Notas iniciais
Bom, eu ainda estou tentando fixar uma data de compromisso para novos capítulos, mas, como prometido, aí vaí o desenrolar da discreta pergunta de Cat. Espero que gostem.

—Acho que não entendi sua pergunta. —Thayer sorri. — Você está delirando?

—Espera aí. —eu sento ignorando completamente o quanto o chão parece desconfortável e usando o lençol para cobrir o meu corpo. —Você tinha algo para me dizer. Você… ficava tentando achar palavras e eu apenas te aconselhei a ficar calado. Mas agora, eu quero que você fale.

—Claro, mas, antes, por que não saímos do chão?

Ele me ajudou a sentar na cama e eu nem ligava – quase – para sua nudez. Apenas esperei enquanto ele se desfazia da camisinha e voltava. Thayer se sentou ao meu lado na cama, aparentemente sem perceber que ele estava me distraindo com alguns de seus – notáveis – detalhes.

—É que… bem, eu sentia como se estivesse desonrando você. —ele começou. —Quero dizer, eu te trouxe para minha casa, você estava bêbada e o álcool pode afetar sua memória. Você podia não se lembrar de como chegou ou o que havia acontecido e…

Um pensamento rápido passou por minha cabeça. A forma como ele havia sido perfeitamente hesitante. Seu modo de agir não apenas no bar, mas também na cama. Sua satisfação exorbitante. Pela primeira vez me passou pela cabeça que o sentimento único em sua alma podia não ser maldade. E tudo se encaixou.

—Você era virgem? —perguntei sem expressão.

—Bem… eu… sim.

Oh, merda!

—E você… estava comemorando o quê no bar?

—Minha formatura. Semana passada eu me formei em Medicina.

Oh, dupla merda!

—E agora você vai me dizer que pretende ser pediatra para cuidar de criançinhas! Não, não! Você quer ser obstetra, por que acha lindo o ato de conduzir o início de uma vida e é o primeiro homem que eu conheço que não desmaiaria em uma situação como esta! —estourei.

—Na verdade, eu me tornei um cirurgião. —ele respondeu, cauteloso.

—E como diabos você é virgem aos 23? Achei que essas merdas não existissem mais. —reclamei, arranhando meu couro cabeludo.

—Bem, é claro que ainda existem. Quando se procura a pessoa… 23 não é uma idade tão… Olha, essa foi a melhor manhã de toda minha vida e talvez você não tenha gostado, mas ainda não vejo o porquê de sua raiva. —ele olhava novamente no fundo dos meus olhos. —Eu nunca disse que não era virgem e, mesmo assim, você parece mal com esta informação. Pode me explicar o que está acontecendo?

—Eu achei que você era mau. Não é possível que eu tenha recolhido o único virgem de 23 anos bonzinho da face da Terra.

—Achou que eu era mau? Do que você está falando?

—Quer ver um truque legal?

Achar algo cortante no quarto exigiu certa observação. Usei a quina de metal da cabeceira da cama para fazer um corte que ia do meu pulso até a metade do meu antebraço.

Os olhos de Thayer se ampliaram e ele veio imediatamente para estancar o sangue. Suas emoções nublando entre preocupação e confusão.

—Cat, o que você está fazendo? Sangrar não irá esclarecer nada.

—Não. Mas curar milagrosamente vai. —eu disse tirando meu braço de seu agarre para lhe mostrar meu antebraço intacto. —Eu sou uma espécie de súcubos. Uma Ceifadora que trabalha para a morte e se alimenta de almas ruins. Eu acabei de me alimentar de você, que deveria estar morto agora. Talvez você não esteja por que não é ruim, ou por que era virgem… Sei lá.

Dei de ombros enquanto Thayer apenas me observava.

—Você não deveria manter isso em sigilo? O que você é, quero dizer.

Ergui minhas sobrancelhas. —Bem, eu esqueci o meu livrinho de regras em casa. Nunca tive uma presa sobrevivente antes, e a morte me preparou para muitas coisas… não para isso.

—Você pode confiar em mim.

E a plenitude da verdade me invadiu pela nossa estranha conexão. Eu podia identificar suas emoções como se elas fossem minhas. E o mais estranho? Eu nem havia pensado em desconfiar dele.

—Claro, claro. —fui para o banheiro e ele me seguiu, me observando lavar o sangue que ficou na minha pele. Notei que também tinha sangue nas mãos dele, e no lado direito do meu quadril e coxa. Assim que lavei meu braço, peguei suas mãos e coloquei-as debaixo do jato de água.

Senti seu coração tremular. —Obrigado.

—É o meu sangue, afinal. —respondi. O lençol que eu estava envolta não estava muito sujo, apenas algumas gotas. Aliás, o pudor de cobrir meu corpo também era novo. Mas eu tampouco tive um amante que permaneceu vivo por muito tempo para me preocupar com algo assim antes.

Eu me sentia como uma viúva-negra frustrada. É aterrorizante.

Sentei no balcão da pia, mantendo-me envolta pelo lençol o máximo que podia e comecei a limpar meu quadril.

