Morrer de Amor
6 Capítulo 6
Notas iniciais
—Seguidos? —ele indagou, olhando pelo seu próprio retrovisor.
Um carro bem comum, um sedan preto, fácil de camuflar no trânsito, estava dois carros depois do nosso. Thayer não notaria, mas eu já o havia feito há alguns quilômetros. Estávamos em ruas tranquilas, por isso não seria difícil convencê-lo de que-…
—O que faremos? —ele perguntou de prontidão. Eu sabia que ele não havia enxergado o carro, mesmo que procurasse fazê-lo. Mesmo assim, ele mantinha essa confiança cega em mim.
—Vá em direção ao trânsito. Quando estivermos engarrafados, troque de lugar comigo. Eu sei como despistá-lo. —e foi exatamente o que ele fez.
Eu sabia que seria muito difícil camuflar o carro de Thayer no trânsito. Seu carro era muito grande, muito brilhante, chamava a atenção até mesmo de pedestres. O que eu queria entre todos aqueles carros não era me esconder, era simplesmente me afastar. Sim, estaríamos presos dentro do engarrafamento, mas também estaria o nosso perseguidor, e na primeira chance podíamos despistá-lo com facilidade.
Assumindo o volante, aproveitei algumas brechas para colocar o carro na área central da larga avenida.
—O sedan preto, com vidros escuros. —informei para Thayer, que ainda procurava pelo retrovisor. —Seja discreto. Ele não pode notar que sabemos de sua presença.
—Tínhamos carros em 1961? —ele perguntou. Thayer estava se divertindo como uma criança numa montanha russa.
—A pergunta correta seria: tínhamos rodas? Foi no século passado, não na Idade da Pedra. —revirei os olhos. Quando viva, eu nunca havia dirigido, mas depois de minha iniciação, quando voltei definitivamente, os carros dominavam as ruas. —Sim, tínhamos automóveis. E eu tive bastante tempo para praticar.
—Não que eu me incomode com a integridade do carro. —agora ele parecia alguém que está contendo um sorriso. —Eu estou adorando esta perseguição.
—Mas é claro. —minha voz tomou uma ironia ácida. —Por favor, senhor passageiro, aperte seu cinto. Não queremos que esta pequena excursão lhe cause algum transtorno. Afinal, por que você se preocuparia em estar sendo seguido?
Percebendo que eu não compartilhava seu humor, Thayer se endireitou.
Dei uma guinada com o carro para o lado, aproveitando uma pequena vaga que nos afastaria mais do carro perseguidor. Logo mais e mais vagas começaram a aparecer. Bom, eu não menti quando disse que tive muito tempo para praticar, eu sabia desviar dos carros muito bem, mas manter o carro intacto não havia sido algo que eu havia me preocupado em algum momento.
Escutei a buzina de um carro distante de nós, quando o sedan preto havia tido sua tentativa de avançar frustrada.
Acelerei quando chegamos numa rua quase deserta, desviando dos carros como se estivesse em uma corrida. O que mais me surpreendeu foi que Thayer não estava pirando com o fato de eu passando a centímetros dos outros carros. Ele parecia apenas animado.
Quando estávamos longe o bastante, pedi para trocar de lugar com ele.
Meus olhos se mantiveram fixos no retrovisor e nossa conversa cheia de humor de antes morreu. Cada carro que enxerguei durante nosso percurso era diferente do sedan que nos perseguia, e com o aumento de carros luxuosos nas ruas e casas cada vez maiores e mais elaboradas, entramos no bairro de Thayer. Sua ostentosa casa pareceu ainda mais impressionante do que na primeira vez que a vi.
—Eu adoro ter você aqui. —Thayer alegou quando estávamos finalmente dentro de sua casa. —Quer dizer, eu adoro estar com você independente do lugar, mas você na minha casa soa … perfeito.
—E por que você está me dizendo isso? —sentei no braço de uma das poltronas da enorme sala clara, desconfiada.
