Notas iniciais
Dedico este capítulo para "Natasya Terava Tahti" (u/443718/) e "Menininha Indefesa" (u/341330/), por favoritarem minha história. Isso me fez muito feliz! E aí vai, mais um capítulo!

A voz grave atrás de mim pertencia a um homem, e quando eu o analisei melhor, notei apenas um monte de músculos e… muita energia de única fonte emanando de cada célula sua. Sua energia me causava calafrios incômodos, e não arrepios agradáveis como os de Thayer. Sorri levemente para ele enquanto o intrometido saía, entendendo o recado.

—Obrigado, ele estava começando a se tornar inconveniente. —confessei.

—E a minha regra número um é nunca deixar belas ruivas com caras inconvenientes. —ele toma o lugar novamente vazio na minha frente. Segurei uma mecha do meu cabelo na frente os meus olhos. Definitivamente castanho.

Depois de Thayer, eu fiquei mais cautelosa com isso de energia totalmente má, e eu não me deixaria levar pelas aparências desta vez.

—Já a minha regra principal é o meu fraco por caras maus. —tomei um gole de minha bebida, tentando soar provocante. —O que me diz? Você é um almofadinha ou o que eu estou procurando?

—Não acho que você possa encontrar alguém melhor que eu para se encaixar em suas exigências. —ele sorriu.

Sua aparência era muito agressiva. Além do monte de músculos, ele conseguia ter mais do que meus 1,77m de altura, seus olhos eram de um bonito castanho, mas pareciam de peixe morto, um dragão chinês estava tatuado em seu braço direito e seus cabelos negros eram lisos e alcançavam sua clavícula.

—Tudo mais que você precisa dizer é que tem um carro tunado.

—Na verdade, tenho uma moto Yamaha Roadstar. Mas te garanto que tudo o que você possa desejar fazer em um carro poderá ser feito também sobre minha moto. E será ainda melhor.

Fiquei com vontade de revirar os olhos, sua sugestão soando ridícula levando em consideração o que eu queria fazer, mas uma garota revirando os olhos não seria nada atraente. Ao invés, eu sorri e ergui minhas sobrancelhas.

—Sob uma moto? Parece um pouco inusitado.

—Nunca ouviu falar que o diferente é o tempero da vida?

—Na verdade, não. —sorri. Mas aquele não era um sorriso verdadeiro. Nossa conversa não parecia boa. Incapaz de não comparar, notei que com Thayer tudo havia sido mais suave e produtivo, havíamos sido um casal flertando, o que não podia descrever como eu e monte-de-músculos estávamos agindo, uma conversa suja e cheia de insinuações.

—Então, seu nome é Cat, como uma gata. Olha, eu diria que é bem apropriado. —monte-de-músculos disse, olhando para os meus seios. Ele levou seu dedo polegar até os lábios e sua língua surgiu. —Você gosta de banhos de língua, Cat?

Apenas duas palavras. Que nojento.

Uma familiar energia quente assolou meu peito, se espalhando. Não. Eu não podia pensar nele agora. Não podia me lembrar dele. Eu mesma havia dito: Nunca mais. Mas era inevitável, como respirar. Sua energia corria por mim como se ele estivesse bem ao meu lado, passando por todo meu corpo e me aquecendo. Logo, ela se esvaiu, focando apenas em minha nuca.

Me voltei para trás, para onde o meu corpo me indicava.

Usando uma camisa preta enrolada até o cotovelo e calça jeans, e parecendo extremamente gostoso, estava Thayer, que havia acabado de abrir a porta do bar. Seus olhos vieram imediatamente até os meus, como se seu corpo também indicasse minha posição exata. E, parando para analisar, era isso que o meu corpo estava fazendo. Usando nossa conexão para nos unir. Talvez a coisa da localização fosse de via dupla.

—Sei uma perfeita forma de lhe responder isso. —falei rápido para o brutamontes. — Você disse que tinha uma moto. Eu vou me arrumar no banheiro e encontro com você na traseira do bar, sobre ela. Que tal?

