Notas iniciais
Aí vem o novo alvo, um personagem importante na história. Sei que existem diversas opções de o que irá acontecer a seguir - é isso que eu gosto de provocar. E ainda vou deixar um tom de suspense no final deste capítulo, mas não me matem, já estou trabalhando na continuação e irei postar o mais rápido possível. Aproveitando para agradecer a cada um de vocês, que está acompanhando minha fic. Muitíssimo obrigada!! E agradeço novamente a Natasya Terava Tahti (u/443718), desta vez, pela minha primeira recomendação

As mãos de Thayer ainda envolviam as minhas e, por aquele singelo toque, eu sentia sua energia reverberar por todo o meu corpo. Era difícil me controlar quando eu sabia que ele estava disposto. Quando eu sabia que ele não me impediria, mas me incentivaria a continuar.

Respirar estava se tornando difícil. Eu o queria tanto.

—Você está bem? —Thayer perguntou quando notou que eu já não respirava regularmente e sim dava alguns suspiros, tentando recuperar o ar.

Assenti com a cabeça, soltando minhas mãos das suas e andando para longe.

Mesmo com a distância, sua energia parecia zombar de mim por não poder sugá-la. Ela vibrava e vibrava, me desafiando, me chamando. Mas eu não podia fazer nada. Se eu fizesse, eu voltaria a ser humana. A ideia de voltar às minhas origens deve parecer linda, assim como deixar todas essas obrigações de alimentação para trás, mas eu sabia o que Ivy quis dizer quando ela me deu esta informação. Todos os anos humanos que eu pulei voltariam para mim. Não iria ser nada bonito.

—Thayer… eu estou ficando um pouco zonza. —admiti.

—O que há de errado? —ele perguntou se aproximando.

—Não! —eu pedi, tampando meu nariz e boca com a mão, como se ajudasse em algo. —É a fome. Eu nunca passei o primeiro dia da semana de alimentação sem comer. Isso… sua energia está funcionando como o cheiro de comida para um faminto. E, minha nossa, eu nunca achei que poderia ser tão desagradável.

—E o que eu posso fazer?

—É melhor que eu vá para casa. Eu… te procuro depois que me alimentar, sim?

—Isso pode demorar. —ele reclamou para si mesmo e levou uma mão para a sua nuca. —Então quer dizer que pelo resto da semana minha presença te fará mal?

—Eu não tenho certeza, mas agora está fazendo sim. —pressionei meus lábios.

—Você pode… —ele parou, como se não quisesse completar a frase, mas eu sabia que significava que eu podia ir. Assenti uma vez, procurando rapidamente a minha jaqueta e calçando meus sapatos. Antes de sair, enquanto eu abria a porta, olhei para trás. Thayer estava me observando. Sua energia fez uma última tentativa de me atrair e, para lutar contra isso, me apressei em sair, fechando a porta.

Do lado de fora, ando pela rua conferindo se eu tinha dinheiro para o táxi até encontrar o carro amarelo passando. Indiquei a rua perto da minha casa ao taxista e ele começou a dirigir. Porém, quando estamos na metade do caminho ele faz um desvio. Um desvio que o meu dinheiro provavelmente não cobriria.

—Por que não estamos indo pela via para o aeroporto? —questionei.

—Um conjunto de ruas que leva para lá foram interditadas. —o taxista respondeu, me parecendo displicente ao tirar o foco da pista para tentar me ver por um espelho retrovisor. —Parece que vai haver um evento de astronomia para observar o eclipse solar ou alguma coisa parecida.

Pelo desvio que ele estava fazendo, estávamos indo em direção ao endereço que Ivy havia me indicado. Eu sabia disso por que já havia andado bastante por estes bairros de classe média. Pedi ao taxista para que me deixasse por ali mesmo.

A rua indicada tinha casas modestas. Eu tinha dinheiro para um táxi que não fizesse mais desvios. Talvez eu devesse andar um pouco…

Percebi que, na verdade, eu estava procurando a casa que Ivy falou. 1306.

