A pessoa que descera da carruagem agora olhava atentamente o estranho grupo que estivera importunando. Ninguém se mexeu enquanto o homem tentou analisa-los: via três pessoas em roupas de festa tão esfoladas e sujas, que ele poderia facilmente jurar que tivessem saltado de um trem em movimento. De repente, pareceu reconhece-los:

– Ah! – ele disse, e todos estremeceram. Lilet segurava o guarda-chuva nas mãos, pronta para usá-lo como arma se fosse necessário – Vocês são Alistair Delacroix, Lilet Clermont e Hazel Crawford!

Estavam prestes a começar a negar, quando o homem de tapa-olho interrompeu, parecendo inesperadamente contente:

– Ainda bem que os encontrei! Sou Howell Blackwood e conheci um relojoeiro que me falou de vocês. Aliás, saibam que Hívert está uma confusão enorme por sua causa!

Essa apresentação era, definitivamente, uma das últimas coisas que esperavam ouvir. O vento estava muito frio, e as árvores farfalhavam o tempo todo, mas ninguém estava dando muita atenção a isso:

– Howell? – Alistair estava bastante confuso. Lembrava-se de ter ouvido Catherine falar do Século que abandonara os companheiros durante o ataque – o Século Primeiro? – perguntou ainda.

– E membro da Rosa Escarlate? – acrescentou Crawford com sarcasmo, mais preocupado com o uniforme do homem que com todo o resto.

– Ah, isso? – riu Howell, olhando para suas roupas – É só um disfarce. Descobriram que eu estava por aqui com muita facilidade, então resolvi tomar mais cuidado dessa vez. E sim, sou o primeiro Século, representante do “Tempo” – e fez uma reverência, que Alistair interpretou como brincadeira – Soube que estão procurando destruir o relógio, não é? Tenho algumas informações interessantes, e acho que se quiserem me acompanhar até Saint-Claude, podemos conversar.

Estava um pouco difícil seguir o ritmo do rapaz. O que sabiam sobre ele afinal? Além do que Catherine dissera, a única coisa que Alistair se lembrava era de ter visto uma pessoa idêntica a ele vencer o ponteiro no leilão. Entretanto, Howell parecia ter falado com Sr. Laynon, pois se não fosse o caso, não saberia identifica-los.

– O que Sr. Laynon disse para você? – Alistair perguntou, para ter certeza.

– Não muito – contou o outro – Quando soube que Victor havia prendido o relojoeiro achei que seria uma boa oportunidade para pregar-lhe uma peça, libertando o vendedor, embora fosse certo que nada conseguiria do pobre homem. Sr. Laynon deve estar em segurança em Neor a uma hora dessas. Disse-me apenas que alguém de nome Alistair estava com o relógio e que o vira partindo com outras duas pessoas em um trem para Central. O resto das informações consegui em Hívert, com esse mesmo disfarce... Aliás, não temos muito tempo para conversar. Se me disserem onde está o relógio posso busca-lo e partiremos imediatamente!

– Foi roubado – respondeu Crawford sucintamente, de mau-humor. Embora precisassem de carona, não achava que conversar abertamente com o desertor fosse uma boa ideia.

– A propósito – acrescentou Alistair, em sua enxurrada de perguntas – O que fez com o ponteiro que comprou no leilão?

Howell ergueu uma das sobrancelhas de um jeito bastante característico:

– Ponteiro? – perguntou, parecendo um pouco desorientado.

– Sim – confirmou Lilet – Vimos você arrematá-lo no leilão principal em Hívert, na festa da Rainha – Alistair confirmou com a cabeça, era definitivamente a mesma pessoa.

A expressão de Howell mudou-se de novo, dessa vez como se subitamente tivesse entendido do que estavam falando:

– Ah, sim, isso. Não é a primeira vez que dizem ter me visto por aí em lugares que não estive.

O primeiro Século então explicou que seu irmão gêmeo, Oliver, estava andando por aí usando seu nome e imagem. Achava estranho que o irmão estivesse fazendo algo assim, já que sempre detestara ser parecido com Howell. O que sabia até o momento era que Oliver parecia estar agindo dessa maneira para colocar pessoas contra ele, o que o deixava intrigado.