Com um sorriso lascivo, ele concordou com a cabeça e pagou a conta enquanto eu fingia conferir as fivelas de minha sandália e me levantava.

Pouco antes de chegar à porta do banheiro feminino, senti a energia de monte-de-músculos se esvair e a de Thayer se intensificou. Me voltei em sua direção sentindo sua energia se espalhar nas minhas costas como que para avisar sua aproximação. Mas antes que ele pudesse me encurralar, eu segurei sua mão e o levei para um canto afastado do bar, ao lado do palco abandonado.

—Que parte do "nunca mais" você não entendeu? —comecei, olhando diretamente nos seus olhos. —Ou melhor, como você chegou aqui? Você sabia que eu estaria aqui?

—Wow. Calma. —ele riu. Algo parecido com diversão e satisfação fazendo seu coração acelerar e me fazendo um pouco emburrada. —Primeiro, você mesma disse que não esperava que eu entendesse o motivo do "nunca mais". E isso é bom, por que eu realmente não entendo. Depois, eu estava procurando por você quando eu comecei a sentir como se… como se você me guiasse até aqui. Me advertisse o caminho certo. Para chegar até você.

A emoção em seus olhos me desarmou. Ele parecia feliz em me ver. Eu sabia que ele se sentia assim.

—O que eu vou fazer com você? —perguntei baixinho para mim mesma, mas olhando nos seus olhos.

—Pelo o que eu me lembro, você sempre tem as melhores ideias. —ele sorriu.

Fiquei sem palavras. Pelo visto, a função bússola funcionava para nós dois. Eu não podia fugir dele. Não quando minha intenção era tão fraca e a dele tão forte. E, além disso, ele se lembrava de algo tão pequeno, como o que eu lhe disse antes do nosso primeiro beijo.

—Bem, você não entendeu o meu aviso, então eu terei que ser mais clara. —suspirei. —Viu aquele brutamontes com quem eu estava? Ele é a minha presa de hoje, e se eu não me alimentar dele ou de qualquer outro dentro de sete dias, você não vai querer ser a pessoa mais próxima a mim.

—Ele é sua presa, significa que você irá dormir com ele?

O sentimento que atravessou nossa ligação foi como uma facada no meu peito, agudo e sufocante. Mesmo que o sentimento fosse amargo, não conseguir segurar uma risada.

—Eu vou matar um cara e você está preocupado se eu vou dormir com ele? —coloquei minha mão sobre minha boca para abafar a risada alta que borbulhava em mim. —Thayer, você tem um sério problema de memória seletiva.

—Não se trata de memória seletiva. Se trata de prioridades. E você não respondeu minha pergunta.

—Ocasionalmente. Talvez sim, talvez não. Agora mesmo, isso é irrelevante por que ele está esperando por mim lá fora e é o primeiro alvo em potencial que eu encontro há tempos.

Thayer cerrou os dentes, olhando ao seu redor.

—Não há outra maneira de fazer isso? —ele perguntou entredentes, a sensação angustiante em meu peito devia ser o que ele estava sentindo agora mesmo. —Para você considerá-lo uma presa, ele deve ser perigoso. E ele mede quase 1,90m de altura. Você não deve ir sozinha.

—Não me dê tão pouco crédito, Thayer. Eu sou a predadora, lembra?

—Mas…

—Nada de "mas". Isso não é uma discussão. Minha refeição está esfriando. —dei meia volta, pronta para deixar o canto escuro onde estávamos, quando a luz de palco se ligou, o holofote tornando o nosso canto escuro um canto nem tão escuro assim. Eu diria ofuscante.

Desnorteada, eu procurei a razão do súbito clarão.

Uma banda começou a se instalar no palco, todos os integrantes menos um cantor, e logo uma pequena fila se construiu atrás de mim e Thayer, pessoas que eram incentivadas por sua mesa ou vinham por vontade própria e que julgavam a mim a primeira da fila.

