Morada
15 O amor que deveria ser meu
Notas iniciais
[...] Parabéns pelas duas conquistas... Parabéns pelas Nacionais e por ter conseguido o seu namorado de volta.
Não espero por qualquer resposta. Nada do que possa ser dito é suficiente para tirar essa dor que me deixa quase paralisada. Caminho até Santana para que ela seja, mais uma vez, meu apoio.
É claro que boa coisa não sairia daquele maldito dueto. Ainda que Rachel tenha feito discursos dignos de impressionar até mesmo agentes do FBI sobre Finn não apresentar nenhum perigo para a relação que tínhamos, eu não poderia ter me deixado levar tão fácil. No momento em que vi Finn direcionar a ela aquele sorriso que o deixa mais imbecil do que ele realmente é, percebi que algo muito ruim, para mim, aconteceria ali. Dito e certo.
Ver os lábios dele pressionando os dela me causou ânsia de vômito. No mesmo instante, por impulso, quis me aproximar para tirá-lo de perto dela. Mas ver Rachel dando a liberdade necessária para que ele aprofundasse o beijo me tirou de órbita. Minhas pernas fraquejaram. É como se um grande buraco negro se abrisse sob meus pés me levando direto a um campo obscuro e repleto de coisas me causam os piores sentimentos... Raiva, ódio, repugna, nojo e pena. Sim, pena. Pena porque percebi que mesmo diante tudo o que vivemos nos últimos meses, Rachel não pensou por um segundo sequer sobre o que ela estaria desperdiçando em aceitar essa ideia ridícula de Finn. Pena porque mesmo ele tendo-a desprezado por diversas vezes, ela ainda cede quando ele faz o mínimo de esforço para recuperá-la.
Mas, o pior de todos esses sentimentos que reviram do avesso o meu eu, me deixando uma verdadeira bagunça, é o medo. Medo por ter me apaixonado. Medo por ter me rendido tão facilmente a ela. Medo por ter me entregado sem barreira alguma. Medo por ter perdido, ainda que involuntariamente, quem eu mais prezo e admiro nos últimos tempos. Medo por estar sentido todas essas dores que habitam cada célula do meu corpo desde que eles se beijaram. Medo por ela ter aceitado tê-lo como namorado. Medo por sentir que posso me perder novamente.
– Vamos sair daqui. – Santana caminha comigo até o hotel. Brittany também nos acompanha. Apesar de todos estarem em clima de comemoração, eu simplesmente não consigo me deixar contagiar por isso, e elas, compadecidas com meu sofrimento, não me deixam sozinha nem por um minuto.
No quarto, caminho para o banheiro. Coloco-me sob o chuveiro e deixo a água cair sobre meu corpo levando consigo boa parte da energia acumulada nos últimos minutos, assim como as lágrimas que descem sem que eu houvesse me dado conta. O nó em minha garganta vai ficando menos intenso conforme os soluços de meu choro vão ficando mais sonoros. Eu simplesmente não consigo me conter e todos aqueles sentimentos presos em mim são externados em forma de um choro sofrido e cada vez mais angustiante. Sentimento que se assemelha a esse, apenas quando pedir a criança que eu carregava em meu ventre.
Depois de algum tempo, saio de dentro do box e passo a me vestir. O choro já havia cessado, mas a dor continua igual ou pior. Espero que ninguém tenha voltado ao hotel ainda. Não tenho estruturas psicológicas para ao menos disfarçar o estado caótico em que estou.
– Sant, será que poderíamos sair um pouco? – Eu não consigo manter os olhos nela, por isso, os desvios para qualquer lugar onde eu não tenha que encara-la.
– Claro que podemos, não é, Brit? – A loira se limita a responder apenas com um sorriso singelo.
Pegamos nossos casacos e saímos do hotel. Já é noite em Nova York. Ninguém nos viu saindo, então, podemos considerar isso como uma pequena fuga. O tempo está bem frio aqui fora. Santana e Brittany caminham de mãos dados. Admiro essa postura adotada por elas aqui em Nova York. Estar fora de Lima faz bem a muitos de nós.
– O que você quer fazer, Fabray? – Santana quebra o silencio formado.
– Acho que podemos ir a um pub. Você sabe... tomar algo que nos deixe mais aquecidos. – Santana me encara dando o famoso sorriso de vadia que ela, às vezes, se orgulha em ser. – O que? Está frio aqui fora.
