Moon Child
2 Laila
Notas iniciais
Espero que gostem
Boa leitura
Beeijos
O som da porta sendo escancarada, batendo com força contra a parede e a voz de Victor gritando foram mais do que suficientes para fazer com que ela acordasse. Laila ergueu o tronco, sobressaltada, com o cabelo desgrenhado e úmido de suor grudando nas bochechas e os olhos meio abertos e meio fechados de sono.
– O que ainda está fazendo na cama? Já são oito horas Laila! – O amigo puxou as cobertas da cama e bateu palmas.
– Eu já acordei caralho! – Laila resmungou enquanto puxava as cobertas de volta e escondia as pernas.
– Estamos atrasados! Vá logo se arrumar senão não te dou carona.
Laila enrugou a testa irritada, odiava ser acordada às pressas e ainda mais quando brigavam com ela, como se a culpa do corpo precisar descansar fosse dela e como se precisasse que ele a levasse para lugar algum.
– Pois pode ir embora! Eu posso muito bem ir para a faculdade sozinha! Agora sai do meu quarto! – Em seguida atirou o travesseiro nele e depois o observou sair aos resmungos do quarto.
– Espero que se perca! – a voz grave dele veio de longe, realmente estava saindo sem ela.
Victor Connor era seu melhor (e único) amigo e dividia as contas do pequeno apartamento com ela. Normalmente era um sujeito bacana, a não ser quando precisava esperar por alguma coisa. Era muito impaciente, odiava chegar atrasado aos lugares, também odiava ser atrasado por outras pessoas. Fora isso, era sempre um grande amigo.
Tinha a pele levemente bronzeada, os cabelos de um castanho opaco que lhe tocavam os ombros em pequenas ondas, os olhos quase da mesma cor dos cabelos, apenas um pouco mais escuros e translúcidos. Era alto, magro, mas não chegava a ser esquelético, o trabalho na mecânica lhe dera alguns músculos, mas nada de extraordinário. Saiu de casa depois de uma briga com os pais e desde então mora com Laila, ele nunca especificou o motivo da briga.
Laila deixou o corpo cair novamente na cama e respirou fundo tentando se lembrar do que sonhara durante a noite. Era um exercício que às vezes era difícil, nem sempre a memória cooperava, mas lembrar dos sonhos era algo importante. Sentia o local em que as pedras tinham castigado suas costelas doerem, levantou a blusa e pode ver ali as marcas irregulares e arroxeadas por seu tronco, e ela nem tinha um marido para por culpa na violência doméstica.
Seus sonhos eram assim vívidos desde sempre, aventuras incríveis que só eram capazes de acontecer em sua mente. Já quase havia sido morta uma única vez, mas Key a salvara bem a tempo. Essa era a função dele, não deixá-la morrer. Key era o guardião de seus sonhos, por mais defeituoso que ele fosse, era bom em cumprir seu papel. Sem ele, não sabia o que podia acontecer, não sabia o que uma morte dentro de sua cabeça podia significar, mas considerando as marcas que apareciam em seu corpo a cada noite, não podia esperar uma coisa muito boa.
Algumas vezes os sonhos traziam algum recado importante de sua consciência, então passou a anotá-los para que pudesse analisá-los com mais calma posteriormente. Enfiou a mão por baixo da cama e encontrou o grosso caderno, o mantinha próximo à cama para que não perdesse muito da lembrança do sonho. Pegou a caneta que já ficava enfiada no caderno e abriu em uma página em branco. As frases saiam meio embaralhadas, por isso colocava apenas palavras chaves.
Floresta, perseguição, queda, pedras, escuro, Key, tempestade de areia e...
O que estava vindo atrás dela? Não sabia. Só lembrava que era uma energia ruim, talvez de dentro de si mesma, não tinha como saber ao certo. Key parecia apreensivo demais para ser algo pequeno. Deixou as reticências ali, não conseguia se lembrar de mais nada. Fechou o caderno e o jogou para debaixo da cama outra vez. Apertou os olhos e tentou se lembrar se havia visto alguma coisa, mas não, não tinha visto. O clarão daquela lua ofuscara sua mente logo antes da queda.
Só então Laila se lembrou de que realmente estava atrasada. Saltou da cama resmungando e se aprontou rapidinho. Engoliu o café quente o mais depressa que conseguiu, ganhando uma língua queimada de presente, calçou as botas, pegou a mochila e saiu correndo pela rua. Correr não era sua atividade favorita e costumava achar que parecia um saco de batatas saltitante quando corria com a pesada mochila nas costas, mas precisava ser rápida para não perder o ônibus das 10 horas.
