Moon River
9 Capítulo Sete
Notas iniciais
— Capítulo Sete —
— Bella —
New York – Janeiro de 2016
Imaginei aquele momento acontecendo de várias formas diferentes, ainda que eu não quisesse passar por ele, por temer as consequências, era impossível não imaginar como aconteceria. Mas, nada foi como realmente ocorreu.
A imaginação mais forte que eu tinha, era com Edward surgindo na minha porta, revoltado, irritado, gritando aos quatro ventos que sabia que eu tinha escondido Renesmee dele por muito tempo. Então ele a levava de mim, arrancaria a garotinha dos meus braços e eu nunca mais iria poder vê-la.
Era essa a suposição que eu mais temia, por saber o quanto Edward queria ter filhos, sempre fiquei aflita com o fato de ele poder descobrir que eu tinha escondido sua filha. Sabia que se acontecesse, o Cullen não mediria esforços para ter a filha perto de si, ainda que isso implicasse em afastá-la de mim.
E como eu poderia combater judicialmente com um Cullen? Afinal os Cullen sempre foram influentes no país todo e eu supunha que até no mundo.
Mas a cena dramática, digna de um filme de drama mal dirigido, não aconteceu. Outra que eu nunca cogitei, foi a escolhida.
Deparar-me com Edward ali, em uma festa que eu estava trabalhando, parecia uma brincadeira do destino. Era como voltar para 2000, onde nos conhecemos, em uma festa que ele era um convidado e eu uma mera empregada.
Soltei o ar que estava prendendo desde que o vi, reparando que o mesmo parecia chocado por estar me vendo ali. Nenhuma foto que eu tivesse visto dele na internet fazia jus a quão bonito ele estava, mesmo que já beirando os quarenta anos. Na verdade Edward nem parecia ter quase essa idade, eu devia ter esperado que ele teria envelhecido bem. Ainda que toda sua expressão aparentasse cansada, como se ele carregasse um fardo muito pesado em suas costas.
Antes que pudesse fugir, pois era exatamente isso que planejava fazer quando recuperasse os movimentos das minhas pernas paralisadas, ele deu o primeiro passo. Levantei abruptamente da cadeira, agradecendo por não derrubar nenhuma taça sobre a mesa no processo. Virei de costas, mas não foi possível nem dar o primeiro passo.
— Não, pare agora!
Voltei minha atenção para ele, o vendo se aproximar ainda mais de mim. Eu sentia como se as paredes do local estivessem se movimentando em minha direção, esperava o momento que elas me esmagassem ali mesmo, seria menos cruel do que encarar Edward.
— Não temos nada para conversar, senhor Cullen — falei, mantendo meu tom de voz o mais formal possível, mesmo que eu conseguisse ouvir um leve choro no final da minha fala.
Eu não podia acreditar que depois de quinze anos e de tudo que Edward tinha me feito chorar, ainda sentia vontade de beijá-lo. Parecia errado, mas ainda assim maravilhoso, como tinha sido quando estávamos juntos.
— Eu devia ter acreditado quando Jasper disse que você estava na cidade — ele disse.
— O quê? — perguntei, minha voz ali não saiu nada formal, eu parecia desesperada. — Onde Jasper me viu?
Aquilo não podia estar acontecendo, se Jasper tivesse me visto perto do apartamento? Ou com Renesmee? Ele teria contado a Edward, sem duvida alguma, eram melhores amigos e não acreditava que mesmo com quinze anos se passando, os dois tivessem se distanciado.
— Entrando em um jornal, mas isso não vem ao caso — Edward respondeu, me avaliando. Os olhos verdes, assim como os de Renesmee, pareciam curiosos sobre mim. — O que está fazendo em New York, Isabella?
Ouvi-lo me chamar por meu nome, não por meu apelido, parecia totalmente errado. Odiava quando ele me chamava daquele jeito, me sentia uma criança sendo repreendida.
— A cidade não é sua, Cullen, não lhe devo explicação alguma sobre o que estou, ou não fazendo aqui — respondi, erguendo a cabeça. Eu não deixaria ele me colocar para baixo, não mais.
— Você...