Também contou que com seu disfarce conseguira pegar algumas informações da Rosa Escarlate. Victor e alguns membros da Guarda estavam se dirigindo para essa cidade, Saint-Claude, para uma reunião especial. Embora não tivesse certeza, Howell suspeitava que o motivo da reunião fosse o relógio — e agora, sabendo que o objeto tinha sido roubado, tinha certeza de que o ladrão o levaria para o encontro.

Não sabia o que Oliver queria, mas se tinha arrematado o ponteiro, era bem possível que fosse aparecer por lá também. E, em resumo, se Oliver estivesse com Victor, isso significaria que o relógio em breve estaria completo, e não tinham tempo a perder.

– Temos que fazer alguma coisa! – concluiu ele.

Era realmente difícil saber se toda essa história era verdade, mas levando em consideração que estavam sem o relógio e sem um meio de sair da floresta, aceitar a carona tornou-se a melhor opção. Entraram, então, na carruagem, que saiu apressada rumo a cidade nas montanhas.

...

Já estava escuro e a floresta era de um silêncio aterrador. Tudo que podiam ouvir era o barulho dos cascos dos cavalos amassando as folhas no chão, e tudo que viam eram as grandes árvores que contornavam a trilha, quase negras, devido à ausência de luz.

Haviam ouvido o plano de Howell sobre o que fariam quando alcançassem Saint-Claude, e depois de algumas discussões, conseguiram chegar a um consenso. Mas, quando Alistair perguntara sobre o dia do ataque à mansão do Duque, Howell respondera algo que deixara Lilet visivelmente desgostosa:

– Catherine não contou a história verdadeira para vocês – afirmou o primeiro Século.

Infelizmente, Howell não teve tempo de explicar-se com detalhes, já que um som do lado de fora fizera com que todos se calassem. Ficaram em silêncio por alguns instantes, mas nada se seguiu e ninguém pôde distinguir barulho algum além do bater dos cascos dos cavalos. Alistair deu de ombros, achando que pudesse ter sido algum animal, mas no instante seguinte o cocheiro exclamou alguma coisa que não puderam entender e a carruagem parou bruscamente.

Lilet afastou a cortina para ver do lado de fora e Howell abriu a porta para falar com o homem:

– O que houve? – perguntou.

O cocheiro era um senhor de aparência dura e séria, e não o tinham ouvido falar até aquele momento, por isso levaram um susto quando ouviram sua voz vacilar:

– A.. Ali, senhor...- e apontou para a escuridão a frente.

Todos colocaram a cabeça para fora para ver do que se tratava, mas por pouco não distinguiriam uma figura negra se movendo pelas sombras. A presença da criatura só era revelada quando seus olhos refletiam-se vermelhos, ao darem de encontro com algum raio de luz da lua que escapava por entre as árvores. A forma andava devagar, mas estava vindo em direção à carruagem.

– Que diabos é isso?! – praguejou Crawford, surpreso.

– Vamos voltar! – exclamou Lilet em seguida. Fosse o que fosse, tinha certeza de que não deviam ficar para tentar descobrir – Vire essa carruagem!

O cocheiro ouviu e ia começar a fazer o movimento de meia volta quando Howell segurou seu braço:

– Não há tempo para isso! Ainda temos um longo caminho até Saint-Claude, e a Guarda vai estar lá a qualquer momento!

– Ficou maluco?! – exclamaram Alistair, Crawford e Lilet ao mesmo tempo.

O cocheiro estava assustado demais para tomar qualquer partido, então Howell rapidamente o empurrou para o lado e tomou as rédeas dos cavalos, fazendo a carruagem seguir em disparada, direto ao encontro da figura negra que se aproximava. As coisas chacoalharam lá dentro e todos tiveram de se segurar em algum lugar para não caírem pela porta aberta. Crawford viu uma pistola adornada em dourado escorregar para fora de um dos compartimentos internos, e achou que ninguém ia reclamar se a pegasse emprestado.

Estavam passando pela figura, quando puderam sentir que atravessaram alguma coisa como uma cortina d’água. Olharam para trás no instante seguinte, e não havia mais ninguém na estrada. Alistair podia jurar ter visto um homem de olhos vermelhos fitá-los com incredulidade, mas agora o lugar parecia vazio outra vez. O vento soprou de maneira contrária, e uma chuva fina começou a cair. Howell diminuiu a marcha dos cavalos e disse:

– Parece que acabamos de passar por De Winter – e sorriu, embora todos soubessem que estavam com problemas.

