Notas iniciais
Eu simplesmente precisava postar este capítulo hoje!! Se houver algum erro, por favor, me comuniquem. Este foi o único capítulo que eu não revisei apropriadamente - mas logo eu vou revisar. E agora, para quem ficou curioso em saber o que tinha no porão do Phil...

Havia um corpo nu em posição fetal, coberto de sujeira, envolto por pesadas correntes e sob um colchão, sangue por toda a parte. Muito sangue.

Eu não sabia se estava vivo ou não até tremer.

—Está tudo bem. —sussurrei para a garota. Seus cabelos ruivos e lisos iam até a cintura e, ao ouvir minha voz, ela parecia ter levado um choque. Seu corpo, que antes se espremia para longe de mim, finalmente se virou em minha direção e sua expressão foi de completa surpresa. Talvez como a minha.

A garota ali na minha frente, nua e coberta de sangue, era a neta de Jeb.

Me ajoelhei bem na sua frente enquanto ela abria a boca, tentando falar, mas apenas soluços vinham. Eu envolvi meus braços em seus ombros, sem ligar para sua sujeira, e ela aceitou, chorando o mais silenciosamente possível.

—Não se preocupe. Irei tirar você daqui. —eu prometi.

Tirei meu casaco e coloquei sobre o seu corpo, tentando cobrir seu pequeno e magro corpo da melhor maneira. Ela era facilmente uns vinte centímetros mais baixa que eu. A região entre suas coxas estava tingida de sangue e existiam concussões por todo seu corpo, chupões em seu pescoço e arranhões por seus braços.

Fechei meus olhos. Talvez eu tivesse parecido assim na noite em que morri.

Olhei mais de perto os pulsos da garota. Eles estavam com queimaduras por causa da fricção que ela havia feito provavelmente tentando se soltar. Ela se remexeu quando as pontas dos meus dedos roçaram no lugar.

—Calma. Não faça barulho. —pedi para a garota.

—Ora, não se incomode com isso. —Phil disse atrás de mim. Me tornei em sua direção, mantendo a garota nas minhas costas. Ele estava encostado na parede e parecia estar se divertindo com a visão. —Vocês duas são tão lindas juntas. Eu devo ser o homem mais sortudo da vizinhança. Duas lindas ruivas no meu porão. Cat, eu não esperava que você fosse tão xereta. Podia ter entrado aqui desacordada depois de beber um delicioso misto de chá de azaleia e sonífero.

—Pessoas como você me enojam. —cuspi.

Sim, eu gostava de lidar com lobos em pele de ovelha. Dentre eles, assassinos me faziam ter não muito além de desprezo, mas homens como Phil me tiravam do sério. Homens que se fingiam de bonzinhos para atrair garotas puras e usá-las até não enxergar mais pureza nelas. E depois deixá-las morrerem.

A garota que se escondia nas minhas costas devia ter sofrido o Inferno nos últimos dias. Ela tinha claras marcas de estupro.

Eu bem sabia como isso se sentia.

A risada de Phil ecoou pelo porão. —Você é mesmo incrível. Eu sabia que você seria perfeita desde que te encontrei analisando minhas azaleias. Sabe, azaleias são mesmo incríveis. São flores tão bonitas, que vez ou outra atraem lindas garotas como vocês. Ficam tão perdidas na beleza das flores que… já não pensam em mais nada.

Um sorriso esticou meus lábios, curvando os cantos de minha boca.

—Há quanto tempo você a manteve aqui? —perguntei de cabeça baixa, tentando usar meus cabelos para esconder meu sorriso.

—Faz mais de duas semanas. —ele respondeu.

—E ainda não está satisfeito? —cheguei ao meu ponto.

Ele parou por um momento e, sem ouvir sua resposta, ergui minha cabeça para olhá-lo nos olhos. Ele me analisava com a expressão que acredito ser sua naturalmente, seus lábios agora concordavam com seus olhos, um sorriso frio estampado neles.

—Eu só fico satisfeito quando as garotas chegam no fim.

—Que pena. Então, quer dizer que eu não poderia te satisfazer enquanto não estivesse definitivamente morta? —levantei meu rosto, não mais ocultando meu sorriso. —E acredito que este porão seja a prova de som, já que você tem vizinhos por todos os lados e ninguém ouviu os gritos que roubaram a voz da garota.

Phil não era estúpido. Ele notou que eu tinha uma carta na manga.

Ele só não podia esperar que fosse um coringa.

Mantendo meus olhos nele, envolvi as correntes em minhas mãos e as parti. Minha força, audição, visão e outros sentidos aprimorados. Ivy havia me dito que minha caça estaria comprometida, eu só não esperava que minhas habilidades de ceifadora também fossem sem acionadas mesmo sem eu estar em perigo.

—Saia do porão. Espere por mim. —eu disse para a garota ruiva.

Fraca, ela apenas assentiu e mancou pelo aposento, tentando correr sem obter muito sucesso. Talvez ele nem ligasse em alimentá-la regularmente.

