Moon River
21 Capítulo Bônus
Notas iniciais
— Capítulo Bônus —
— Edward —
New York – Janeiro de 2016
O reflexo do homem naquele espelho me deixava enjoado, ele parecia exausto, moribundo. Era como ter uma prévia de como eu ficaria quando meu coração parasse de bater e morresse, em toda minha vida nunca tinha me sentido tão fraco, impotente.
Um grande ódio tomava conta de mim, mas não em relação à Bella. Eu estava odiando a mim mesmo, por ser justamente um fraco.
Eu tinha uma filha. Uma filha de quinze anos. Uma filha que pensava que seu pai estava morto. Uma filha que não fazia ideia da minha existência.
Suspirei, apertando a borda da pia, querendo ter força suficiente para fazer a porcelana quebrar, mas aparentemente nem força física eu tinha. Fechei os olhos, evitando meu próprio reflexo no espelho.
Um nó em minha garganta fazia parecer que a qualquer momento eu morreria, minha cabeça parecia rodar e eu sentia meu corpo totalmente dormente. Deixei-me cair no chão, colocando as mãos no rosto, tentando compreender como minha vida tinha dado uma puta mudança nos últimos dois dias.
O encontro com Isabella naquela festa, então ela aparecendo na porta do meu quarto no hotel simplesmente dizendo que eu tinha uma filha. Sério, que tipo de pessoa eu fui na vida passada? Não que eu fosse crente em reencarnações, mas com tudo aquilo desabando em cima de mim não era possível deixar de crer que eu tinha sido um filho da puta com alguém no passado.
— Merda! — Soquei o chão, sentindo minha mão doer com o ato.
Uma filha. Minha mente voltou a gritar.
Uma filha que era absurdamente parecida comigo, como teria sido se eu tivesse topado com ela na rua? Acharia que ela era uma assombração por ser tão semelhante a mim? Ou que minha mãe tinha tido uma filha além de Alice e a garota fora sequestrada? Obviamente nenhuma dessas alternativas eram possíveis, mas ainda assim eu nunca pensaria que ela era minha filha, principalmente com Isabella Swan.
Eu nunca desconfiaria que Isabella tinha engravidado de mim, claro que nós fomos relapsos algumas vezes com proteção, mas não esperaria que ela acabasse grávida.
Encostei a cabeça na parede atrás de mim, pensando naquela garota que era minha filha. Uma filha, minha filha.
A porra do meu maior sonho tinha se concretizado e eu não sabia dele. Por quinze anos uma garota sem pai andou por ai, por quinze anos um cara sem filha andou por ai.
Era realmente a merda de uma piada idiota do Universo. Por que tudo na minha vida tinha de dar errado?
Primeiro meus pais eram terríveis, mamãe uma controladora, papai um cara que sempre me subjugava. Tinha também minha irmã e sua irritante mania de achar que sabia o que era melhor para mim.
Depois eu perdi Bella, por um erro meu que me assombrava. E, então, eu tinha uma filha, mas perdi os quinze primeiros anos de sua vida.
Toda a grávidez de Bella, como ela deve ter ficado impaciente e cheia de manhas grávida. O dia do nascimento, como eu daria tudo para estar lá e ser a primeira pessoa a carregar minha filha. Os primeiros passinhos, as primeiras palavras. Como ela deve ter sido uma criança linda, esperta e inteligente, afinal sendo filha de Isabella Swan não poderia ser diferente.
Eu tinha perdido tanta coisa, os momentos paternos que esperei minha vida toda para ter. A grande questão era que nunca achei que meu pai me amava, eu queria um filho para poder amá-lo, para provar a mim mesmo que seria melhor do que Carlisle em algo. Entretanto, a única filha que eu tinha nunca tinha visto minha cara.
O que eu ia fazer? Ficar sentado ali o resto da minha maldita existência, ou tentar reparar todos meus erros?
