Morrer de Amor
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Meus olhos seguiam o perfeito corpo a cada movimento. Thayer não parecia nem um pouco encabulado em ser meu centro das atenções, andando pela cozinha de sua casa e parecendo muito confortável com meus olhares.
As palavras de Ivy não saiam de minha cabeça.
Sim, eu não podia ser mandada para o Inferno. Mas o que impedia um Phil Ceifador de transformar minha vida num inferno?
Não que eu tivesse certeza que ele havia se tornado um Ceifador. Eu ainda podia me enganar pensando que tudo aquilo era obra de mais alguém. Os últimos dias haviam me ensinado que minhas conclusões podem ser bem precipitadas.
Mas uma coisa era certa. Eu não deixarei Thayer. Não quando ele estava sob perigo, por minha culpa.
Ivy já não tentava atrair minha atenção. Agora, ela havia desistido, e estava girando um pequeno recipiente de plástico sobre a mesa, claramente entediada.
—Thayer, você não está sendo um bom anfitrião. —Ivy murmurou fazendo biquinho enquanto mantinha seu queixo sobre sua mão. —Não é educado deixar suas visitas mofando. Principalmente quando eu estou tão disposta a lhe prestar alguns cuidados especiais dos quais você pode ter sido apartado.
Revirei os olhos. Uma nova insinuação. Estava até demorando.
—Acredito que não vá ser uma novidade, mas eu estou interessado unicamente na Cat. —Thayer sorriu, parecendo um anjo com a luz do sol iluminando sua pele e fazendo seu cabelo brilhar como ouro. Ele era mesmo impressionante.
—Não estamos discutindo sua falta de toque para este tipo de escolha. —Ivy inclinou a cabeça para o lado, nem tentando ser discreta ao analisar o corpo de Thayer. —Tenho truques infalíveis. Acima de sua estranha convicção monogâmica, você é homem, e homens respondem bem aos meus avanços.
Me recostei no balcão de mármore da cozinha, contento um suspiro.
—Ser monogâmico é algo ruim? —Thayer riu.
—Desde que você se parece um Deus, é sim! —Ivy rebateu. —Garotos como você não podem se privar de diversão. E você não podia ter escolhido algo mais próximo de uma velha caquética do que a Cat. Ela pode ter sido bem divertida no primeiro dia, mas acredite em mim quando eu digo que ela não leva o sexo a sério. É apenas uma atividade que ela faz em semanas de alimentação.
Calma, ela está apenas te provocando. Não faça nada estúpido. Mostre superioridade.
—Apenas reforça a boa imagem que eu tenho dela. —Thayer olhou para mim.
—Quer dizer que você acha legal que ela não vai mais transar com você? —Ivy atiçou. —Ela é do tipo que só faz isso por necessidade.
—Você sabe muito bem que isso me decepciona. —ele disse, voltando sua atenção para alguns recipientes e copos que estava remexendo antes. —Mas eu não sou do tipo que desiste fácil. Gosto dela, desejo estar especificamente com ela, e me agrada muito saber que serei o primeiro a transformar a visão dela sobre isso.
Houve um momento de silêncio e, quando olhei para Ivy, ela tinha o queixo caído.
—Isso é um alívio. Vocês finalmente vão parar de falar de mim como se eu não estivesse aqui. —caçoei.
—Santo Deus, vocês se merecem. —Ivy falou, pondo a mão sobre a boca como se estivesse enojada. Ela se levantou e deu um passo para trás. —É muito triste para mim dizer isso, Thayer. Não se encontram mais homens como você na esquina. Sorte sua que eu posso ser muito determinada. Talvez daqui há alguns anos você mude de ideia. Eu posso te ensinar algumas coisas legais.
Thayer olhou para ela com os lábios pressionados em uma linha firme e um vinco entre as sobrancelhas, mas antes que ele pudesse responder ela ergueu a mão.
—Não responda nada. —ela pediu, dando mais alguns passos para trás. Um sorriso lascivo rapidamente tomando conta de seus lábios. —Não adianta tentar me afastar. Eu entendo que essa louca cravou as garras em você. Não se preocupe, noites quentes estão marcadas no seu futuro. E eu serei a protagonista de cada uma delas.
