Notas iniciais
Eu avisei nas notas finais do capítulo anterior, mas me sinto muito culpada por ter demorado para postar. Me desculpem. Pelos próximos dois meses estarei estudando muito para postar duas vezes por semana. Provavelmente postarei nos domingos. E sobre o capítulo em si, acredito que muitas já desconfiavam quem a garota ruiva era - essa foi a charada fácil, mas neste capítulo eu jogo mais algumas charadas na história e gostaria de ler a opinião de vocês sobre cada uma delas (vou escrevê-las no final do capítulo para não perder a graça). Espero que gostem! :D

Cap.10

Ergui as sobrancelhas. Eles se conhecem.

A garota ruiva parecia muito menos infantil agora que eu a observava mais minuciosamente. Seu corpo pequeno era frágil e sua pele era manchada por muitas sardas espalhadas pelo rosto e ombros, e mesmo assim tinha a aparência perfeita. Seus olhos eram bonitos também, do tom de azul-céu que eu sempre sonhei ter, um tom muito mais vibrante que o meu, um tom vivo. Ela era viva.

—Thayer… É tão bom ver seu rosto. —ela suspirou.

Um músculo em meu braço se contraiu involuntariamente em desconforto.

Mesmo assim, notei que não havia clima pesado entre os dois. Claro, a garota parecia radiante em vê-lo, mas ela não correu para saltar em seus braços ou algo parecido. Talvez eles fossem apenas amigos, pensei.

Ah! E por que importa?

—Claire? Meu Deus, você está bem? —Thayer se moveu para abraçá-la.

Suas emoções me atingiram e pela primeira vez eu as quis. Ele se sentia honestamente preocupado, seu lado clínico cada vez mais claro enquanto ele fazia perguntas e tocava o corpo magro de Claire. Quis revirar os olhos para mim mesma. Era incompreensível que eu houvesse vivido por tanto tempo sem ligar para nada e agora estivesse analisando os sentimentos de Thayer.

Me mantive quieta, avaliando Thayer. Ele a tratava como uma irmã mais nova, não sentia nada preocupante quanto a ela. E isso era bom?

Algo lá dentro de mim gritou que era, sim. Que Thayer era meu.

A parte lógica de mim dizia que não.

—E de onde você a conhece? —Claire perguntou para Thayer, apontando com o queixo para mim. Não era preciso nenhuma ligação sobrenatural para perceber seu humor mudando instantaneamente. Ela não parecia ingrata quanto ao que fiz, apenas… com ciúmes.

—A Cat? —Thayer perguntou, um enorme sorriso surgindo em seu rosto, ele se aproximou para envolver um braço em mim. —Ela é minha namorada.

—O quê? —sussurrei para ele.

—Na verdade, Claire. Ela é muito mais que isso. Ela é aquela pessoa.

—Aquela? Tem certeza, Thayer? —ela se aproximou de nós.

—Absoluta. —ele disse, olhando para mim, ainda me segurando.

—E esse é o momento que vocês se lembram de que eu estou bem aqui e que não faço a menor ideia do que estão dizendo. —ironizei.

A risada de Claire soou pela primeira vez. —Sim. Definitivamente aquela.

Os braços finos dela o envolveram, apesar de parecer decepcionada de alguma maneira, ela parecia feliz por ele. E ele não me largou. Apenas a envolveu com seu braço livre por um momento e depositando um beijo sobre seus cabelos vermelhos.

—Vamos te levar para casa. —ele disse.

A novidade? Eu estava dirigindo o carro de Thayer hoje. Eu havia me oferecido, sabendo que Claire ficaria mais á vontade ao lado de Thayer. Digamos que ela estava á vontade até demais, enroscada em seu braço e parecendo prestes a ronronar.

A notícia velha? Eu me senti estranha com aquela proximidade.

Tá, e agora tudo grita que eu estou com ciúmes, certo?