As mãos de Thayer substituíram as minhas, me tocando com reverência, como se eu não fosse um monstro. Ele havia mesmo escutado tudo que eu havia lhe dito?

—Você não precisava ter provado nada. Muito menos se machucado. —Thayer disse com os olhos em minha pele. —Eu ficaria chocado, mas confio em você.

—Eu diria que isso é irresponsável de sua parte. Você não me conhece.

—Conheço o bastante. —ele sorriu levemente, inabalável. —Você conseguiria beber um bar inteiro sem desmaiar. É sedutora até mesmo sem tentar. Não vagueia com o olhar, provavelmente por ser centrada. Joga os cabelos para trás quando fica desconfortável com alguma coisa. Não tem muitas pessoas que considere próximas. Não gosta do frio. Se mantém um enigma mesmo que seus olhos sejam os mais expressivos que já encontrei.

Olhei meu reflexo no espelho por sobre meu ombro. Meus olhos eram expressivos? Eu sempre havia os visto como um maçante poço cinza. E eu mexia nos meus cabelos? Bem, às vezes eu me dava conta do movimento dos fios castanhos, mas achei que era algo deliberado e não um comportamento assíduo.

—De onde você tirou essa de que eu não tenho muitas pessoas próximas? —perguntei, de repente curiosa com sua opinião deslocada.

—Você não citou ninguém durante a noite inteira. Além disso, você exala independência. Seus olhos pertencem a alguém que se vira sozinha, e não o contrário.

Ainda pelo reflexo, levei meus olhos aos seus, que me analisavam.

—Nossa. Você é mesmo um observador.

—Apenas para aquilo que merece ser observado.

Meu quadril e coxa já estavam limpos de sangue, mas suas mãos ainda estavam lá e ele agia como se não notasse. Como se suas mãos pertencessem ali.

Uma das minhas mãos deslizou meu cabelo, sacudindo os fios ondulados para trás, apenas para recebê-los sobre meus olhos logo após. Somente notei o sinal silencioso que eu havia dado quando Thayer se afastou minimamente, mantendo seus olhos em mim e com um canto da boca elevado.

—Minha proximidade te incomoda. —e suas afirmações que soavam como perguntas tornaram-se o inverso.

Estar próxima dele me incomodava? Bem, um amante que sobrevivesse a mim era algo inédito e eu não sabia como lidar com isso, mas o fato de estar próxima de Thayer em si não era o que me incomodava, mas como eu me sentia quando ele o fazia. Não que eu fosse admitir isso em voz alta.

Sacudi a cabeça, negando, e encostei minha cabeça no seu ombro, sendo capaz até de escutar seu coração.

Thayer hesitou por um milésimo de segundo, antes de me envolver num abraço. Seu coração acelerou e um cálido sentimento atravessou nossa ligação, se expandindo em meu peito. Isso era errado. Tão errado. Ainda mais por que eu deveria deixá-lo hoje, seguir a procura de uma presa normal e agir como se ele nunca houvesse existido. Mas não parecia errado enquanto eu tinha sua peculiar energia tremulando ao meu redor, me fazendo sentir bem.

O tempo passou sem que nenhum de nós nos movesse. Poderiam ter sido segundos ou horas, eu não podia diferenciar, mas eu sabia que devia acabar com isso.

—Eu tenho que ir para casa. —anunciei ainda em seu ombro.

—Hum… Você não quer ficar mais um pouco? Talvez até o almoço. Estamos meio atrasados nas refeições, mas você é completamente bem-vinda para…

—Desculpe, Thayer.

Foi tudo o que eu pude dizer. Desculpe. Mas havia tanto mais adiante disso. Desculpe por entrar em sua vida com a intenção de acabá-la. Desculpe por ter sido sua primeira mulher, você merecia muito mais e dói saber disso mesmo te conhecendo tão pouco. E desculpe por estar te deixando assim.

—Claro. —foi tudo o que ele respondeu. —Eu posso, pelo menos, te deixar em casa?

—Você entendeu meu pedido de desculpas e isso responde tudo. —falei, afastando-me dele e saltando do balcão. Fui impedida de me afastar muito por sua mão, que alcançou meu cotovelo.

—Eu… Nós podemos nos encontrar de novo hoje a noite.

Cortei minha língua com os dentes antes de beijá-lo. Não foi difícil fazer com que meu sangue fosse ingerido por que uma coisa que Thayer não demonstrou foi objeção. Seus braços me abraçaram e ele se aproximou de mim, seus sentimentos se tornando quentes e vívidos, porém meu sangue estava começando a surtir efeito.

O sustentei pelos ombros, sendo forte o suficiente para encostá-lo em algum lugar quando ele começou a enfraquecer.

—Preciso que preste atenção. —comecei. —Paralisia é o primeiro efeito para alguém que ingere sangue de uma Ceifadora, mas sonolência vem logo em seguida. Você ingeriu pouco, então irá dormir apenas por alguns minutos. Nós não podemos nos encontrar de novo. Nunca mais. Espero que você entenda… na verdade, eu quero que o faça, mas sei que é pedir demais. Apenas se cuide. Adeus, Thayer.

