Morrer de Amor
7 Capítulo 7
Notas iniciais
O interior de Thayer era uma confusão. Ele já não estava com tanto sono quanto antes, seu coração batia como se ele tivesse acabado de correr uma maratona. Ele se sentia contente, surpreso e inquieto a ponto de pular da cama. Ele não conseguiria dormir desse jeito.
Rolei para ficar mais próxima dele, colocando uma mão sobre seu peito e aconchegando minha bochecha ao lado do seu ombro.
—Acalme-se. Você precisa dormir. —murmurei.
—Desculpe, eu não consigo. —ele murmurou de volta, sua voz distante do timbre sonolento que havia me desejado Boa Noite. Ele envolveu um braço em minha cintura, me mantendo perto. —Aliás, ótima maneira de tentar me acalmar.
—Durma. —ordenei em um sussurro, mas parecia que a ordem havia sido para mim mesma, por que eu simplesmente apaguei.
***
Eu me sentia incrivelmente aquecida. Era confortável.
Um firme e suave travesseiro estava envolvido ao meu redor. Minha perna enroscada nele e minhas costas sem nem mesmo tocar o colchão e tão próxima que ele me mantinha… E não era um travesseiro, constatei quando abri os olhos. Era Thayer.
Seu rosto parecia ainda mais angelical enquanto no plácido sono.
Deslizei minha mão por sua bochecha. Era fácil querer ser carinhosa com ele quando seus olhos estavam fechados, como ele respirava tão calmamente. Ele havia me segurado por toda a noite, provavelmente me confundindo com um travesseiro ou seja lá o que ele está acostumado a agarrar durante a noite.
Era bom pensar em mim como a primeira mulher que dormia em sua cama.
Sentindo meu toque, ele se remexeu, abrindo os olhos e focando em mim.
—Bom dia, Cat. —ele murmurou, sua voz rouca o fazendo ainda mais atraente. Ele me puxou para ficar acima de seu corpo, seu braço ainda envolvendo minha cintura. Notavelmente ele havia despertado. Todo ele.
—Nem sequer-… —antes que eu pudesse concluir minha sentença, ouvi um barulho. A grama lá fora havia amortecido a queda de alguém.
Me desvencilhei de seu agarre e fiquei de pé, completamente alerta.
—O que foi? —ele perguntou, se levantando da cama também.
—Tem alguém aqui.
Meus instintos de tornaram loucos. Eu esperava que fosse um ladrão, alguém que eu pudesse facilmente expulsar, mas os meus sentidos me afirmavam que não, que aquela sutil energia lá fora não era de um humano, e que o caminhar suave sob a grama era cuidadoso demais para alguém que vinha amistosamente.
—Fique aqui e não se mova. —ordenei em um sussurro, esperando que Thayer me ouvisse.
Geralmente, minhas habilidades sobrenaturais só eram ativadas quando eu estava em perigo, o que eu sabia que não estava já que mesmo quando a casa estava sendo invadida, o inesperado visitante provavelmente não esperava me encontrar aqui. Mas eu podia sentir minha própria energia rugindo sob minha pele. Meu subconsciente estava tomando o perigo infringido sobre Thayer como um perigo para mim mesma.
Cheguei até a sala me movendo o mais silenciosamente possível. Meus pés descalços quase não faziam barulho, minha audição captava até mesmo o barulho das folhas das arvores no lado de fora. Até que detectei finalmente o intruso.
De dentro da casa, eu ainda não podia vê-lo, mas podia sentir e ouvir. Uma energia que era desconhecida para mim até ontem de noite agora vibrava pelo quintal. Ivy.
Cerrei os punhos. Raiva borbulhando em mim. O que diabos ela estava procurando na casa do Thayer?
Confusão, com certeza. E ela havia encontrado.
Abri a porta de vidro, furiosa. Os olhos de Ivy se ampliaram ao me encontrar, mas logo um sorriso arrogante esticou seus lábios pintados de vermelho.
—Cat! Como você tem passado…?