—Simples. —ele sorriu, o sentimento cálido queimando através de nossa ligação enquanto ele se aproximava de mim. —Por que quero você sempre aqui.
De repente, perdi minha voz e meus olhos piscavam involuntariamente.
—Está me pedindo para morar com você? —meu queixo caiu.
—Sim, estou.
—Thayer, são tantas razões para eu te dizer “não”, que eu quase não noto o quanto esse seu pedido parece loucura. —falei, sem conseguir ficar sentada por mais tempo. Me levanto e começo a andar, sem me aproximar dele. —Você percebe que está convidando uma assassina para dentro de sua casa? Seus pais jamais te ensinaram a diferenciar pessoas que são ou não de confiança?
Quando dei meia volta, Thayer já estava a poucos centímetros de mim.
—Muito pelo contrário. Meus pais me ensinaram a reconhecer o certo e o errado. O que pode ser mais certo do que o que eu sinto ao seu lado? —ele levou uma mecha de meu cabelo para trás de minha orelha e acariciou o caminho até meu queixo com a parte de trás dos dedos. —Eu não sabia o que sentiria quando encontrasse a pessoa certa, não sabia como teria certeza, e temia que a deixasse escapar. Mas desde a noite em que meus olhos encontraram você, eu já não consigo pensar em outra coisa além de como seus cabelos contrastam contra sua pele suave, e como seus olhos são encantadores, e como você demonstra ser ao forte e firme, como é fascinante em todos os sentidos, por dentro e por fora. Isso não é errado.
Seus olhos focaram na minha boca e eu sabia qual seria seu próximo passo.
—Thayer, não. —eu disse, erguendo minhas mãos na minha frente.
—Eu nunca experimentei algo assim antes. —ele deu um passo para frente, me fazendo dar dois passos para trás. —Quando você nega, eu sinto como se estivesse te obrigando a fazer algo, mas quando estamos juntos você não demonstra resistência alguma. Isso me deixa confuso. Diga, você não sente nada de especial quando estamos próximos assim?
—Nada. —minha voz não convenceu nem a mim mesma. Pigarreei, na tentativa de tornar minha voz mais firme. —Aliás, o que você fez no final de sua apresentação está muito errado. Me beijando na frente de diversos estranhos, como se-…
—Se fosse em privado, não teria sido um problema? —ele ri.
—Argh. Não distorça o que eu digo! —rosnei, muito mais irritada comigo do que com ele. Ele deu um novo passo em minha direção e, quando tentei ir mais para trás, a parte de trás dos meus joelhos bateu contra o sofá e eu caí sobre ele.
Thayer não demorou em vir até mim. Ele não podia ter sido mais gentil, segurando meus pulsos e se equilibrando no sofá com um joelho para não depositar todo seu peso sobre mim. Se eu me sentisse em perigo, meu instinto de Ceifadora me faria forte o bastante para jogá-lo longe, mas eu me sentia completamente o oposto. Eu não gosto de admitir, mas ter o corpo forte e quente de Thayer sobre o meu se sentia muito bem.
—Olhe nos meus olhos. Diga que não quer isso, e eu prometo parar. —ele murmurou, seus lábios cada vez mais próximos dos meus.
—Thayer… Eu…
Ele sorriu quando notou que meus olhos estavam em seus lábios e selou minha boca com a sua. No primeiro toque macio, eu suspirei. Sua energia voltou com força total, me invadindo, me acendendo, e já não estou certa de qual fator levou meu fôlego embora. Quando entreabri meus lábios, nosso beijo se aprofundou, e suas mãos que seguravam meus pulsos me levaram a ficar deitada sobre o sofá.
Sem conseguir pensar em algo além disso, levei minhas mãos para suas costas, sentindo-o por sobre o tecido da camisa.
Eu sabia que ele estava tentando não ser agressivo. Enquanto seus sentimentos incendiavam por nossa ligação, ele foi gentil ao tirar minha jaqueta, deslizou suas mãos devagar por minha coxa, vindo sob a saia do meu vestido.
