Morrer de Amor
2 Capítulo 2
Notas iniciais
A luz do sol invadia o quarto por uma brecha entre a cortina. O sol devia estar alto e eu me espreguicei, orientando-me. Não me lembro de quando dormi, mas lembro de que pude pensar mais claramente sozinha naquele quarto. Talvez garoto-bonzinho ainda estivesse atuando e sua maneira de se satisfazer fosse algo além de dormir comigo. Algo que envolvesse correntes ou até mesmo facas.
Sim, havia todo tipo de maníaco solto por aí. Ele podia ser um daqueles que gosta de ver sangue escorrendo de sua vítima até tê-la pálida, ou daqueles que tortura as garotas – qualquer opção seria bem desfavorável da mim, mas isso era um preço para que nenhuma outra sofresse o mesmo.
Agora, eu estava confusa. Ele havia dito que não faria nada, mas eu não esperava que ele estivesse realmente sendo sincero.
Tirei minha saia e peguei a camisa dele que estava no chão, vestindo-a. Cobria muito mais do que apenas a minha saia. Não via meu corset em lugar algum, mas isso não importava agora.
Segui pelo corredor congelando ao ouvir barulhos metálicos. As ideias que passavam pela minha cabeça me surpreenderam. E quão boba eu era? Eu havia iniciado isso sabendo que estava com o lobo em pele de ovelha. Joguei meu cabelo para trás. Já era hora de ele dar o próximo passo.
Continuei em direção ao barulho para descobrir que vinha de inofensivos talheres. Thay-… Garoto-bonzinho estava arrumando a mesa com o café da manhã e parecia refletir toda a luz que entrava pelas enormes janelas de vidro com os cabelos dourados molhados e vestindo uma blusa folgada branca e uma calça de ioga larga cinza. Ele sorriu quando me viu.
—Bom dia. Dormiu bem? —ele perguntou.
Pisquei meus olhos, abobalhada. —Hunrum.
—Você deve estar com muita ressaca. Eu preparei um café da manhã que irá ajudar nisso. E meu celular está descarregado agora, mas logo você poderá usá-lo para fazer algumas ligações. Algumas pessoas podem estar preocupadas com você passando a noite fora sem dar sinal de vida.
Que maneira sutil de conferir se haverá alguém me procurando.
—Ligações não serão necessárias. Eu sou sozinha. —lhe informei, saindo de perto da parede.
—Ah, você deve ter algumas perguntas a fazer. Você bebeu bastante ontem e talvez não lembre algo…
—Na verdade, eu lembro o bastante. —falei, pinçando sua camisa para um pouco longe de mim. Atrai seus olhos com o meu movimento e vi algo parecido com satisfação brilhando em seus olhos. Se ele soava tão ciente, devia lembrar-se de ontem também.
Ele me pegou conferindo seus olhos e prendeu meu olhar.
—Você pode comer o que preferir. —ele disse, sentando-se à mesa e indicando uma cadeira próxima a ele. —E beba bastante água. Eu deixei uma toalha no banheiro, que é duas portas depois do quarto, caso você queira tomar banho.
—E vestir o que depois disso? Minha roupa suja?
—Sua escolha desta manhã parece perfeita. —ele sorriu mostrando satisfação mais clara agora que eu me sentava bem na sua frente. —Você poderia vestir roupas minhas e eu posso te deixar em casa. Seu casaco e grande o bastante para disfarçar que as roupas não são exatamente do seu tamanho.
Claro, claro. Se o plano dele fosse mesmo me deixar sair daqui.
Havia muita comida e, segundo garoto-bonzinho, tudo ajudava de alguma forma na minha "ressaca". Ele falava como um especialista no assunto. Talvez ele apenas tenha ficado muitas vezes de ressaca.
Contudo, uma centena de ressacas não diminuiria o mérito pela comida deliciosa.
—A comida está maravilhosa. —Gemi, tomando mais um pedaço de uma torta coberta por mel. Os olhos do garoto na minha frente eram quase da mesma coloração do mel que eu saboreava e eram estes olhos que seguiam o movimento do garfo até a minha boca com intensidade. Ele parecia… satisfeito que eu estivesse me alimentando daquilo.
Me ocorreu que podia ter algo na comida, mas cada vez mais isso soava sem sentido. Por que ele não teria atacado durante meu sono?
—É ótimo que você ache isso.
—Meus cumprimentos ao chefe. —brinquei.
Ele sorriu, mas além de diversão havia uma seriedade dominava a maior parte do seu olhar. Sua intensidade tentou me prender novamente, mas desta vez eu pude escapar e manter meus olhos na comida. Seu olhar não desviou, e uma inédita timidez começava a abrir caminho por mim.