Ele começou a falar, mas fomos interrompidos pela chegada nada discreta de Tanya. Ela estava tão bonita que me senti totalmente desajeitada naquele lugar, era como ter dezoito anos de novo, quando a presença dela sempre me deixava com a autoestima baixa.
— Não consegui acreditar quando te vi, pensei que era outra pessoa — ela murmurou, me olhando angustiada.
Tanya tinha sido tão legal comigo quando nos conhecemos, dizendo até ser minha amiga, mas ela então casou com Edward. O que só queria dizer que ela foi uma completa falsa comigo, não era possível confiar cegamente em ninguém.
— Como você está, Bella?
Ah claro, ela me chamava pelo apelido.
— Como se você se importasse. — A encarei com ódio, a mão dela estava repousada sobre as costas de Edward, sendo a esposa que ela era. Como eu ainda conseguia sentir ciúmes dele?
— Bella, por favor — Tanya pediu, ainda com um olhar preocupado para mim. — Você sabe que nunca acreditei naquilo, eu...
— Você o que, Tanya? Você não foi uma completamente estúpida, arrogante como Edward? — Meu olhar recaiu sobre ele.
— Eu pedi desculpas, Isabella! — ele exclamou.
— Mas você acreditou! — exclamei de volta. — Acreditou que eu tinha feito aquilo, éramos namorados e você não confiou em mim. Quer saber, eu pouco me importo com isso, já tem quinze anos e esqueci-me de vocês, como da sua família suja.
— Não fale assim da minha família. — Edward segurou em meu braço, impedindo que eu saísse. Ele nem de longe estava me machucando ou algo assim, duvidava muito que algo no mundo fizesse Edward machucar outra pessoa fisicamente, mas tudo aquilo me machucava e muito interiormente.
— Lamento informar, mas sua família é horrível e chamá-la de suja pode até ser um elogio.
— Bella, nós todos sempre gostamos muito de você, aquilo tudo foi um grande mal entendido. Nós gostaríamos de ter nos desculpado com você, mas quando Edward te procurou, você o afastou.
— Um mês depois. — Soltei meu braço da mão de Edward, voltando-me para Tanya. — Ele me procurou um mês depois, você acha isso pouco tempo para um pedido de desculpas? Principalmente depois de toda aquela acusação, de tudo que me fizeram passar?
— Nunca acreditei naquilo, Bella — Tanya afirmou, se aproximando de mim, fazendo com que eu sentisse vontade de vomitar por tê-la tão perto. — Nunca menti quando disse que éramos amigas.
— Não fale isso nunca mais, você não é e nunca foi minha amiga. É tão falsa quanto Edward.
— Eu nunca fui falso com você, Isabella.
Os olhos de Edward ali pareciam irados.
— Foi sim, você acreditou Edward, tudo que precisava ter feito naquela noite era não ter acreditado. Mas é da sua personalidade, não é? Ser um fraco, submisso as vontades de todos e sem pensamento critico.
— Isabella... — Edward começou a falar alto demais, chamando a atenção de algumas pessoas próximas.
— Querido, não, por favor — Tanya pediu, segurando a mão dele. — Você não pode criar uma confusão aqui, essa festa é importante para meu trabalho. — Tanya olhou ao redor, lançando um sorriso para quem olhava em nossa direção. Eu só conseguia prestar atenção na sua mão unida a de Edward.
— Adeus! — exclamei, me afastando deles.
Para meu alivio, nenhum dos dois me seguiu. Encontrei Ângela e cerca de uma hora depois terminamos todas as entrevistas, evitei procurar por Edward ou Tanya, como tomei o cuidado de ser rápida e discreta, para não cruzar o caminho dos dois mais uma vez. Fiz tudo em modo automático, não podia deixar aquele reencontro afetar meu trabalho, de jeito nenhum.
Já no carro cedido por Sulpicia, de volta para meu apartamento, minha cabeça deu os primeiros sinais de que aquele momento na festa tinha sido demais. A dor que estava sentindo era tão forte, assim como a vontade de chorar.
Mal me lembro de ter dado tchau a Ângela, ou ao motorista quando o carro estacionou diante ao prédio que eu morava. Tirei os saltos logo na entrada, subindo as escadas lentamente, querendo deixar meu corpo e minha mente absorverem tudo aquilo antes de entrar em casa.