Interrompi sua pergunta usando meu cotovelo logo abaixo de seu pescoço para impulsioná-la ao chão. Ela rolou no chão agilmente, erguendo os olhos semicerrados para mim.
—É assim que você me recebe? Péssima anfitriã. —ela ironizou.
—Acho que você errou minha porta por algumas dezenas que quilômetros, Ivy, querida. —minha voz gotejava fúria, mesmo que eu mantivesse minha expressão impassível. —Aliás, como eu não sou dona desta casa, você não pode me chamar de anfitriã. E eu não preciso ser nem um pouco gentil com você.
Sua mão esfregou o lugar onde meu cotovelo havia acertado. —Você não mora com Thayer? Bem, pelo menos eu estava certa quanto a você estar aqui-…
—Não me faça de idiota. —avancei, mas desta vez ela estava preparada e conseguiu desviar de mim. —Você não veio aqui para me desejar bom dia.
—Acha que eu viria me aproveitar do garoto? Que má!
Seu tom de voz me irritou ainda mais, ela afinava a voz como se estivesse fazendo pouco de mim. Havíamos sido iniciadas ao mesmo tempo, sendo assim nossa força não diferia muito. Mas o medo dela estava ao meu favor. Ela havia me visto usar uma habilidade nunca antes vista: não me corromper com a maldade de uma alma, não importa o quão forte ela seja, e permanecer intacta para contar a história.
Valia a pena iniciar uma briga com ela? Ela não podia me matar e a briga só terminaria quando eu a aniquilasse, ou ela fugisse. Eu nunca havia tentado matar um ceifador antes. Muito menos sabia se eu era capaz.
—Todo esse clima de “acordei ao seu lado”… Vocês pombinhos são tão fofos juntos! —ela usou a voz melosa de novo, e era isso. Eu queria arrancar de seu rosto o biquinho que ela fazia para mim.
Me impulsionei para ela, fingindo que lhe daria um soco no rosto, ela se defendeu muito bem, como eu já esperava, e tratei de afetar seu equilíbrio com uma rasteira, conseguindo derrubá-la no chão e mantê-la aprisionada sob mim, segurando seus pulsos.
—O que realmente veio fazer aqui? Me diga! —exigi.
—Esquentadinha! —ela murmurou, prolongando a vogal i.
Ouvi os passos apresados finalmente emergirem da casa. —Fique longe, Thayer! Que droga, eu te disse para ficar no quarto!
—O barulho, eu… Achei que você havia se machucado. —ele disse, sua preocupação me atingindo por nossa ligação.
—Meu Deus, que garoto comestível! —Ivy riu sob mim.
Puxei seus pulsos até que sua cabeça se afastasse do chão e lhe voltei com toda a força contra ele. A grama provavelmente não daria o impacto que eu queria, mas seria o bastante para doer. Isso apagou seu sorrisinho.
—Sua atenção deve estar em mim. E não me faça esperar muito, Ivy. Sou extremamente impaciente. Quero saber o que você veio fazer aqui, e quero saber agora!
—Precisamos ter essa conversa assim? —ela perguntou, como se tivesse mesmo escolha. Ela tentou se mexer e tudo o que eu fiz foi continuar encarando seus olhos. Ela suspirou. —Tudo bem! O que eu vim fazer aqui? Encontrar vocês dois. Especialmente você, Cat. Antes que perca a calma, aqui era o único lugar onde eu poderia te encontrar, já que acredito que você seja uma cidadã invisível. Eu vim em missão de paz.
—Veio me encontrar por que sentiu saudades? Conta outra. —falei.
—Na verdade, vim compartilhar informações com você.
Estreitei meus olhos. —Que tipo de informação?
—Uma do tipo que eu poderia contar quando estivesse confortavelmente sentada sobre um sofá… e com um copo de vinho branco.
Soltei uma risada. —Você é muito abusada!
—Já ouvi isso antes. E então, o que vai ser? —ela ergueu as sobrancelhas, eu pensei em silêncio por alguns instantes. Eu devia soltá-la? Ela podia ser um risco para Thayer. —Vamos, lá, Cat! Você sabe que pode me derrubar de novo se eu fizer alguma besteira. E eu também sei disso. Eu não tentaria nada na sua frente.