Levantei do chão, sentindo minha cabeça doer mais ainda por ter feito aquilo de forma rápida. Eu não tinha comido nada desde a noite anterior, quando Tanya tinha me arrastado para aquele hotel, estava literalmente fraco por não ter me alimentado por todo aquele tempo e aquilo não ajudava nada com a dor.
Pedi comida pelo telefone do quarto, então voltei para a salinha onde Bella estava. Eu precisava falar com ela, saber mais sobre minha...Nossa filha.
Ela parecia tão frágil, mesmo tendo se passado mais de uma década desde a última vez que a vi, Isabella conseguiu continuar com a mesma aparência doce, de quando tinha dezoito anos de idade.
— Pedi comida, estou faminto — falei.
E, percebi que não era só de Renesmee Swan que eu queria uma aproximação, mas com a mãe dela também.
***
Quando Isabella foi embora, depois de conseguirmos nos desentender mais uma vez, o que parecia ser a nova moda entre nós dois. Fiquei jogado naquele sofá, onde ela esteve por tanto tempo.
O cheiro de morangos que vinha dela, impregnou ali. Se eu esquecesse de tudo, concentrasse apenas no cheiro e como era ter estado novamente a tão pouca distancia dela, conseguiria fantasiar muito bem que nada tinha mudado entre nós dois durante aqueles anos.
Eu podia fingir em minha mente que o roubou as joias nunca aconteceu, que foi uma festa de grande sucesso aquela noite e que tudo saiu como esperado. Podia imaginar Bella me contando semanas depois que estava grávida, saberia até mesmo imaginar como seria minha cara de surpresa, seguido por um sorriso absolutamente cheio de felicidade.
A pequena Renesmee, tão parecida comigo, sempre saberia quem era seu verdadeiro pai. Eu estaria ali para ela desde sempre. Eu seria o marido da sua mãe, aquele que choraria como um bebê quando visse Bella vestida de noiva caminhando até mim, em alguma praia, porque ela gostava de calor.
— Edward? — Abri os olhos, sendo sugado para longe do mundo perfeito que só existia em minha cabeça.
Lá estava Tanya, a única mulher que tinha se vestido de noiva e caminhado até mim. Não conseguia entender nem mesmo como ela aceitou casar com um cara tão fodido quanto eu. Ela não teve um grande pedido de casamento como merecia, eu só tinha sido um cara bêbado amargurado que pedi que ela se cassasse comigo para que pudesse me esquecer de Bella. Ela foi apenas uma garota bêbada, recuperando-se de uma merda de relacionamento que tinha quebrado seu coração, que disse sim.
— Sinto muito por tudo isso — ela falou, sentando-se no outro sofá. Agradeci internamente por aquilo, eu queria continuar sozinho naquele, com o cheiro que Bella tinha deixado para trás.
— Eu tenho uma filha — sussurrei, voltando a fechar os olhos. Tanya deveria ser psicóloga, ela já cuidava das merdas em minha cabeça por tanto tempo que provavelmente sabia mais sobre isso do que um cara realmente formado em uma universidade conceituada. — Que pensa que o pai dela está morto, você consegue imaginar a confusão de que tudo isso é?
— Não mesmo, a ficha ainda não desceu para mim — Tanya comentou, suspirando alto. — Renesmee é uma garota maravilhosa, Edward — falou convicta. — Passei poucos minutos com ela, mas consegui ver isso. Ela é como você, bom, como você era.
Olhei para Tanya, sentando-me no sofá, deixando o cheiro de Bella longe da minha cabeça.
— Fisicamente?
— Não, ela é forte, como você foi por muito tempo antes de se tornar um fraco.
Eu sabia que era um fraco, mas sempre parecia pior quando alguém jogava aquilo na minha cara. Porém, era bom saber que Renesmee não era alguém como eu naquele sentido, era bom saber que ela tinha herdado a força de Isabella.