Parei quando a encontrei. Era uma pequena casa em um tom amarelo sutil. Suas portas e janelas brancas somadas ao pequeno jardim com flores coloridas faziam a casa parecer alegre e… pura. O que contrastava totalmente com a energia que eu sentia se aproximando de mim. Evitei olhar em sua direção, mas o homem que emanava a tal energia se postou bem ao meu lado.

—O que achou da casa? —ele pergunta, parecendo casual.

—É muito bonita. Principalmente o pequeno jardim. Eu adoro azaleias. Mas…

—Mas? —o estranho incitou, curioso.

—1306 é um número infeliz. Dizem que o 13 atrai má sorte.

—Nem tanta má sorte assim. —ele sorriu. —O dono da casa acaba de encontrar uma linda moça, assim como as azaleias prometem.

Me permiti analisá-lo. Meu instinto estava louco com o poder sua alma. Ele parecia querer se camuflar com uma camisa xadrez azul e uma calça branca, e mesmo que seus cabelos loiríssimos lhe dessem um ar sereno, seus olhos eram de um azul tão claro que chegava a ser gélido. Seu cabelo caiu em seus olhos e ele ainda sorria para mim, era amedrontador, como se ele planejasse me matar agora mesmo.

—As azaleias lhe prometeram algo? —ergui minhas sobrancelhas.

—Não diretamente para mim. —ele riu, trocando sua sacola de compras de mão. Eu podia jurar ter ouvido um barulho metálico, como se houvessem correntes ali dentro. —A lenda das azaleias conta que um Imperador Chinês não conseguia ser feliz. Faltava para ele o amor. Então, ele encontra um mercador que lhe oferece flores encantadas, as azaleias, e o Imperador as planta em seu jardim. Ele encontra a mulher de seus sonhos logo em seguida. E, a lenda também diz que eles devem tomar um chá feito com as pétalas da flor. Você gosta de chá?

Ele parecia muito calmo, como se recitasse um discurso decorado. Quantas vezes ele havia usado esse diálogo antes para chegar neste nível?

—Está me convidando para um chá? —entrei no modo ingênua. —Mas eu nem te conheço…

—Onde estão meus modos? —ele se perguntou, dando um tapa em sua testa coberta por fios lisos e quase brancos. —Meu nome é Philemon.

—Philemon? Que nome diferente.

—É verdade. Meus pais eram muito religiosos e queriam escolher um nome bíblico para mim. Acho que não bastava ser bíblico, tinha que ser único na vizinhança, quiçá na cidade. Acabaram me registrando como Philemon. Mas eu prefiro que me chamem de Phil, é bem mais prático. —ele ainda sorria. —E o seu nome é…?

—Cat. —lhe sorri de volta.

Phil não teve a menor curiosidade de descobrir meu nome completo.

—Agora que nos conhecemos… —ele estendeu seu braço, com a clara intenção de que eu segurasse acima de seu cotovelo e ele me guiasse para dentro de sua casa. O problema era que mesmo o meu papel de ingênua tinha limites de burrice. Quem neste século ainda entrava na casa de estranhos para tomar um chá?

—Desculpe. Eu estava atrasada… —eu disse com ar de remorso.

—Ah, não! —ele disse, parecendo decepcionado. Seu sorriso aterrorizante finalmente caiu, tornando-o menos falso. —Mas foram as azaleias que te trouxeram aqui. Se eu deixar você ir sem que tome um chá, estarei fadado a uma eterna infelicidade. Você não sente nem um pouco de pena disso?

Eu ri baixinho. —Você irá sobreviver.

—Espere. —ele pede, sem se mover muito – para não fazer barulho com o que carrega na sacola? —Leve com você uma azaleia. Plante ela no seu jardim e, se nos encontrarmos novamente, você já não poderá negar um chá.

