O leiloeiro havia anunciado que graças a um pedido especial abririam as ofertas a um item específico primeiro — que talvez para alguns parecesse pouco valioso, mas que se olhado da maneira correta, mostraria estar carregado de uma magia magnifica, que nenhuma joia no mundo poderia equiparar-se.

– Sua sorte é mesmo sobrenatural... – sussurrou Lilet para Alistair, vendo que o ponteiro, dentre tantos outros objetos, seria o primeiro item a ser leiloado. Depois calculou que tinham cerca de dez minutos para compra-lo.

A primeira oferta veio de Alistair, mas logo foi coberta por outra, vinda de uma mulher de vestido azul. O preço subiu consideravelmente até uma terceira pessoa se infiltrar nas jogadas. Logo os lances tornaram-se muito altos para serem pagos por qualquer outra pessoa na sala além do Lorde. Surpreendentemente, tinham realmente gastado muito, mas como esperado, faltava pouco para que pudessem sair da sala com o ponteiro.

– Dou-lhe duas... – disse o leiloeiro, mas alguém no fundo da sala repentinamente lançou uma quantia três vezes maior do que a que Alistair tinha sugerido. Todos se viraram para ver um homem de tapa-olho sentado relaxadamente em uma das cadeiras da extremidade esquerda do salão, segurando a placa de número treze.

– Rápido! – disse Lilet, vendo que o tempo ainda corria. Alistair ofereceu o dobro, mas o homem pareceu não se preocupar, pois logo prometeu uma quantia ainda maior. Ficaram nisso por alguns minutos quando Lilet anunciou que não tinham mais tempo. “Maldição” murmurou Alistair, não tinham escolha. Abandonou as tentativas e assim que viu o ponteiro vendido, saiu da sala, seguido de Lilet.

– Bem, pelo menos não é um dos homens de Victor... – disse ele para si mesmo, embora estivesse visivelmente chateado. Alistair corria incrivelmente rápido e Lilet, segurada pelo braço, quase flutuava em meio às pessoas do Teatro.

Passaram por ruas de pedra com arcos e canais que contornavam as avenidas. As casas de Hivert eram altas e extremamente coloridas, e a cidade estava ainda mais enfeitada graças à festa da rainha. Hora ou outra também viam verdureiros e outros tipos de vendedores ambulantes parados nas calçadas, o que de alguma forma trazia à memória as ruas de Clarence. Não demoraram a chegar à praça onde combinaram se encontrar, que assim como o resto do lugar era muito ampla e cheia de vida.

Encontraram Lorde Crawford batendo os pés perto de uma fonte.

– Onde está Garrett? – perguntou Alistair assim que foi visto.

– Foi cuidar da oficina – respondeu Crawford de mau-humor – Parece que não temos tempo para usá-la. Comprei passagens de trem, então acho melhor nos apressarmos – disse depois.

Não precisaram de segundo aviso e logo se puseram a correr pela cidade em direção à estação. Lilet se esforçava ao máximo para acompanhar os colegas, embora ainda estivesse ficando para trás, o que a intrigava um pouco: sempre fora muito rápida e raramente não estava na dianteira. Entraram no trem a tempo de ver Victor e Rhea conversando com alguns membros da Rosa Escarlate, exatamente em frente à praça onde estiveram há poucos minutos.

– Para onde vamos? – perguntou Lilet, depois de sentar-se em dos bancos, ainda se recompondo da corrida.

– Só havia dois trens com saída nesse horário: um para Greenshire e outro para Clarence – respondeu Crawford – Achei melhor ficarmos com o primeiro.

Alistair pareceu não gostar da notícia, mas também não decidiu se manifestar, então Crawford continuou:

– Garrett levará a oficina para Neor, e provavelmente não terá problemas no caminho, já que praticamente todos os membros da Rosa Escarlate estão em Hívert. Não sei o que fará depois, mas acho que já foi de ajuda suficiente, então teremos que dar um jeito nas coisas por nós mesmos...

– Isso quer dizer que perdemos o relógio? – perguntou Lilet preocupada, visto que o objeto ainda estava na oficina quando saíram de lá.

– Não, não – respondeu o inventor — tive tempo de embarca-lo no trem. Entretanto, não deixaram que eu levasse Amaranth por causa do limite de peso da bagagem, que é absurdamente pequeno, diga-se de passagem – fez uma careta, mas como se lembrar de ter abandonando suas invenções o deixasse contrariado, logo mudou de assunto — Aliás, conseguiram o ponteiro?

– Alguém o comprou de nós – respondeu dessa vez Alistair – Na verdade, de um jeito bem estranho: pagou uma fortuna por ele e nós não tínhamos tempo para continuar no leilão...

