Montre - A Sinfonia do Tempo
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– Você não poderia ter tido uma ideia pior, Alistair! E o que acha que faremos agora? – disse Lilet, de cara amarrada, enquanto abraçava a si mesma para se proteger do frio. Ainda estava com o vestido que comprara em Hívert, que era um lugar de clima bem mais agradável, e agora nas montanhas, ela sentia-se congelar.
– O homem não deve ter ido muito longe – respondeu Alistair, parecendo não perceber o mau humor dos colegas – Deveríamos ir para a vila ou cidade mais próxima – propôs.
– Perfeitamente! – dessa vez foi Crawford a reclamar – Então, para que lado está a vila ou a cidade mais próxima? – perguntou ele sarcasticamente. O vento era realmente cortante naquela região, e isso não era nada reconfortante para os ânimos.
– Ora, não esperem que eu pense em tudo! – disse Alistair, dando de ombros – Ninguém aqui tem um mapa?
Era óbvio que não. Lilet carregava apenas seu guarda-chuva rendado preto, já que o resto de sua bagagem se perdera durante a fuga na Cidade Central. Já Crawford não tinha nada nas mãos. Os três chegaram simultaneamente à conclusão de que aquela fora a pior ideia que já tiveram, embora a maior parte disso tenha sido culpa de Lorde Alistair.
Alistair havia chegado à cabine falando alto sobre roubos e depois, antes que alguém pudesse fazer alguma coisa, havia pulado do trem, arrastando Lilet com ele. Estavam machucados e sujos, e se não fosse pela sorte, poderiam estar mortos. A jovem ainda agradecia pelo trem estar passando por uma curva quando pularam, porque tinha certeza de que não sobreviveria se a locomotiva estivesse em velocidade normal. Crawford pulara depois, quando já estavam acelerando, e batera com a perna na parte externa dos trilhos, por isso estava particularmente irritado:
– Como você vê, estamos todos sem nada, congelando no meio dessas montanhas! – queixou-se, e sua perna direita pareceu fazer um ruído metálico quando ele se virou para tentar identificar o lugar onde haviam ido parar – Deveríamos ter esperado no trem até o próximo ponto para descer! Mas esse maldito é muito desesperado! Até agora não acredito que simplesmente se jogou do trem! Se pelo menos tivesse pulado sozinho, agradeceria por poder vê-lo o mais longe possível... – ia continuar, mas respirou fundo e depois concluiu, indicando o caminho pelas montanhas – Bem, em minha opinião, o melhor a fazer agora é seguir os trilhos até a próxima parada.
– Mas se o homem foi para o outro lado! – interrompeu Alistair, contrariado — Seguiremos os trilhos para lá então!
– E acabaremos voltando para Hívert! – foi a resposta seca de Crawford — Isso se aguentarmos andar até lá ou se não formos interceptados por alguém da Guarda. No momento, precisamos de um transporte seguro.
De onde estavam, tudo que viam eram os trilhos seguindo infinitos em duas direções, as montanhas atrás deles, e no meio, uma grande floresta de pinheiros. Deviam estar muito a frente da cidade do descampado já que o clima mudara tão drasticamente.
– Nós vamos para o outro lado – repetiu o inventor, apontando a direção que o trem tomara, pronto para encerrar o assunto.
– Se formos para esse lado perderemos o relógio, e todo esse esforço para arrumar as coisas terá sido em vão! – insistiu Alistair. Se estavam tão longe assim de onde vieram, isso também tornava improvável que o homem de branco conseguisse chegar logo à Hívert, carregando aquele relógio enorme. Talvez pudessem alcança-lo.
Teriam ficado nessa discussão por um longo período de tempo se Lilet não tivesse interrompido o curso da conversação ao exclamar alguma coisa e apontar na direção da floresta. Alistair não tinha entendido o que ela dissera, mas olhou para um pequeno caminho de terra que se abria entre as árvores e logo soube do que se tratava: era possível ouvir barulhos de cascos de cavalos batendo no chão.
– Será o homem de branco? – perguntou quase que para si mesmo, e sem esperar a reação de seus colegas, andou até uma das árvores para observar melhor. Logo notou que os outros também o seguiram. Puderam ver uma carruagem que seguia apressada a trilha em direção ao centro da floresta. Os três concordaram em silêncio que seria melhor tentar acompanhar a diligência e partiram rápidos e sorrateiros atrás dela, embora Lilet ficasse sempre para trás.
