Morte Impossível

3 Capítulo 03 - Apenas Doze (?)


Me tranquei no banheiro e comecei a vomitar ajoelhado no chão de frente para o vaso sanitário enquanto Sophia batia violentamente na porta preocupada, do lado de fora, ouvia apenas os gritos de Shania e uma discussão entre Julius e Carlton, isso era mesmo possível? Camila, que tinha tanta energia, um olhar doce, estava mesmo morta? Eu não conseguia pensar em motivos ou razões para esse acontecimento, não tinha como alguém da minha família fazer isso, acho que todos pensavam o mesmo, mas naquele momento, eu sabia de uma coisa: Eu era um suspeito.

— Christian, abra logo essa porta, todos estão abalados, mas precisamos conversar. – Dessa vez a voz de Michelly vinha do lado de fora, me levantei e fui em direção ao corredor depois de lavar meu rosto e encarar o espelho do banheiro vendo meus olhos vermelhos.

— Você está melhor? Tem que se acalmar, você está mais branco do que a neve lá fora! – Sophia olhava para mim com os olhos arregalados de preocupação, Michelly, por outro lado, parecia me olhar com desconfiança. O telefone começou a tocar na mansão, corremos em direção a primeira sala que ficara no segundo andar na direção oposta do corredor dos quartos, Scot havia atendido, como sempre fazia, todos se uniram naquele cômodo e ficaram olhando o mordomo que ficou calado por alguns segundos com uma expressão que eu nunca havia visto no rosto calmo e sensato daquele senhor.

— Quem é!? Fala logo Scot! – Carlton deu um soco contra a parede daquela sala enquanto ainda chorava tomado por raiva e tristeza.

— Senhor, eu nem sei como dizer isso. – Scot parecia congelado, ele olhava somente para Carlton sem reação.

— Dizer o quê? Quem era nessa porra? – Carlton gritou o suficiente para sua voz se ecoar pela pequena sala que tinha vários sofás, uma tv enorme no canto esquerdo, algumas estantes de vidros com bebidas e taças e uma mesa de bilhar no canto direito.

— A pessoa não me disse quem era, apenas falou que todos nessa casa estão envenenados, e se caso alguém saia, chame a polícia ou ligue para mais alguém, o antídoto que está guardado nessa mesma casa, em um determinado cômodo, será destruído. Ele disse que todos que tomaram do vinho tinto 1867 estão condenados, a substância começa a agir depois de uma ou duas horas, dependendo do organismo da pessoa, nesse período... ele disse pra vocês encontrarem o culpado de toda tragédia e executá-lo, feito isso, a localização do antídoto será revelada, e também que esse é o único antídoto disponível na cidade, apenas o encontrará em Londres, mas até lá, alguém já poderá ter falecido. – Scot contou tudo como se fosse uma secretaria eletrônica, seus olhos pareciam não piscar, Carlton começou a rir freneticamente enquanto caminhava na direção do criado, ele o segurou por seu terno marrom e o jogou violentamente contra a parede, fazendo dois quadros caírem no chão com o impacto.

— Está brincando comigo! Você fez isso? – Shania segurou seu marido pelo braço direito, mas foi empurrada também, dessa vez eu tive que me meter.

— Tio, se acalme! Primeiro, quem ligou, está dentro dessa casa, e vamos ver quem não está aqui com a gente. – Olhei ao meu redor, e para minha surpresa, todas as doze pessoas daquela mansão estavam dentro da sala, apenas Jessica, Michael e Brian estavam no corredor, até porque não havia mais espaço para ninguém lá.

— Como pode dizer que foi alguém daqui que ligou? – Minha mãe me olhava friamente ao me perguntar.

— Não ouviram? O antídoto está dentro dessa mansão, a pessoa que fez isso... – Antes que eu pudesse terminar minha frase, Christina se colocou na minha frente com o olhar repleto de repulso.

— Está querendo dizer que alguém de nós matou a pequena Camila? Não fale besteiras!

