Morrer de Amor
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Observei as pétalas um tanto enrugadas da azaleia branca que eu tinha nas mãos antes de acender o isqueiro e o fogo começar a consumir suas modestas curvas. Observei sua mudança de cor, cada parte branca se tornando negra antes de se contorcer e desvanecer.
Larguei a flor tarde demais e acabei com a palma da mão um pouco queimada.
Era isso que acontecia. O fogo era como o mau da natureza humana. Consome tudo o que vê em sua frente. Torce e muda até que já não haja volta.
E quem segura a esperança por muito tempo, acaba queimado.
Thayer dormia na minha cama. Havia se remexido algumas vezes, como se procurasse o meu corpo, e agora mesmo o vinco entre suas sobrancelhas expressava seu desconforto. Quem estava segurando por tempo demais? Eu, por ainda viver, tentando corrigir um problema muito maior do que eu? Ou Thayer, por se apaixonar tão rápido pela pessoa mais errada que apareceu em sua vida?
Provavelmente os dois.
É fácil se julgar egoísta quando se vive por tanto tempo quanto eu sem mudar, sem avançar, ou regredir. Muitos se enegreciam com o fogo da vida. Ceifadores, principalmente, por trabalharem com este fogo, como malabaristas.
Eu luto para não o fazer. Para manter meus pés no chão.
Já era hora de parar com a brincadeira? Me aposentar e aceitar a morte definitiva?
E Thayer? Por que a vida foi tão má em colocá-lo diante de mim assim?
Quem quer que julgue a vida boa e a morte ruim pode não ter pensado muito sobre o assunto. Não que eu esteja defendendo minha chefa – a morte pode ser bem cruel. Mas quem pode ser mais cruel que a destruidora vida? Ela abandona alguém, ou a morte que abraça um afortunado?
—Cat… —Thayer murmurou, quase acordado.
Esfreguei a palma da minha mão em meu quadril, friccionando fora o queimado da minha pele já regenerada, e fui até a cama. O sol já havia nascido antes mesmo que Thayer fechasse os olhos, e eu não conseguia dormir. Meu instinto havia estado acelerado desde que encontrei a azaleia. Um mau presságio.
A mesma mão que havia sido queimada agora traçou a mandíbula de Thayer.
—A vida é uma cadela. —sussurrei.
***
—Para que fiquei claro, estou te acompanhando até em casa apenas pela grande chance de poder massacrar a Ivy quando ela te encontrar. —assinalei.
O sorriso de Thayer enquanto entravamos em sua garagem não tinha precedentes. Suas emoções parecendo confusas, como se ele estivesse se divertindo, e feliz, e excitado ao mesmo tempo.
—Mesmo assim, você não vai negar um café da manhã, vai, Cat?
Desci do carro ainda estacionando e bati a porta atrás de mim.
—Ivy! Posso sentir sua energia podre! —rosnei para as paredes.
—O que merda você fez? —ela irrompeu na garagem.
—Minha nossa. Você fez um curso ninja ou algo assim? —Thayer disse para Ivy ao sair do carro. Ele nunca a detectava, provavelmente por que perdia muito seu foco quando estava ao meu lado.
—Gostoso, eu tenho habilidades que adoraria compartilhar com você. Mas, agora mesmo, tenho que ter uma pequena conversa com a sua… o que você é dele mesmo, Cat?
Fiz o primeiro movimento em sua direção, alertando-a, mas fui impedida de chegar até ela uma vez que as mãos de Thayer. O suave e ao mesmo tempo irredutível agarre de Thayer me trouxe de volta ao chão.
Ergui as sobrancelhas. —Tenho sua atenção?
—Sempre carente. —ela sorriu, mesmo que estivesse assustada um segundo atrás.
—Isso está ficando tão cansativo. Sabe, toda esta necessidade de te matar. Aposto que, se eu ao menos tentasse, ela iria embora. —eu disse, tentando manter meu tom calmo quando na verdade meu interior estava em ebulição. Eu queria jogá-la em cada parede desta garagem até que a curva de seu corpo estivesse marcada nos tijolos. Mas lutei por meu controle.
Thayer parecia notar minhas emoções da mesma forma que eu podia notar as suas. Ele apertou de leve meu braço, tentando me tranquilizar.
—Tenho uma sugestão. —Ivy ergueu a mão como se fosse uma estudante em classe. —Por que não fazemos o de sempre? Você se acalma, para de me olhar como um gato encara sua presa, talvez até eu tenha um pouco de vinho, e poderemos conversar civilizadamente.
—Não ouse trazer vinho. —rugi para Thayer, que se manteve quieto.