— Precisamos ter uma conversa séria, Tanya — falei, sentindo-me mais fraco ainda.
— Sim, precisamos — ela concordou, dando um sorriso para mim. Tanya sim parecia alguém forte, o que só me fazia ter certeza de que mulheres nunca seriam parte de um sexo frágil, era apenas um pensamento idiota achar que elas pudessem ser inferiores aos homens em qualquer coisa.
Simplesmente não eram.
— Obrigado por fazer tudo isso por mim, Tanya — agradeci, sem saber se estava me referindo apenas ao fato dela ter ido atrás de Isabella e convencê-la a me contar sobre Renesmee, ou sobre todo o nosso casamento e tudo que suportou por nós dois.
— Eu não fiz por você, não era minha primeira preocupação, Edward — confessou. — Eu fiz por Bella, por Renesmee, principalmente. Espero que saiba que esse é o momento mais decisivo de sua vida. Não perca Bella de novo, não perca sua filha antes mesmo de tê-la ao seu lado. Nunca mais lhe ajudarei se você as machucar.
***
Não dormi um instante aquela noite, foi a mais longa de toda minha vida. Tanya tinha ido embora do hotel, querendo me deixar sozinho para absorver tudo aquilo melhor. Eu a deixei ir, eu realmente precisava saber tomar conta de mim mesmo sem me tornar um garotinho assustado.
E, afinal, ela logo mais iria deixar minha vida de uma forma muito mais latente.
Quando a manhã chegou, Isabella deu sinal de vida, após muitas mensagens e ligações minhas para ela, diga-se de passagem.
Bella: Renesmee já sabe de tudo, aproveite que no momento ela quer conhecê-lo e diga onde devemos te encontrar.
Rapidamente respondi.
Edward: No mesmo hotel de ontem, estarei no restaurante. Encontro vocês lá em uma hora?
A curta e fria resposta dela veio em seguida.
Bella: Ok!
Eu logo me arrumei, vesti roupas decentes e que não tivessem cheiro de álcool ou de quem tinha passado a noite deitado em um sofá, então desci para esperá-las no restaurante do hotel. A cada pessoa que entrava ali eu ficava mais desesperado pensando ser elas, mesmo sabendo que era impossível que já fossem elas.
Então, para minha completa irritação, o celular em meu bolso tocou. Era meu pai, o que faltava para completar minha manhã.
— Oi pai, bom dia — falei cordialmente. — Tudo bem por ai?
— Edward, preciso que me envie os relatórios! — exigiu, ignorando tudo que eu tinha dito.
— Relatórios? Quais? — perguntei confuso, o ouvi xingar até nossa décima geração, então voltou a falar, gritando daquela vez.
— Os relatórios completos do ano passado, você tinha se comprometido me enviar eles até ontem. E adivinhe, eles ainda não estão em meu maldito e-mail! Por que mesmo, Edward? Você nunca cumpre uma porra de um prazo, não é? Um perfeito incompetente, como sempre! Tem algo na sua vida que faça certo?
Pensei em responder que eu tinha feito uma filha, que segundos relatos da mãe dela e de Tanya, era a garota mais incrível que já tinha pisado na Terra. Mas, eu não falaria de Renesmee para Carlisle, sabia que em algum momento isso aconteceria, só que a manteria longe dele e de todos os outros Cullen o quanto fosse possível.
— Vou lhes enviar os relatórios, me dê alguns minutos — pedi.
— Você vai afundar minha empresa, eu juro que se depender de mim James assume essa merda quando eu morrer! — Carlisle gritou antes de desligar na minha cara.
Irritado, dei um soco na mesa, chamando a atenção de uma senhora sentada a mesa ao lado. A ignorei, deixando o local e indo até a recepcionista do restaurante.
— Terei de me ausentar por alguns minutos, estou esperando por Isabella e Renesmee Swan, as conduza até a mesa que eu estava quando chegarem. Logo voltarei, só preciso ir até meu quarto. — Dei instruções precisas, então sai do restaurante voltando até meu quarto no hotel.
