um Stoneford foi mais eficaz do que eu imaginei.
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