“Como podem ser tão rápidos?” pensou ela, intrigada. “Bem, Alistair até entendo que tenha algo de sobrenatural, mas Crawford se equipara a ele na corrida, isso é tão estranho...”. Remexia esses pensamentos quando percebeu que tinha perdido os rapazes de vista, embora ainda ouvisse a carruagem. Decidiu que correria o suficiente para ultrapassá-los, aquilo já estava ficando ridículo.
Não demorou a que os encontrasse novamente, agora quase emparelhados com a carruagem, que havia diminuído o ritmo. De onde Lilet estava, conseguia ouvir a conversa que estavam tendo aos berros:
– Quem são vocês?! – dizia uma voz masculina de dentro da diligência.
– Somos apenas viajantes perdidos precisando de carona! – foi a resposta de Alistair, que se apressava para tentar se aproximar da janela.
– Ninguém pede carona desse jeito! E nem me parece que precisam disso, correndo nessa velocidade chegariam a seu destino antes que eu conseguisse chegar ao meu! – foi a resposta alta e clara da pessoa lá dentro.
– Ora, por favor! – insistiu Alistair – Pelo menos nos dê direções!
O homem da carruagem pareceu ter cansado de toda aquela confusão, porque em poucos segundos a sege começava a parar para que os viajantes pudessem alcança-la. Lilet estava tão cansada que mal podia respirar. Alistair e Crawford também pararam um pouco atrás do veículo para esperar a pessoa descer, mas antes que pudessem enxergar todo o corpo do homem, notaram que ele usava o conhecido uniforme vermelho e preto característico dos membros da Rosa Escarlate. Alistair sentiu um nervo repuxar-se perto da sobrancelha — com certeza estavam encrencados...
...
Garrett estava abrindo todas as gavetas e revirando tudo na oficina ambulante de Crawford. Havia a estacionado em Neor há algumas horas e pareceu-lhe que tinha o direito de averiguar tudo em pagamento ao serviço que prestara. Não tinha sido difícil convencer as pessoas da pequena cidade de que a casa nada mais era que uma das partes de um circo que precisava de ajustes, e embora tivessem ficado olhando por um bom tempo, no final aceitaram tudo com bastante naturalidade.
O mecânico tinha se convencido de que ajudaria novamente seus novos colegas logo depois de terminar de investigar as outras invenções de Crawford, pois ainda estava maravilhado com a quantidade de projetos incríveis guardados naquela oficina. Encontrou um pequeno frasco com líquido vermelho ligado a uma espécie de bomba por meio de tubos finos e algumas engrenagens, e estava tentando descobrir para quê servia quando alguém bateu a porta:
– Sr. Garrett Alkane? – perguntou um rapaz de aparência preocupada, segurando um papel nas mãos e vestindo um uniforme vermelho e preto – Disseram-me que você estava no circo...
Garrett olhou bem para o jovem e percebeu do que se tratava:
– Vocês são rápidos... – disse – Esse papel é para mim?
– Sim, senhor – foi a resposta do mensageiro, estendendo-lhe a carta. Parecia não saber muito bem o que estava acontecendo – É de Victor de Constance, ele queria encontrar o senhor em Hivert, mas devido há alguns acontecimentos mudou o local do encontro para a Fábrica, amanhã de manhã. Os detalhes estão no papel.
– Tudo bem, então, pode ir... – respondeu o mecânico, mas depois acrescentou – Ah, mas vejo que precisará de uma resposta para devolver-lhe, espere um minuto – e tirou do bolso um pedaço de papel amassado com algumas contas matemáticas no verso, e escreveu um bilhete com uma das canetas de pena que encontrou na oficina — Tome isso, mas não entregue diretamente para Victor. Dê a mulher, que saberá o que fazer, compreendeu?
– Sim, senhor – disse o rapaz, e rapidamente saiu de vista, aliviado por ter finalmente cumprido sua missão.
– Ora, esses infelizes! – resmungou Garrett para si mesmo – Ainda acham que eu os ajudo por boa vontade! Ah, mas tenho certeza que esse bilhete causará muita confusão para aqueles tolos! – e riu-se. A Rosa Escarlate aparecia algumas vezes para lhe pedir favores, já que ele um dia trabalhara na Fábrica de Relógios de Chamberlain criando novos projetos (o que fazia seu nome, hora ou outra, aparecer nos modelos de relógios até os dias atuais). Acabaria com isso de uma vez por todas com aquele bilhete.