—Claro. —eu sorri para ele. Selecionei uma azaleia mediana enquanto ele mantinha seu olhar frio sobre mim. Mesmo que ele sorrisse muito, seus olhos não apresentavam alegria alguma. Era uma bela flor aquela que eu tinha em mãos, uma de suas pétalas a diferenciava das demais, a unificava, mas quando cheguei longe o bastante, a depositei sobre o chão. Meu apartamento não tem jardim.

***

Conferi minha geladeira pela quinta vez na noite.

Era tarde e tudo o que eu tinha era água.

Apesar de não poder morrer de fome, eu precisava de comida normal para me manter. Ninguém me desejaria se eu fosse um monte de ossos que não consegue nem se mover, certo? Porém, eu nunca fui uma boca cozinheira, e me deixava triste só de pensar em comparar minha comida com a de Thayer.

Respirei fundo e fechei a geladeira. Hora de comprar bombas calóricas.

Coloquei um casaco com capuz por cima de minha blusa, vesti um jeans, e saí.

Caminhei até um mercado distante. Por que eu não fiz compras em um mais próximo? Bem, primeiro por que eu tinha que me manter invisível, e segundo, o método de segurança das lojas mais próximas eram diversas câmeras, enquanto o Senhor Jeb, dono do mercadinho 24h, mantinha apenas uma câmera de ângulo ruim e um revólver enfiado sob o cós da calça.

—Boa noite, Jeb. —saudei ao passar pela porta com sininho.

—Boa noite. —ele respondeu. Sua memória fraca demais para recordar quem sou eu e há quanto tempo frequento seu mercado. Era por isso que eu sempre o visitava. Em uma cestinha, coloquei o mínimo que eu precisava: algumas guloseimas com muitas calorias, uma lasanha instantânea e algumas frutas.

Ao caixa, vendo o velho Jeb empilhar as coisas que eu havia comprado, eu notei um quadrado de madeira com anúncios. Dentre eles estava uma garota. Na foto, ela sorria, jovem e bonita com os seus lindos cabelos cor de cobre e a pele muito branca cheia de sardas. Abaixo de sua foto lia-se “Desaparecida”, e havia dois telefones para contato.

—Ela é minha neta. —Jeb informou, notando o meu olhar.

—Espero que a encontrem logo. —eu disse.

Os olhos de azuis de Jeb se pareciam com os da garota na foto. Foi uma boa coisa que não houvesse família para sentir minha falta quando morri ou eu teria ficado ainda mais devastada em deixá-los para trás. Não que eu acredite que a garota estava morta. Algumas vezes adolescentes fogem. Não é incomum.

—Cat? —ouvi uma voz masculina perguntar ao meu lado.

Cheirando como uma loja inteira de perfumes, Phil parecia que tinha ganhado na loteria enquanto me olhava. Em sua cesta de compras, notei muito produto de limpeza e também muitas gazes, além de remédio para queimaduras e água oxigenada própria para esterilização.

Seus sagazes olhos gélidos seguiram o meu olhar e tratou de colocar as coisas rapidamente na esteira de compras, onde Jeb começou seu trabalho.

—Não vai me negar aquele chá agora, vai? —ele se aproximou.

Fui incapaz de responder. Sua aproximação juntamente com o ventilador postado na parede atrás dele, trouxe todo o seu cheiro direto para mim. Me atordoou no início, era como se ele tivesse tornado três frascos inteiros de diferentes fragrâncias sobre si mesmo depois do último banho, mas um cheiro de ferro se sobressaiu para mim. Muitos anos cheirando sangue me levaram a reconhecer o odor rapidamente.

—Você teve notícias sobre ela, Phil? —Jeb perguntou para Phil.

—Me desculpe, Senhor Jeb. Ainda não. —Phil respondeu.

Ivy havia dito que, investigando Phil, sabia que ele havia assassinado uma garota. Produtos de limpeza do porte que ele comprava limpavam sangue.

Meus pêsames, Jeb, pensei. Sua neta está morta.