Não era muito rápida e sua condição física era muito melhor em seus sonhos, mas tudo vale quando se está com pressa, até mesmo pegar o ônibus errado por acidente e ir parar a três quadras da faculdade.
A cidade de Reno era uma cidade muito mediana, queria ser Las Vegas, mas não tinha cacife para ser. Com o ridículo slogan de “A maior pequena cidade do mundo” a cidade do estado de Nevada não era nada demais, mas era até bonita, nas férias muitas pessoas apareciam nos cassinos e lotavam as ruas da principal avenida da cidade. Laila e Vic gostavam de Reno. Rodeada por montanhas e de clima temperado, a cidade era ótima de se viver, ao menos até então.
– Mas que porra! – Gritou para si mesma enquanto descia do ônibus errado.
Não era exatamente o maior símbolo de sorte do planeta, e por isso já estava um pouco acostumada com esse tipo de coisa, mas não podia deixar de se irritar com esses equívocos do destino que sempre interferiam em sua rotina. Apesar de que o destino não comete equívocos.
Depois de correr uma quadra e meia, já não tinha mais forças para correr àquela altura, o sol ardia quente em sua cabeça e a face pálida queimava com o calor fazendo-a corar até ficar cor de rosa, a mochila pesava nas costas e só podia resmungar e chutar os pés até chegar à faculdade.
Durante o percurso, uma pequena livraria lhe chamou a atenção. A fachada era verde com uma porta de vidro e vitrines embaçadas por uma fina camada de poeira, ao parar na frente, Laila percebeu que ela ainda estava em funcionamento, havia alguém debruçado sobre o balcão. Na fachada, o nome “Livros Mullins” estava com a pintura descascada e um pouco desbotada. A loja inteira se perdia por meio dos enormes prédios de apartamentos daquele bairro, prédios velhos de tijolos vermelhos e varandas de metal. A rua era silenciosa e as cortinas de todas as casas estavam fechadas, apesar de já ser horário comercial e ser um dia particularmente quente.
Laila adorava velharias, casas, móveis, pessoas, mas livros consumidos pelo tempo com páginas amareladas e que perturbavam sua rinite eram de longe suas velharias favoritas. Aquele lugar parecia chamá-la para dentro “Venha Laila, venha. Olha, aqui é climatizado está bem mais fresco do que esta rua imunda e os livros são muito melhores do que sua aula chata” parecia dizer. Olhou no relógio, já estava atrasada há 45 minutos. O suor escorria gelado pelo canto do rosto até chegar a curva do pescoço, mas não podia ficar ali. Olhou para a fachada mais uma vez e prometeu a si mesma que voltaria no fim do dia.
Continuou seu caminho com um pouco de relutância, sem tirar da cabeça os livros curiosos que poderia estar escondidos na loja, mas acabou conseguindo chegar à aula. Era uma aula teórica e ela se esquivou pelos bancos do auditório até chagar ao seu lugar de sempre, no fundo, longe dos olhos dos outros, num canto invisível. Fazia faculdade de Jornalismo, gostava daquele curso, se sentia à vontade com ele, com os textos, com as notícias. Elas conversavam com Laila e Laila conversava com elas, como se as histórias reais mostrassem que podem ser tão fascinantes quanto a ficção. Gostava das palavras e do modo como elas tinham vida no papel do jornal, tinham cheiro, cor e forma próprias. Incitavam a sua curiosidade. Mas caso fosse alguma aula em que precisasse falar e aparecer na frente de alguma coisa, aí a coisa era diferente. Seu cérebro parecia diminuir o ritmo e suas ideias se embolavam em sua cabeça. Achava que parecia idiota quando abria a boca para falar. Gaguejava, dizia apenas um terço do que havia em sua mente e conseguia soar como uma verdadeira pateta. As ideias parecem muito mais belas e inteligentes quando eram grafadas em um papel.
No fundo, ela só estava em busca de uma aventura boa o suficiente para que pudesse escrever um livro, a faculdade estava ali para lhe fornecer as ferramentas necessárias para que estivesse pronta para quando essa aventura chegasse.