—Xô, xô. —expulsei com as duas mãos pouco antes de ela alcançar a grande porta de vidro que separava a cozinha do quintal.
—Essa Ivy é mesmo uma figura. —Thayer sorriu, agora mais próximo de mim.
Nunca fui indiferente à beleza de Thayer. Desde o primeiro momento que o vi, sua aparência me desnorteou. Mas, de alguma forma, tudo isso parecia muito mais atraente agora. Talvez pela minha fome, já que eu havia perdido mais da metade da semana de alimentação, ou talvez por que eu o conhecia mais agora e havia mais para admirar. Ou apenas pela forma como ele sorria para mim…
Haveria algum problema em me unir ao Thayer mais uma vez?
—Thayer…
—O quê? —ele perguntou, notando a intensidade do meu olhar.
—Ahn… Desculpe por não ter ajudado no café da manhã. Eu sou horrível na cozinha. —minhas palavras indo para um caminho diferente dos meus pensamentos. Ainda bem.
—Bom, você tinha que ter um defeito. —ele sorriu.
—Você diz, para somar aos outros milhares?
—Tudo o que eu vejo até agora me encantou, então, não são defeitos.
Torci os lábios. O modo encantador somado ao meu desejo e a sua aparência de hoje não davam um resultado bom. Eu estava mesmo encabulada? —Para sua sorte, preguiça não é um deles. Eu vou te ajudar a lavar os pratos.
—Minha mãe me trucidaria, mesmo em morte, se eu deixasse você fazer isso. —ele recusou. —Ela me ensinou que mulheres devem ser tratadas bem. E você é minha convidada. Eu não quero assustar você com tarefas domésticas-…
—Pelo amor de… Vamos, Thayer. Eu lavo, você seca. —me estiquei até o pano de prato na parede e joguei em direção ao seu rosto.
Ele relutou por alguns momentos, mas relaxou quando eu passei o primeiro prato limpo para suas mãos, sua pele entrando em contato com a minha e aquele estranho e confortável arrepio passando por nós.
Thayer se sentia mais confortável lavando, então trocamos de tarefas.
—Alguém cuida da casa para você? Uma empregada, talvez? —testei.
—De vez em quando sim. A casa é bem maior do que parece e seria bem cansativo para cuidar dela sozinho. Desde o… acidente que levou meus pais, a casa ficou grande demais para uma pessoa só, sabe? Eu teria espaço para mais uma pessoa na casa com muita facilidade.
—Não, Thayer. —reconheci o convite claro. —Obrigado, mas não.
—Eu sei que nós já falamos sobre isso. Mas eu não desisti de ter você aqui. A proposta ainda está mais do que de pé. —Thayer argumentou, continuando a secar os pratos como se estivéssemos discutindo o clima. —E o que você acha de visitarmos Claire hoje? Ver como ela está?
Minha postura mudou, ficando mais ereta na menção do nome de Claire.
Eu ainda me sentia estranha com a ideia de revê-la, com toda aquela energia calma e pacífica, a garota parecia uma fada, e mesmo assim toda aquela fachada bondosa me dava arrepios. Mas isso tudo devia ser por causa do ciúme. Eu provavelmente estava me pondo territorialista sobre Thayer.
A garota precisava de ajuda e consolo depois do que passou, mesmo que não aparentasse. Ela pode ter tido uma noite infernal.
—Seria bom. Ela vai precisar de um ombro amigo. —falei, sem emoção.
Thayer usou o dedo indicador sob meu queixo e guiou meu olhar para seu rosto.
—Ombro amigo. Você disse bem. Apenas amigo. —ele esclareceu.
—Você está me deixando molhada. —eu sorri para ele, me sentindo boba logo após as palavras saírem. Se eu pudesse, teria as engolido de volta.
—Isso é bom. Eu quero você molhada. —ele sorriu, lascivo.
Tentei conter um sorriso espremendo meus lábios, mas meu peito e ombros tremiam em diversão. —Quando você ficou tão corrompido?
—Que maravilha. Eu tento ser sensual e você me acha cômico.