Arqueei meu corpo para ele, pressionando meu peito contra ele. Meu corpo sintonizando com o dele, inflando de desejo.
Thayer move sua boca da minha, traçando um caminho de beijos por meu queixo e pescoço até a curva do meu seio, bem acima do decote. Quando sua língua alcança minha pele, ele envia uma labareda por mim, me fazendo estremecer e envolver seu corpo com minhas pernas, meus joelhos pressionando seu quadril.
Ele deixa escapar um gemido lento e profundo, sua mão segue mais acima nas minhas coxas e me puxa para mais perto.
O telefone toca estridente bem acima de minha cabeça, me assustando.
—Ai. —reclamo, levando uma mão para tampar meu ouvido.
—Porra! —ele xinga baixinho, me fazendo sorrir pois é a primeira vez que o escuto falar algum palavrão, e se estica sobre mim para alcançar o telefone. —Alô?… Sim… Puta merda, você me ligou para falar isso? Olha, eu estou com ela agora… Não tem a menor graça… Eu já estou a ponto de matar você sem precisar ouvir seus comentários idiotas, então vê se não estimula.
Quando tento desvencilhar do corpo dele, ele leva uma de suas mãos até mim, segurando minha coxa e me impedindo de sair do lugar. Presa sob ele, olho para cima e continuo escutando sua conversa. Aparentemente, um dos amigos que o acompanhou ontem a noite no Mynt ligava para falar sobre mim, e não estava deixando Thayer nem um pouco animado.
Olhando para a mesinha onde o telefone ficava, achei um porta-retratos. Ele era de prata, muito bonito, e estava virado para mim. Uma foto de uma mulher nele.
Um sentimento estranho borbulhou em mim, junto com uma curiosidade de saber quem era a mulher, mas antes que isso pudesse evoluir, notei que ela tinha as mesmas características de Thayer. O cabelo loiro, os olhos cor de mel, uma aparência angelical e um sorriso caloroso.
Estendi minha mão para cima, trazendo o porta-retratos para mais perto.
—Diana Hasting, minha mãe. —Thayer informou assim que terminou a ligação.
—Ela era muito bonita. —uma beleza tão evidente que fazia meu elogio parecer algo bobo de se dizer. —Parecia com você.
—Sim, é o que todos dizem. —ele sorri. —Ela adoraria você.
—Ah, tenho certeza disso. —caçoei. —Até penso que ela foi alguém pura, como você é hoje, mas ela ainda seria mãe. Me manteria trancada fora desta casa sempre que tivesse a oportunidade e eu não a julgaria por isso.
—Não, ela não faria isso. —ele declarou, parecendo ter certeza do que dizia.
Revirei os olhos. —Estamos mesmo discutindo isso?
—Bem, você sugere algo melhor para fazermos? —ele perguntou, arqueando suas sobrancelhas de uma forma engraçada que me fez sorrir.
—Na verdade, você me convidou aqui com uma promessa de jantar e não de dar uns amassos no sofá, o que eu começo a acreditar que era sua intenção desde o princípio. —estreitei meus olhos para ele, sem conseguir parecer realmente incomodada já que o canto da minha boca insistia em manter meu sorriso.
—Claro que não era minha intenção! Digo, era também. Argh. —ele levou a mão que antes segurava o telefone até sua testa. —Eu não me esqueci do jantar, e ele foi uma proposta franca. Assim como o pedido de você aqui, nesta casa.
—Mas eu não irei morar aqui-…
—Mas como você não irá aceitar de maneira alguma, você poderia pelo menos dormir aqui hoje. —pude sentir seu coração acelerar, esperançoso. —Eu tenho espaço de sobra pela casa. E assim você poderá jantar bem tranquila, sem precisar se preocupar em como voltará para casa e… Eu amaria ter você aqui.
Olhei em seus olhos, incandescentes em espera por minha resposta.