Implorei a todos os deuses que Renesmee já estivesse dormindo, não teria coragem de falar com ela depois de ter encontrado seu pai. Iria me sentir a pior pessoa do mundo por isso.
Abri a porta do apartamento, então entrei, jogando os sapatos em qualquer lugar e deixando a bolsa na mesinha do hall de entrada. Rose estava na sala, assistindo algo, sem Renesmee por perto.
— Ela está dormindo? — perguntei para minha cunhada, tão baixo que eu mesma quase não me ouvi ao perguntar.
— Está sim. — Rose assentiu sorrindo. — Fizemos um bolo, você tem que provar, ficou uma delicia. E a ajudei com parte dos deveres da escola, quem sabe assim vocês conseguem um tempo para saírem no fim de semana. Acho que deveriam ir ao Central Park pela manhã no domingo, Renesmee irá adorar e você também. Se vocês estiverem desocupadas amanhã a noite, quem sabe todos nós podemos sair para jantar, aquele restaurante da semana passada era maravilhoso, não?
— Eu o vi, Rose — murmurei, caindo no choro.
— O quê? — Ela desligou a televisão. — Bella o que aconteceu? Quem você viu? — Acho que assim que terminou de perguntar, Rosalie percebeu a resposta. — Não Bella! — Se levantou do sofá, indo até mim e me abraçando. — Sinto muito, isso não deveria ter acontecido dessa forma, ele foi rude com você?
— Ambos fomos. — Deixei com que ela me sentasse no sofá. — Ainda não acredito que eu o vi, que falei com ele. Rosalie, foi tão terrível. E ela estava com ele.
— Tanya?
— Sim, aparentando ser uma boa pessoa. Eu a odeio, o odeio também. Mas quando o vi, quando ele me tocou. — Solucei alto. — Rosalie, eu estou com tanto medo.
Ela me abraçou, afagando minhas costas.
— Você sabe o que tem de fazer, Bella. É melhor estar no controle dessa situação do que deixar tudo fugir de suas mãos, pense na outra alternativa, o quanto seria mais complicado.
— Não posso contar a ela, Rose — afirmei. — Renesmee irá me odiar e irá querer conhecê-lo. Eu nem sei como ele vai reagir a ela, pode desprezá-la, como pode querer tirá-la de mim. Não quero minha filha envolvida com aquelas pessoas, não depois deles terem feito aquilo comigo.
— Bella, você não tem provas que foram eles.
— Quem mais teria feito, Rosalie? — indaguei. — Sempre pareceu obvio que os Cullen armaram aquilo tudo para mim.
— Bella, sei que tudo aquilo foi muito complicado para você, entendo suas magoas. Mas Edward te viu, ele falou com você. Em New York, nessa cidade gigantesca e lotada. Ele pode cruzar com Renesmee também, não se engane, será fácil que ambos percebam as semelhanças.
— Vou embora com ela daqui — decidi. — Para qualquer lugar, talvez Seattle seja arriscado também. Passei tanto tempo com ela lá, sendo que os Cullen tem casas e tantos amigos naquela cidade. Eu acho que uma cidade no Sul, sei lá no Texas, pode ser livre do caminho deles.
— Pare Bella — Rose pediu. — Você não está enganando só a si mesma, como a Renesmee também. Chega de sustentar essa mentira, já tem quinze anos, uma hora essa situação vai fugir tanto de controle que nenhuma mentira dará jeito. Ela não pode passar o resto da vida acreditando que o pai está morto, que ele é uma pessoa que nunca existiu. Renesmee é uma garota incrível, ela vai sim ficar com raiva de você no começo, mas se você for sincera com ela agora, terá mais tempo de se resolver com sua filha.
— E se eles fizerem algo a ela? Se a tirarem de mim? Não posso viver sem Renesmee.
— Sei que odeia Edward, sei que nunca o conheci, mas também sei que ele não é um vilão. Conte a ela, então conte a ele. Você tem dividas com a pessoa que mais ama no mundo, e com a pessoa que mais amou no mundo, Renesmee e Edward, respectivamente. Não faça isso apenas para tirar o peso da sua consciência, faça por amor.