—Vai ser um dueto, ou você vai fazer isso sozinha, baby? —perguntou o baixista da banda, com piercings por toda parte.

—Huh, desculpe. Eu não entendo o que-…

—Ah, não. Uma desertora tão cedo na fila? Não podemos aceitar isso. —disse o baterista. —O que aconteceu, perdeu a coragem sob a luz dos holofotes, ruiva?

Por todas as almas, quantos daltônicos a mais poderiam existir neste bar?

—Perder minha coragem? Não! Eu não sabia que aqui era o lugar designado para alguma fila. Mas, não importa, eu já estou saindo de qualquer maneira. —comecei a dar alguns passos, quando o braço do baixista formou uma barreira.

—São as regras. —ele indicou a parede atrás de mim com o queixo.

Quando eu me virei, havia uma placa ridiculamente pequena que indicava: "fila dos cantores".

Mas que ótimo.

O baterista fez um sinal para o resto da banda, indicando para eles que já estava tudo pronto para começar, e para o meu terror, todos os outros acenaram com a cabeça. Seus instrumentos estavam prontos para o show e uma letra mínima abaixo da placa da fila informava que desertores não podem ser tolerados.

Inferno! O primeiro bar que eu visito e ele tem as regras mais estranhas indicadas em letras de bula de remédio. Por isso que eu passei anos frequentando apenas clubes noturnos.

—Isso é um engano. Estava escuro e…

—Pessoal. —outro cara da banda, o guitarrista desta vez, estava mo microfone, atraindo a atenção de todo o bar. O microfone chiou. —Nossa primeira da fila parece ser uma desertora. Ela está tentando nos convencer a deixá-la ir. Por que não dizemos o quanto queremos que ele nos mostre o que tem?

Thayer, que havia estado calado por todo este tempo, chegou mais perto de mim para falar no meu ouvido. Sua aproximação fez claro que ele estava achando aquilo muitíssimo divertido.

—Você está apenas atraindo mais atenção. —ele sussurrou.

—Vai, lindinha, você consegue! —alguém dentre as mesas lotadas gritou. Seguido por outros incentivadores.

—Arrasa, ruivinha!

Logo um coro se formou. Eles gritavam: "Ruiva! Ruiva!". E de certa forma me respondiam uma pergunta mental que eu havia feito. Ou o daltonismo estava sendo, de alguma forma, disseminado pela bebida daqui, ou a luz fazia o meu cabelo parecer de mais vermelho, por que ele era definitivamente castanho. Definitivamente.

—Ah, vamos lá. Uma música já não parece tanta exposição agora. —Thayer disse. Ele não ligava em cantar uma música provavelmente por que sabia que isso faria eu perder minha presa. Ele não havia entendendo o quão importante era que eu me alimentasse, mas este não era o momento certo para falar com ele sobre isso. Agora, todo o bar me chamava para cantar e eles não iriam desistir fácil.

—Tudo bem, eu vou cantar. —suspirei, derrotada.

E quando eu subi no palco, o coro se tornou gritos de comemoração, assobios e aplausos. Fazia muito tempo que eu não ouvia música ou cantava, meu repertório mais atual consistia em batidas eletrônicas e eu posso apostar que não ficaria muito legal uma representação delas em palco.

Contudo, havia uma música antiga que eu lembrava.

—Vocês conhecem “Behind Blue Eyes”, do The Who? —perguntei.

—Tá brincando? Essa é uma das minhas favoritas. —o baixista disse, trocando algumas informações com o restante da música antes do toque começar. As pessoas na pateia provavelmente sabiam também, pois vibraram com os primeiros acordes. Respirei fundo e procurei os olhos cor de mel de Thayer.

A letra da música fluiu por mim naquele momento, como se meu subconsciente tivesse escolhido ela para passar um recado para ele.