—Okay. Então que tal um pouco de espaço? Preciso de ar para falar. —mantive minha expressão ilegível. Ela suspirou, como se estivesse cansada. —Jesus, Cat. Por que você tem que ser tão difícil? Okay, minhas intenções não eram completamente legais quando eu te indiquei o maníaco-das-flores, eu sabia que ele te lembraria seu assassino. Mas era uma bandeira branca. Era pra você se alimentar, e eu aproveitar para ter algumas respostas. Só.
—Bandeira branca? —eu sorrio, parecendo fria mesmo assim. —É assim que você vê uma boa maneira de iniciar a paz?
—Bem. Sim. —ela pareceu sincera. —Mas preciso saber o que você fez.
—Eu o matei. Bem devagar. Deixei ele aterrorizado, a ponto de chorar, e não o tenho em mim. Você sabia que eu não seria capaz.
—Cat, querida. Ambas sabemos do que você é capaz. Sempre foi forte. Mais forte do que qualquer um. Admita, o que fez você amolecer tanto? —os olhos quase verdes de Ivy foram para Thayer com muito deleite. —Tenho lá minhas apostas. Apostas bem agradáveis.
Engoli em seco. Era isso que ela queria. Me tirar do sério.
Ou melhor, me testar. Ela queria saber até onde eu havia abrandado. Por isso ela sempre me provocava usando o Thayer. Por isso ela me passou um alvo que atingiria minha ferida. E ainda havia Claire.
—Você não podia envolver uma garota inocente. —falei sob um suspiro.
—Não envolvi ninguém além de você. —ela estreitou os olhos.
—E esse ninguém estava no porão dele. Sofrendo o mesmo que eu sofri. —abri os olhos, agora a raiva que eu sentia por Ivy estava unida com o nojo. —Você deve ter se divertido pensando em como eu reagiria ao encontrá-la daquela forma, não é? Ainda mais quando ela já se envolveu com o Thayer.
—Não havia garota nenhuma. —ela continuou. —Digo, havia uma morta, mas eu a senti morrer. Eu não fazia ideia que ela havia estado com o Thayer.
—E isso deixa tudo mais interessante para você, não é?
—Pare de olhar para mim como se tudo ao meu redor fosse um jogo! —Ivy deu um passo para frente, pela primeira vez saindo de sua máscara irônica. —Não insulte minha inteligência. Eu não teria razões para esconder nada agora. O que eu planejava já está feito. Eu quero saber exatamente o que porra você fez.
—Eu já disse. O matei. Agora eu lhe devo explicações?
—Ela matou o homem. Hoje. E salvou Claire. —Thayer informou.
—Thayer! —olhei sobre o ombro, mandando ele se calar apenas com o olhar.
—Que merda! —Ivy virou de costas e começou a andar em círculos. —Eu sabia que tinha alguma coisa errada. Eu não esperava que fosse tanta merda junta!
—Explique. —decretei.
—De todas as coisas que você poderia ter perdido em nossa iniciação, você não prestou atenção logo nesta? —Ivy revirou os olhos. —Você acaba de assassinar brutalmente um homem em pleno eclipse. Agora ele poderá trabalhar para a morte e, pelo que ambas lembramos, o primeiro benefício trabalhista é a cabeça de nosso assassino em uma bandeja.
—Eclipse? Não podem acontecer eclipses lunares na lua nova. —lembrei.
—Hoje teremos um eclipse solar. —Thayer explicou.
—Garoto, você parece cada vez mais gostoso! —Ivy anunciou.
—Um eclipse solar não é um eclipse lunar. —continuei, ignorando-a.
—Ambos são eclipses. —Ivy pressionou os lábios em uma linha reta. —Se eu fosse você, começava a me cuidar antes que ele venha te caçar.
Parei, meus olhos focados nos olhos dela enquanto eu permanecia sem expressão. Ao encontrar aquela azaleia na minha cama eu havia estado confusa. Eu tinha certeza que Phil havia morrido. Me assegurei de fazê-lo corretamente. Como eu pude esquecer do eclipse?
Agora, eu o teria atrás de mim. Querendo-me morta.
—E aquele vinho, rola? —Ivy perguntou, com seu tom sarcástico de sempre.
—Vou buscar uma taça. —Thayer anunciou, como se pedisse minha permissão. E quando eu não movi um músculo, ele foi adiante, saindo da área da garagem. Quando escutei ele entrar na casa, longe demais para poder me ouvir, voltei ao ponto que eu não podia deixar escapar.
—Você chegou a ver a garota que sentiu morrer?
—Ruiva, muito branca, cheia de sardas nos ombros. —Ivy informou, analisando seu reflexo no carro. —Magra e baixinha como uma adolescente. Por quê?