Ela sonha com esse dia. Sonha em escrever uma aventura tão boa que possa sair em uma notícia no The New York Times, que possa arrastar multidões, que possa mudar o mundo. Já tem vinte e três anos, mas ainda a espera com a mesma paixão e vigor de quando era apenas uma criança. Anseia por aquela aventura mais do que qualquer outra coisa em sua vida, então ela pacientemente espera.
Diferente de Victor, Laila não via problema algum em aguardar pelas coisas, até achava que esperas longas antecediam coisas boas. Era lenta e não via mal algum naquilo, gostava de ter seu próprio ritmo. Sua lentidão permitia que pensasse mais nas coisas do que as demais pessoas, que notasse mais detalhes e fizesse a coisa certa pelo menos em boa parte das vezes. Não dá pra acertar o tempo todo, ainda mais com o azar que Laila tem, então um pouco de cautela nunca lhe fizera mal. As coisas desandam por si próprias (o ônibus errado que ela pegou está aí para confirmar), mas ela ao menos tenta dar um rumo àquela bagunça.
– Onde esteve? Aposto que caiu no sono outra vez! – Kimberly disse baixo e com o canto da boca, Laila se limitou a fazer uma careta.
Kim era sua colega mais próxima na turma, era morena, tinhas grandes olhos amendoados que se arregalavam quando ia contar uma história e gostava de Laila sem nenhum motivo aparente.
– Não estava dormindo, só me atrasei. – resmungou.
Quando deu o intervalo da aula, Kim seguiu para um bloco afastado em busca do namorado e Laila ficou sozinha outra vez. Kim gostava dela, mas isso não as tornava “best friends forever”. Laila não achava ruim, na verdade até gostava, enfim ela poderia sossegar um pouco, se sentar no chão, em um canto qualquer embaixo das rampas da enorme biblioteca da universidade e fazer uma das coisas que mais gostava.
Pegou o jornal do dia e uma maçã que tinha jogado na bolsa no dia anterior, estava meio murcha, mas como diz aquele sábio ditado, “o que não mata, engorda”. Passou os olhos pela manchete principal da capa enquanto abocanhava faminta aquela maçã com sumo ainda doce e suculento.
“GANGUE DE ASSASSINOS ATERRORIZA A CIDADE”
Não se deu o trabalho de ler, antes de ler as notícias ruins, gostava de ver as notícias boas. Nas últimas páginas do jornal, estavam as estreias do cinema, as sugestões de livros, as entrevistas com atrizes cheias de botox, os quadrinhos e é claro, as tão maravilhosas cruzadinhas. Laila sorriu sozinha e sacou rapidamente um lápis da bolsa. Era mesmo uma droga de vida, o clímax do seu dia era ficar sentada embaixo de uma rampa, comendo uma maçã murcha e rindo pro nada enquanto preenchia uma cruzadinha.
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Bruce olhava apreensivo para o jornal sobre o balcão, gotículas de suor salpicavam sua testa e suas sobrancelhas se uniam no meio desta para formar uma profunda ruga de preocupação.
– Uma gangue de assassinos “poéticos”? Huh, bando de sádicos filhos da puta, isso sim. – Jogou o jornal no lixo e olhou para o lado de fora da vitrine. A rua estava vazia, a luz do poste da frente estava quebrada, piscava incessantemente até apagar e acender novamente, ficava alguns minutos acesa e depois recomeçava a piscar. Eram nove da noite e faltava apenas mais uma hora para que pudesse fechar a loja e voltar para casa.
Bruce não era muito fã de livros, nem sabia ler direito na verdade, mas precisava de emprego e o salário na livraria era razoável para um sem rumo como ele, mas mesmo que falasse palavras esnobes, estava amedrontado. A gangue até agora havia feito três vítimas, o dono da biblioteca municipal, o balconista de uma banca de jornal no centro da cidade e um garoto de quinze anos que entregava jornais esquerdistas de graça.
Era óbvio que os caras gostavam de livros, revistas e jornais, e trabalhar em uma livraria o deixava suando em bicas.
– Sádicos – resmungou novamente. – A mim é que vocês não pegam, seus chupa pau.
Bruce era um homem corpulento, de cabelos negros e espessos, trabalhava na livraria há três anos e meio, desde que largara o ensino médio um pouco antes de reprovar outra vez. O Sr. Oliver Mullins o acolheu em sua livraria de bom grado, a princípio até tentou incentivá-lo a leitura, mas sem muito sucesso. Logo depois o Sr. Mullins adoeceu e Tom, seu único filho, assumiu o controle da loja. Bruce se sentia mais a vontade com Tom, já que ele era quase da sua idade e nunca o empurrava para ler livro algum, pelo contrário, o cara era gente boa, até convidava para umas cervejas de vez em quando.
