Notas iniciais
Oláá´!
Esse capítulo veio bem rapidinho pq ele já estava pronto, mas eu geralmente sou bem lerda pra postar e.e
Cara eu queria muito agradecer à Jess e a Aninha A que deixaram review na história, muito obrigada! ~eu tenho leitores omg~
Espero que gostem do capitulo
Boa leitura
Beeijos!

A escadaria era feita de pedra-sabão escura e não havia nem corrimão, nem paredes para amparar uma queda daquela enorme altura. Os pés desciam mecanicamente, um a um dos degraus.

O ambiente ao redor parecia marinho. Repleto de algas, pedras, conchas e areia, exatamente como o fundo do mar deve ser, o diferencial era que não havia uma única gota de água sequer, muito menos peixes. O ar era tão rarefeito que puxá-lo gerava cansaço, era quase maciço e ela respirava com uma extrema dificuldade ali. Sentia o corpo tremendo de frio e desconforto, as mãos estavam geladas e os dedos estalavam quando os apertava em punho. O cabelo cor de abóbora estava escorrido, úmido, pingando água, os dentes batiam involuntariamente e os lábios estavam roxos. Apesar de tudo, continuou descendo a escadaria daquilo que mais lhe aparentava ser um aquário gigante.

Olhava para trás de vez em quando, mas apenas por força do hábito, daquela vez ela não era a presa de ninguém invisível. Estava sozinha, mas de fato não estava, pelo menos ali, sempre havia alguém consigo. Não precisava chamá-lo, era possível senti-lo bem ali, junto de si.

Mais alguns degraus de pedra, mais passos e depois de uma demorada descida, chegou ao final da escada. Uma pequena estufa de vidros velhos e amarelados, quase coberta por trepadeiras e musgo tinha suas portas de vidro abertas. Olhou ao redor, não havia mais ninguém ali, mas seus pés, cheios de vontade própria, continuaram caminhando após o fim da escada, indo exatamente em direção à entrada da porta da estufa.

O som agudo e repetitivo de uma máquina de escrever sendo utilizada ecoou forte, vindo bater diretamente contra seus ouvidos. Dentro da estufa não havia plantas, de nenhum tipo, mas havia pilhas e pilhas de papéis e no fundo da sala, revelando a origem do som, se encontrava um homem, de cabelos escuros e curtos, datilografando habilmente na máquina e cercado por duas enormes pilhas de cadernos de capa preta.

Ela caminhou a passos tímidos pelo interior da estufa sem plantas, apenas quando chegou ao meio do caminho e pigarreou é que o homem enfim pareceu se dar conta de sua presença ali. Era um rapaz corpulento, pálido, suava muito. Ele não interrompeu sua atividade, apenas disse, sem tirar os olhos do papel:

- Não fique parada aí feito uma idiota, venha logo até aqui.

Ela o obedeceu sem pestanejar, ao chegar mais perto do rapaz, percebeu traços levemente familiares nele, mas não disse nada a respeito.

- Que lugar é esse? – perguntou timidamente e notou que sua voz estava mais grave.

- Não importa. – o rapaz enfim levantou os olhos para ela e imediatamente ela deu um passo para trás em um susto. Ambos os olhos eram manchas vermelhas de carne mal cicatrizada, as órbitas ostentavam o vazio negro, mas mesmo sem olhos, ele parecia enxergá-la – O seu nome, diga-me o seu nome.

- L-laila Campbell – balbuciou de forma hesitante.

O rapaz esticou o pescoço para frente, como que para farejá-la e fez uma careta.

- Você não se chama Laila Campbell.

- É claro que me chamo! Este é o meu nome! – deu um passo para frente novamente, mas de certa forma sentia como se soasse estúpida.

O rapaz se ajeitou na cadeira novamente, puxou uma das atas e uma enorme caneta de pena de falcão, já velha com as plumas desgastadas e manchadas de tinta.