—Bom, você tinha que ter um defeito. —brinquei, recordando de nossa conversa de alguns minutos atrás. Detive minha risada para morder o lábio inferior e deslizar meus olhos pelo seu peito. —Aliás, na próxima vez que tentar ser sensual, talvez você devesse perder algumas peças de roupa.
Thayer congelou, seus lábios se afastando para que ele tivesse mais ar.
—Parece que eu tenho uma PhD em sensualismo bem na minha frente.
—Só estou te provocando. —eu sorri e voltei a minha tarefa de secar os pratos, aproveitando para secar meu queixo com as costas da mão. —Você é muito suscetível.
Sequei os pratos, mas Thayer se tornou mais distraído. Sugeri que trocássemos novamente batendo de leve com o meu quadril no seu e afastando-o um pouco do centro da pia, assim como deslizando minha mão sobre a sua para pegar a bucha.
—Cat, você sabe como não ser provocativa? —Thayer fechou os olhos.
—Oh. —murmurei, como uma idiota, e me afastei um pouco mais.
Um silêncio esquisito se estendeu, me deixando sem graça enquanto secava os pratos que Thayer me passava. Ele parecia calmo, mas sua respiração só começou a se estabilizar quando ele me passou os últimos talheres.
—Não fique desconfortável. Não é culpa sua. —ele pegou um pano e me ajudou a terminar mais rápido.
—Claro que é. Eu te provoquei. —não olhei em seus olhos.
—Não é como se eu não tivesse gostado. —Thayer parecia prestes a dizer algo mais, mas ele refreou a si mesmo. —O que você acha de irmos agora visitar Claire? É um ótimo horário. E o dia está lindo.
—Com esta roupa mesmo? —perguntei olhando para meu corpo.
Havíamos deixado a minha casa e entrado rapidamente no carro dele, não havia motivo para produção. Eu vestia uma camisa larga cinza que tinha em letras brancas “Não é não, mesmo se eu estiver bêbada”, uma calça jeans apertada e uma bota coturno masculina. Era libertador não precisar usar roupas como as que eu vestia nas casas noturnas. Pela primeira vez, pensei que poderia ser inapropriado.
—Não tem nada de errado com sua roupa. E você ficaria linda de qualquer forma. —Thayer piscou um dos olhos ao argumentar.
Coloquei uma mecha atrás da orelha, ela insistia em sair do coque improvisado.
—Então tudo bem. Vamos.
Haviam razões para eu encontrar a Claire que iam além daquelas que rondavam o meu territorialismo, como, por exemplo, conferir se ela havia contado a história como eu havia pedido. Eu precisava saber se ela havia me exposto.
E se ela o tiver feito?, uma voizinha insolente desafiou na minha cabeça.
Seria um problema a mais, e bem se sabe como eu lido com problemas.
Isso vai ser um desastre.
Thayer insistiu que eu tomasse um copo de água antes de irmos. Ele disse que eu nunca bebida líquidos ao seu redor e também checou discretamente o meu pulso, quando entrávamos no carro. Ele parecia preocupado.
—Meu corpo não sofre de desidratação. —lhe informei.
—Seu corpo é diferente? Em quais aspectos?
—Olha, eu não posso ser tão clínica quanto você espera. Lembre-se que nem todos nós temos uma faculdade de medicina. —comecei enquanto ele esperava por minha explicação sem ligar o carro. —É quase da mesma forma que você estudou na faculdade. A diferença é que meu corpo utiliza cada grama da comida que eu engulo para produzir energia. Então eu não emagreço, ou engordo. As mudanças corpóreas só existem no último dia de alimentação. Prejuízos comuns da inanição.
—Pensei ter visto alguns sinais de desidratação. —Thayer completou. —Eu posso conferir mais algumas coisas?
—Realmente não é necessário, Thayer. Mesmo uma ceifadora mal alimentada só sofre os primeiros danos no último dia da semana de lua nova.
—Cat, é apenas para me acalmar. Por favor.
Suspirei, e assenti para que ele prosseguisse. Thayer abriu a minha boca e analisou ali, mantendo o polegar sobre o meu lábio como em uma carícia, antes de conferir novamente meu pulso – desta vez no pescoço, e deslizar sua mão pelo caminho dali até o meu ombro, dando um leve belisco na minha pele e acariciando o polegar antes de conferir novamente.