Fui o mais rápido que pude em editar detalhes dos últimos relatórios, então os enviar. Mas, como o mundo estava conspirando contra mim, obviamente o notebook estava sendo bem lento em todo esse processo.
Quando finalmente acabei, corri até o elevador, querendo voltar imediatamente para o restaurante. Aquela hora Renesmee e Bella já deviam ter chegado, seria péssimo deixá-las esperando por mais tempo.
O elevador também não pareceu cooperar nada com minha pressa, mas por fim cheguei ao térreo onde ficava o restaurante, caminhei apressadamente até lá também. Entrando como um trem bala no interior do local.
Surpreendentemente não parei de andar ao ver as duas, parecia que meu corpo estava desconectado de minha mente assustada que só queria parar e recuperar o fôlego. Lá estavam elas, sentadas lado a lado. E, a garota era mais parecida comigo do que a foto no celular de Isabella tinha mostrado.
Renesmee me olhava angustiada, de longe nem parecia respirar. Eu ainda olhava apenas para ela quando parei diante da mesa, então a garota desviou o olhar do meu.
Os cabelos dela, acobreados como os meus, caiam em ondas por seus ombros, ela tinha os olhos esverdeados exatamente como os em minha cara. Mas, eu tinha de discordar de algumas coisas, ela podia ser parecida comigo, só que em uma versão bonita.
Sentei diante delas, desejando bom dia.
— Oi Bella. — Meu olhar foi de encontro ao dela, era bom ter Bella de novo perto de mim. Eu queria tocar no rosto dela, só para provar que era real.
— Edward essa é Renesmee — ela falou, ouvi Renesmee fungar com a menção de seu nome.
— Oi Renesmee. — Sorri ao dizer o nome dela, parecia um sonho estar diante dela. Da garota que era minha filha, eu queria abraçá-la, para também comprovar que ela não era uma fantasia de minha mente.
Renesmee levantou o rosto, murmurando um oi e sustentando o meu olhar por pouco segundos. Era confuso o quanto ela era familiar e estranha ao mesmo tempo.
— Oi. — Renesmee levantou o rosto, sustentando o olhar de Edward por dois segundos antes de desviar para a parede do restaurante.
— Vocês já pediram algo? — perguntei, abrindo o cardápio, mas ainda olhando rapidamente para minha filha vez ou outra.
Minha filha.
— Não, o que recomenda? Eu estou morrendo de fome — Bella disse, pegando um cardápio para si também.
— Café, com bastante açúcar — falei. — E croassaint, você vai adorar o daqui. — Logo lembrei de o quanto ela gostava de croassaint.
— Sério? — Renesmee voltou a se manifestar ali, Bella e eu nos viramos para ela. — Vão mesmo se tratar como velhos amigos que se encontraram para um café? Você escondeu uma filha dele. — Gesticulou para Bella. — E você a acusou de roubo! — Ela me encarou, por mais tempo desde que eu tinha surgido na sua frente, e ela parecia muito uma Cullen ali. Raivosa, irritada. Não, eu não podia lidar com o fato de que ela tinha herdado aquilo de mim também.
Bella e eu abaixamos os cardápios simultaneamente.
— Só estamos tentando tornar o clima ameno, Renesmee — Bella falou mantendo um tom de voz baixo. Ela era uma boa mãe, eu não podia duvidar disso. Seus olhares para a filha, o modo como falava com ela. Eu queria beijar os pés daquela mulher por não ser uma vaca com Renesmee, por ter dado aquela garota tudo que uma pessoa merecia, carinho e amor.
— Ameno? Não existe isso nessa situação, mãe! — Renesmee exclamou, ainda parecendo ter vindo direto de um encontro Cullen. — É um caos, okay?