Juro que não era apenas isso. Eu não estava tentando encontrar deformidades em Claire, de forma alguma, mas… Ela parecia leve demais para alguém que havia passado a última semana mantida em um porão por alguém como Phil. E sua energia era estranhamente estável… como um brando fluxo de água.

Procurei-a pelo espelho retrovisor dentro do carro e ela olhava para mim.

O canto de seus lábios subiu quando ela notou que eu a observava, mas seus olhos não refletiram nada. Ainda assim, emanava paz.

—É a última casa desta rua, Cat. A branca. —Thayer informou.

Para seu crédito, ele parecia desconfortável com a proximidade de Claire, também. Mas o quanto eu conhecia dele me garantia que ele não a afastaria. Não quando ela parecia tão frágil. Não depois de tudo o que ela havia passado. E Claire sabia disso também, como provara esfregando a bochecha no ombro dele.

Estacionei na casa que Thayer indicou e suspirei.

—Por que você me salvou? —Claire perguntou suavemente.

Olhei por sobre meu ombro, incrédula. —Como?

—Você me salvou. E eu quero saber o porquê. —ela deu os ombros.

—Que pergunta, Claire! —Thayer repreendeu.

—Não vejo nada demais em perguntar isso. —ela disse, olhando nos olhos dele. Era como se ela fosse alguém diferente agora, depois de ter entrado em contato com Thayer. Ainda mais quando ele se referiu a mim como aquela. E eu ainda não sabia o que diabos aquilo significava. —E então, Cat? Pode me explicar?

—Pode me explicar que tipo de pessoa eu seria se lhe deixasse lá? —rebati.

—Que tipo de pessoa, você pergunta… —ela mordeu o lábio inferior. —Me diga você. Que tipo de pessoa acha que seria?

—O tipo de pessoa que acaba de concluir sua missão. —cansei das charadas.

Abri a porta do carro, saindo primeiro. Pelo vidro escuro, notei Thayer gesticulando enquanto murmurava alguma coisa para ela, mas ela não parecia nem um pouco arrependida de ter dito nada.

Claire deu um selinho em Thayer, deixando-o paralisado, e acenou para mim antes de correr em direção a sua casa. E era isso que garotas com traumas fazem?

No instante que sua porta fechou, comecei a andar para longe.

—Ei! Aonde você vai? —Thayer perguntou, chegando mais perto de mim.

—Procurar um encargo para a noite. Nem que arrancar fora a cabeça da Ivy se encaixe nisso. —respondi com uma expressão ilegível.

—Ficou irritada com algo que eu disse? —ele perguntou, ainda acompanhando meus passos e esquecendo completamente de seu carro. —Eu posso explicar tudo. Bem, vou precisar de meu fôlego para isso, e não vou poder contar esta longa história enquanto participo de uma corrida ao seu lado.

—Excelente. Nem me lembro de ter pedido uma historinha de ninar.

—Ouch. —ele resmungou, segurando meu braço para me deter. —Ótimo, seja agressiva! Mas por favor, não me afaste assim, Cat.

—O que você quer, Thayer? —cruzei meus braços.

—Te entender, caramba! —ele deslizou as mãos pelo seu cabelo loiro, exasperado. —Recebo sua ligação e quase morro de felicidade quando ouço sua voz me pedindo para ir até sua casa. Você me abraça quando eu chego. Sequer notou que aquela foi a primeira vez que você o fez? Isso… me deixou feliz pra caralho! E tudo aquilo aconteceu para terminarmos a noite assim, com você tentando se livrar de mim e agindo como uma leoa hostil.

—Okay. Agora que estamos confortáveis no meio da rua, por que não me explica de onde a conhece? Já que ela te beijou, vocês devem ser muito próximos.

—Nós não somos tão próximos quanto está pensando. Tentamos um relacionamento, mas não funcionou. —ele parou, mas continuei olhando-o, como uma estátua com cara de poker e braços cruzados, exigindo mais. —A conheci no meu primeiro período de faculdade. Ela ia até a faculdade ler livros biologia por diversão. Depois que ela não conseguiu uma noite comigo, decidimos terminar. Amigavelmente. É só.