—Uma perguntinha. —eu ergui meu dedo indicador. —Você me quer para dormir na sua casa, ou para dormir na sua cama?
O sentimento quente novamente se desenrolou. Eu sabia a resposta daquela pergunta, mas era crucial que ele respondesse da maneira certa, e ele sabia disso. Eu não posso me vincular mais ainda com ele e isso parece cada vez mais inevitável. Thayer não devia ser mais do que uma presa que eu falhei em matar, mas ele é muito mais que isso. Mais até do que alguém com quem eu tenho uma estranha ligação. Só espero que não se torne tão mais assim.
—Sinceramente? Você sabe o que eu quero. Mas eu preciso de você por perto, de qualquer maneira. Apenas saber que você está aqui já é o suficiente. —ele disse.
Suspirei. A decisão seria apenas minha.
Eu sabia que devia me distanciar. Sabia que desde que eu havia pronunciado seu nome, eu já estava me aproximando demais. Mas por que eu não queria fazer o certo, mesmo quando eu havia feito durante anos?
—Cat, você pode, por favor, acabar com o suspense? Ele está me matando.
—Espero que tenha uma escova de dente extra. —falei.
Ele suspirou de alívio, encostando a cabeça no espaço do sofá acima do meu ombro. —Mas é óbvio que eu tenho.
***
Ajudar com a preparação do jantar era o mínimo que eu podia fazer. Thayer vasculhou por toda cozinha e optou pela minha comida predileta: Italiana.
Thayer tentou fazer tudo agradável a cada instante. Até acendeu velas.
Dizer que eu me esbaldei na comida e no vinho tinto seria pouco. A qualidade de tudo era suprema, muito maior do que eu era habituada. Tecnicamente, eu não posso morrer. Meu corpo está morto já há muito tempo, enquanto minha alma é o que persiste. Eu comia apenas como uma função necessária para produção de energia de meu corpo, podendo passar dias sem comer. Até agora.
A conversa se manteve leve por todo o jantar. Thayer não voltou a tentar me convencer a ficar permanentemente, mas algo me dizia que ele não havia desistido.
Ele também me fez sentar o mais próxima dele possível dele, até que nossas pernas constantemente se encontravam sob a mesa, mas ele não parecia incomodado de forma alguma. A noite lá fora parecia mais fria que o normal, mas ele se lembrou de manter o interior da casa muito bem aquecido. E novamente, eu não entendia por que devia ficar longe dele.
—Você nunca pensou em trabalhar como cantora? —ele me perguntou, já no final do jantar. —Sua voz envolveu a todos no bar.
—Não é como se eu devesse trabalhar. Estou morta, lembra?
—E como você se mantém?
—Ah, sempre dou um jeito. Eu vivo no apartamento de uma amiga, ela me ajuda bastante. Também é uma Ceifadora, mas ela trabalha bem mais envolvida com negócios financeiros que eu, por assim dizer, e sempre me ajudou. —bebi um pouco mais de vinho. —E você? Como consegue manter tudo isso aqui?
—Herança. Tenho uma parte de um hospital. —ele encolheu os ombros.
Revirei os olhos. —Claro que tem.
Nunca estive tão errada em minha vida como estive no dia em que conheci Thayer. Sim, ele sempre se pareceu com o garoto-bonzinho, mas os outros que eu havia caçado também o faziam. Assim como o meu noivo. Como ele havia sido elegante e educado… até decidir acabar com a minha vida.
***
Thayer começou a apagar as luzes da casa. Havíamos conversado por horas em frente a lareira até que ele começasse a apresentar os primeiros sinais de sono. Ele havia relutado no começo, mas eu sabia que não ia durar muito.
Eu já sabia qual quarto devia ficar – sim, um quarto diferente do dele.
Mas eu queria ficar ali?
—Boa noite, Cat. —Thayer disse, vindo até mim para beijar minha testa.
—Espere. —eu segurei o punho de sua camisa. —Fique comigo.
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