Morrer de Amor
5 Capítulo 5
Notas iniciais
O corpo ainda quente de Brutamontes estava retorcido em ângulos estranhos para poder caber na lixeira, que era grande, mas não longa o suficiente para acomodá-lo. Em seu rosto, um sorriso de satisfação, e em seu corpo, uma braguilha aberta e cada sinal vital recolhido por uma Ceifadora.
—Claramente foi uma Ceifadora. —atestei. —Uma bem irresponsável para deixar o corpo dele largado nessa caçamba de lixo, ou apenas uma covarde, com medo de me encarar depois de roubar minha presa.
—Ela conseguiu quebrar o fêmur dele e afundar o osso temporal. —Thayer se admirou, analisando o corpo mais de perto.
—Não toque em nada. —adverti. —Ainda estou pensando se eu devo me livrar deste corpo ou deixá-lo aqui para incriminá-la.
—Não seria bom se a polícia se envolvesse.
—Polícia? —recitei como se fosse um nome engraçado. —Não estou falando de polícia humana. Estou falando em regras. Regras se são apresentadas ainda em nossa iniciação, e que podem transformar o resto da eternidade de uma Ceifadora em um verdadeiro inferno. Elas não falam sobre muita coisa, como o que aconteceu entre você e eu, mas elas falam claramente do despejo de um corpo.
—Está tentando me amedrontar? —a voz feminina finalmente se manifestou.
—Na verdade, estou tentando fazer você se apresentar. Sabe, não é muito bonito ficar bisbilhotando a conversa dos outros. —sorri.
Thayer estava surpreso em ver que tínhamos companhia, mas eu não. Senti o seu olhar fixo em mim antes, quando ainda estávamos no bar, mas não sabia que pertencia à outra Ceifadora. Não até encontrar o Brutamontes assim, quebrado como um palito de dentes usado.
—Você não me reconhece? —a Ceifadora deu um passo para fora do escuro.
Honestamente, não a reconheci. Eu via muitos rostos todos os dias e se eu a havia visto apenas um dia, eu provavelmente havia lhe apagado de minha memória. Seu cabelo curto não era incomum, preto e extremamente liso, mas seu rosto redondo, com maçãs altas e bochechas secas eram bem marcantes, assim como seus olhos de gato de um castanho esverdeado.
—Nop. —respondi.
—Eu estava na sua turma de iniciação. —ele facilitou.
—Desculpe. Eu não me lembro de ninguém da turma.
Ela soltou uma risada sem graça. —Claro que não. A grande Cat não precisa lembrar-se de ninguém. Meu nome é Ivy. E o gostosinho do seu lado é o…
—Não te interessa…
—Sou Thayer…
Eu e Thayer falamos ao mesmo tempo, mas nossas emoções em reação a isso foram completamente diversas. Enquanto a felicidade deslizou dele até mim por nossa ligação e inflou meu peito, eu senti vontade de mandá-lo ficar calado.
—E ele não é uma refeição. —terminei, quase rosnando.
—Uh, eu não estava o chamando de gostoso no sentido de refeição, mas… —ela lambeu os lábios e inclinou a cabeça para o lado. —Agora que você citou o tópico, ele tem uma energia deliciosa. Seria totalmente pura, ou totalmente má?
Desta vez, Thayer teve a prudência de permanecer calado, e eu dei alguns passos preguiçosos até Ivy.
—Escuta bem, Ivy, por que eu definitivamente não vou gastar meu tempo com você. —falei, parecendo muito mais perigosa com minha voz calma. —Eu senti uma pontada de insinuação em sua voz, e você provavelmente sabe algo que eu não sei, ou não sabia. Eu não gostei. Você aparecendo aqui e tomando minha presa em dez minutos? Gostei ainda menos. E você, aqui tentando se alimentar novamente de alguém que está comigo? Você é bem ousada.
—Ousada é o meu nome do meio. —ela sorriu, sem se intimidar.
—Se você era da minha turma de iniciação, provavelmente lembra-se do que eu sou capaz. —semicerrei os olhos. —Quer um pouco disso?
Foi a primeira vez que ela hesitou.