—Então vocês foram namorados.

—Algo assim. Passamos apenas algumas semanas juntos. Nunca houve nada muito intenso. Muito menos algo parecido com o que nós dois temos.

—Você está comigo por alguns dias e me chamou de namorada.

—Não é o mesmo. Você é aquela pessoa. —ele riu um pouco. —Uma piada particular daqueles que me conheceram no período do fim de meu ensino médio e início de faculdade. Alguns amigos fizeram uma procura online completamente vergonhosa onde eles me vendiam na internet. Eu cancelei, pedindo desculpas para diversas garotas. Atestei que estava procurando aquela pessoa. Aquela que apenas com sua presença fizesse meu coração acelerar e me deixasse calmo ao mesmo tempo. Aquela que seria minha primeira mulher. Você.

Desviei o olhar dele, desarmada. Thayer tinha o dom de usar palavras em declarações profundas como se elas fossem algo banal, como previsões do tempo.

—Pare de fazer isso. —remexi meus cabelos para trás, desconfortável.

—Fazer o quê?

—Me impressionar. Sei lá. Apenas pare. —pedi.

Através de minha visão periférica, vi Thayer sorrir e se aproximar, mas antes que ele estivesse próximo demais entendi suas intenções e estendi meu braço, tocando seu peito para pará-lo.

—Quando demonstrei intenção de deixar você me beijar? —questionei.

—Até o modo como seus lábios roçam quando você fala me parece sugestivo.

—E o que eu tenho que fazer? Parar de falar?

—Me beijar seria uma boa opção.

—Boa pra quem? —ergui minha sobrancelha, tentando parecer fria.

—Sua acidez apenas me atrai. —ele tentou se aproximar novamente.

—Masoquista. —desta vez não contive uma risada.

—Diga isso de novo. —ele brincou, levando suas mãos para minha cintura.

—Estamos num bairro residencial. Você pode ser indiciado por atentado ao pudor. Eu poderia ser quem te indiciaria. —meu corpo, que não se via em situação de perigo, não tinha força para mantê-lo longe por muito tempo.

—Adoro garotas de pulso firme. —ele continuou parodiando.

Dei um passo para trás tentando escapar, mas ao invés disso tropecei no linear entre a grama e a calçada. Thayer, que tinha suas mãos sobre mim, conseguiu me equilibrar, mas eu, que havia puxado sua camisa ao tentar me equilibrar, acabei levando nós dois ao chão. Nossa queda amortecida pela grama.

—Pulso firme, você disse? —ri de mim mesma.

Thayer abriu a boca para dizer algo, mas fomos interrompidos pela água dos borrifadores sobre a grama, que nos encharca.

Minha boca fazia um ‘o’ enquanto Thayer apenas sorria.

—Pulso firme e perfeito timing. —Thayer comentou.

—Quem neste universo usa borrifadores de madrugada? —contrapus em meio a uma risada.

Ao invés de responder, Thayer traça uma linha ao longo das minhas costelas, subindo para o meu seio. Seguro sua mão antes que chegue mais acima e o contato trás o agora habitual estalo elétrico em mim. A água que bate em nossos corpos e rostos seria mais desconfortável se ele não estivesse sobre mim. Não porque seu corpo esbelto me protegesse, mas apenas por ele estar tão perto.

—Tenha agora sua intenção? —Thayer perguntou abaixando seus lábios.

Minha resposta foi levar uma mão para seus cabelos e me aproximar mais. Foi tudo o que ele precisou para me beijar.

Seus lábios tão macios pressionaram contra os meus, me fazendo esquecer onde estávamos. A sensação cálida dentro dele parecia ter se duplicado e agora estava em mim também, me aquecendo de dentro para fora e me levando a prender minhas pernas em volta de sua cintura.

Thayer recua um pouco para olhar em meus olhos. —Mais?