***
Rosalie ficou comigo durante a noite toda, ela tentava me convencer a contar tudo para Nessie assim que minha filha acordasse. Eu só sabia chorar, assim como querer fugir daquela cidade, para bem longe de Edward, Tanya e qualquer um que tivesse o nome Cullen.
Em algum momento daquela madrugada, me vi obrigada a começar a editar a matéria do jornal. Ainda que eu cogitasse a ideia de largar tudo de mão, não podia ser uma vaca com Sulpicia e prejudicar o jornal.
Pelo menos todo aquele choro e receios, de alguma forma estranha, aguçou meu lado jornalístico e já no comecinho da manhã a matéria se encontrava no site. Devidamente escrita, até mesmo sendo aprovada pelo meu perfeccionismo ligado ao trabalho.
— Você vai contar a ela? — Rosalie perguntou, depois de uma noite em claro nós duas estávamos um caco.
— Não.
— Bella! — Rose chamou minha atenção.
— Sei que estou sendo covarde, mas ainda não estou pronta para enfrentar essa conversa — me defendi.
— E quando vai estar pronta? Daqui a quinze, trinta anos? — Rosalie perguntou irritada. — Sabe que é minha melhor amiga, mas o que está fazendo me faz ficar com muita raiva de você. Eu mesma deveria contar isso tudo para Renesmee.
— Contar o que? — Renesmee entrou na sala, coçando os olhos, claramente ainda com sono.
Meu olhar cruzou com Rose e logo soube que ela não diria nada.
— Você estragou sua festa surpresa de aniversário! — Rosalie revirou os olhos. — É curiosa demais, Nessie.
— Aniversário? — ela perguntou confusa. — Mas meu aniversário é só em novembro, porque vocês começariam a planejá-lo com quase um ano de antecedência.
— Na verdade não é seu aniversário — falei, Rosalie era péssima com mentiras, querendo ou não eu tinha aprendido a me manter com elas. — É algo que decidi, mas queria anunciar só amanhã. Em um passeio que pretendo fazer com você no Central Park...Mas enfim, sua tia já queria te contar e agora que ouviu não tem como manter segredo.
— Vamos mamãe, estou curiosa! — ela clamou empolgada, deixando o sono de lado.
Pensei rapidamente em algo e mesmo que odiasse ter que ceder aquilo, era a única forma de fazer com que Renesmee não duvidasse da veracidade da história.
— Bom, você disse que queria trabalhar naquela confeitaria daqui do lado — comecei a falar, vendo os olhos verdes de Renesmee brilharem de excitação. — Vou te deixar fazer a entrevista de emprego, mas se for escolhida eu vou ir conversar com o chefe ou a chefa, ainda é muito nova e me preocupo muito com você.
— Ah mamãe, você é a melhor! — Renesmee gritou, correndo entre os móveis da sala para me abraçar. — Obrigada, obrigada — cantarolou, enchendo meu rosto de beijos.
— Tudo bem, vou tomar um banho, a noite foi interminável. — Afaguei seu cabelo, então me afastei.
— Como foi a festa? — ela perguntou.
— Não foi a melhor — respondi, trocando um rápido olhar com Rose e seguindo para meu quarto.
Tomei banho, assim que me vesti fui ao encontro de Renesmee e da minha cunhada na cozinha. As duas já tomavam café, conversando empolgadamente sobre a possibilidade de Renesmee conseguir seu primeiro emprego.
Sorri para ela, a vendo tão animada. Seu sorriso era tão precioso para mim, eu não poderia machucá-la. Ainda que esconder a verdade fosse errado, era indolor. Algo que revelar a verdade não seria.
A campainha tocou e gritando um eu atendo, como se tivesse voltado a ter cinco anos de idade. Renesmee foi abrir a porta, mesmo distante foi possível reconhecer a voz ali.
— Olá, posso falar com Isabella Swan?
Sai apressadamente da cozinha, me deparando com Tanya na porta. Ela olhava com curiosidade para Renesmee, então me viu.
— Oi Bella, acho que temos que conversar.
Era claro que ela sabia muito bem quem era Renesmee, sua expressão acusava isso. E foi ali que soube que estava determinantemente encrencada.
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