— Acho que devemos esquecer o passado, Renesmee — eu disse, arregaçando as mangas da camisa social que usava, sentindo-me sufocado com elas.
— O quê? — Ela riu, o que me pegou de surpresa. Para quem tinha quinze anos ela não parecia ser tão boba como as garotas de sua idade. Algo em comum com Lucy, minha sobrinha também não era nada ingênua. — Edward, não é? Como quer que eu esqueça um passado que está diretamente ligado ao meu presente? Você acusou minha mãe, ela me escondeu de você e você de mim. Acha mesmo que esse é o tipo de coisa que pode ser simplesmente esquecida? Eu passei quinze anos da minha vida imaginando que meu pai estava morto, que ele era um órfão que nem família tinha. Eu tinha uma imagem desse falso pai na minha mente, um cara sonhador, feliz e que amou minha mãe. E, isso tudo desmoronou.
— Edward pode ter me acusado de roubo, Renesmee — Bella disse aquilo claramente brava, o que me fez perceber que talvez a raiva de Renesmee não fosse só herança minha. — Mas ele é...Ele é seu pai. Vocês precisam se conhecer, tente ser mais simpática.
— Ah, agora quer que eu o conheça? — Renesmee virou-se para a mãe ao seu lado. — Não deveria ter me escondido dele, então, mamãe.
— Renesmee? — a chamei tentando parecer calmo naquela situação, naquele caos como ela tinha chamado. Seu olhar para mim continuava irritado. — Sei que tudo é demais, acredite, não está sendo fácil para mim também, mas podemos tentar? Eu não estou pedindo que me chame de papai, ou que diga que me ama, só quero que se foque no presente e no que pode vir do futuro. Você e eu somos estranhos agora, mas podemos mudar isso.
Como eu queria que ela me chamasse de pai, ou que pudéssemos ter uma boa relação logo de cara, mas sabia que não era algo que aconteceria. Renesmee não era uma criança maleável, era uma adolescente. Com sangue Cullen e Swan em suas veias, era uma combinação complicada.
— Eu vou ao banheiro — ela disse, ignorando totalmente o que falei. Pegou sua bolsa e saiu do restaurante.
Bella e eu passamos um bom tempo quietos, eu não sabia o que fazer. Renesmee era de fato uma estranha na minha vida, assim como eu na dela. O que seria de nós? Depois daquela apresentação eu acabaria lhe mandando presentes em datas comemorativas, ela me odiaria pelo resto da sua vida e isso seria o máximo de relação pai e filha entre nós dois? Eu não queria repetir com ela os erros que Carlisle cometeu comigo.
— Ela nunca vai me aceitar, não é? — perguntei.
— Dê um tempo a ela — Bella falou. — Teve uma noite difícil, não dormiu nada, está cansada e tudo é novo. Vai precisar de mais tempo para se acostumar a tudo isso.
— Então contou ao roubo das joias para ela? — A encarei.
— Eu tinha de dizer a verdade.
— Sei que não foi você, Bella — afirmei, sentindo um peso em meus ombros. — Ter te acusado ainda me consome, me sinto um lixo por isso.
— Queria que não tivesse acreditado nisso no passado. — Ela irou seus olhos dos meus. — Renesmee está certa, não podemos esquecer um passado que afeta diretamente nosso futuro.
Suspirei. Se eu não tivesse errado com Bella no passado, Renesmee não me odiaria. Bella não me odiaria. Eu teria o amor da minha vida ao meu lado e uma filha.
O celular de Bella tocou e ela se distraiu com ele, até que deixou o aparelho cair na mesa. Parecia chocada, atônita, fora de seu corpo.
— O que foi? — Edward perguntei. — Bella? — a chamei. — Isabella?
— Renesmee fugiu. — Com as mãos trêmulas Bella me passou o celular. — Edward, Renesmee fugiu. — Ela começou a chorar. — Nossa filha, fugiu.