- Abbey, você não se chama Laila, agora vá embora e só volte quando souber quem você é.

Quem diabos é Abbey?

Os olhos do rapaz se levantaram para ela novamente, mas do vazio escuro, um líquido vermelho começou a escorrer em um fino jato. Sangue.

Ela deu um passo para trás assustada, mas escorregou em algo, caindo de costas no chão. Elevou as mãos na altura dos olhos, estavam brilhantes de sangue, só então notou que o vestido de renda branca estava todo manchado, o cabelo não pingava água, mas sangue. Era de sangue que ela estava ensopada.

Um grito histérico escapou pela sua boca, seguido de outro e de mais outro. Olhou para frente, o rapaz que estava na máquina agora se encontrava de pé. O crachá em seu peito exibia um nome gravado rudemente no metal: Bruce.

- Ninguém pode salvá-la agora, Abbey. Encontre a criança da lua. – a voz dele era um som distorcido e grave, sumindo no vazio junto com sua imagem.

- LAILA? LAILAAAAAA? – Abriu os olhos de uma única vez e encontrou os olhos acobreados do amigo, que a sacudia sem piedade. – MEU DEUS LAILA, QUE CARALHOS ACONTECEU COM VOCÊ?

O som agudo da sirene da ambulância e o grito, já tão familiar, de Vic a despertaram. Sentia os olhos doendo e o corpo amolecido. Ainda estava escuro, mas a luz avermelhada da ambulância e do poste defeituoso lhe permitia uma razoável visão limitada.

Essa devia ter sido a segunda vez que desfalecera naquela noite, a primeira diante do corpo de Bruce e a segunda após relembrar tudo enquanto tentava depor para o policial. Ficou aliviada por enfim ver um rosto familiar.

Ergueu o tronco e se agarrou a Vic em um abraço desesperado, desatando um choro quase infantil novamente. Victor não era muito acostumado com abraços e demonstrações assíduas de carinho e levou um breve instante para retribuir o abraço.

- Tinha tanto sangue, eu tive tanto medo... achei que eu fosse morrer!

- Shh, calma... está tudo bem, os policiais já disseram que podia ir embora, eles estão olhando as câmeras de vigilância agora. Vamos pra casa okay?

- Câmeras? – a voz dela saiu vacilante – Conseguiram ver algum deles?

Vic negou com a cabeça, a escuridão da loja somada a luz defeituosa do poste fez com que a câmera captasse apenas fantasmas e vozes. Ele passou o braço dela por seu ombro e lhe deu apoio para que se colocasse de pé e o acompanhasse em direção à motocicleta. Laila se segurou a ele, percebeu que o amigo usava calças de moletom e chinelas, devia estar dormindo quando o chamaram.

Olhou ao redor, a vizinhança espreitava de suas janelas o que havia acontecido na livraria, alguns mais curiosos tinham descido até ali para ver de perto o trabalho da polícia e conseguir alguma informação privilegiada, mas uma figura diferente dentro do cerco chamou sua atenção.

- Hey Vic, quem é aquele cara?

O moreno procurou com os olhos o lugar para onde ela apontava e encontrou um homem de cabelos alaranjados, como os de Laila, jovem, de óculos quadrados e braços cheios de tatuagens. Assim como Victor, usava calças de dormir, e uma regata cinza que dava uma pequena amostra da coleção das coloridas tatuagens que ostentava.

- Aquele com cara de hipster ali? É o dono da livraria.

- O dono? – a voz dela saiu confusa, julgava que o Sr. Mullins fosse um velhinho de oitenta anos, careca e com tufos de cabelo branco nas orelhas. Mas algo dentro dela parecia se remexer, precisava trocar uma palavra com aquele homem. – Eu quero falar com ele.

- Tem certeza? Você parece que vai colocar os bofes para fora a qualquer instante.

Laila não lhe deu ouvidos, se soltou de Vic e caminhou cambaleante para frente, seus pés se moviam quase sozinhos, apesar de que suas pernas pareciam feitas de gelatina.