– É mesmo curioso que tenham leiloado e vendido esse ponteiro tão rápido... – disse Crawford pensativo – Alguém da Guarda?

– Acredito que não – respondeu o Lorde – Pelo menos, não estava de uniforme.

– Sinto que temos mais inimigos do que calculamos... – suspirou Lilet, afundando no assento.

Alistair tentou sugerir para que tentassem atear fogo no relógio assim que descessem do trem, mas recebeu um “Não vai funcionar!” uníssono dos colegas, e achou melhor deixar a ideia para lá. Ainda tiveram tempo para combinar que de Greenshire partiriam novamente para Central, a procura de Hector — que era, provavelmente, a única pessoa capaz de ajudar no problema.

Alistair não gostava de pensar que tiveram a chance de destruir o objeto, mas deixaram o mágico escapar. Não entendia Hector Astaroth nem um pouco, para ser sincero. Mas como nunca tivesse sido bom em saber o que os outros pensavam, acabou caindo no sono e encerrando o assunto consigo mesmo em poucos minutos.

Lorde Alistair dormiu por algumas horas, antes de ser acordado por alguns barulhos mais altos vindos da cabine ao lado. Parecia-lhe que os vigias tinham encontrado algum viajante clandestino e estavam agora tentando coloca-lo para fora:

– Não tenham o trabalho de parar o trem por minha causa – dizia o suposto passageiro indesejado – Pago quando chegar ao meu destino...

– Não acha que já ouvimos essa história um milhão de vezes? – respondeu o cobrador – Não se mexa até encontrarmos uma estação para você descer.

O passageiro continuou a dizer mais algumas desculpas até que o trem finalmente parou em uma pequeníssima estação ao pé de uma serra. Ainda estavam na metade do trajeto para Greenshire, e o relevo já era o oposto do Caminho de Prata: estava bem mais frio e havia montanhas por todos os lados. Alistair olhou pela janela e viu um homem de roupas brancas descer com uma enorme bagagem, que teve de ser carregada por dois homens para fora do trem. Ia fazer um comentário, mas seus colegas pareciam pouco interessados no que estava acontecendo, já que Lilet ainda dormia e Crawford estava de braços cruzados, olhando para alguma coisa além do bagageiro, visivelmente perdido em seus próprios pensamentos.

O trem logo recomeçou a andar e o homem ficou acenando com o chapéu para os cobradores, até perdê-los de vista. Alistair acabou falando sozinho:

– Me pergunto como um passageiro clandestino conseguiu entrar nesse trem sem ser percebido, carregando uma bagagem daquelas...

Como ninguém respondesse, passou a olhar pela janela. Também não tinha a menor vontade de voltar para Greenshire. Pensou que talvez o homem de branco estivesse indo para uma cidade distante, e Alistair não hesitaria em trocar de lugar com ele.

Alistair tinha visto a pequena vila de Greenshire envelhecer e quase morrer. O clima era difícil, e a cada ano mais pessoas abandonavam o lugar. Não demorou para que se encontrasse completamente sozinho. Alguns até tinham insistido para que saísse, mas tudo que Alistair tinha e conhecia de verdade era seu castelo, e ficaria com o castelo até o fim. Permaneceu lá por longos anos antes que o novo Rei resolvesse reformar o lugar, assim como havia feito com Hivert, e outras tantas cidades de difícil acesso. Greenshire começava a ressurgir outra vez e Alistair pôde vê-la renascer das cinzas e tornar-se grande. Grande demais.

Deram-lhe um mês para abandonar o castelo, que seria destruído para a ampliação da cidade. Ninguém se colocou contra isso já que o Lorde não era o verdadeiro dono do lugar, e embora Alistair tivesse reunido uma quantia suficientemente grande de dinheiro naqueles últimos tempos, não tentou comprar o castelo de volta. Em vez disso, mudou-se para Clarence.

Tinha conseguido o dinheiro comprando e vendendo peças antigas em leilões, principalmente móveis da antiga residência. As peças eram relíquias e logo conseguiu dinheiro suficiente para, não só comprar um dos melhores castelos do país, como para se sustentar pelos próximos trezentos anos. Continuou voltando aos leilões sempre que achava que precisava de capital para alguma coisa, e como viveu bastante, até as peças que um dia comprara novas acabaram virando também antiguidades.

Embora ainda não gostasse muito do lugar, Alistair era do tipo de pessoa que esquece com facilidade, por isso não foi difícil mudar de ideia a respeito de Greenshire em apenas alguns minutos de reflexão. E como estivesse cansado de ficar tanto tempo inerte, resolveu perguntar aos cobradores se não poderia ter acesso ao vagão das malas, para que pudesse dar uma olhada no relógio. Conseguiu permissão assim que deu o nome precedido do título de lorde.