Eu nem precisei ler a mensagem, apenas levantei da mesa e corri para fora do restaurante. Já gritando com os seguranças para localizarem Renesmee, apertando o celular de Bella em minha mão.
Eu não podia perder minha filha, não quando tinha acabado de encontrá-la.
— Renesmee —
Já estava chorando desesperadamente quando entrei no banheiro, algumas mulheres ali lançaram olhares cheios de superioridade pra mim e até mesmo certa repulsa. Quis xingá-las com todos os palavrões que tinha aprendido quando via meu avô, ou tio Emmett, assistindo a jogos de basquete, mas as deixei pra lá e entrei no reservado.
Eu não sabia o que fazer, nem tinha ideia de como controlar as lágrimas que não paravam de surgir cada vez mais, em maior quantidade. Sentei sobre o vaso, após abaixar a tampa, fiquei encolhida ali, encarando as botas que usava.
O que eu tinha na cabeça quando quis conhecer aquele homem? Ele que acreditou que minha mãe era uma ladra. Mamãe que era a pessoa mais honesta do mundo.
Quer dizer, não, ela não era!
Mamãe mentiu para a própria filha durante quinze anos. Como alguém consegui olhar nos olhos de uma criança e dizer que o pai dela estava morto? Quando o maldito pai dela estava apenas do outro lado do país.
Chutei o chão algumas vezes, mas a bota era resistente e aquilo não me fez sentir dor alguma. O choro era angustiante, ainda mais quando pensava em todas as vezes que mamãe tinha afirmado que meu pai estava morto.
— Ele é um anjo agora, Ness — ela falava. — Está lá no céu, cuidando de você, meu amor.
Morto!
Eu tinha por anos pedido proteção a um falso pai morto. E, lá fora estava o verdadeiro. Tão vivo quanto eu. Só que tão...Desprezível.
Eu não sabia quem tinha mais minha raiva. A mãe mentirosa. Ou o pai verdadeiro. Só sabia que meu peito doía em pensar em toda aquela rede de mentiras e de acusações, que fui colocada antes mesmo de nascer.
Só que, sabia de algo. Era impossível continuar naquele lugar, ficar perto deles enquanto minha mente era um emaranhado de dúvidas e medos.
Liguei para a única pessoa que eu podia confiar naquele momento, a que até aquele dia era a única imagem de um pai que eu tinha em mente. Com as mãos tremendo disquei o número do celular de vovô Charlie, mas ele não atendeu. Vivia esquecendo o celular em silencioso pela casa, o que deveria ter acontecido naquele dia. Podia ligar para Renée e perguntar se ele estava por perto, mas pensar em falar com minha avó naquele momento pareceu tão ruim quanto voltar para perto de Isabella e Edward.
Não tinha muitas opções de para onde ir, na verdade. Se voltasse para casa, mamãe iria atrás de mim. Aquele horário não poderia ir para a escola, o que seria péssimo de qualquer jeito. Caso fosse para junto dos meus tios, tia Rose me deduraria para mamãe.
Eu queria mesmo ir para Forks, quem sabe vovô Charlie me deixasse passar algumas semanas com ele, enquanto colocava minha cabeça no lugar. Sabia que Riley era seu neto preferido, era o garoto, veio primeiro e tinham assuntos em comum. Mas, sabia que vovô me amava também, bastava saber se ele me protegeria da fúria da mamãe quando ela descobrisse que não queria, não conseguia, ficar perto dela naquele momento.
Sai do banheiro com cuidado, evitando ser vista e ver aqueles que eram meus pais —ainda que fosse difícil assimilar aquele estranho como meu pai — no restaurante. Pulei para dentro do primeiro táxi que passou por mim na rua, pedindo que ele me levasse até a rodoviária. Eu por sorte tinha dinheiro na minha bolsa, fruto de ter trabalhado como babá da filha da vizinha, enquanto ainda morávamos em Seattle.