—Ótimo. —sorri. —Não posso pedir a cidade inteira para mim, principalmente por que é Miami, e tempos uma vida noturna agitada o bastante para manter alguns Ceifadores sem necessidade de briga. Mas eu quero deixar bem claro que eu sou muito, muito territorialista. E que se você mexer no que é meu mais uma vez, eu não vou ser piedosa.
—Uau. Você é mesmo um prodígio. —ela disse.
—Já dei meu recado. —joguei meus cabelos para trás dos meus ombros e segui até Thayer. De jeito nenhum eu ia deixá-lo sozinho com uma Ceifadora que trabalha em dez minutos. Dez minutos. —Até nunca mais, Ivy.
Ao invés de responder, ela apenas riu baixinho.
Quando estávamos na frente do bar eu notei que estava tremendo de leve. Não era de medo de Ivy, eu sabia, mas eu tinha medo de alguma coisa. Não Thayer, o humano entre duas criaturas mortais do submundo, mas eu, a tal criatura mortal. Que patético.
Eu não havia sido a única a notar o tremor. Thayer me abraçou.
—Vai ficar tudo bem. —ele sussurrou no meu ouvido. —Ela estava claramente com medo de você. Não será problema nenhum.
—Não é por isso que eu estou assim.
—Então por que é? —ele perguntou, ainda me segurando.
Se eu dissesse que não sabia, seria uma mentira? Eu havia ficado assim por que ela havia ameaçado Thayer, e o que ele podia fazer contra ela? Exatamente nada. Ela era facilmente três vezes mais forte que ele, dado que ela tinha estado na mesma iniciação que eu e conseguia se alimentar em apenas dez minutos. Oh, meu… Dez minutos para Thayer se perder.
—Podemos conversar sobre isso em outro lugar?
—Vem comigo. —ele disse, segurando uma das minhas mãos e me guiando até um carro que estava estacionado perto dali, um Range Rover Evoque gigantesco. Foi ao entrar no carro, sentar naquele banco confortável e me lembrar de sua casa enorme que me fez lembrar que eu não conhecia o Thayer tão bem assim. Eu nem sabia o que ele fazia para ganhar a vida.
—Você precisa ficar longe dela. —sentenciei.
—O quê?
—Você não pode ficar muito próximo da Ivy. Viu o que ela fez com o Brutamontes? Ela não hesitará em fazer o mesmo com você. —completei. —Por alguma razão, ela tem uma cisma comigo. Eu não lembro o que eu poderia ter feito para ela na época de iniciação, mas… Que seja. Apenas diga que não vai se aproximar dela.
Esperei uma resposta sensata dele, mas tudo o que recebi foi um sorriso.
—Cat, você está com ciúmes de mim?
—Não seja bobo, Thayer. Isso é estritamente sob sua proteção. E de certa forma, a minha também, por que nós temos essa ligação estranha e só… alguém acima de nós sabe onde isso pode acabar.
—Parece bem com ciúmes de onde eu vejo. —ele ironizou.
—Ciúmes ou não, você deve ficar longe dela.
—Mas é claro que sim. E isso não devia te preocupar. Quer dizer, ela nunca conseguiria se alimentar de mim. —ele soou tão convicto que me tranquilizou. —Para se alimentar, pelo o que eu notei, ela deve satisfazer o homem sexualmente, não é? Nunca chegaria a tanto. Tudo o que eu penso desde ontem é você.
Fiquei tentava a dizer: “Você ficaria surpreso”, mas ele tinha novamente aquele sentimento quente atravessando nossa ligação.
Suspirei, aliviada com as palavras dele quando eu sei que não devia.
—A noite apenas começou. Você aceita vir comigo? —ele perguntou, esperançoso.
—Thayer, eu ainda tenho que caçar.
—Ivy falou algo sobre minha energia ser boa. Isso não significa que você poderia se alimentar de mim?
—Sabe o que está dizendo? Pedir que eu me alimente de você é como pedir para matar você.
—Estou mais do que disposto. Sabe, da última vez que você tentou, eu gostei bastante.
—Não brinque com isso. —tentei soar o mais séria possível. —Você não tem ideia do que esta pedindo. Além do mais, apenas o fato de você estar se oferecendo significa que você é bom demais para ser ingerido. Eu preciso de uma alma ruim, e não há como você se tornar isso por mim.