Apesar de escuro, era fácil de perceber que todas as malas que se encontravam ali eram baixas demais para esconder um relógio de pêndulo. Investigou ainda, canto por canto, imaginando que o objeto estivesse deitado, mas logo concluiu que não havia nada lá. Perguntou ao cobrador se não havia outro vagão destinado às bagagens, e recebendo uma resposta negativa, correu de volta a cabine para avisar que haviam sido roubados.

...

Victor de Constante era uma das poucas pessoas no país que tinha um automóvel para si mesmo. Estava no banco de trás, visivelmente impaciente, enquanto seu motorista fazia o que podia para leva-lo o mais rápido possível para uma filial da fábrica de relógios Chamberlain, a leste de Hivert. Fizeram uma pequena parada para embarcar Rhea, que esperava em frente a uma loja de chocolates.

– São as páginas da permissão para vasculhar o castelo de Alistair, assinados pela própria Rainha – disse ela, depois de entrar, oferecendo uma espécie de pasta, que Victor recusou.

– Cuide delas você – disse ele – Irei para Clarence assim que resolver alguns assuntos aqui. Até lá, quero que mande seus homens mais rápidos para procurar por pessoas de nomes: Alistair Delacroix, Lilet Clermont e Hazel Crawford – deu algumas descrições e depois acrescentou – Também quero um grupo a procura de Hector Astaroth, Garrett Alkane e Howell Blackwood.

Rhea pareceu estremecer ao ouvir o último nome.

– Mas... – tentou

– Não discuta – disse Victor, ríspido – É ideia daquela mulher, não pretendo interferir nisso.

– Certo – disse Rhea, sem tentar mais nada.

– A propósito – continuou Victor – Acredito que devam procurar em uma cidadezinha conhecida como Greenshire, já que um dos trens daquela tarde ia para lá. Encarrego-me de Clarence quando reportar os acontecimentos.

Rhea concordou e o carro fez mais uma parada para que ela pudesse descer.

...

Lenore saiu das ruínas da igreja arrastando as pontas de seu longo vestido branco pela grama. Olhou um pouco para o céu, que estava muito azul, e depois para as árvores verdes que agora pareciam censurá-la. Ela tinha feito o que tinha de fazer, e não se envolveria mais nisso.

Mas talvez, só talvez, ela devesse falar com De Winter.

Andou até um dos cantos mais escuros da antiga igreja onde encontrou adormecido o homem, que, em seus trajes negros, contrastava com a brancura do divã e do resto do salão. Parou para pensar uma segunda vez: acordá-lo poderia ser um erro terrível... Mas deixa-lo sem saber de toda a movimentação lá fora poderia ser ainda pior.

Lenore o encontrara inconsciente no chão daquela antiga igreja alguns anos depois da batalha contra o Duque. Não sabia o que tinha acontecido, ou quem ele era, mas tomou a decisão de ajuda-lo. Passou vários dias velando por ele até que, quando finalmente acordou, o mundo pareceu mudar.

Era uma tarde bem parecida com aquela. Lenore tinha acabado de compor uma nova música para tocar com a flauta e fora mostra-la para o homem adormecido no divã, como costumava fazer quando criava algo novo. De Winter nunca sequer se mexia, por isso Lenore não pode conter um grito quando seus olhos vermelhos subitamente se abriram.

Quando De Winter se levantou o ar ficou repentinamente pesado, Lenore podia jurar que as paredes da igreja estavam se contorcendo. Tudo a sua volta ficou escuro, mas ela só conseguia olhar, imóvel, seus faiscantes olhos vermelhos. Não saberia dizer o que teria acontecido se não o tivesse parado. Mas a música o parou.

O homem caiu mais uma vez, e apesar de todos os problemas, Lenore decidiu manter a promessa que fizera a si mesma, como uma forma de redimir-se de seu passado. Mais tarde descobriu que somente sua música era capaz de acalmá-lo, o que salvou não só a velha igreja, como as pessoas que moravam ao redor. Às vezes até conseguiam conversar por bastante tempo. Não demorou a descobrir também que o amava, logo, nunca mais deixou as ruínas.

Agora, tentava fazê-lo abrir os olhos com o som de sua flauta mais uma vez.

O homem continuava tão imóvel e pálido que qualquer um que o visse o teria julgado morto. A mulher sabia que De Winter não se importava de verdade com a Ordem, por isso não tinha certeza se era uma ideia realmente boa tentar falar com ele. Entretanto, havia acontecido algo diferente: De Winter nunca havia acordado sozinho, mas naquele dia se levantara e perguntara diretamente a ela o que fazer. Talvez por isso Lenore acreditasse que ele pudesse querer ser acordado...

Estava pensando nisso quando De Winter abriu os olhos.