Ainda no táxi mandei uma mensagem para minha mãe, esperando que eu tivesse tempo de pular no primeiro ônibus para fora do estado antes dela me alcançar. Eu teria de lidar com a falta de roupas quando chegasse em Forks, vovô Charlie iria me ajudar com aquilo também, era o que esperava, mas não perderia tempo indo em casa buscar pertence algum.
— Você tem dinheiro para pagar a corrida, não é? — O motorista me perguntou quando chegamos a rodoviária.
— Tenho — resmunguei, jogando o dinheiro que cobriria a corrida para ele.
Caminhei em direção a primeira bilheteria, esperando que a imensa fila fosse um pouco mais rápido. Só que estávamos em New York, nada era rápido naquela cidade.
Meia hora depois eu finalmente cheguei ao caixa.
— Oi, uma passagem para Seattle, por favor — pedi, colocando o dinheiro na frente da mulher. Eu teria de ir para Seattle, de lá pegaria outro ônibus para Forks.
— Viajando sozinha? — ela me perguntou, digitando em seu computador.
— Sim, meus pais estão me esperando lá — respondi, ela assentiu, parecendo não dar tanta atenção assim para minha falsa história.
— O próximo ônibus para Seattle sai em cinco horas — ela falou, com uma expressão entediada.
— Cinco horas? Não, isso é muito tempo! — exclamei impaciente.
— Não posso fazer nada, garota — ela falou dando de ombros. — O último ônibus para Seattle saiu meia hora atrás, o próximo são daqui a cinco horas. Só isso que tenho para te dizer. Vai querer a passagem, ou não?
— Não, para qual lugar o próximo ônibus a sair vai?
— Pensilvânia — respondeu, colocando um chiclete na boca. — E ai?
— Okay, me veja uma passagem para o ônibus para a Pensilvânia, quanto tempo de viagem daqui até lá.
— Cerca de duas horas — respondeu, estourando uma bola de chiclete, o que me deixou realmente impaciente com ela. — Algo mais? — perguntou entregando o tíquete para mim.
— Não — peguei a passagem da mão dela, afastando-me do guichê.
Dez minutos depois eu já estava no ônibus que iria para a Pensilvânia, sentada a janela, com o celular em minha bolsa desligado e o coração apertado. Mamãe me mataria, mas ela não podia me julgar por querer fugir daquele caos. Eu tinha sim tido vontade de ir até Edward Cullen e conhecê-lo, mas foi um fiasco. Ele não era mesmo o pai que fantasiei durante toda minha vida, não dava para aceitar as mentiras de mamãe e a entrada desse estranho em minha vida.
A televisão no ônibus exibia um jornal local, a jornalista falava que uma confusão tinha tomado a cidade de New York por conta de uma suspeita de bomba terrorista bem no centro da cidade que nunca dorme. Minha mão correu até o telefone, querendo ligá-lo e discar o número de mamãe, só para ter certeza de que ela estava bem. Mas, eu não podia falar com ela até estar fora de New York, quando chegasse a Pensilvânia mandaria uma mensagem para mamãe, dizendo que estava indo sim para Forks passar um tempo com vovô Charlie.
— Oh meu Deus, essa cidade nunca tem sossego! — a senhora sentada ao meu lado falou, parecendo cansada da vida agitada de New York.
— Deve ser uma falsa ameaça, desde o 11 de setembro eles vivem fazendo ameaças sem fundamento — o homem sentado no banco do outro lado do corredor comentou, enquanto o ônibus se deslocava da rodoviária, estávamos longe do centro da cidade, sem estarmos no meio do caos da bomba.
— Ah, mas quem sabe essa tem sim fundamento! — a senhora perto de mim disse. — Que bom que meus filhos estão todos na Pensilvânia, estaria morrendo de preocupação se estivessem em New York.
Ela se virou para mim, parecendo me notar sentada ao seu lado só ali.
— Querida, já falou com seus pais? Deve avisar a eles que está bem.