Através de nossa conexão, pude sentir seu coração que estava acelerado diminuir de frequência. A forma de seus sentimentos foi nublando, como se ele estivesse começando a sentir nada, mas eu sabia que sentimentos daquela intensidade não iriam embora fácil assim.

Ao invés de tremer, suas pálpebras finalmente fecharam. Ali, no chão branco do banheiro, e com os olhos fechados, Thayer parecia muito frágil. Seus cílios eram longos e me atraíram para um beijo em sua pálpebra.

Quando senti sua energia parar de vibrar, a ponto de se tornar apenas um fluxo calmo, eu pude entender por que ela me atraia tanto.

Era uma energia pura como a sua que me preenchia quando eu era viva.

Quando eu era Cathleen, a garota feliz prestes a construir uma família, que tinha como maiores preocupações a roupa que usaria em uma vindoura ocasião especial, as joias que combinariam e como se chamaria seu primeiro filho.

Ri de mim mesma enquanto me erguia, recolhendo minha saia, minha sandália e meu casaco, ainda com carteira dentro – as únicas coisas que consegui achar. O tempo havia me tornado alguém mais madura, mas não muito distinta. Com circunstâncias diferentes, como se eu não houvesse saído de casa na noite da minha morte, eu ainda seria aquela garota um pouco fútil e de gênio difícil, mas extremamente apaixonada pela vida. Teria algumas rugas e talvez alguns filhos, e netos.

Perdida em pensamentos, mal tive noção do tempo que levei para chegar até minha casa. Usei dois táxis para despistar e entrei, repentinamente exausta.

Meu relógio marcava quase quatro horas da tarde.

Não havia tempo a perder. Se eu queria encontrar um alvo antes que minha semana de alimentação passasse, eu ainda tinha muito trabalho para fazer.

Procurei na internet por um bar desconhecido que eu nunca houvesse frequentado. Eu não iria atrás de nada muito badalado, muito menos o Mynt. Eu precisava de algo mais calmo, onde eu pudesse me esconder de Thayer e achar uma nova presa.

Havia um barzinho grosseiro demais para minhas presas usuais. Eu nunca havia nem mesmo pisado lá. Perfeito.

Anotei o endereço em um pedaço de papel e fui tomar banho. Uma ceifadora faminta não era algo muito bonito pelo o que eu havia ouvido falar, e o happy hour começaria dentro de duas horas.

Sim, neste barzinho eu não encontraria nada de muita qualidade. Nada ao meu gosto. Mas o que quer que eu encontre lá – se é que eu vou encontrar alguma coisa – seria o suficiente para me afastar da dor da fome. Apenas uma alma podre. Não pode ser tão difícil assim de encontrar, pode?

Me arrumei sem muita animação, escolhendo um vestido e uma jaqueta ao acaso e deixando meus cabelos soltos. A caça de hoje seria apenas necessidade, e não por prazer. O taxista foi hábil ao ler o endereço e mais ainda ao me levar até lá.

O bar tinha muitas pessoas, mas não era nada se comparado ao Mynt. Mesas ocupavam a área ao redor do bar e não havia muito espaço para pista de dança. Um palco para música ao vivo estava abandonado e foi entre ele e o bar que eu me instalei, logo após pedir minha bebida, numa mesa para dois.

Poucos minutos depois, eu não havia sentido nada de especial em ninguém, mas sabia que não devia desistir do local. Um barzinho rústico costumava atrair almas podres muito mais do que um clube noturno e minha caça poderia ser bem-sucedida ainda hoje. Eu estava distraída quando um garoto sentou-se na cadeira na minha frente.

—Posso afirmar que você não é daqui. Nunca vi garotas tão lindas quanto você por estas bandas. —ele sorriu para mim.

Dele apenas emanavam intenções sujas. Provavelmente direcionadas para mim. Decidi ser intimidante. —Quem é você?

—Meu nome é…

Soprei uma risada. —Se você sabe o que é bom para você, te aconselho a dar o fora agora.

—Ah, qual é, ruivinha, eu posso ser uma ótima companhia. Te pagar umas bebidas. —revirei os olhos, eu lhe diria que não sou ruiva, mas seria como respondê-lo e incentivá-lo. Ele me analisou por um segundo, parecendo ser incapaz de se manter calado por mais tempo que isso. —Você gosta de garotas? Por que eu realmente não ligo. Eu poderia acompanhar você e outra garota sem problemas. Admito que nunca fiz isso antes, mas deve ser bem quente observar…

Senti um forte olhar se instalar em minhas costas e meus sentidos entraram em alerta máximo. Olhei por sobre meu ombro para encontrar quem quer que esteja me olhando quando meu olhar esbarrou num corpo masculino bem ao meu lado.

—Que tal você parar de incomodar a garota?

Notas finais
Quem vocês acham que encerrou o capítulo 3? ;)