– Essa desculpa não cola, Fabray. – Ela enlaça meu braço ao dela. – Mas vamos lá. Se você quer a bebida para aliviar muito do que você sente, que seja feito a sua vontade. Mas, saiba que é momentâneo. Uma hora você vai ter que encarar a realidade fodida em que você se meteu.
– Me meteram. – Corrijo-a. – Eu não pedi por nenhum beijo entre eles, muito menos pedido de namoro.
– Que seja. – Ela dá de ombros.
Chegamos a um pub não muito distante do hotel. O clima aqui dentro está realmente mais aconchegante. Cage the Elephant toca ao fundo, reconheço. O lugar está relativamente cheio, mas nada sufocante. Isso é bom. Direcionamo-nos a uma mesa pequena, próxima ao bar. Santana vai à busca de nossas bebidas, junto a sua identidade falsa.
– Q, você sabe que pode conversar comigo sobre o que aconteceu hoje, não sabe? – Brittany fala bem próximo ao meu ouvido.
– Eu sei, Brit. Mas conversar sobre isso é... não sei se é indicado para agora. – Lanço o olhar na direção de Santana que acaba de caminhar ao lado de um barman.
– Babys, faremos algo diferente por hoje. – Porra! Santana com esse olhar de euforia me causa preocupação. – Absinto! Vamos ver se conseguimos encontrar a tal fada verde. – Brittany fica tão animada com essa possibilidade que dá vários saltos de felicidade. Gargalhamos diante a tanta animação. Meu primeiro riso da noite, apenas para lembrar.
O rapaz despeja o liquido verde neon dentro dos três pequenos copos. Em seguida ele coloca um torrão de açúcar sobre uma colher própria da bebida. Algumas gotas da bebida são despejadas sobre o açúcar. O barman acende um fósforo e aproxima o fogo do torrão de açúcar. Rapidamente o fogo se alastra caramelizando o açúcar. Em seguida, algumas gotas de água são depositadas sobre o açúcar, caindo logo em seguida para dentro do copo tornando turva a cor que antes era verde neon.
Bebemos o liquido de uma só vez. O gosto é forte, puxando para o amargo. Não sei qual a finalidade de todo esse ritual feito pelo garoto, na verdade nem me interesso por isso, mas, sei que depois de ter misturado a bebida a algumas cervejas já me sinto mais leve, com algumas áreas de meu corpo um pouco dormentes, minha boca, por exemplo.
– Sabe... Sant, valorize isso que você tem com a Brit. – Não sei de onde vem isso. Simplesmente me coloco a falar. – Não se desrespeitem. No futuro, você verá que valerá muito a pena ter se empenhado em manter vivo o que vocês têm. São poucos os que têm a sorte de ter encontrado o amor tão cedo. – Tomo uma lufada de ar. – Na verdade, são poucos os que encontram o amor cedo e sabem mantê-lo por perto.
– Você não precisa falar agora sobre algo que ainda lhe causa dor. – Brit me alerta, mas quem se importa com a dor que só eu sei o quanto machuca? Nem Rachel mesmo se importou.
– Não, Brit. Quero falar. – Seguro em seu ombro. – Isso serve para você também. Vocês se amam e isso todos percebem, ainda que vocês não tenham admitido para todo mundo. – Vejo Santana se aproximar dela e beijá-la no rosto. A loira se encolhe contra o corpo de Sant. É errado ter um pouco de inveja disso? – Eu gostava da Rachel. – Encaro a garrafa a minha frente. – Gosto. – Me corrijo. – Na verdade, descobri que gosto bem mais do que eu imaginava. – As duas me encaram. – Vai doer muito por um bom tempo, eu sei. – A dor de antes volta a apertar em meu corpo. A música que toca no ambiente é “Demons” de Imagine Dragons. Nada mais indicado para meu estado, não é? “Don’t want to let you down, but I am hell bound”. Perfeita! Depressiva como eu, neste momento.
Uma banda começa a se apresentar no pequeno palco. O bar estar bem mais lotado agora. Enquanto Santana e Brittany trocam carinhos e beijos apaixonados, fico assistindo ao show. Até que eles são bons. Canto baixinho algumas músicas que conheço, esquecendo por um milésimo de segundo Rachel e toda a bagunça de horas atrás.