—Mas podemos fazer uma tentativa?
O sentimento quente ardeu ainda mais por nossa conexão, tão forte que parecia algo que eu estava sentindo. Quando o calor se instalou em mim, a primeira coisa que eu notei foi que seus sentimentos podiam acender os meus, a segunda coisa foi o ponto da sugestão dele, tentarmos fazer isso não soava tão ruim até mesmo por que eu não conseguiria matá-lo, e a terceira coisa… eu queria muito tentar.
Não se tratava de fome de uma Ceifadora. Havia uma fome distinta dentro de mim, perfeitamente sintonizada ao desejo que Thayer demonstrava.
—Não. —fui o mais decisiva que poderia ter sido. —Se quer tentar se matar, existem milhões de maneiras de fazê-lo além desta.
—Todas muito menos prazerosas, eu prevejo.
Virei meu corpo totalmente em sua direção e agarrei seus ombros com ambas as mãos. —Olha aqui, Thayer, você ainda parece estar longe de entender apesar de todas as vezes que lhe esclareci, mas eu sou uma assassina demoníaca. Me alimentar de você pode parecer um barato, mas não é. Você perderia privilégios de sua alma eterna e, se acima de ser cabeça dura, você ainda tiver um pouco de suicida em você, se controle. Ao menos até descobrirmos mais sobre essa nossa conexão.
—Você classifica como suicídio morrer de amor?
—Amor? —zombei da palavra. —O que acha que eu sou? Um maldito cupido que voa enfiando flechas nos traseiros alheios? Acorde, Thayer, o máximo que se pode classificar o que eu faço e matar de satisfação. Amor não é algo que eu tenha jamais alcançado.
Pelo nosso vínculo, eu sabia que ele não estava magoado com minhas palavras, mas o brilho em seus olhos significava compaixão por mim.
—Como assim, nunca alcançou o amor? —ele perguntou.
—Ah, sério que nós iremos falar disso?
—Cat, por favor. Eu quero entender mais sobre você. —e a combinação de seu olhar, seus sentimentos e muito mais seu toque sobre minha mão me desarmou. Eu nunca havia falado sobre isso com ninguém, mas me sentia segura para desabafar com Thayer. Ia além do fato de apenas precisar fazê-lo depois de tanto tempo, isso era também sobre como eu acreditava que ele me ajudaria.
Respirei fundo antes de começar. —Eu achava que amava, mas na verdade eu apenas desejava. E era desejada. Acredito que minha mãe me amou, mas meu pai nem tanto. Isso foi o mais próximo do amor que eu cheguei.
—Se você fala de seus pais no passado, acredito que estejam mortos. Eu sinto muito.
—Isso foi há muito tempo.
—Eu também perdi meus pais. Ambos em um acidente. Conheço a dor o bastante para acreditar que ela nunca vai embora.
—Não vai. Mas quando você é machucado pela vida e pela morte como eu fui, não é necessário que a dor vá embora para você se acostumar com ela. —eu disse, agarrando a barra de minha saia para distrair minhas mãos. —Quando se tem uma diversidade de dores, você já não se preocupa em manter alguma delas em prioridade, apenas as organiza, como livros em uma estante, e as observa, por que elas fazem parte de você. E reza para que elas não carreguem sua sanidade.
Os olhos de Thayer estavam fixos em mim quando ele continuou. —O quanto você foi machucada?
O canto dos meus lábios de ergueu em um sorriso fraco. —Você não quer realmente saber isso, Thayer.
—É claro que quero. —sua voz nunca soou tão firme. —Cada palavra que sai de sua boca me ajuda a te compreender melhor. E isso é o que eu mais desejo fazer. Eu não estava brincando quando disse uma vez que você era um enigma. Me ajude a entendê-la.
—Eu fui assassinada em 1961. Na época, eu era uma garota pura, estava noiva, queria um filho. Eu era tão boba. Não sabia o que realmente era viver até a morte abrir meus olhos. Não sabia o quanto eu queria viver até eu morrer. —meus olhos não vagavam, estavam trancados nos olhar de Thayer. —Mas a morte levou tudo daquela garota em mim. Quando eu respirei de novo, meu fôlego exigia vingança. A pureza que eu tinha foi sepultada naquela noite, e hoje eu sou uma assassina.