Cantando como ninguém sabia como se sentia ser o cara mau, o cara triste por trás dos olhos azuis, era como se eu estivesse me confidenciando em frente aquelas pessoas, especialmente Thayer. E quando eles cantavam de volta ou permaneciam quietos para ouvir apenas minha voz, ou até mesmo quando batiam palmas quando eu conseguia alcançar uma nota diferente, eu sentia como se eles estivessem dizendo que me entendiam, e quem ninguém merecia ser aquele cara da música, o odiado que está destinado a contar apenas mentiras. Eu.

Quando eu acabei a música, os aplausos foram ensurdecedores, as pessoas se levantavam e notei que todos no bar estavam absortos em mim.

Olhei para Thayer e ele estava olhando para mim, como havia estado durante toda minha apresentação. Como próximo da fila, ele nem ao menos tentou ser dispensado. Ele apenas tomou meu lugar ao microfone, segurando minha mão para que eu não pudesse fugir.

Ele informou a música que ia cantar e mesmo que eu tivesse ouvido seu nome claramente, eu não saberia sobre o que falava.

A plateia se calou para ouvir sua voz suave.

Dizer que Thayer parecia um cantor profissional parecia bobo, por que todos haviam notado. Todos estavam como estátuas, até mesmo o barman, para ouvi-lo cantar diretamente para mim que não se importava de onde eu vim, desde que eu viesse até ele. Que não se importava e nem ousava consertar a confusão em mim. Que não se importava, desde que eu estivesse aqui.

No final de sua música ele me puxou para pressionar seus lábios contra os meus e foi como se todos acordassem. Todos os olhos em nós e gritos de incentivo por todos os lados. Thayer manteve seu braço em minha cintura e me olhou nos olhos.

—Recado dado? —ele perguntou.

—Bem, esse sim foi um show. —o baixista fez piada ao microfone.

Mesmo com tantas risadas ao meu redor, não havia espaço para vergonha em mim. Apenas neste momento eu me lembrava de que havia deixado uma presa durante todos estes minutos esperando lá fora. Ele não havia entrado no bar ou eu teria sentido sua energia, mas ele não havia voltado e isso parecia estranho.

—Brutamontes. —foi tudo o que eu disse para Thayer antes de descer do palco, deslizando por várias pessoas parabenizando minha apresentação.

Havia algo errado. Eu sentia.

Quando dei a volta no bar, podia ouvir os passos de Thayer atrás de mim, andando tão rápido quanto eu. Enxerguei a roda da Yamaha na esquina à nossa frente, mas antes de chegar lá Thayer me segurou.

—Me deixe ir na frente. Por favor. —ele pediu.

—Você está brincando, não é? Agora mesmo você cantou na frente de mais de uma centena de pessoas que não se importava com a confusão em mim. —sussurrei. —Bem, isso faz parte da minha confusão. E, apesar da minha aparência, eu sou mais forte do que aquele Brutamontes. Não julgue um livro pela capa.

—Deus, Cat. Eu só estou pedindo para checar antes. Por favor!

—Não fale o nome de Dele em vão.

Soltei-me de seu agarre e dobrei a esquina apenas para ver a moto sem ninguém ao seu redor. A chave estava na ignição. A energia do monte-de-músculos não estava em lugar nenhum. Quando estava me voltando para Thayer, vi a tampa de uma caçamba de lixo meio aberta, um braço grande estava pendurado para fora. Uma tatuagem de dragão chinês nele.

Notas finais
Pode ter passado despercebido, mas é importante lembrar algumas coisas: 1- Cat não fala o nome de Deus em vão. 2- Daltonismo vem da dificuldade de diferenciar cores, mas não sei se chega no nível de confundir castanho com vermelho. 3- As músicas que Cat e Thayer cantaram realmente existem! Behind the Blue Eyes foi lançada há muito tempo atrás, mas é uma das minhas canções favoritas, e a que Thayer cantou foi All the same, dos Sick Puppies. Achei mais importante colocar o que eles queriam dizer do que a letra em si :) E é isso! Não esquecendo que temos um assassino além de Cat na área... Quem será? *esperando ansiosa por comentários*