—Você podia olhar para outra parte? —murmurei sem encontrar seu olhar. Eu não sabia o quanto eu estava dentro do papel de mocinha e o quanto eu estava realmente sentindo.
—Desculpe. É difícil manter os olhos longe de você. —ele desviou o olhar por alguns segundos antes de voltar a me olhar e eu não pude conter uma risada.
Há quanto tempo eu não soltava uma risada verdadeira como esta?
—Tudo bem, antes que você comece a me achar assustador, é melhor fugir. —ele disse. Pareceu mais engraçado do que devia por que ele não parecia assustador para mim, por mais malvado que eu o julgasse. Simplesmente por que eu provavelmente sou mais.
—Claro. Vou para minha próxima etapa. Duas portas depois do quarto? —apenas conferi onde o banheiro ficava.
A ducha, assim como o resto do banheiro – droga, o resto da casa – era magnífica. A água vinha em jatos fortes que pareciam me massagear e levar o peso sobre meus ombros embora. Talvez não totalmente, mas parte dele. Imaginei a famosa cena do filme de terror de um filme de 1960, Psicose, onde a mocinha soltava um berro enquanto ainda estava sob o chuveiro e ri. Quantas garotas ririam da possibilidade de passarem por algo parecido? De repente, nada era tão preocupante.
Me enxuguei com a toalha e sai do banheiro envolta nela. Seguindo para o quarto onde deixei parte das minhas roupas.
Thaye-… Garoto-bonzinho estava remexendo em um guarda-roupa de parede que eu não havia notado apesar de ter passado a noite aqui. Não que eu tenha notado muito da casa além de todo o luxo. Eu tinha meus motivos.
Ainda tenho, aliás.
—Ei. Estou procurando por uma roupa que você possa usar. —ele puxou mais uma peça antes de fechar a porta do guarda-roupa com o pé. —Aqui.
Analisei o que ele me passou, uma camiseta vermelha que ficaria bem folgada e uma calça branca regulável na cintura.
Não esperei ele sair para começar a me trocar. Coloquei a calça e desfiz os botões de sua camisa, vestindo a camiseta vermelha pela cabeça e tirando meus cabelos pela gola.
—O quê? —perguntei ao atônito garoto na minha frente.
Os olhos dele deslizavam por mim. —Eu preciso te beijar. Agora.
Algumas respostas engraçadinhas passaram pela minha cabeça, e até mesmo fiquei surpresa com sua atitude repentina, mas eu não pude pronunciar nada. Não enquanto garoto-bonzinho se aproximava de mim tão decidido. Não quando eu também precisava daquilo.
Desejo borbulhou em mim exatamente como quando estávamos neste mesmo quarto durante a madrugada. A energia dele novamente me aquecia, muito mais quando suas mãos foram para minhas bochechas e ele baixou seus lábios sobre os meus.
Meu coração acelerou e tudo o que eu pude fazer foi envolver seu pescoço com meus braços. Embora nossas respirações estivessem cada vez mais ofegantes, meu coração acelerado e as bochechas dele coradas, ainda nos beijamos gentilmente, sem pressa, e nem mesmo eu entendia por quê.
O abracei mais forte, procurando por mais contato, e ele colocou sua mão sobre a larga camiseta que eu usava, apertando meu seio.
—Sabe, eu não estou bêbada agora. —murmurei.
—Isso é realmente maravilhoso. —ele disse, com um sorriso. Seus lábios voltaram aos meus e com o seu corpo ele me pressionou contra a parede.
Nada mais importava. Eu já havia feito minhas escolhas no momento em que o conheci, e outras também há muitos anos atrás. Aceite o agora.
Tirei a camiseta dele, deslizando minhas mãos por sua pele, por seu abdômen definido, sentindo sua energia borbulhar. Ele também puxou minha camiseta sobre minha cabeça e eu me amaldiçoei por ter perdido tempo me vestindo.
Sua mão deslizou até meu peito nu, parecendo hesitante, enquanto a outra segurava minha coxa, aproximando meus quadris.
—Me toque. —pedi, meus lábios tão próximos aos seus…
Seu olhar parecia não saber onde pousar, viajando dos meus olhos até onde suas mãos me tocavam, enviando ondas de eletricidade por mim.
—Não sei como dizer… Procurar palavras fica difícil quando tudo o que eu tenho em minha cabeça é você.
—Então não diga nada.
Empurrei-o até a cama e desfiz o nó de minha calça, que caiu sem precisar de mais esforço. Ele fez um trabalho rápido com o restante de suas roupas e voltou a me beijar, me levando para debaixo de seu corpo, sobre a cama.
Removi minha ultima peça de roupa e lhe ajudei com uma camisinha, não demorando em mover o meu quadril contra o seu, procurando…
Ele notou o que eu queria e me ajudou. Nossos corpos se fundindo em um.