O ataque ao Duque só fora possível graças a essa ligação de Garrett com a Fábrica. Chamberlain nunca desconfiara de que seu melhor inventor fazia parte da Ordem, pois, ao contrário dos outros séculos, Garrett era o único capaz de envelhecer. Ainda assim, como tinha certos poderes regenerativos, conseguia rejuvenescer a aparência quando precisasse, e até tinha passado alguns anos tomando esses cuidados, mas depois de descobrir seus talentos para a mecânica terminou descuidando completamente de sua imagem. Por fim, isso acabou tornando-se uma artimanha para convencer as pessoas de que ele era alguém comum, e assim conseguir acesso a grande parte das informações sobre o próprio Chamberlain.
Lembrava-se dessas coisas quando lhe passou pela cabeça que já deveria ser hora de embarcar no trem, pois logo que Victor percebesse sua falta viria correndo clamando por sua cabeça. Separou em um canto as coisas que levaria, (entre elas estava Amaranth a invenção favorita de Crawford), enfiou alguns outros itens que encontrou dentro de sua mochila e preparou-se para sair. A noite já corria escura, mas havia algumas pessoas aqui e ali entrando em restaurantes ou observando a lua.
Estava indo em direção à estação quando notou uma aglomeração de transeuntes nas ruas e decidiu chegar mais perto para ver melhor. Era um show de mágica. Aproximou-se com dificuldade do espetáculo, e percebeu então um rosto conhecido. Garrett podia não salvar muito espaço em sua memória para a maior parte das pessoas que conhecia, mas não podia se esquecer daquele mágico em especial:
– Hector Astartoth, não? – disse ele do meio da multidão. O jovem pareceu ouvir, pois logo encerrou o show e foi em direção de onde ouvira o som.
– Não saia por aí dizendo meu nome desse jeito! – disse ele para ninguém em específico, esperando que a pessoa se mostrasse.
– Para que servem os nomes, então, se não para serem usados? – foi a resposta que o fez encontrar Garrett.
– Ah, você é o homem tagarela que ajudamos no descampado! – disse com naturalidade, quando conseguiu chegar perto o suficiente para ser ouvido sem gritar – Como era mesmo o nome? Garrick?
– Sou Garrett — respondeu o outro, sem se importar com a ofensa – Mas é curioso que tenha me visto na oficina sem que eu o visse, não acha? Só conheço-o por fotos, muito antigas, aliás... O que faz aqui?
Hector encarou-o, surpreendentemente, com uma expressão bastante séria. Seu ar zombeteiro dissipou-se como mágica:
– Acho que o conheço também, Sr. Garrett Alkane, chefe da Fábrica Principal de Chamberlain. O que quer comigo? Não deveria estar atrás daquele relógio ou das pessoas que estavam com ele, para ajudar a Guarda ou alguma coisa do tipo?
Garrett deu de ombros:
– Sinto muito rapaz, mas você não vai me atrapalhar com essa conversa – colocou o que carregava no chão, já que parecia que ia precisar de mais tempo do que tinha calculado – E também não vai fugir de novo.
Hector pareceu surpreso:
– Fugir? — disse o mágico, visivelmente consternado – Acha mesmo que fugi?
– Você desapareceu quando tinham perguntas para fazer. Para mim isso parece fuga... –replicou Garrett, que não esperava esse tipo de resposta. Sabia que Astaroth não era um exemplo de confiabilidade, mas estava curioso para ouvi-lo. Além disso, apesar de tudo, o mágico ainda era a única pessoa capaz de oferecer alguma ajuda naquele momento.
– Eu caí quando você entrou, ora essa! – resmungou Hector, um tanto irritado – E vocês nem vieram me procurar! Sabe o trabalho que tive para encontrar o caminho de volta?!
Garrett piscou algumas vezes para por os pensamentos em ordem de novo. Seria possível que o grande mago tivesse simplesmente caído da oficina?
Hector continuava a praguejar de maneira quase infantil:
– Espero que tenham tido muitos problemas sem mim! – depois lhe mostrou um rasgo enorme na manga de seu casaco, que tinha sido esfolado durante a queda. E o jovem continuou a reclamar antes que Garrett pudesse interferir:
– Algum maluco não fechou a porta direito, e como aquela casa estranha chacoalhava feito um navio em tempestade, acabei escorregando para fora no momento em que foi ligada... Ainda fiquei com esses papéis, umas peças estranhas e esse isqueiro, que caíram depois e que achei no meio da grama... – e tirou do bolso do casco azul escuro os itens de que falava.
Garrett lembrava-se de ter visto aqueles objetos caírem, e convenceu-se de que a história era provavelmente verdadeira. Quando concluiu isso, não pode deixar de rir:
– Não deve ter sido muito divertido, mesmo para um mago! – ele gargalhava – Mas você tem que concordar que ainda está devendo muito para o mundo, Hector Astaroth! Cair de uma oficina em movimento não paga nem uma pequena fração dos seus pecados, rapaz!