—Mas tentaria pelas minhas costas? —instiguei.
—Não force. —ela revirou os olhos. —Serve se eu te disse que sei mais sobre o que acontece quando uma ceifadora prova um humano puro? Aliás, eu adoro vinho Chardonay.
***
Com uma taça de vinho branco Chardonay na mão e o se habitual sorriso arrogante nos lábios, Ivy parecia a ponto de ronronar.
—Meu Deus, que sofá macio! —ela esfregava as mãos sobre ele.
—Por favor, não fale o Santo Nome em vão, muito menos na minha frente. —já não tinha mais toda a raiva cega em mim, agora eu tinha muito mais aborrecimento. Eu não podia acreditar em como Thayer havia sido complacente com ela. Agora mesmo, ele estava sentado ao meu lado – por um pedido meu, mas havia enchido uma linda taça com o vinho branco que ela gostava e parecia que faria de novo se tivesse a oportunidade.
—Você ainda tem essa bobagem? —ela fez cara de nojo, bebericando mais de seu vinho e torcendo uma mecha de seu cabelo preto e liso. —Querida, não poupe seus pedidos para depois, muito menos espere que Ele ainda nos assista. Estamos mortas. Mortinhas da silva. Nós somos por nós mesmas até o momento em que nossas almas se dissipem para todo o sempre.
—Ótimo. Ainda assim, não profira Seu nome em vão. —me mantive firme.
Ela torceu os lábios e ergueu o polegar. —Okay!
Fiquei impaciente depois de um momento de silêncio. —E o que você está esperando para começar a falar? Uma massagem nos pés?
—Nossa. Você estava mesmo falando sério quando disse que era extremamente impaciente. —ela se esparramou no sofá, obviamente se sentindo á vontade. —Por onde começar… ah! Um vínculo surge entre o humano puro e o ceifador. Isso é como uma armadilha para mantê-los unidos. A natureza é muito sábia, e mesmo seres sobrenaturais como nós devemos seguir suas regras. Você nunca se perguntou o por quê de apenas almas ruins? Os puros vão para o céu, os podres para o inferno. Um ceifador deve ser inocente, puro, para merecer o trabalho. Regulamos a quantidade de almas no inferno, e quem regula a quantidade no céu? Os próprios humanos. No momento que você toma o trabalho de um humano, a natureza te verá como tal. Você ainda deve se alimentar de almas podres, claro, esta é a sua real natureza. Porém, a partir de agora, você terá sua humanidade aflorada: sentimentos, dúvidas, dores. São um perigo para qualquer caçador. Serão para você também.
Estremeci. —Significa que minha caça está ameaçada?
—É um modo de dizer. E acima disso, lhe aconselho a não tentar sugar um puro novamente. Se uma vez te faz um pouco mais humana, já deve imaginar o que uma repetição pode fazer. —Ivy disse. Com ela ali, na minha frente, me aconselhando e ainda por cima bebericando o vinho como se estivesse em um Spa, eu sabia que alguma coisa estava mesmo errada.
—Como você sabe de tudo isso? —investiguei, ainda com o pé atrás.
—Da maneira mais segura. Eu conheço a Morte.
Franzi o cenho. Ela não podia realmente conhecer a morte. Digo, como Ceifadoras, nós escutamos a voz da Morte como ela pudesse nos atingir melhor, alguns ouviam uma voz infantil, outros uma agradável voz masculina, ou até a afável voz feminina que eu ouvi, mas ninguém chegava a enxergar a morte e falar com ela se não estivesse morto de verdade.
—Conhece tanto quanto eu. —desprezei. —E daí?
—Não, queridinha. —o sorriso arrogante de Ivy se ampliou. —Eu conheço a Morte. Já conversei com ela em terra e tudo. Ela é discreta, mas também fica sentimental e visita hospitais, onde a encontrei. Tivemos altos papos, e, entre assuntos bizarros, eu tive a curiosidade de perguntar o que acontecia caso uma Ceifadora se alimentasse de um puro. Curiosidade que veio a calhar, não concorda?