- Senhor Mullins?

O homem alto se virou para Laila, tinha uma expressão dura e olhos claros que ali na penumbra não pode identificar a cor, a barba compartilhava da mesma cor dos cabelos, alaranjados, mas puxando para o vermelho. Por um instante Laila imaginou que ele fosse brigar com ela, ainda mais agora que tudo lhe parecia mais assustador, mas a expressão dele rapidamente se normalizou.

- Sim, sou eu, Thomas Mullins. – estendeu a mão amigavelmente para ela.

- E-eu sou Laila Campbell... – Ou seria Abbey?

Apertou a mão dele, era firme, mas morna. Ele não era tão jovem quanto aparentava à distância, apesar de que dificilmente deveria estar na casa dos trinta.

- Você é a testemunha. – Meneou languidamente a cabeça e Laila assentiu em silêncio.

- Eu sinto muito pela sua loja...

- Não aconteceu nada com a minha loja, só com o pobre coitado do Bruce, ele não merecia uma morte assim. Você viu o que aconteceu?

- Não, eu só vi alguns vultos antes de me esconder e... ouvi. – Ainda conseguia ouvir tudo se sucedendo em sua cabeça, em um loop infinito.

A mão dele pousou prestativa em seu ombro.

- Você deve estar em choque. É melhor ir para casa.

- Sim... eu estou indo, mas... – não sabia bem como organizar as palavras, mas uma porção de coisas começava a se embolar em sua mente até formar centenas de pequenos nós cegos – Um deles... um deles sabia o nome do Bruce e... disse algumas coisas... e também tem a frase... faz algum sentido para você?

Ela o bombardeou com uma porção de perguntas, mas pela expressão no rosto dele, não havia nenhuma resposta.

- Eu não faço a menor ideia de nada disso Laila, lamento. Comunicou isso à polícia? – Laila assentiu envergonhada com a cabeça – Ótimo. Mas agora você está muito estressada, é melhor ir com seu amigo para casa.

- Me desculpe.

- Não se preocupe, acho que vamos ter tempo para discutir sobre suas perguntas depois.

Laila tentou exibir um sorriso mínimo e Tom se afastou indo em direção a um policial. A garota o observou se distanciando e depois deixou os ombros caírem em exaustão. Victor buzinou já sobre a moto e então ela se arrastou até ele.

- E então? – A voz do amigo saiu abafada de dentro do capacete.

- Ele não sabe de nada.

- Acho que a polícia desconfia dele... – Os olhos dela se arregalaram e ela os voltou para Tom, aquilo fazia sentido. Quem mais conheceria Bruce a ponto de julgá-lo daquela forma? – Mas ele tem um álibi.

Os ombros de Laila caíram novamente, é claro que ele não ia ser idiota de cometer um assassinato na própria loja. Além disso, ele parecia ser um homem decente. Estava ficando maluca, era isso. Precisava dormir urgentemente, de preferência um sono de pedra, não tinha talento para ser investigadora. Tudo que necessitava agora era um sono tranquilo, sem sonho algum, sem Abbey ou Bruce, sem criança da lua, só Laila, e talvez um pouco de Key.

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- Uma testemunha! – vociferou cheio de ira enquanto seu punho batia pesado contra a mesa. Apertou os dentes e esperou que seus companheiros respondessem, mas nenhum deles disse nada. – Kieran?

O rapaz, de olhos baixos, respondeu.

- Eu não vi nada.

- Não viu. – o líder soltou o ar pelas narinas, não acreditava que tinha sido capaz de cometer um erro tão banal.

- É isso que dá ter um capanga caolho – Sua outra ajudante, Lindsay, uma jovem morena de pavio curto, disse tirando sarro.

- Não fale desse jeito Lindsay! – O líder reclamou com a outra parceira, mas internamente ele também estava se culpando. Ás vezes se esquecia de que Kieran não era completo.