—Você a viu morta? —persisti. —Sentiu a ausência de energia?
—Que merda você pensa que eu sou? Uma iniciante?
Joguei meus cabelos para trás, coçando o couro cabeludo com as pontas dos dedos na tentativa de me acalmar. Eu havia sentido a energia de Claire. Ela com certeza estava cheia de vida. Certeza. Uma ruiva não seria incomum. Phil parecia ter um padrão. E as semelhanças como o corpo e as sardas poderiam ser coincidências.
—Ele chamava a garota de Claire. —Ivy acrescentou encarando as unhas curtas.
—Você não está mentindo, está? Jogando comigo?
Os olhos de Ivy focaram finalmente em mim. Ela nunca pareceu tão ardilosa quanto agora. —Parece que tem mais merda do que eu pensava.
Ivy voltou a agir como uma idiota quando estávamos novamente com Thayer, na sala. Além de ironia, ela usava altas doses de insinuação e propostas sujas. Isso continuava me incomodando, mas eu tentava não responder como ela esperava, estive determinada a não agir como a garota ciumenta.
Mas eu não podia deter a garota arrebatada em mim. Ainda mais quando Thayer teve o cuidado de colocar uma taça para mim também, e quando ele se preocupou em trazer um vinho que eu apreciasse mais, ou quando ele pediu que ficássemos sentadas no sofá enquanto ele preparava o café da manhã.
—É. Ele é bem gostoso. —Ivy disse analisando a bunda de Thayer enquanto ele se afastava.
Inspirei pelo nariz auditivamente, quis pedir para que ela parasse de o tratar como um pedaço de carne, mas não o fiz.
—Sabe, só fica ainda mais divertido enquanto você tenta disfarçar. —ela riu e imitou o meu gesto de tomar um gole de vinho. —Aliás, pelo o que eu notei, a ligação de vocês já está completamente amadurecida.
—Você toda me irrita, Ivy. —fui indiscreta, olhando bem nos olhos dela ao continuar. —Mas em especial essa sua maneira de falar sobre coisas que eu não sei e me incitar a perguntar, apenas para que você possa sorrir ironicamente e me ter na mão. Isso irrita muito mais.
—Ah, bem, já que você quer saber, talvez não faça mal compartilhar. —ela sorriu, deslizando mais para a borda do sofá para ficar mais próxima de mim. —Algumas vezes, humanos que fazem parte desta “ligação” podem não se sentir atraídos pela Ceifadora. Pode ser o contrário, a Ceifadora atraída pelo humano. Mas, no caso de vocês, ambas as partes estão caindo. Vai ser ainda mais difícil de partir a conexão.
—E como se faz isso? Existe uma forma de partir a ligação? —perguntei.
—Acredito que sim. Mas eu não sou uma enciclopédia do submundo.
Revirei os olhos. —Então não aja como uma.
—E, agora que estamos sendo diretas, me diga a verdade. —ela deu mais um gole de sua bebida antes e se inclinar para frente. —Você foi a única durante a iniciação que não se poluiu com uma alma muito intensa. Você conseguiu controlar tudo aquilo e manter a maldade em si, sem enlouquecer. Não importava o quanto os instrutores tentassem, você nunca caía.
—E você quer saber o meu truque por trás disso? —ergui uma sobrancelha.
—Eu acabei de funcionar como o Google para você. Nada mais justo.
—Tudo bem. Vou te dizer. —me inclinei para frente, assim como ela, apoiando meus cotovelos nas minhas coxas e ficando a centímetros dela. —O meu segredo é…
Alguns segundos de suspense depois, os ombros dela caíram.
—Você não vai contar, não é? —ela suspirou.
—Desculpe. —eu ri. —Eu simplesmente não sei qual é o meu segredo. Talvez uma aptidão para ser ceifadora…? Eu não faço nada além do que os instrutores nos ensinaram. Satisfazer, tragar e depois segurar a alma dentro de si.
Ivy desviou os olhos de mim, torcendo os lábios. —Eu não acredito em você.
—Ótimo. Então somos duas.
—Você parece leve demais para alguém que tem um enorme alvo na bunda. —Ivy acrescentou. —Não liga se o maníaco-das-flores vier atrás de você?
Soltei uma risada. —Qual o pior que ele pode me fazer? Me matar? Me mandar para o inferno? Ao contrário de nossos assassinos, eu já estou morta. O prêmio dele não pode funcionar comigo por que os únicos que tem o poder de nos matar são a própria Morte e os Superiores.
—Eu não estava pensando nisso. —Ivy olhou para mim pelo canto do olho. —Estava pensando em maneiras de ele te atormentar, te trazer agonia. Estava pensando em Thayer.
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