– Olá! – Fala um rapaz loiro que está a minha direita. – Sou Brian. – Ele estende a mão. Retribuo o toque.
– Sou Quinn. – Me limito a dizer. Santana se move para prestar atenção no que acontece.
– Então, Quinn. Eu e meus amigos... – Ele aponta para uma moça e um rapaz atrás dele. – estamos procurando um lugar para sentar. Podemos nos juntar a vocês?
– Tem problema para vocês, S? – Ela nega e volta imediatamente para os braços de Brittany.
Os três se juntam a nós e assim descubro que eles são estudantes de Juilliard, todos cursam artes cênicas lá. A moça que o acompanha se chama Anne, e o rapaz, Colin. Não demora para que entremos em um papo descontraído sobre temas aleatórios como, de onde somos e o que estamos fazendo na cidade, sobre as músicas que estão a tocar ou a cerveja quente que nos foi servida e tivemos que trocar. Eles são divertidos. Até mesmo Santana passa a interagir e soltar umas gostosas risadas com as anedotas ditas por eles.
– Então, Quinn... – Anne se coloca a mão sobre minha perna. – Porque você está aqui sozinha enquanto suas amigas dão um bom amasso?
– Porque eu acabei de sofrer minha primeira desilusão amorosa? – Me encolho em minha cadeira.
– Sério? – Ela sorri provocante. – Conte-me quem é o imbecil.
– A imbecil. – Corrijo-a.
– Ohhh... – Ela parece realmente surpresa. Olha para Santana e Brit e depois volta a me encarar. — É um requisito das autoridades de Lima que as garotas de lá sejam lésbicas? – Ela faz uma adorável carinha de dúvida. Eu sorrio largamente por essa piada boba.
– Você é uma idiota, sabia? – Ela leva a mão ao peito como se estivesse ofendida com a acusação. A conversa com eles aconteceu de forma tão fácil que sinto como se já nos conhecêssemos há bastante tempo.
– Quem não é idiota em alguém momento nessa vida? – Ela levanta a garrafa tomando um bom gole da cerveja. Assinto e imito o que ela havia feito. — Você fuma? – Pergunta enquanto tira o maço de cigarros da bolsa.
– Fumava. – Lembro rapidamente de meu cabelo cor de rosa. Minha fase mais rebelde.
– Vou tomar um ar. – Ela se levanta. – Se quiser me acompanhar... – Dou um simples salto de onde eu estava sentada e caminho seguindo-a.
O clima aqui fora parece ter ficado bem mais frio. Porém, ainda suportável, talvez por conta de todo o álcool ingerido. Debruço-me sobre a mureta que divide a área de fumantes. Olho para o chão e rapidamente fico tonta. Levanto a cabeça rapidamente. Mas ainda assim cambaleio um pouco.
– Você está bem? – Me encosto na parede. Apenas concordo. – Efeitos do álcool? – Ela se aproxima para que eu use o corpo dela de apoio para manter o equilíbrio. Ela está quente. Isso é bom.
– Álcool e decepção. – Tomo o cigarro que ela havia acendido e coloco-o em minha boca dando uma boa tragada.
– Essa combinação pode ser letal. – Solto a fumaça e acompanho-a com o olhar até vê-la se misturar a neblina.
– Tanto para o físico quanto para o emocional. – Concordo com ela.
– Quer falar sobre isso? – Nego. – Sobre o tempo de Nova York então? – Nego novamente. – Sobre o seu futuro acadêmico? – Não. Não e não. – Sobre a fada verde que teima em não aparecer para você ainda que o absinto tenha mais que 45% de teor alcoólico e você tenha bebido mais que oito cervejas? – Arqueio a sobrancelha.
– Está me controlando? – Indago por estar surpresa, afinal, sem eu mesma sabia o quanto eu havia bebido?
– Você me deixaria controlar você? – Ela fala pausadamente enquanto se inclina levemente sobre mim. Não sei se é sério, mas isso pode ser considerado um flerte. Ela ainda espera por uma resposta.
– Nem eu mesma tenho controle sobre mim... – Rebato puxando mais um trago do cigarro.
– Eu sei colocar alguém de volta ao eixo. – Ela é insistente. Mas não é como se estivesse disposta a ter qualquer coisa além de uma conversa com alguém nesse momento.
– Eu não duvido disso. – Respondo procurando por minha cerveja.