Mas naquela noite, Bruce estava apreensivo demais, queria ir para casa e ficar longe da vista de qualquer bandido idiota. Resolveu sair mais cedo da loja, se sentiu um covarde por causa disso, mas preferia ser um covarde vivo a ser um corajoso morto com o corpo mutilado. Enquanto fechava as janelas, Bruce se contorceu imaginando-se morrendo daquele jeito.
Ele conhecia o dono da biblioteca que fora assassinado assim, era um velho engraçado que cuidava da biblioteca há quase trinta anos. Vivia tentando empurrar algum livro poeirento para o dono da livraria que Bruce trabalhava, já que o Sr. Mullins adorava essas velharias, ainda mais se tivesse uma grossa camada de poeira por cima, mas agora o tal velho estava morto, com uma frase qualquer gravada à lâmina no peito. Será que o velho Sr. Mullins estava sabendo disso? Era provável que sim.
Estava fechando a terceira janela, quando uma mulher ruiva entrou timidamente na livraria, os cabelos faziam delicados cachos que tocavam nos ombros e carregava uma mochila enorme nas costas.
– Desculpa moça, estamos fechando.
– Oh. – ela pareceu muito decepcionada – Mas eu demorei tanto pra conseguir chegar aqui, posso ficar só um pouco?
Bruce voltou os olhos para a moça novamente, ainda era jovem e agradável aos olhos, se tivesse vinte anos era muito. Os cabelos eram na cor de abóbora e o rosto tinha muitas sardas, era magra, pequena e realmente parecia ter andado muito pra chegar ali.
– Olha, se quiser, pode olhar os livros enquanto eu termino de fechar a loja, mas não acho bom que demore muito, preciso ir embora e, além disso, é perigoso ficar andando por aí sozinha.
A garota assentiu com a cabeça e começou a caminhar por entre as estantes, olhando admirada para os livros.
– Você é o dono daqui? – disse do interior da loja.
– Não, só sou empregado. O Sr. Mullins trabalha no turno da manhã.
– Ah...
– Já escolheu um livro? – Bruce estava um tanto impaciente, fechou as persianas de forma brusca e Laila não demorou a notar isso.
– São tantos... Preciso ver com mais calma. Vocês abrem aos sábados?
– Sim, até as três da tarde. – Bruce trancou a última janela e fez um sinal para que a moça agilizasse. – Desculpe, não posso mais ficar aberto.
– Tudo bem, eu volto amanhã. – Laila tinha os olhos em um livro velho de simbologia, com a capa arrancada e as folhas mal presas por um barbante amarelado, mas logo jogou a mochila nas costas. Ia em direção a ele, mas a forma com que jogou a mochila derrubou um livro no chão.
De repente, as luzes piscaram e então se apagaram com um enorme estalido, os climatizadores pararam de funcionar e a luz do poste também se apagou. A porta foi escancarada com agressividade e três pessoas entraram rapidamente, batendo a porta logo em seguida. Um deles trocou uma palavra com o outro e logo Bruce foi encurralado.
Laila, assim que a porta foi fechada com fúria, se abaixou o mais rápido que conseguiu e se esquivou para detrás de uma das estantes, tentando não fazer nenhum barulho e então pode ouvir nitidamente tudo que se sucedeu.
– O que vocês querem? Dinheiro? – a voz de Bruce era extremamente amedrontada a ponto de sair esganiçada e trêmula. Ele abriu a caixa registradora, mas o mais alto dos três fechou a caixa como se aquilo o insultasse. – Não me matem, por favor. – suplicou.
Bruce choramingou e sentiu o líquido quente lhe escorrer por entre as pernas, ele sabia que não tinha como escapar. Olhou de relance por entre as estantes, não viu sinal da garota ruiva. Estava rezando para que ela tivesse chamado a polícia.
Um dos homens o puxou com força de detrás do balcão e os outros dois o imobilizaram, mantendo enormes pistolas coladas à sua cabeça. O que o puxou, sacou uma enorme faca da bainha e levou ao seu pescoço.
– Bruce Stone, sua vida acaba agora, você sabe o motivo?
