Montre - A Sinfonia do Tempo
23 Ponteiro
Ninguém disse uma palavra. Nem Catherine, que havia sido lançada para perto de um banco e se levantava com alguma dificuldade; nem Alistair, que estava atônito com o que acontecera; e nem Lilet, que só podia continuar a olhar para a ponte do jardim. A batalha que estava ocorrendo na sacada também pareceu cessar, e mesmo o céu furioso, havia agora ficado em silêncio. Ninguém sabia dizer o que tinha acontecido até que Lorde Crawford caiu de joelhos:
– Crawford? – perguntou Lilet quando o viu. Alistair estava mais próximo, por isso ofereceu-se para tentar ajuda-lo a pôr-se de pé, embora não pudesse entender o que estava se passando. Entretanto, foi forçado a parar instintivamente quando ouviu o inventor bradar:
– Fique longe! – ele tentou apoiar-se em um joelho para se levantar, mas interrompeu-se quando percebeu que Lilet também se aproximava – Para trás! – gritou outra vez, com algum esforço – Não cheguem mais perto!
– Ora , Crawford! – reclamou Alistair, confuso – O que é que você está fazendo?
Lorde Crawford não estava mais encarando os colegas, olhava fixamente para o chão quando disse:
– Olha, eu sinto muito mesmo.
A cena foi interrompida e atenção de todos foi roubada por uma risada que veio do alto da sacada. Oliver pulou de lá da mesma maneira que Catherine, mas não foi seguido nem por Howell nem por Lenore.
– Bem a tempo — disse ele, e girou uma lança igual a de Howell nas mãos. Catherine também sorriu triunfantemente quando o viu. Alistair, entretanto, não entendia o que era tudo aquilo:
– Você é Oliver Blackwood – atestou.
– Sou.
– Onde estão Howell e Lenore?
– Incapacitados. Queria evitar interferências... – respondeu ele, dando de ombros – E acho que você vai concordar comigo, não vai, Chamberlain?
Alistair automaticamente virou-se para olhar na direção para qual Oliver dirigira as palavras, ainda muito perplexo. O que viu, entretanto, não foi o Duque de Chamberlain como Oliver sugerira, mas Crawford já de pé, com seus olhos mais dourados que os de Hector, carregados em uma expressão profundamente séria. O rosto estava ligeiramente levantado em uma atitude que não era nem um pouco a de Lorde Crawford. Seu olhar varreu lentamente o perímetro do castelo e parou em Oliver, que havia lhe dirigido a palavra:
– Não tenho tempo para perder com você – sua voz soou profunda e antiga, sem nenhuma agitação.
Era evidente que era Chamberlain quem realmente estava ali. Não se tratava mais de Lorde Crawford, e nem Alistair nem Lilet sabiam o que fazer, porque simplesmente ainda não podiam acreditar no que estavam vendo. Oliver, entretanto, desmanchou seu sorriso zombeteiro quando ouviu o que o Duque disse:
– Pensei que tivesse toda a eternidade.
Chamberlain chegou a esboçar um sorriso, mas simplesmente decidiu-se a deixar Oliver falando sozinho, enquanto continuava a averiguar os rostos dos presentes no jardim. Parou em Catherine, que também sorriu abertamente, desafiando-o.
– Catherine Rosenthal? – perguntou o Duque, indiferentemente.
– Lady Catherine Rosenthal – corrigiu ela, muito bravamente para alguém no estado em que estava. Havia se esfolado quando fora lançada para longe do relógio e não possuía um único meio de defesa sequer, além da pequena barreira mágica que conjurara para defender-se do tiro de Crawford, momentos atrás.
Chamberlain, em resposta a ela, fez um movimento displicente com as mãos, imitando o lançamento de um dardo. Catherine tentou levantar o escudo quando percebeu a intenção do homem, mas não foi rápida o suficiente, e no instante seguinte caia sem sentidos no chão.
– O que pensa que está fazendo?! – esbravejou Oliver, transtornado.
– Eliminando inconveniências – o Duque respondeu calmamente. Havia reconhecido Catherine como membra da Ordem, e a tirara do caminho.
Os olhos de Oliver faiscaram, irados. O Segundo Século lançou-se em direção a Chamberlain com incrível velocidade, ao mesmo tempo que desferia um golpe com a lança que pegara de Howell. O ataque foi repelido por uma parede invisível, como a que Catherine conjurara, e a lança se quebrou quando a atingiu, espalhando seus pedaços metálicos pelo chão. Oliver ficou surpreso por alguns instantes, mas rapidamente desembainhou uma fina espada que carregava presa ao cinto, e acelerou-se para tentar um segundo golpe. Foi interrompido por Alistair, que entrou no caminho, segurando o Segundo Século pela gola da sobrecasaca, e jogando-o no chão com força o suficiente para tirar algumas pedras do lugar.
– Não vai ataca-lo agora – disse. Não podia permitir que Oliver atentasse contra a vida de Crawford.