—Como você rompeu a corrente? —agora havia medo nos frios olhos azuis.

—Era nova, não era? —sorri para ele. —Você comprou no dia em que me conheceu. Trocava as correntes regularmente para que elas não ficassem fracas o bastante para ela se soltar. Não precisava de toda essa preocupação, a garota mal se mantinha de pé. Você ao menos a alimentava?

—Mas é claro que sim! —ele explodiu. —Eu a amava.

—Modo interessante de mostrar isso. —minha expressão ficou séria. Isso estava perigosamente perto do diálogo que tive com o meu aterrorizado noivo.

—Amo a todas que mantenho. Cuido delas-…

—Deixando-as cheias de sangue e de hematomas. Sofrendo. Chorando.

—Eu ia dar banho nela esta noite. —ele explicou.

—E você acha que isso teria lhe poupado do que espera? Um mero banho? —comecei a me aproximar e o medo nele aumentou. Seu gosto devia estar péssimo, sem falar que almas aterrorizadas não podem ser sugadas a menos que elas pertençam àquele que lhe retirou a vida – ou aqueles no meu caso – e que já estavam mortos há décadas. —Pedi para que ela saísse. Sabe por quê? Por que pretendo te matar tão devagar, e tão dolorosamente, que ela já não poderia se esquecer disso pelo resto da vida. No final de tudo, você era mesmo um pé-frio.

E eu cumpri minha promessa.

Os gritos de Phil duravam muito. E eu me senti um monstro por não me sentir mal em causá-lo dor. Quantas garotas ele havia matado? Quantas garotas haviam sofrido o que eu sofri? Quantas garotas haviam sofrido pior?

Meus assassinos atuaram em um dia. As garotas de Phil duravam semanas em suas mãos, aguardando-o cansar para poder alcançar a liberdade. Mortas.

Quando terminei, eu estava suja de sangue, e já não sabia se vinha do abraço que dei na garota ou se era sangue de Phil. Arrastei seu corpo inerte e deixei de forma que parecia suicídio, da forma que aprendi a fazer durante a iniciação. Quem disse que a morte não ensina nada definitivamente não foi um ceifador.

—Você está bem? —perguntei para a garota, quando a enxerguei no sofá da sala. Ela estava sentada, agarrando seus joelhos e ainda tremendo.

Ela saltou do sofá da melhor maneira que pôde e me abraçou.

—Mui-to… O-briga-da… —ela murmurou entre soluços.

—Shh… Você precisa se recuperar. —falei afagando seus cabelos. Eu queria levá-la para longe daquele lugar, mas seria difícil. Eu não tinha carro, não podia sequer tocar no carro de Phil, e muito menos em seus telefones. Eu não queria deixar a pequena ruiva sozinha. Muito menos quando o corpo sangrento de Phil estava lá embaixo, no porão.

Eu nunca havia salvado alguém antes. Como eu faria isso agora?

Fechei o meu casaco sobre seu corpo da melhor maneira. Consegui cobrir quase a metade de suas coxas e usei um pouco de água para limpar seu rosto e pernas com o mesmo tecido que cobriria sua pele. Passei meu braço pelos seus estreitos ombros, sustentando-a.

—Você deve vir comigo. Te levarei para minha casa para que você possa se acalmar, tomar um banho e comer alguma coisa. —que sorte que eu havia comprado algumas coisas.

Recolhi minhas compras e a ajudei a se manter de pé até encontrarmos um táxi.

***

—Por quê está sendo tão gentil comigo? —a garota perguntou com a voz ainda rouca enquanto eu estava ocupada penteando seus cabelos, molhados pelo banho que lhe ajudei a tomar.

Seria certo dizer que eu me identificava. Lhe dizer que eu havia sofrido um abuso, da mesma forma que ela sofreu? Ou eu devia acrescentar que ela soava como uma filha para mim? Que sua pele clara lembrava o tom pálido que a minha costumava ter quando eu vivia no frio e não em uma área praiana, e que seus olhos eram exatamente iguais aos olhos de minha mãe… Haviam tantas respostas. Por último, recordei o aviso de Ivy quanto aos meus sentimentos.

—Apenas por que é a coisa certa a se fazer. —lhe sorri. —Acho que comidas sólidas não iriam lhe cair bem agora. Talvez seu estômago esteja sensível. Eu vou fazer um suco de fruta para você.

Deixei ela no meu quarto, vestindo as roupas mais adequadas para o seu pequeno corpo e enrolada em um lençol.

Antes de começar a fazer o suco, uma louca vontade de ligar para Thayer me atingiu. Eu precisava falar com ele. Tentei me convencer que eu queria ajuda médica de confiança para a garota, talvez ela estivesse com algo que eu, leiga, não podia detectar. Thayer seria de grande ajuda para a garota. Só para a garota. Mas eu… eu não sabia o número de seu telefone.

Peguei o meu quase inutilizado telefone celular e prendo ele entre minha orelha e meu ombro enquanto lavo as frutas. E disquei o número para ajuda da lista telefônica. A voz cansada feminina perguntou como poderia ajudar e eu perguntei o número de Thayer, informando seu nome e endereço.

