Mordidas de Morcego
2 Capítulo 2 - Vampira.
Notas iniciais
6:00 AM
Um celular despertava dando inicio a mais um dia. Chen desligou o apito com raiva. Estava cansado. Cursa o 3º ano do colegial de manhã e fazia cursinho de noite. Acordava todo dia às seis horas da manhã, ia para escola, permanecia lá até meio dia, quando ia pra casa estudar mais, até as sete da noite que era quando ele ia para o cursinho, e só saia de lá as onze da noite.
Aquilo não era vida.
Tanto que não demorou muito tempo para Chen abandonar seus estudos durante à tarde, afinal ele merecia um descanso. Embora os orientais sejam conhecidos por sua determinação nos estudos, ele era uma exceção, ou pelo menos se sentia como uma, e se deixava passar as tardes ouvindo K-pop, ou passeando pela Internet, muitas vezes apenas dormindo.
Chen nunca fora anti-social, mas havia se distanciado um pouco dos amigos durante essa difícil fase. Todos também estavam muito ocupados. A maioria de seus amigos eram mais velhos e já estavam na faculdade. Na escola tinha alguns colegas, mas ninguém com quem pudesse contar, e no cursinho não falava com ninguém, pois seriam apenas distrações para o seu estudo. Mal olhava para as pessoas que passavam por si, a não ser que elas fossem muito chamativas, como o garoto apelidado de homem-bomba, que apesar de bem novo andava de terno e gravata e parecia um iraquiano, ou uma garota gótica que sempre passava correndo desesperadamente por ele.
Sentia como se a sua vida estivesse no pause, e que só quando passasse no vestibular ela voltaria a correr de novo...
Como todas as noites ele chegava em casa as 23:30 PM. Comeu alguma coisa e foi se deitar.
Era uma noite de verão, por isso deixou a janela aberta. Ele morava em uma região cheia de praças, o que não deixava ser muito seguro manter a janela aberta. Além de insetos e ratos, seu quarto poderia ser invadido por um ladrão. Seu pai também já havia lhe dito que havia morcegos ao redor da vizinhança, mas Chen nunca se preocupou com isso, nunca havia visto nenhum.
Dormiu tão tranqüilamente quanto poderia sabendo que não teria às oito horas necessárias de sono, como não tinha há muito tempo. Quando acordou sentia-se um pouco estranho, como se estivesse anestesiado. O pouco sol que entrava pela janela aberta o incomodava. Logo pensou:
- Não vou a escola hoje. – disse a si mesmo deitado. Mas pensando no tanto que teria de ouvir da mãe, do pai e do irmão resolveu se levantar.
Andou até o banheiro às cegas, nem se deu ao trabalho de arrumar o cabelo, afinal estava sempre igual ele o penteando ou não.
Na escola Chen não estava se sentindo muito bem, devia estar cansado, afinal estava sempre cansado, mas agüentou até o final do dia. Chegando em casa nem quis almoçar e passou a tarde inteira dormindo, mas nada que não fosse usual, afinal ele sempre morria de sono durante à tarde, alias durante todo o dia. Quando deram sete horas partiu para o cursinho, estava se sentindo melhor agora, depois de um bom sono, e com a luz solar não exposta, mas ao chegar ao cursinho, as luzes fortes ofuscaram-lhe a visão e o fizeram hesitar um momento antes de passar pelas catracas, nesse momento alguém lhe deu um forte esbarrão que o fez cambalear um pouco. Ele reconheceu a imagem pálida vestida toda de preto da gótica que passou correndo com pressa por ele.
Um pouco irritado com as luzes e o ocorrido ele subiu as escadas até a sala. A garota gótica estava sentada no fundo da sala, aparentemente lendo um livro, ela espiou por ele, e Chen aproveitou esse momento pra lançar-lhe um olhar feio, afinal ela poderia ao menos pedir-lhe desculpas.
Não conseguiu prestar atenção na aula. As luzes sempre foram assim tão fortes? Chen abaixou a cabeça entre os braços e permaneceu lá sem perceber por quanto tempo, pois acabou caindo em um sono tão profundo que quando abriu novamente os olhos, a sala estava vazia e as mulheres da limpeza o olhavam, preocupadas.
Pegou suas coisas rapidamente e confuso. Desceu as escadas e saiu para a noite fria. Não havia quase ninguém mais lá fora. Olhou seu relógio de pulso:
23:59
Ótimo! O metro já estava fechado, agora teria que caminhar até em casa, e não era um caminho curto.