—E como sabemos se você está falando a verdade? —Thayer perguntou. —Podemos confiar em você?
Eu não sabia se Thayer estava desconfiado, ou apenas decepcionado com a notícia que eu não podia ingerir puros novamente.
Ivy novamente revirou os olhos. —Não confiem. Depende de vocês. Ah, e como trégua, eu também trago a localização de uma nova presa para você, Cat. Sabe, eu não gostaria de ver você definhando de fome. Estraga meu espetáculo.
Franzi minha testa. —Uma nova presa?
Mal pude acreditar no que via enquanto ela escrevia endereço de um homem. Ela dizia que ele era definitivamente mau, que havia até assassinado uma garotinha durante período que ela o investigara, e que seria perfeito para mim, pois ele aparentava ser um bom homem e buscava garotinhas inocentes.
Foi uma surpresa notar o quanto ela conhecia de mim. Até sabia minha preferência. Era como se ela houvesse me observado por muito tempo.
Vasculhei minha mente em busca do passado em que eu havia conhecido ela. Nada. Tudo o que eu podia lembrar sobre ela era o que eu havia vivido ontem.
—Então, está na minha hora. —ela se levantou do sofá, erguendo a taça para que Thayer pegasse. No primeiro movimento dele, eu me adiantei e alcancei a taça, puxando das mãos magras de Ivy. Ela riu, mas olhou para o corpo de Thayer ao responder. —Foi… delicioso estar aqui com vocês. Ainda nos veremos mais vezes, então, até mais.
Mantive meu olhar frio sobre ela, enquanto ia cautelosamente andando de costas até o lugar por onde entrou. Ela sorriu para mim e piscou para Thayer antes de desaparecer de nossa vista. Ouvi seu salto e senti sua energia distanciar.
—Você precisava ser tão agradável com ela? —perguntei.
—Tudo bem, desta vez, você está com ciúmes. —ele riu. —Não negue.
—Você só pensa nisso, Thayer? —finalmente olhei em seus olhos. Ele estava sorrindo e sua energia vibrava sem o mínimo de preocupação. Inferno! Duas assassinas tinham brigado por seu gramado há apenas alguns minutos atrás e ele estava nada menos que contente. —Quer saber? Eu devia era me acostumar com isso. De acordo com o que Ivy disse, estamos ligados por agora. Eu… vou procurar uma maneira de quebrar nosso vínculo depois que esta semana passar. Agora mesmo, a prioridade é minha alimentação.
O sorriso de Thayer caiu. —Ansiosa por se livrar de mim?
Sua tristeza me fez sentir mal, me embrulhou o estômago.
—Imagino que, por eu ter sido sua primeira mulher, você esteja deslumbrado comigo, mas, Thayer, acredite em mim quando eu digo que não sou a pessoa certa para você. Eu não sou a pessoa certa para ninguém. —tentei explicar, mas ver seu rosto deprimido me fazia sentir uma megera. —Talvez eu fosse em 1961, quando eu era pura e ingênua. Mas hoje, eu sou uma morta, eu não tenho nada para te oferecer.
Suas mãos seguraram as minhas. —Apenas fique ao meu lado.
—Tantas garotas que poderiam fazer melhor que eu. Garotas vivas que te dariam uma família. Alegrias invés de perigos. Que não teriam tentado de matar…
—Garotas que não são você. —ele olhou no fundo dos meus olhos. —Eu não preciso de uma garota, Cat. Eu preciso de você.
Algo vibrou em mim, bem no meu peito. E logo, a energia de Thayer parecia tão atrativa como nunca. Era um dos truques da natureza para terminar seu trabalho. Eu estava honestamente tentada a jogar Thayer no chão e passar as seguintes horas do dia satisfazendo-o, e me satisfazendo também. Sua energia nunca soou tão convidativa e eu estava com água na boca. Eu não conseguiria me controlar.
Eu queria prová-lo novamente.
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