— Já avisei sim — menti, fechando os olhos e encostando a cabeça na janela.
Era isso que eu ia me tornar? Uma mentirosa como mamãe? Uma pessoa estranha como Edward?
Suspirei, sentindo as lágrimas acumularem-se nos meus olhos fechados. Edward...Eu era tão parecida com ele. Olhos, cabelos, boca. Ainda assim, ele não passava de um estranho. O cara que tinha doado as sementinhas para mamãe, que depois a acusou de roubo e a tirou de sua vida.
A culpa era dela, por não conhecê-lo, mas Edward Cullen também tinha sua culpa. Não sabia como agir com aquilo, com aqueles pais que eu tinha arranjado e que pareciam ser mais imaturos do que eu.
Sempre quis um pai, alguém que eu pudesse contar, amar...Alguém que eu pudesse me refugiar, que sempre me protegeria de tudo. Mamãe agiu durante minha vida toda como uma mãe e um pai, mesmo que ela tenha se saído muito bem nos dois papéis, havia sempre um buraco em mim que era por não ter tido um pai presente.
E, estive diante dele aquela manhã. Edward Cullen, ele parecia comigo, mas também parecia ansioso demais, agitado, confuso. Eu podia sentir o quanto ele estava confuso, tanto quanto eu. Ele teve seus erros com mamãe no passado, mas não sabia de mim, podia culpá-lo por não ter correspondido as minhas expectativas?
— Merda! — xinguei, abrindo os olhos, vendo a senhora ao meu lado olhar-me assustada com meu linguajar.
— O que foi, mocinha?
— Acabei de fazer a maior burrada da minha vida — contei, passando a mão pelo cabelo. Por que diabos fugi de mamãe? Ela que sempre me amou e cuidou de mim. Por que diabos estava tão revoltada com Edward? Ele até o dia anterior nem tinha ideia da existência de uma filha. Aparentemente eu não era tão madura quanto pensava.
— O quê? — a senhora indagou.
— Motorista, eu preciso descer! — gritei, a ignorando, saindo do banco e andando pelo ônibus em movimento.
— Senhorita, sente-se! — o motorista ordenou quando cheguei a sua cabine. — Este ônibus só vai parar em Pensilvânia, não faço paradas no meio da estrada.
Bufei, eu não queria mais ir para Pensilvânia, muito menos para Forks.
— Meu pai é Edward Cullen, você o conhece?
Era ridículo, eu sei, mas já tinha visto aquilo em dezenas de filmes e geralmente funcionava. Não estava pagando de riquinha nem nada, apesar de ter pesquisado na noite passada sobre Edward Cullen e descoberto que ele era bem rico, muito rico mesmo.
— Não — o motorista disse confuso. — Volte para seu lugar, garota! Não posso conversar enquanto dirijo.
Resmunguei mais uma vez, voltando para meu lugar no ônibus, quando o barulho da sirene da policia fez com que o motorista parasse o ônibus. Dois policiais subiram ali, algo me dizia que era para me buscarem, o que me fez parecer realmente uma fugitiva. Também me surpreendi com a agilidade de mamãe em contactar a policia, apesar de que Edward deve ter se envolvido nisso.
— Renesmee Swan, é você? — um deles perguntou.
— Sim — murmurei, estendendo as mãos para cima. Eu só tinha quinze anos, será que seria presa por ter fugido? Nem tínhamos saído do estado de New York, fugir não era um crime né? Será que mamãe podia ser culpada por minha besteira?
— Você tem de vir conosco para a delegacia, garota!
— Oh meu Deus, ela é a garota que colocou a bomba na cidade? — Ouvi a senhora que estava sentada ao meu lado gritar aquela bobagem.
Ah, que maravilha, eu passaria de fugitiva para suspeita de terrorismo segundo senhoras de ônibus. Algo me dizia que Edward Cullen também não tinha ganhado a filha de seus sonhos.
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