Mais algumas garrafas esvaziadas, outros cigarros tragados, alguns flertes lançados e varias gargalhadas, sem que percebêssemos, todos já estão nos acompanhando. Noto Brittany um pouco sonolenta se apoiando em Santana. Talvez seja hora de voltar para o hotel. Voltar para a realidade. Nem ao menos sei que horas são, mas deve estar perto de amanhecer.
– Então estamos diante das três lideres de torcida mais populares de Lima? – Brian pergunta arrancando boas gargalhadas de todos. Estávamos conversando sobre como a cidade de Lima é movida a separar as pessoas entre perdedores e populares. Eles devem ter achado isso ridículo, pois se danaram a rir. – Sabe, Quinn... – Ele passa um braço sobre meu ombro enquanto caminhamos em direção ao hotel. – aqui em Nova York, tudo isso perde a importância. Na universidade, na verdade. Como você é considerada lá em Lima, perde total importância no momento em que vocês puserem os pés aqui.
– Eu imagino que seja assim. – Retiro o braço dele de meu ombro. Ele tem um toque muito... pesado? – Na verdade, estou louca para sair de lá, agora mais que nunca. – Encaro a avenida que daqui a algumas horas irá abrigar um trânsito caótico, mas que agora está tão livre que podemos andar em zig-zag por ela. Enlaço meu braço ao dele.
– Mas isso não significa que tudo é uma maravilha na universidade. – Anne alerta. – Acontece que também há essa divisão, não tão maçante quanto a da escola. Mas existe.
– E vocês são considerados o que lá em Juilliar? – Santana pergunta antes de virar mais um gole de cerveja.
– Nós? – Os três se olham. – Não sabemos. – Brian volta a me olhar. – Não ligamos para nada disso, na verdade. Gosto disso... desse lance de apenas viver conforme o que você é, sem precisar se preocupar em agradar aos outros.
– Não vejo a hora disso acontecer. – Santana continua a caminhar abraçada a Brit. Ao contrário do que imaginei, não estamos extremamente porres. Estamos levemente embriagadas, mas nada grave. – Não vejo a hora de Santana deixar de ser a cadela mais vadia da escola. – Provoco-a.
– Não vejo a hora de você deixar de ser a filhinha de papai que se faz de santinha, Fabray. – Eu a empurro. Ela se separa de Brittany e me empurra de volta. Olhamo-nos seriamente por um breve momento. Mas logo caímos na gargalhada. Abraço Santana fortemente. – Amo você, Quinn. Mas não diga a ninguém.
– Não direi. – Sussurro contra o ouvido dela. — Obrigada por tudo. – Beijo-a no rosto. – Agora tire essa porra de garrafa gelada de minhas costas. Está frio aqui. – Nos soltamos e ela volta a abraçar Brittany. Agora que me percebo que já estamos em frente ao hotel.
– Por um segundo achei que vocês iam se estapear. – Anne fala enquanto me devolve a cerveja.
– Não. Quando elas vão se estapear a Q fica com o olhar de um demônio e a Sant não fica tão diferente. – Brittany fala enquanto beija Santana. Anne está encostada sobre uma pequena mureta. Encosto-me no corpo dela enquanto ela me prende em um abraço pela cintura. Santana no mesmo momento me olha como se quisesse entender o que aquilo significa, mas eu a ignoro.
– Vocês já brigaram de verdade? De socos e tudo mais? – Ela vira o rosto para poder me olhar melhor. Eu inclino minha cabeça para o lado e olho diretamente para os lábios dela. Logo em seguida olhando-a nos olhos.
– Já. Algumas vezes. – Dou de ombros tirando qualquer importância daquelas situações.
– Então, falta muito para nos reencontramos aqui? – Colin pergunta se colocando a minha frente, mudando de assunto.
– Para encontrarem Santana e Brit, não falta muito. – Anne acende outro cigarro e novamente eu o tomo dela. – Eu vou para Yale. – Dou uma considerável tragada no cigarro.
– Eu não acredito! – Anne me expulsa de seu abraço. – Eu pensei que havia acabado de encontrar minha futura namorada, mas aí você vem com essa história de Yale e eu não gosto de namoro à distância. – Sorrio abertamente para aquilo. Como pode alguém ser tão graciosa assim? S e B continuam a nos olhar. Eu me limito a apenas voltar aos braços dela.
– Não caia nos feitiços dela. – Santana anuncia. – Ela sabe ser uma vadia quando quer.