—Cat… Oh, Meu Deus! —ele estremeceu dentro de mim.
—Mova-se… Mexa seus quadris… —pedi, instigando-o a adotar o ritmo certo. Ele segurou minha nuca com uma mão e me puxou para um novo beijo enquanto se movia comigo, sua outra mão segurando meus quadris e me puxando de encontro às suas investidas.
Pude sentir sua pele quente sobre mim, seus músculos tão fluidos sob as mãos que deslizei para suas costas. O prazer foi crescendo pelo meu corpo, sua energia entrava em mim e se estendia até as pontas de meus dedos curvados dos pés.
Agarrei-me aos seus ombros e acelerei o ritmo, sendo acompanhada por ele. A onda de prazer se aproximando, rápida e intensa.
Todo meu corpo se retesou quando cheguei ao clímax.
—Ah! Thayer…
As mãos de Thayer me apertaram mais forte e seus movimentos ficaram ainda mais bruscos. Perdida em meu próprio momento, pude ouvi-lo gemer e convulsionar, sacudindo uma vez e logo outras mais, para depois desabar sobre mim.
Estávamos arfando e eu apenas pensava na imensidão das sensações quando percebi o que havia acabado de fazer. Em algum momento, eu havia me tornado para mim mesma quando este momento deveria ser de Thayer. Digo, garoto-bonzinho.
Oh, meu… eu havia dito o nome dele em voz alta?
—Isso foi… simplesmente incrível. —ele disse ainda sem fôlego.
Eu não podia voltar agora. Thayer era alguém ruim. Eu havia sentido isso antes, no bar. Este garoto-bonzinho era apenas uma encenação.
Dei a volta para que ficasse sobre ele. O sorriso satisfeito em seus lábios e o brilho em seus olhos fez o meu próximo passo mais difícil. Quando apoiei minha mão sobre seu peito, seu coração parecia querer saltar para fora do seu corpo.
Me inclinei como se fosse para beijá-lo, afastando meus lábios.
Ao invés do usual vulto prateado, um fiapo dourado que se assemelha com fumaça sai de seus lábios em direção aos meus. Talvez seja um novo nível de satisfação que eu nunca havia alcançado antes, visto que ele age agora mesmo como um virgem.
Uma placidez se apodera de mim, como em todas as outras vezes que me alimentei de almas antes. Nunca realmente entendi por que a alma deveria estar plenamente satisfeita, e geralmente me sentia feliz comigo mesma. Um malvado a menos no mundo, eu pensava. Porém, olhando Thayer sob meu corpo, corado e sorrindo, eu senti nojo de mim.
E por quê? Eu nem o conhecia. Eu sabia que sua alma era tomada por apenas um sentimento – maldade, já que humanos completamente bondosos são quase impossíveis. Alguém completamente ruim é como uma maçã podre. Não pode ser remediado e apenas apodrece os ao seu redor.
Eu sabia disso. Sabia há muito tempo atrás.
O fiapo de alma de Thayer se instalou em minha garganta e começou a arder. Não se dirigiu ao meu estômago como os outros, mas começou a se apoderar de meu peito, diminuindo meus batimentos cardíacos.
Ofeguei e comecei a cair da cama, conseguindo segurar apenas um lençol antes de bater contra o chão frio e não conseguir mais respirar.
Pude ver Thayer imediatamente sobre mim, segurando meus ombros e falando alguma coisa, seu rosto como um retrato de preocupação, mas eu não ouvia nada além das batidas de meu coração.
Tum-tum, Tum-tum… Tum-tum… Tum-… T-…
—Por favor, respire. Cat! Cat. —a voz de Thayer é a primeira coisa que volta. Os sentidos vão retornando aos poucos e logo posso sentir o chão, sentir as mãos quentes dele segurando meus ombros, respirar…
E me sinto angustiada. Sinto uma dor no peito, sem razão.
—Graças a Deus, você recuperou o foco. Você pode me ouvir? —Thayer pergunta e eu apenas concordo com a cabeça. —Você está bem? O que aconteceu? Você caiu no chão, parou de respirar e logo perdeu o foco e o pulso, mas agora você parece bem, e seu coração está batendo…
A angústia some e dá lugar a uma inquietude.
—Isso foi um baita susto! —ele suspirou. —Mas fico mais calmo em saber que você está bem. Foi apenas isso, não foi? Um susto.
Agora… a leve calma me preenche sobre outros sentimentos conflituosos e uma sensação cálida faz meu coração tremer. Estes não são meus sentimentos. Eu me sinto confusa, eu não me senti angustiada ou inquieta em qualquer momento, eu não estou calma por voltar ao normal. Thayer está.
E como no mundo eu estou sentindo o que ele sente?
Como no mundo seu fiapo de alma se instalou no meu peito?
E, mais importante… —Por que você ainda está vivo?
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