...

Nada mais de anormal havia acontecido além da súbita precipitação da chuva. De Winter, como Howell dissera, não havia os seguido. Mesmo assim a visibilidade fora drasticamente reduzida, o que resultara na diminuição da marcha da carruagem – estavam indo a quase metade da velocidade que mantiveram no começo do caminho.

– Quem é De Winter? — perguntou Alistair, quando todos já estavam instalados dentro da carruagem outra vez. Howell tirou o pé de cima do banco antes de responder:

– De Winter é um dos Séculos. Pelo que sei, vive em uma igreja abandonada com Lenore, que, embora não participe dos assuntos da Ordem, também é uma existência forjada no feitiço do Duque. De Winter nunca apareceu diretamente para lidar com qualquer coisa a respeito de Chamberlain ou da Ordem dos Séculos, por isso não sabemos avaliar bem suas habilidades – deu um suspiro cansado, e se recostou no apoio do assento – As informações que tenho vieram de Oliver, há muito tempo atrás. Parece que De Winter possui algum poder para criar ilusões, mas eu acredito que possa ser algo bem maior do que isso...

– Acha que ele queria nos impedir de chegar a Saint-Claude? – perguntou Crawford, embora não estivesse olhando para Howell e sim para o próprio tornozelo, enquanto virava o pé de um lado para o outro como que para checar se tudo estava funcionando direito.

– Não tenho certeza – respondeu o primeiro Século – Mas acho que se realmente quisesse isso, não estaríamos aqui nesse momento. De qualquer forma, De Winter está longe, e não vamos nos preocupar com ele agora.

Lilet estava pensativa. Não havia dado sua opinião sobre assunto nenhum, mas assim que percebeu que encerraram a conversa, questionou:

– Porque disse que Lady Catherine não contou a história verdadeira?

Howell provavelmente teria ficado aliviado com o imprevisto que o impedira de falar sobre Catherine na primeira vez, mas agora, vendo que tudo estava perfeitamente calmo e que não teria a sorte de escapar de novo, respirou fundo e respondeu:

– Lady Catherine não tem muita simpatia por mim, então gosta de distorcer as coisas. Eu voltei naquele dia, entrei na mansão ao lado de Lorin, mas não pude fazer nada – olhou pela janela por alguns segundos, mas forçou-se a fitar Lilet novamente — Entendo que vocês devam conhecer Catherine por muito mais tempo do que me conhecem, mas espero que acreditem quando digo que ela não é quem parece ser.

Lilet fechara a expressão, não gostava que falassem mal de sua tutora e decidira simplesmente não perguntar mais nada. Crawford, por sua vez, não estava dando muita atenção a conversa, e falou quase para si mesmo:

– Espero que não tenhamos que entrar em conflito direto com a Guarda, já que Dandelion está terrivelmente danificada... – disse, mais para o próprio pé que para as pessoas na cabine. Fez uma careta quando tentou esticar o tornozelo.

– O quê? – foi tudo que Alistair foi capaz de dizer.

Vendo que ninguém sabia do que ele estava falando, e como não gostasse de sentir que todos o estavam julgando louco, o inventor tratou de voltar para a realidade e se explicar:

– Dandelion – disse – é uma de minhas invenções. Pensei que já tivesse a apresentado a vocês... É um projeto de exoesqueleto – e ergueu a barra da calça deixando visível uma espécie de pele prateada – São como botas, mas com algumas alterações permitem que você alcance velocidades acima das humanas. Infelizmente a da perna direita se danificou quando pulei do trem. Acredito que ainda aguente mais um pouco, mas não vai durar muito tempo...

– Ah, então é por isso que você corria daquele jeito! – riu Lilet, se esquecendo de Lady Catherine por um momento. Ficara feliz em saber que só estivera perdendo nas corridas porque tanto Crawford quanto Alistair tinham algum tipo de vantagem desonesta. Lorde Alistair também pareceu bastante impressionado e logo começou a perguntar sobre o funcionamento da invenção. O cocheiro avisou que a garoa havia parado de cair e que estavam novamente se dirigindo a Saint-Claude na maior velocidade possível.