Thayer tocou suavemente meu joelho. —Quem matou você?
Engoli em seco. Eu queria responder? Eu podia fazê-lo?
—Meu noivo. —foi tudo o que eu pude dizer antes de minha garganta fechar.
Thayer não respondeu nada. Ficamos em silencio enquanto eu sentia a gentileza de seu toque e o conjunto de sentimentos que ele demonstrava por meio de nossa ligação. Não haviam sentimentos depreciativos, mas havia muito do sentimento cálido ao qual eu começava a me habituar.
Apesar do desconforto de tocar em assunto que eu havia desejado esquecer por tanto tempo, as reações silenciosas de Thayer levavam todo o peso sob meus ombros embora.
—Agora que estamos sendo sinceros, —comecei, usando ironia para tentar esconder minhas emoções. —Como foi que você conseguiu chegar tão longe com sua virtude intacta? Achei que os garotos deste século fossem loucos para acabar com a virgindade.
—E são. —ele riu, mantendo seus olhos em mim ao encostar a cabeça no encosto do carro. —Quer dizer, somos. Existem momentos em que a opção de simplesmente acabar com isso parece excelente, mas… Eu não acredito que teria sido a mesma coisa se não fosse com você. A espera valeu a pena, e eu não estou nem um pouco arrependido.
Imitei sua posição, encostando minha cabeça no ponto alto do banco de couro, e o canto de minha boca subiu em um sorriso involuntário.
—Você consegue se mostrar cada vez mais puro. —comentei com ar de incredulidade.
—O que eu pensei em fazer ao Brutamontes se ele sequer tocasse em você está longe de ser a atitude de alguém puro.
—Seria você batendo no cara mau e salvando a garota. Parece bem heroico para mim. Puro. —pronunciei a palavra devagar, como se isso aumentasse sua intensidade. —Além do mais, não devemos pensar no brutamontes. Agora, Ivy já deve ter cuidado dele.
—Minha nossa, —os olhos de Thayer vagaram, como se ele relembrasse algo apenas agora. —Aquele homem estava destroçado dentro da lixeira, seu sorriso não podia parecer mais fora de lugar. Seus ossos mais resistentes torcidos como se não fossem mais do que meros fios de alumínio. E tudo feito por aquela garota?
—Aquela garota é uma Ceifadora. Assim como eu, aliás.
Seus olhos se ampliaram. Era como se apenas agora ele notasse isso. —Você pode fazer aquilo?
—Se com "aquilo" você quer dizer "quebrar todos os ossos", sim, eu posso. E não soe tão incrédulo! Até quando vai achar que eu sou a mocinha indefesa? —revirei meus olhos. —Se teve uma coisa que o tempo me ensinou, foi que os seres humanos podem parecer muitas coisas, inclusive o que não são.
Antes que eu pudesse prever o movimento, as mãos de Thayer envolveram as minhas.
—Eu queria poder proteger você. Mas cada vez que eu conheço mais sobre sua natureza, eu noto o quanto você não precisa de mim. —seus olhos brilhavam com sua seriedade. —O que eu posso fazer por você? Um humano, não mais resistente do que aquele que acabamos de encontrar morto. Alguém que não pode nem servir de alimento.
—Viu? Isso é um sinal de pureza. E a saída para isso é você me enxergar como eu realmente sou.
Seus olhos cintilaram. —Existe uma saída mais agradável. Você pode jantar comigo esta noite, na minha casa. Talvez isso possa abrir meus olhos para seus argumentos.
Semicerrei meus olhos para ele, sem conseguir realmente ficar irritada pelo convite. —Boa tentativa. Tudo bem, pode dirigir até lá.
Um enorme sorriso cresceu no rosto de Thayer enquanto ele ligava o carro, dirigindo até sua casa, longe de onde estávamos. Thayer me sondava, perguntando minhas comidas favoritas quando eu olhei pelo retrovisor. Meus instintos de Ceifadora me ensinaram a ser uma caçadora, assim como a reconhecer quando estou sendo caçada.
—Thayer, estamos sendo seguidos.
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