—Isso é mesmo um exame? —não é uma reclamação.
—Claro que é. —o canto de seus lábios se elevou e ele começou a dirigir.
—E você fará desta mesmo forma com qualquer paciente?
—Só para você. Achei que já havia extinguido as sombras deste ciúme.
—Estou apenas preocupada. Você pode ser acusado por assédio, sabia? —sorri, me divertindo. —Meu diagnóstico, doutor Hasting?
—É com muito pesar, Senhorita Stanford, que lhe informo que você tem um sério grau de cabeça-dura. O nível está tão avançado que, não importa o que eu lhe diga agora, você ainda não se cuidaria como eu almejo.
—Como você sabe meu sobrenome? —questionei, surpresa.
—Me chame de perseguidor.
—Sério, Thayer. Como você sabe?
As bochechas dele ficaram um pouco vermelhas. —Eu bisbilhotei quando dormi no seu apartamento. Foi algo bobo, mas eu estava muitíssimo curioso. Estavam em-…
—Uma caixa de madeira com dobradiças e fechadura de ouro. —complementei. —É a caixa onde guardo o que eu pude reunir de quando eu era viva.
—Em uma foto, você estava ao lado de um homem. Ele… —suas mãos apertaram o volante.
—Eu nunca manteria uma foto do meu noivo. Aquele era Giuseppe, um amigo.
—Giuseppe é um nome italiano, não é? Assim como sua comida predileta.
—Isso é totalmente culpa dele. —sorri. —Digo, da mãe dele. Ela era cozinheira da nossa casa e fazia maravilhas com a culinária italiana.
—Esse amigo nunca tentou ser seu noivo? —Thayer manteve os olhos na estrada.
—Giuseppe? Não. De jeito nenhum. —um vinco se formou entre minhas sobrancelhas. —Éramos bons amigos. Quase irmãos. E ele viveu comigo quando eu era uma adolescente sem sal. Apenas pernas longas e finas.
—Acredite em mim, eu vi sua foto e você não era sem sal. Mas, ele viveu com você apenas quando era adolescente? O que aconteceu depois disso?
—Ele morreu. Uma doença… eu não sei ao certo o que foi. Eu era uma moça cheia de convicções, e achava que ao não saber a causa de sua morte eu não estaria atribuindo um final. Estaria lhe prestando um luto mais honroso. Nem eu mesma entendo minhas atitudes da época.
—Sinto muito. —Thayer disse, me analisando pelo canto do olho.
—Lido bem com mortes do passado. —lhe garanti. —Não vou enlouquecer por estar recordando dos entes queridos. Não mais.
Logo chegamos até a casa branca de Claire. Descemos do carro em sincronia e meus olhos deslizaram pela rua até a casa com a grama verdade onde havíamos nos beijado. Olhei por debaixo dos cílios para Thayer, e ele notou de onde meu olhar vinha e sorriu para mim.
Como ele conseguia ser tão belo?
Thayer tomou a dianteira e bateu na porta. Não havia campainha, notei.
Uma senhora abriu a porta. Ela tinha cabelos completamente grisalhos e uma pele claríssima e enrugada. Sua expressão era de sono. Estranho. Era quase meio-dia.
—Olá, Senhora Piot. Vim fazer uma visitinha pra a nanica.
A expressão da Senhora Piot se enrugou, como se ela estivesse prestes a chorar, e seu lábio tremeu antes que ela respondesse. —Oh, querido, achei que você soubesse. Estamos espalhando cartazes por toda a vizinhança. Claire está desaparecida.
Segurei o braço de Thayer para que ele não falasse. —Eu havia visto um cartaz na loja do Jeb, mas tive o pressentimento que ela havia sido encontrada.
—Meu velho marido também. —os marejados olhos azuis dela deslizaram aos meus. —Jeb se levantou de madrugada jurando que havia a ouvido atravessar a porta, mas foi apenas um engano. Passamos horas em claro no quarto dela, esperando que ela aparecesse. Mas ela não o fez.
Respirei fundo. Aqui está meu novo problema.
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