– SOCORRO, SOCORRO ALGU... – o som de um forte estalo calou a boca de Bruce, um tapa.
– Estou tentando fazer isso de forma civilizada, então se comporte. – a voz do homem era cortante e rouca como o pior de seus pesadelos.
– Por favor. – choramingou outra vez.
– Você está morrendo por ser infiel Bruce, infiel a este estabelecimento, infiel ao conhecimento e a arte, infiel à sua mente. Você é um merda, Bruce.
– Por fav... – depois disso as palavras se perderam, dançaram e escorreram junto com o fluido avermelhado que escapava de seu copo. Bruce caiu sem vida no chão
– Limpem o sangue e gravem a frase no peito dele, cuidado com as digitais. Já olharam se tinha mais alguém aqui na livraria?
Laila tremia atrás da estante, sentindo o pânico imobilizá-la e impossibilitá-la de fazer algo corajoso. A voz do assassino era aço frio e estava tão próxima, tinha medo de se mover e acabar sendo morta também.
– Ele já estava fechando a loja, não tem ninguém, está tudo apagado lá atrás. – um deles respondeu.
– Vá olhar.
Laila sentia que até sua respiração estava alta demais, tudo parecia denunciá-la. Sentia as lágrimas descendo frias e molhando as bochechas, queria pegar o telefone, mas o medo de se mexer a impedia de fazer qualquer coisa. Estava perdida. Ia morrer sem ter publicado seu livro, sem ter ouvido todas as bandas que gostaria de ouvir, sem ter lido todos os livros que gostaria de ler, quem sabem publicassem uma notinha pequeninha em homenagem ao seu óbito no The New York Times. Argh, a quem queria enganar? Se seu óbito saísse numa linha com letras de bula de remédio no pior jornal da cidade já seria algo extraordinário para alguém como ela. Quase ninguém iria ao seu velório, sua mãe, talvez Kim, Vic com certeza, mas talvez ele ainda estivesse zangado por ela tê-lo feito se atrasar, não, era melhor não ter certeza. Quem sabe o Sr. Farrell não cobre o aluguel de Vic este mês, em sentimento à sua morte. A quem queria enganar? Sua morte não significaria absolutamente nada, simplesmente por que não havia nada em sua vida que fosse marcante o suficiente para significar.
Os passos do homem eram suaves e vazios, o solado de borracha de suas botas amaciava a maior parte de qualquer impacto com o assoalho de madeira, mas ainda assim soavam cada vez mais próximos. Vindo até ela passo por passo, até que pararam. Laila prendeu a respiração e apertou os olhos, esperando pelo golpe do assassino, ou um puxão de cabelo, um sacolejo ou um safanão.
Mas o golpe não veio. Nem o puxão de cabelo, nem o safanão.
Os passos se afastaram tão suaves quanto se aproximaram e Laila abriu os olhos, incrédula.
O som de carne sendo fatiada enchia o ambiente, junto com o aroma férreo de sangue fresco e urina. Pobre Bruce, ele sentia que sua vez havia chegado e na hora final, só queria um pouco de compaixão. Ao menos sua morte havia sido rápida e limpa.
Alguns longos minutos depois, eles acabaram o que quer que estavam fazendo e foram embora fechando a porta com delicadeza, sem trocar mais nenhuma palavra entre si. Quando ouviu o som de carro acelerando, Laila enfim se deixou chorar. Chorava alto, e quase achou que os bandidos iam voltar para matá-la e calar sua boca. Tentou se levantar, mas as pernas pareciam pedras, tombou para o lado e enfiou a mão na mochila para pegar o celular, ligando para a polícia em seguida. As palavras quase não saíam, se embaralhavam e davam um nó em sua língua, mas achou que a telefonista compreendera.
Engatinhou soluçando até onde a luz do poste na rua iluminava dentro da livraria e viu Bruce, estendido cuidadosamente sobre o balcão.
A poça de sangue havia sido limpa, mas gotas de sangue escorriam frescas pelo mármore do balcão e desciam até o chão, formando uma cortina avermelhada. Laila se levantou usando a estante como apoio e levou a mão à boca para abafar o grito de espanto, o homem tinha a camisa rasgada e a pele do peito dilacerada em diversos lugares, para dar forma às letras e palavras. Pode ver as palavras em letras de fôrma irregulares, cortadas com a lâmina, sobre o tórax de Bruce.
“Saudações à criança da lua”
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