– Eu não acho que isso seja possível. – Brian discorda. – Olha só para esse rostinho perfeito. Você só pode ter sido feita por anjos. – Ele acaricia meu rosto. – Você poderia ser minha futura namorada também.
– Tire suas patas dela. – Anne me prende mais contra ela.
– Que irônico. – Solto um riso abafado. Todos me olham. – Vocês aqui falando sobre me namorar e a única pessoa que eu realmente gostaria de namorar já deve estar namorando outro. – Rachel não sai nem por um segundo de minha mente.
– Tudo vai se acertar da melhor forma para vocês duas. – Colin pronuncia enquanto eu encaro as janelas do hotel. Rachel deve estar perdida em um sono tranquilo lá dentro enquanto eu estou aqui fora, nos braços de uma completa desconhecida, mas que ainda assim consegue me fazer sentir bem, como Rachel deveria estar fazendo. – O caminho de vocês já está traçado, basta vocês cuidarem para que permaneça inalterado o curso de tudo.
– Mas se vocês não se acertarem, você pode me ligar. – Anne beija meu rosto. Sorrio suave com o gesto.
– Eu me lembrarei disso. – Respondo enquanto olho para o céu que começa a clarear. Sim, estamos amanhecendo na rua com alguns desconhecidos, cervejas e cigarros. Santana e Brittany continuam em um beijo apaixonado que já perdura por aproximadamente dez minutos? Ninguém diria que somos de Lima se nos vissem assim. Lá temos que viver muito recatados, por temermos o que as pessoas podem falar ou não.
Atravessamos a rua para entrarmos no hotel. Nosso voo sai às 11h e nem sei como faremos em relação a isso tamanha a ressaca que provavelmente estaremos. Despedimo-nos dos garotos com calorosos abraços. Anne ainda está me envolvendo em seus braços quando vejo Santana ficar em estado de alerta.
– Quinn... – Congelo no mesmo instante em que reconheço aquela voz. – Eu estava preocupada com vocês. – Rachel se aproxima de mim e olha direto para os braços de Anne me envolvendo pela cintura. – Vocês estavam bebendo? – Ela desvia o olhar para as garrafas de cerveja em nossas mãos, mas logo volta a olhar para Anne que continua a me abraçar. Eu a ignoro. Viro-me para Anne e beijo-a no rosto.
– A noite foi incrível. – Encaro-a mesmo sabendo que Rachel continua parada nos olhando.
– Você sabe, aquela proposta de ainda agora... se não der certo aí para você, pode me ligar. – Ela tem um sorriso divertido nos lábios. Entendi que ela queria provocar Rachel.
– Ela não vai ligar. – Rachel me puxa pelo ombro. Cambaleio para trás e ela me segura para que eu não vá de encontro ao chão. – Você andou fumando?
– Que diferença faz? – Rebato a pergunta. – Não é como se você se importasse comigo ou com o que eu sinto. – Rachel fica a procura de uma resposta enquanto me viro para Anne. – Obrigada pela noite e eu ligarei. – Pisco para ela, sibilando um silencioso “Obrigada”.
Quando os garotos enfim se vão. Olho para Rachel e vejo-a parada no mesmo lugar, com os braços cruzados e uma expressão facial nada amigável. Eu arqueio uma sobrancelha, desafiando-a silenciosamente a sair de minha frente. Ela não se move.
– Porra! Já está amanhecendo, dá pra conversarem de uma vez por todas? – Santana soa ríspida.
– Eu não quero. – Viro as costas, mas ela me para.
– Converse agora, Fabray. – Santana me instiga. – Melhor aqui que lá dentro onde vocês podem acordar alguém que não deve ouvir o que vocês têm a dizer. — Eu bufo já movida pelo estresse e o cansaço, sem falar no efeito do álcool. Viro para Rachel.
– Diz. – Me limito a falar.
– Você ficou com aquela garota? – Sorrio irônica. Passo a mão por meus cabelos bagunçando-os mais do que já estavam.
– Você realmente está me perguntando isso? – Jogo a garrafa de cerveja fora. – Você beija o Finn na minha frente; é pedida em namoro na minha frente; agora vem questionar se fiquei ou não com outra pessoa?
– Temos algo aqui e eu respeito isso, Quinn. – Rachel aponta para mim.