O primeiro bipe de chamada me deixou nervosa.

Comecei a descascar as frutas que usaria no suco, sem prestar muita atenção apesar de manter os olhos em minhas mãos e na faca.

—Alô? —ouvi sua voz perguntar. Ele parecia solitário… triste.

—Oi. —foi tudo o que eu respondi. Minhas mãos seguindo o movimento quase automaticamente, descascando e cortando em cubos.

—Cat? —a esperança foi evidente em sua voz. —É você?

—Eu… Precisava falar com alguém. —menti. Eu precisava falar com ele.

Ele riu baixinho. —Achei que sua voz fosse uma alucinação. Estava pensando em você agora mesmo. Você se sente melhor?

—Me sinto ótima. Mas preciso que você venha aqui. Na minha casa.

—Onde é? —ele perguntou sem hesitar. Não foi um não, e antes disso não houve nem mesmo um “Pra quê?”. Isso era perigoso. Para Thayer, que parecia disposto a fazer qualquer coisa por mim, mesmo que nos conhecêssemos há pouco tempo. E também perigoso para mim. Por que eu parecia querer sua ajuda cada vez mais. Logo eu, que havia sido independente por tanto tempo.

Lhe informei meu endereço e desliguei.

Durante a ligação, eu havia jogado algumas frutas cortadas no liquidificador, e isso foi minha salvação, pois a fruta que eu tinha em mãos agora estava banhada com o meu sangue em uma quantidade o suficiente para fazer a garota capotar por um dia inteiro. Apenas uma pequena falta de atenção seria o suficiente para me machucar. E eu não estou falando de um pequeno corte na mão.

Suspirei e limpei minha mão, lavando a fruta e ingerindo-a eu mesma.

A garota bebia o suco avidamente. Suas mãos ainda tremiam e eu tinha que refreá-la algumas vezes para que ela não se engasgasse. Quando ela terminou e eu fazia meu caminho pela sala até a cozinha, separada apenas por um balcão, a campanhia do apartamento tocou.

E quão maluco era que eu nem reconhecesse seu som?

Não precisei de olho mágico. A energia de Thayer vibrou através das frestas da porta, chegando até mim. E não houve urgência, ou fome desvairada.

Houve a necessidade de abraçá-lo assim que abri a porta.

E foi o que eu fiz.

Meus braços envolveram seu pescoço antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. Ele cheirava tão bem! E sua pele era tão confortavelmente quente contra a minha. Ainda mais quando ele me abraçou de volta.

—Preciso de sua ajuda. —sussurrei me recusando a afastar seu corpo do meu.

—O que aconteceu? —ele perguntou.

—A nova presa que Ivy me recomendou… Ela provavelmente o assistiu por muito tempo. Ele era mais do que ruim. Ele era como o meu noivo. Ela planejava me fazer quebrar. Ela sabia o que eu sentiria…

Thayer suspirou, mas me deixou desabar. Ele apenas mantinha seu abraço e ficamos ali, juntos, respirando em sincronia. O mais estranho? Justo a maneira que não era estranho ficar agarrada em seu corpo por muito tempo.

—Ah. Pode entrar. —eu disse, finalmente me afastando.

—Já me recebeu muito bem, mesmo do lado de fora. —ele sorriu.

—Quem está aí? —ouvi a garota perguntar.

—Quem está aí? —Thayer ecoou a pergunta, juntando as sobrancelhas.

—A garota que estava sendo abusada por ele. —lhe respondi, mantendo meu tom de voz baixo e tocando em seu ombro, tentando ignorar a vontade súbita de deslizar minhas mãos pelo tecido cinza de sua blusa. —Ela pode se assustar um pouco em ver um homem, então, fique aqui, okay?

Segui para dentro do quarto, tendo o cuidado de obstruir a visão da sala.

—O que está acontecendo? —ela parecia calma ao perguntar.

—Então, ãnh, eu trouxe um amigo. Ele vai me ajudar te levando para casa. —afinal, eu não podia simplesmente aparecer na frente das pessoas. Eu não queria aparecer. Eu não tinha vínculos, não os desejava, e tinha que permanecer invisível. —Preciso que você diga que Phil… se matou. E que estava mantendo você, e tudo mais… Você pode fazer isso por mim?

—Eu não entendo. —ela lutou para ficar de pé. —Por quê?

—Preciso que faça isso por mim. —implorei.

Os olhos dela se ampliaram. Agora que ela estava de pé, ela podia enxergar um pouco de Thayer, eu sabia. Mas não esperava que ela tivesse aquela reação.

—Thayer? —ela chamou, emocionada.

Que diabos?

Notas finais
Pois é pessoal, Phil não era apenas malvado. Ele era também como o ex-noivo da Cat. Ivy tinha muitas intenções atrás desta indicação... Mais informações no próximo capítulo, que eu posso demorar um pouco mais que o normal para postar - no máximo uma semana. E então, de onde vocês acham que a garota conhece o Thayer?