— Não, ele está certo, Christina, Scot disse que o antídoto se encontra aqui, vejam as circunstâncias, mas vejam friamente. Camila foi assassinada dentro do seu quarto, o mesmo se encontrava trancado, tanto porta como a janela, pela parte de dentro. Christian olhou embaixo da cama e dentro dos guarda-roupas do quarto no momento em que percebeu isso e não constou ninguém lá, nem atrás das cortinas ou em alguma abertura no teto, não havia ninguém dentro do quarto e nem possibilidade da pessoa entrar pela janela, visto que o quarto fica no segundo andar e não há escadas lá fora nem meios de subir, ainda mais com a neve caindo e os pilares escorregadios, tirando que fui verificar e não há marcas de sapatos e nem de que o portão foi arrombado, na casa há cercas elétrica, um sistema de câmeras que eu também verifiquei cada filmagem, uma por uma, as chaves do portão da frente ficaram na pose de Michael o tempo todo, ele estava conosco na sala de jantar quando vocês subiram, então, não há nenhuma possibilidade do crime ter sido cometido por alguém que veio de fora da mansão, e também tem o fato de que meia hora antes, ou até menos, Shania ouviu Camila viva cantando uma música, o que quer dizer que o assassino a matou a menos de trinta minutos, mas concordo com o que Christian disse, temos que focar nessa ligação, é nossa maior pista. – Meu tio Julius havia deixado todos ali de olhos arregalados, ele era sempre um idiota que ria sempre até mesmo falava gaguejando, mas todos sabiam que era para se submeter às vontades de Carlton e para se manter inferior aos donos da casa, mas quem o conhecia de verdade devia saber que ele era uma pessoa inteligente, fria e analítica, ele fazia um papel totalmente oposto à sua verdadeira natureza dentro daquela mansão, mas agora, a situação exigia que ele voltasse ao normal, quebrando todas as máscaras que construira ali.

— Porra! Então quem ligou pra cá? Todos estão aqui, mesmo se os três ali no corredor tivessem ligado, nós teríamos visto, não é? – Michelly começou a tremer abraçando sua mãe.

— Eu fiquei de olho, ninguém saiu daqui ou foi até algum celular ou telefone. – Sophia disse isso enquanto mantinha um olhar sério no rosto.

— E quem é você para dizer isso? É só uma ex namorada do Christian convidada gentilmente por Christina para essa festa, você deve ser a primeira suspeita! – Meu tio Carlton estava mesmo fora de si, ele apontou o dedo para Sophia que parecia começar a lacrimejar, não aguentei tal cena e me coloquei na frente do rapaz.

— Você não está vendo os fatos, seu idiota? Estamos todos envenenados, se isso for mesmo verdade, corremos contra o tempo, sim, Camila morreu, mas muitas outras pessoas também podem morrer, precisamos parar de acusar uns aos outros e ir atrás do antidoto!

— Quem você chamou de idiota rapaz!? – Carlton soltou um grito estridente e antes que partisse para cima de mim, Brina me puxou para trás e começou a falar enquanto suava frio.

— Ele meio que tem razão, eu não estou me sentindo bem, não sei se é por tudo que aconteceu, mas meu estômago dói muito, não acho que tenha sido um trote nem invenção do Scot, o telefone tocou, isso é fato, Scot, você jura por Deus que ouviu tudo isso? – Brina olhava com clemência para o mordomo que acabara de se levantar e mantinha sua cabeça baixa.

— Juro por tudo que é mais sagrado.

— Você disse que a voz era de um homem, certo? – Shania se aproximou de Scot e o segurou nos ombros fazendo o mesmo olhar diretamente nos olhos dela.

— Sim, parecia de um homem.

— Então pode identificar de qual dos homens aqui era a voz? – Shania chorava enquanto soluçava e balançava o corpo de Scot que parecia constrangido.

— Shania, por Deus, acha mesmo que foi alguém aqui? Confio na Sophia, ela disse que ninguém usou o celular ou saiu daqui, isso é mesmo verdade, a ligação não foi feita por nenhum de nós. – Eu interrompi minha tia Christina.

— Não, e isso só pode significar que há mais alguém nessa casa. – Todos me olharam perplexos, mas Carlton pareceu acatar a ideia.

— Isso é óbvio! Algum ladrão, a pessoa que a Camila viu! Ele pode ter entrado bem antes da festa, no momento em que Sophia entrou, foi isso! Agora ele está escondido aqui fazendo essas ameaças, se procuramos em cada cômodo dessa mansão, vamos achar o filho da puta e o antidoto, é só procurarmos! – Apesar do nervosismo, Carlton havia tomado uma postura digna de um líder, o que realmente ele era, a melhor coisa a se fazer era procurar o culpado pela mansão, visto que ninguém de nós poderia ter matado Camila, as chances de ser um décimo terceiro elemento era a maior probabilidade existente, alguém que queria se vingar da família ou algum doente qualquer.

— Sophia, Michael, vocês não viram ninguém entrando quando estavam lá fora? – Julius olhou para Sophia e Michael ao mesmo tempo, mas os dois negaram fortemente.

— M-me desculpe senhor, eu juro solenemente que não vi ninguém entrar, eu tranquei bem o portão, as chaves ficaram comigo o tempo todo, só se a pessoa pulou o muro, mas ela teria que pular as cercas elétricas também, teria que fazer uma proeza e tanto.