– Respeita? Respeitou no momento em que deixou ser beijada por ele? Respeitou no momento em que retribuiu o beijo? – Me aproximo dela esperando ansiosa pela resposta.
– Eu fiz isso pelas Nacionais. Os juízes nos desclassificariam se percebessem que isso não estava no roteiro. – Ela responde como se fosse óbvio. – Você sabe o quanto ganhar as Nacionais era importante para todos.
– Foda-se as Nacionais e esse maldito prêmio. – Grito a plenos pulmões. Rachel se assusta com o tom empregado por mim, assim como Santana que se posta a minha frente.
– Calma, Quinn. – Santana fala baixo. – Respire fundo. Seja racional, por favor. — As lágrimas voltam a se acumular em meus olhos, teimo a todo custo para que elas não saiam.
– Eu sei que te magoei. Me perdoe por isso, Quinn. – Rachel pede chorosa enquanto tenta tocar em meu rosto, mas, me afasto de seu toque. Isso parece feri-la.
– Ahh... Rachel, qual é? – Viro de costas para ela. Passo a mão agoniada por meus cabelos e rosto. Viro-me novamente para ela. – O que você sentiu quando me viu aqui em baixo com Anne?
– Eu odiei. Me senti traída. – Ela me olha nos olhos e vejo toda a verdade no que ela diz. – Pensei que só eu poderia te abraçar assim como ela estava. – Essa última frase sai quase inaudível.
– Foi ruim, não foi? – Ela assente. – Agora pegue esse sentimento e imagine ele quadruplicado. – Ela levanta o cenho. – Foi assim que eu me senti quando vi você com ele. Essa dor que você sentiu agora nem se compara a minha quando ele pediu você em namoro. Você me destruiu, Rachel. – Uma lágrima cai livre por meu rosto. Ela leva as mãos para limpar o caminho feito pela lágrima e me afasto mais uma vez. – Não me toque. – O choro corre incontido agora. – Você destruiu tudo o que tínhamos, Rachel. Tudo por essa maldita competição. – Esmurro a pilastra que estava próxima de mim. Santana se aproxima, mas logo se fasta novamente.
– Pare com isso. Você vai se machucar. – Rachel me alerta.
– Que diferença faz? – Encaro-a raivosa. – Nenhuma dor física se compara ao que eu sinto aqui dentro agora. – Aponto para o local onde está meu coração.
– Quinn, por favor. Pare com isso. Vamos conversar direito. – Rachel pede em meio a soluços. Vejo que ela chora tanto quanto eu.
– Eu me apaixonei por você, Rachel. – Choro sem me importar por ter baixado todas as minhas guardas, deixando que ela veja meu sofrimento. – Por que você deixou eu me apaixonar por você? Que droga, Rachel! – Viro de costa para ela novamente. Vejo Brittany se por ao lado dela.
– Eu também me apaixonei, Quinn. – Ela fala em meio a soluços. – Não me culpe por isso porque eu também me apaixonei.
– Estava tudo perfeitamente bem antes de você fazer aquelas besteira. – Acuso enquanto viro para olha-la nos olhos. – Como pode em um momento você me chamar de “Amor” e no outro beija-lo sem se importar comigo? Você destruiu tudo, Rachel.
– Me desculpa, por favor. – Ela chora sem me olhar, encarando o chão. – Me deixa consertar isso, Quinn.
– Não, Rachel. – Cesso todo o choro. Limpando a última lágrima que havia caído. – O que quer que tínhamos, acabou no momento em que você optou pelas Nacionais. – Ela pisca várias vezes e se contorce nos braços de Brittany. – Acabou no momento em que você escolheu beija-lo. – Me aproximo dela lentamente, ficando frente a frente. — Acabou no momento em que você me deixou devastada em cima daquele palco. – Olho profundamente nos expressivos olhos castanhos que ela possui. Sei o que dói nela cada palavra que digo. Beijo-a na cabeça, pelo o que espero ser a última vez. Em seguida viro as costas e silenciosamente peço para Santana me acompanhar no caminho ao quarto.
Talvez seja como Colin disse mais cedo... o destino já tem seus pontos traçados perfeitamente, e o meu, escolheu que qualquer ponto em minha vida, me leve para longe de qualquer pessoa que me coloco a amar. Foi assim com o meu pai. Foi assim com o filho que eu teria. Foi assim com o amor que deveria ser meu.
Fale com o autor