- Isso não influi em nada.

Kieran tinha o tom magoado, mas ele já não se importava mais com as provocações de Lindsay. Franziu o cenho em defesa, os olhos dourados cintilaram sinceridade. O cabelo negro pendia em grossas mechas sobre a testa pálida e os lábios se juntaram para formar uma fina linha de irritação. O líder caminhou até ele e analisou sua expressão.

- Tem certeza que você não a viu, Key?

- Tenho. – Disse olhando em seus olhos, tanto com o olho bom quanto com o cego, sem pestanejar.

- Eu acredito em você Key, espero que não esteja mentindo para mim.

Afastou-se de Kieran e deixou o corpo cair em uma cadeira. Estava cansado, havia sido uma noite difícil e saber da existência de uma testemunha tornara tudo um tanto pior. Coçou a barba e lançou um olhar preocupado ao grupo, teria que agir, e em breve. Enfiou a mão por baixo da escrivaninha e abriu uma das gavetas, havia uma caixa de velas nela. Pegou uma das velas e se levantou, indo em direção ao pequeno altar que resguardava para suas vítimas. Acendeu a vela com um fósforo da caixa que levava no bolso e a grudou na pedra de mármore.

Fitou a chama tremeluzindo diante de seus olhos azuis por um longo instante e por um breve momento aquele calor abraçou sua alma de gelo, apenas por um brevíssimo momento. O calor se esvaía cada vez mais depressa e os assassinatos estavam se tornando mais necessários para acalmar seu perturbado ser.

- Minhas condolências, Bruce Stone. – disse em uma voz sibilante, apenas para aquela pequena vela.

Um silêncio cortante tomou conta do enorme galpão. Ele permaneceu fitando a vela por um longo instante, mas depois de um tempo, voltou o olhar para os companheiros.

- É uma garota – Lindsay disse limpando calmamente a lâmina da adaga ainda radiante do sangue seco do rapaz da livraria. – A testemunha, é uma garota.

O líder voltou os olhos para Lindsay.

- Eu sei que é uma garota.

- Hum – a mulher grunhiu – Bom, você queria uma aventura, pode ser que seja ela. Mande o Key vigiá-la, já que ele gosta tanto dela.

- Já disse que não vi a porra da garota! – Kieran cerrou os dentes e apertou os punhos, mas Lindsay se limitou a sorrir.

- Não precisa ficar nervosinho. – sorriu maliciosa e voltou a limpar a lâmina.

O líder parecia um pouco impaciente, mas não deixou de considerar as palavras de Lindsay, seria aquela a tão esperada aventura que ele aguardava? Não tinha como saber, pelo menos não enquanto não testasse a tal garota.

- Eu mesmo vou observar a testemunha, depois de uma semana nós decidiremos se vamos fazer alguma coisa com ela ou não. – o líder olhou de relance para Kieran, mas não houve hesitação na expressão do garoto. Ele podia estar realmente falando a verdade. – Chame Abbey aqui, preciso saber qual a ligação da frase que ela encomendou com esse porco do Bruce.

Kieran pestanejou e voltou os olhos para Lindsay.

- Ah! Sou eu que tenho que fazer tudo por aqui? – A mulher se ergueu e caminhou arrastando os pés até a porta.

O silêncio tomou de conta do ambiente por um longo minuto, até que o líder voltou a falar.

- Você sabe o significado dessa Criança da Lua, Key?

- Não, senhor.

- Ah é, esqueci que você nunca sabe de coisa alguma. – disse em tom arrogante – Sua irmã deve saber, e acho bom que ela esclareça alguma coisa. – O líder suspirou e fechou os olhos.

Kieran continuou com sua expressão de pedra, mas para o engano do líder, ele não apenas havia visto a garota, como ele também sabia o que a Criança da Lua significava.

Notas finais
Qualquer comentário é bem vindo e tal.
Espero que tenham gostado
Beeijos