Chen ainda estava se sentindo estranho, sua cabeça estava girando por ter acabado de acordar, o que o fez duvidar se não estava sonhando. Ao virar uma esquina, saindo da avenida, começou a ouvir passos cautelosos, embora barulhentos, atrás de si, a pessoa deveria estar usando botas pesadas. Chen virou a esquina e esperou encostado na parede a pessoa aparecer.
- Está me seguindo? – ele perguntou assim que a tal pessoa parou um pouco confusa por não vê-lo mais adiante na esquina.
A pessoa levou um grande susto, virando-se pra ele, percebendo que tinha sido flagrada.
- Não... por que eu te seguiria? – pergunta a figura gótica da garota do cursinho, interpretando muito mal.
Chen apenas levantou uma sobrancelha, ilustrando sua descrença. A garota gótica então deixou o disfarce e confessou:
- Okay. Eu estava. Mas só porque você esta com uma aparência horrível. – ela disse cruzando os braços, arrisca.
- Nossa... Obrigado. – Chen disse com ironia. Quem era ela para falar de aparência horrível quando ela usava batom preto?
- Eu não quis dizer isso...- ela tentou se redimir. – Você estava visivelmente passando mal a aula toda. Você não estava apenas cansado e sonolento como todos os dias.... e quando a aula terminou você continuou lá. Achei que tinha morrido.
Chen abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu dela. Ele ficou momentaneamente assustado que a garota tivesse notado o seu mal estar de todos os dias. Será que era tão visível? E ainda percebeu que naquele dia em particular estava pior. Se isto era tão notável por que ninguém mais notou? Porque ninguém que estava sentado ao seu lado não lhe indagou se estava bem, e sim a garota gótica que sentava a metros de distância? Talvez os outros apenas não se importassem, ou talvez...ela se importasse.
- Você anda me espionando? – ele perguntou incrédulo de que esta fosse a razão.
- Não sei se espionar é a palavra certa. – ela disse torcendo o nariz para a acusação dele. – Eu estou fazendo uma boa ação aqui, caso não tenha notado. Queria ter certeza que você chegaria vivo em casa. – ela respondeu um pouco enfurecida. – Drácula! É por isso que eu não gosto das pessoas! São tão mal agradecidas.
- Desculpe...- Chen se apressou em dizer. – E...obrigado... – ele completou em dúvida.
- Por nada. – ela disse ainda com raiva. – Vamos logo então, você não quer ser assaltado. – ela disse puxando o braço dele para recomeçar a andar.
- Pêra aí! – Chen disse a fazendo parar. – Estou me sentindo melhor agora, posso ir sozinho. – ele não queria ser rude com a garota, mas ela levar ele até em casa estava errado. Não deveria ser ao contrário? – Já está tarde, não é bom você ir sozinha pra casa. Quer que eu te acompanhe?
- Ham! Como se eu não soubesse me cuidar. – ela disse com ironia, vendo muita graça que ele achasse que podia protegê-la. – Vamos lá, eu te levo até sua casa.
- Mas...- Chen começava a reivindicar, mas a garota o interrompeu.
- Quem você acha que tem mais experiência de andar sozinho durante a noite? – ela perguntou. Chen ficou calado, já sabendo a resposta. – Pois é, eu! Ainda vou pro cemitério depois daqui, então não se preocupe com minha segurança, certo?
- Certo...- disse ele sem poder discutir. Que tipo de pessoa esquisita costuma visitar cemitérios de noite? Certo... góticos.
Os dois seguiram em silencio até a casa de Chen. Ele tinha vontade de perguntá-la várias coisas. Ela era uma pessoa tão diferente do que ele conhecia, um mundo completamente oposto e paralelo do seu. Mas ele não sabia como começar essa conversa, então permaneceu em silêncio, até chegar na porta de casa.
- Eu moro aqui. – ele disse parando em frente a um portão cinza. – Obrigado.... er...esqueci de perguntar o seu nome. – Chen disse coçando a cabeça em sinal de nervoso.
- Emily. E o seu? – ela perguntou sem expressão.
- Chen. – ele respondeu. – Então... te vejo amanhã! — ele disse lançando um tchau, já abrindo a porta de casa, mas um segundo antes de fechá-la Emily o chamou.
- Chen...- ela disse. Assim que ele voltou a olhar pra ela, a mesma disse. – Você estava certo. Eu espiono você.
E dizendo isso ela deu as costas, antes que Chen pudesse dizer algo, andando com sua longa saia preta esvoaçante ao vento noturno.
Chen não conseguiu dormir o resto da noite com uma pergunta na cabeça:
O que uma garota como aquela, que mais parecia uma vampira, poderia ver graça em espionar um garoto tão normal quanto ele?
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