– Sei disso – respondeu o mago enquanto guardava seus pertences, emburrado. Depois suspirou e disse – Bem, mas houve uma vantagem nessa situação toda. Se não tivesse caído nunca teria encontrado isso — mostrou, então, um medalhão que tinha no pescoço. Garrett pareceu reconhecê-lo, mas Hector continuou, impedindo que o mecânico começasse a falar:
– Estava sendo oferecido por um vendedor ambulante assim que cheguei. Nunca imaginei que isso pudesse estar em um lugar como esse, mas deve ter sido a melhor coisa que nos aconteceu desde o começo dessa história! – sorriu ele – Estive procurando por esse medalhão há mais tempo do que posso contar! Todos aqueles furtos vãos, e o objeto estava sendo vendido ao lado da Cidade Central, é difícil de acreditar...
Era um medalhão de metal prateado com desenhos gravados nas voltas. Reluziu nas mãos do mágico quando as luzes da pequena cidade o acertaram.
– Está dizendo que esse é o verdadeiro Medalhão das Sete Luas?! – Garret estava boquiaberto, ia falar mais alguma coisa quando foi interrompido outra vez:
– É só o medalhão do Duque – respondeu Hector, fazendo uma careta – Não precisava dar um nome desses...
– Mas isso é a reserva dos podres de Chamberlain! É de verdade?! — Garret estava impressionado e bastante empolgado — Achava que era apenas uma história, nunca sequer o tinha visto! Se for real, deve ter um enorme poder! – Se não fosse pelas intermináveis interrupções do mágico, com certeza desataria a falar tudo que sabia a respeito do medalhão.
– Tem sim – disse Hector confiante – E acho que é poder suficiente para dar cabo daquele relógio de uma vez por todas. Só queria ver a cara do Duque se um dia soubesse que foi derrotado por seu próprio medalhão idiota! – riu ele.
Garrett poderia abraçar o mágico, mas achou prudente saírem dali o mais rápido possível. Tinha visto seus nomes no papel que recebera há pouco tempo do mensageiro da Guarda, o que significava que Victor estava mais próximo de alcança-los do que nunca.
– Bem, estou indo para Saint-Claude, uma cidade mais ao centro do país, próxima a Greenshire. Soube de um passarinho que coisas interessantes acontecerão por lá – disse Garrett, com um grande sorriso, mostrando o bilhete de Victor – Não acha que é um bom lugar para exibir seu novo medalhão?
...
O céu estava muito azul quando Victor finalmente saiu da Fábrica, tinha virado a noite lá a procura de certa peça que há muito tempo havia guardado para aquela ocasião. Ele olhou um pouco para nuvens e suspirou triunfante, parecia que finalmente tudo estava dando certo: havia há pouco recebido uma mensagem de que um dos membros da Rosa Escarlate havia conseguido o relógio e se dirigia para Saint-Claude, uma pequena cidade em meio às montanhas. Victor também achava que muito provavelmente encontraria lá aquele grupo insuportável que estivera fugindo de seus homens e poderia logo dar um fim neles assim que os visse. Tudo estava praticamente pronto.
Calculava que logo que Garrett chegasse, ele poderia partir para Saint-Claude e terminar o que há muito havia começado, dando nova vida ao poderoso Chamberlain e garantindo um ótimo lugar no espetáculo que se iniciaria com sua chegada. Imaginava como o Duque ficaria contente ao saber que, além de trazê-lo de volta, teria se livrado de pelo menos mais um membro da Ordem! Seus bigodes se remexeram em um canto indicando um leve sorriso — o que era bastante raro naquela figura carrancuda.
Embora não tivesse mais de refazer a viajem para Clarence, o que tornava aqueles mandados de busca do castelo completamente inúteis, ainda havia mais uma coisa que impedia sua alegria de ser completa. Lady Catherine havia colocado guardas atrás de Howell, mesmo depois de terem recebido ordens explicitas para deixa-lo em paz. Isso lhe parecia um tanto errado, havia Catherine se esquecido da hierarquia das coisas? Na verdade, Victor sempre havia odiado aquela maldita mulher, que se achava melhor que todos, tentando lhe dar ordens mesmo sabendo que os dois estavam em pé de igualdade. Esse pensamento fez seu sangue ferver.
Agora, já irritado, percebia que o tempo passava e ninguém aparecia. Não demorou a constatar que ninguém viria realmente. Mas não havia tempo para vingar-se de Garrett, que o traíra tão descaradamente. Ele iria sozinho para Saint-Claude e acabaria com essa história de uma vez por todas.
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