— Por Deus! Estava escuro lá e nevando! Os ladrões são espertos, um cara pode ter passado por baixo da neve, e vocês nem viram! Seu incompetente! — Carlton gritava com Michael enquanto saliva saía de sua boca, ele designou duplas para irem procurar o suposto bandido em cada canto da casa, um homem juntamente com uma mulher. Eu e Sophia fomos até o maior banheiro da mansão, no terceiro e último andar, Carlton e Shania foram até os quartos do terceiro andar, que incluíam o quarto deles, o de Camila, de Jessica, Michael e Scot, Scot e Jessica foram até o jardim, meu pai e minha mãe foram até os quartos dos hóspedes, Julius e Christina até a sala de jantar e os cômodos que de lá se originavam, como a lavanderia, a sala de jogos e a área, Michelly e Michael foram para a parte da frente da mansão, a maioria, ainda chorando pela morte de Camila.

— Isso não pode estar acontecendo... – Sophia estava branca com a neve, eu segurava sua mão e sentia o quão gelada ela estava, parecia um cadáver, eu não conseguia tirar a imagem de Camila da minha cabeça, seu corpo frágil estendido na cama coberto com sangue, eu senti uma forte ânsia de vômito novamente, minhas pernas começaram a tremer, meu tio Carlton trancou o quarto e não deixou que ninguém entrasse lá até que a polícia chegasse.

— Não chamar a polícia é um erro! Eu vou ligar, Sophia. – Peguei meu celular e comecei a discar para a polícia, não podia mais aguentar aquilo, foi quando Sophia retirou, à força, o celular de minhas mãos e apertou o botão para encerrar a chamada.

— E se isso matar mais pessoas? Eu não acho que o empregado mentiu, por enquanto vamos tentar encontrar a pessoa escondida, se não houver ninguém na mansão, então eu deixo você ligar, eu só sinto que... isso é mesmo verdade. – Sophia me olhava com um olhar frio e assustador, ela nunca agiu assim em minha frente, não sei se aquilo era medo ou estado de choque, mas ela não me devolveu o celular, guardou no bolso de sua jaqueta branca enquanto averiguávamos que não havia ninguém no banheiro.

— Acha que os alarmes não soariam se entrasse alguém? Sophia você estava lá na frente! Se fosse uma velha ou alguém com problema na visão tudo bem, o Michael é bem distraído e idiota, ele poderia deixar uma pessoa passar sorrateiramente, mas você...

— Eu confesso que não vi nada, eu realmente perceberia se alguém chegasse, oh Christian, eu estou com medo, eu não quero morrer! – A garota me abraçou e começou a chorar, certamente todos ali estavam com medo.

— Olha, chega, não tem veneno nenhum, como esse elemento pôde ter dopado as bebidas? Só se ele entrou na cozinha sem ninguém ver, mas Michael ficou o tempo todo na cozinha com Jessica, escuta, isso é uma mentira, ninguém está envenenado, agora me dá meu celular se não vou até o telefone lá embaixo. – Olhei seriamente para Sophia, mas naquele instante, ouvi um grito vindo lá de baixo; E era da minha mãe.

Corri rapidamente pelo corredor, desci as escadas e me deparei com minha mãe ajoelhada no chão levando as duas mãos em sua barriga, ela havia acabado de cuspir sangue, meu pai a ajudava a se levantar e gritava por ajuda.

— Christian! Ela não está bem, deve ser o veneno! – Meu pai apoiou minha mãe em seus ombros e ajudou ela a se sentar em uma das cadeiras da sala de jantar, segundos depois todos estavam reunidos lá, assustados por ouvirem o grito da minha mãe que parecia mesmo sentir dor, naquele momento minha espinha ficou gélida, minha mãe corria mesmo risco de vida.

— É verdade então! Estamos todos envenenados, santo Deus! – Julius deu um soco na parede, Christina parecia que começaria a chorar novamente, os únicos que não estavam na sala de jantar eram Michelly e Michael, quando olhei na porta de entrada, a mesma se abriu de maneira brusca, Michael e Michelly entraram e imediatamente fecharam a porta com violência, Michelly parecia ofegante, foi então que Carlton se aproximou do empregado e o questionou.

— O que foi agora? – Michael olhava fixo para seu padrão, parecia não conseguir falar, foi então que Michelly respirou fundo.

— Nós vimos... tinha uma sombra, uma sombra negra em cima do telhado. – Ao ouvir aquilo, parecia que algo havia tomado conta do clima obscuro que já tomava conta daquela mansão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.