Peguei minhas sacolas de compras e sorri para Phil. Saber que ele havia assassinado a garota e ainda se comunicava com um familiar tão cheio de pesar como o Senhor Jeb apenas para se certificar que eles não obtivessem notícia alguma da garota… Isso me lembrou o por quê de eu ter aceitado ser uma Ceifadora sem olhar para trás. Eu queria matar os podres, para que eles não contaminassem mais puros. E agora, eu queria matar Phil.

Logo depois de pegar suas compras, ele olhou para mim e sorriu de volta.

—Aceita que eu te leve até a minha casa de carro? Nunca está tarde demais para um bom chá. —novamente, seu sorriso não chegava aos olhos.

—Eu adoraria. —sorri de volta, lutando para parecer sincera.

—Foi mesmo uma surpresa te encontrar aqui. —ele confidenciou, quando já estava dirigindo seu carro. —Eu sou novo nesta vizinhança, estou planejando abrir uma floricultura e, quem sabe, montar algumas aulas gratuitas sobre História das Flores para crianças. Não conheço muitas pessoas além do Jeb e… alguns mais. Você mora por aqui?

—Sim. Duas ruas acima. —menti, apontando pela janela.

Tenho que admitir, ele era bom. Sim, soava um pouco planejado demais para mim, como se aquele fosse seu discurso padrão para impressionar garotinhas. Mesmo assim, ele parecia de confiança enquanto falava que queria ensinar criançinhas e cuidar de flores. Parecia bom enquanto eu não olhava em seus olhos.

—Você sempre morou por aqui? —ele perguntou.

—Sim. Sempre. Meus pais me deixaram esta casa. Eles… morreram.

—Eu sinto muito. —ele disse, colocando emoção em suas palavras.

—Está tudo bem. Eu ainda os tenho no meu coração. —falei, colocando ambas as minhas mãos entrelaçadas sobre meu peito.

Phil levou uma mão para cima das minhas enquanto segurava o volante com a outra. Seu toque quase me fez afastar. Sua forte energia fazendo os cabelos de minha nuca se arrepiarem. Quando olhei para ele, seu rosto estava exultante, enquanto ele tentava manter sua expressão séria. O canto de sua boca se elevou.

—Sim. Você com certeza os têm. —ele disse.

Descer do carro pareceu sair de uma caixa cheia de fumaça. Eu podia finalmente respirar aliviada. Sua energia me deixava fria e eu desejava ter mais um casaco comigo. Foi quando me ocorreu que Ivy provavelmente havia me entregado ele por que sabia que não poderia contê-lo em si.

Uma ceifadora podia enlouquecer ou até ruir ao se aventurar com maldade demais para conter. Ivy era esperta demais para isso, afinal.

—Vou fazer o chá. Fique confortável aqui na sala. —ele disse ao entrarmos.

Quando ele saiu, é claro que eu não fiquei na sala.

Andei pelo estreito corredor com pinturas de flores pelas paredes e ouvi um barulho metálico vindo do quarto ao lado.

Um rato? Ou uma pessoa viva?

Entrei no quarto e não havia ninguém. Mas eu podia jurar que havia escutado um barulho vindo daqui. Esperei um pouco mais e logo o barulho se repetiu, vindo de algum lugar embaixo dos meus pés. Um porão.

Chutei o tapete sob meus pés e encontrei um desnível. Uma porta.

Puxei com força e a porta se abriu para cima, revelando uma escada empoeirada e íngreme de madeira. Desci por ela, sentindo o cheiro de sangue e tentando absorver os rangidos que a madeira insistia em fazer.

Estava escuro ali embaixo, meus olhos se adaptaram o melhor que podiam e encontrei um interruptor na parede.

A luz invadiu o quarto e pude finalmente ver.

Notas finais
E veio a luz! O que vocês acham que tem no quarto? Já sabemos que a Cat pode tomar conclusões erradas (não seria a primeira vez). Será que o Phil é puro, ou ele é todo este malvado que a Cat está pintando?