—Mais. —assenti, aprovando seu rugido quando ele aprofunda o beijo.

A grama não podia parecer mais insignificante.

—Cat! —Thayer geme quando eu ondulo um pouco meu corpo sob o dele. Sua mão continua o caminho anterior, se fechando em concha sobre meu seio. O tecido molhado parece inexistente e seu contato envia ainda mais calor por mim. O sentimento reverbera pelo meu corpo, levando meus joelhos a apertarem seus quadris e extraindo um gemido de êxtase dele, e também de mim.

—Estamos no gramado de uma casa de família. —murmurei contra os lábios de Thayer. Ele dava vários beijos nos meus lábios, mas não se afastava.

—Atentado ao pudor faz mais sentido agora. —ele caçoou.

—Vamos embora antes que os donos da casa venham até aqui.

—Cat. É madrugada. Os donos da casa devem estar dormindo.

—Assim como você deveria estar, aliás. E isso lá é desculpa? —pincei uma folha de grama no seu cabelo.

—Estou exatamente onde eu deveria estar.

Rolei para cima dele antes que pudesse expressar algo pelo meu corpo, e me levantei. O olhar de Thayer era todo brincalhão, enquanto ele se erguia também. Ele esfregou minha bochecha, retirando alguma coisa que estava lá, talvez grama ou lama. Esfreguei meu rosto inteiro, tentando terminar o trabalho.

—Você está piorando a situação. —ele riu.

Revirei os olhos. —E você irá ter seu carro roubado se continuar assim.

—Você parece se preocupar mais com o meu carro do que eu mesmo. —ele comunicou, segurando minha mão enquanto seguíamos pela calçada como dois loucos, completamente encharcados com as roupas colando em nossos corpos e cabelos pingando.

—Vai saber quanto ele custa! —exclamei. —E você é um displicente.

Thayer não respondeu. Ele se limitou a sorrir e continuar segurando a minha mão por todo o tempo que pode.

***

—Você pode dormir aqui esta noite. Veja isso como uma troca de favores, já que eu dormi na sua casa. Duas vezes. —eu disse logo que atravessamos a minha porta. —Não tenho muitos luxos aqui. Para a sorte, a dona da casa tem escovas de dente reservas. Não tenho comida saudável, então lhe aconselho a dar no pé logo que levantar. E você pode ficar com a cama.

—Nós podemos dormir juntos na cama. —Thayer disse.

—Acabo de dizer que você vai tomar café da manhã atrasado e você se importa em como vamos dormir? —suspiro antes de continuar. —Memória seletiva. Tudo bem. Vamos dividir a cama. Mas pode ser desconfortável. Ela é de casal, mas não é gigantesca como a da sua casa e dividi-la comigo pode-…

—Vai ser perfeito. Dormir no chão com você também seria.

—Eu vou arrumar a cama. —anuncio.

Fugi. Meu apartamento não era grande, então o máximo que eu podia me afastar de sua energia atraente era entrando no quarto.

Soava assustador saber que Thayer estaria disposto se eu decidisse me alimentar-…

Não! Não vou sequer pensar nisso para não surgir nenhuma vontade.

Empurrei a porta do quarto e entrei. A janela estava aberta. Estranho. Eu nunca a deixava assim. Segui até ela para fechá-la, conseguindo depois de um pouco de esforço e barulho, e lembrando-me de travá-la. Quando me tornei para a cama, notei algo estranho sob o tecido da colcha que a cobria. Um discreto volume.

Eu definitivamente não havia deixado nada sobre a cama.

Afastei a colcha da cama para ver o que era.

Uma azaleia com pétalas excêntricas, exatamente como a que eu havia escolhido no jardim de Phil.

Notas finais
Cat estava apenas com ciúmes ou Claire esconde algo? (sabemos muito bem que não seria a primeira vez que ela se enganaria sobre alguém). Quem colocou a azaleia na cama de Cat? E o que vem no próximo capítulo? Adoro os comentários de vocês *----* Até o próximo domingo.