Oliver praguejou, mas Alistair ainda o segurou no chão com o pé em seu peito. O ataque inesperado fez com que Blackwood levasse algum tempo para se recuperar, o que foi suficiente para Alistair dizer:
– Lilet, vá buscar o Garrett! — antes de ter que pular para trás, empurrado com força pelo Segundo Século:
Lilet concordou e pôs-se a correr, mas, para a surpresa de Alistair, não foi para dentro do castelo. Deu uma olhada rápida em todas as janelas visíveis e atirou em uma da ala leste, com a pistola que havia encontrado no escritório. Os vidros caíram e revelaram Garrett mexendo em alguma coisa que parecia um canhão.
– Desça! – gritou ela para o mecânico, e ele fez um aceno com a cabeça e desapareceu no corredor. Ninguém podia dizer o que o velho ia fazer, mas uma pequena chama no alto do mecanismo que ele havia construído indicava que, o que quer que fosse aquilo, estava prestes a disparar. Ouviram o mecânico dizer “Abaixem-se!”, e o canhão lançou seu projétil em direção a Crawford. Não tiveram tempo para se abaixar, como foi indicado por Garrett para que fizessem; para defender o tiro; ou se quer para pensar que o Duque podia se defender daquilo sozinho. Tudo que viram foi um objeto vermelho colidir-se com a parede invisível que protegia Chamberlain e explodir em uma fumaça escura que cobriu todo o lugar.
– Agora! – gritou Garrett lá de dentro, e Lilet entendeu do que se tratava. O mecânico havia pedido para que ela atirasse quando ele desse o sinal: “Vou estar na ala leste, acerte o Duque quando eu mandar”, dissera. Lilet assentira no momento, mas aquilo havia sido antes de saber que Chamberlain havia tomado o corpo de Crawford. Que aconteceria se ela atirasse agora?
Oliver tinha aproveitado o momento para desaparecer por completo na fumaça. Chamberlain, entretanto, simplesmente riu. Bateu um pé no chão e toda a fumaça a sua volta se dissipou instantaneamente. Se tivessem tido algum tempo para imobilizar o Duque, o tempo havia passado.
– Boa tentativa, Alkane – disse o Duque e ergueu os olhos para Garrett. O mecânico não era como Catherine: Chamberlain o havia conhecido o suficiente para trocar algumas palavras com ele antes de tentar mata-lo – Qual deles você é? — perguntou.
Garrett viu o que estava acontecendo: Chamberlain conversava com ele, mas estava mexendo os dedos na direção de Oliver, que por sua vez preparava-se para um novo tipo de ataque. O velho mecânico não pretendia matar o colega inventor, mas Oliver não compartilhava desse sentimento — acertaria Crawford assim que tivesse a chance. Garrett havia esperado que a fumaça pudesse ajudar Alistair e Lilet a neutralizar o Duque, mas as coisas pareciam ser mais difíceis do que ele calculara.
– O Décimo Segundo – respondeu Garrett, tentando ganhar tempo. Só percebeu que o feitiço não era para Oliver quando, subitamente sentiu uma dor aguda na cabeça, como se tivesse sido atravessado por uma flecha. Caiu pesadamente do chão e não pôde mais ser visto pela janela.
– Garrett! – gritou Alistair, mas não teve resposta.
Oliver havia terminado de conjurar o que queria, e sua espada agora estava coberta de chamas cor de esmeralda. Correu em direção a Chamberlain e atravessou a barreira invisível, que ainda queimou por alguns segundos antes de desaparecer. Teria acertado Crawford se Lilet não tivesse atirado na espada, que se desviou, fazendo o ataque terminar em uma das árvores do jardim. Tinha sido um incrível golpe de sorte, mas fizera com que o Duque se voltasse para ela. Ele a avaliou assim como havia feito com Oliver, Garrett e Catherine, e pela segunda vez, julgou alguém indigno de atenção.
Alistair havia se posto em guarda imaginando que Chamberlain fosse tentar alguma coisa, mas esse movimento só fez com que o Duque voltasse sua atenção para ele dessa vez. Seus olhos sobrenaturalmente dourados se abriram um pouco mais, quando por algum motivo, ele não pôde dizer com exatidão de quem se tratava:
– Quem é você? — perguntou.
– Não quero te machucar... – disse Alistair, brandindo o florete em direção a Chamberlain. Não sabia se o homem tentaria acertá-lo da mesma maneira que fizera com os outros.
– Mas eu quero! – esbravejou Oliver, lançando-se em direção ao Duque novamente, com velocidade redobrada. Ninguém seria capaz de impedir o ataque dessa vez. Passou como um raio por Chamberlain, para cair em um joelho do outro lado do jardim. O Duque se virou para ele com uma expressão de quase pena:
– Quer mesmo ficar no caminho?
Oliver não respondeu, estava respirando com dificuldade já que parecia ter sido atingido por alguma coisa durante a investida. O Segundo Século não dispunha de nenhuma habilidade específica, como os outros membros da Ordem, e se a possuía, não a tinha descoberto até agora. Só havia conseguido um título por que Lorin o julgara possuidor de uma consciência poderosa e fora do comum. Nomeou-o “A Fortuna” porque achava que Oliver tinha o potencial para ser o que quisesse, o que, para Blackwood parecia uma impiedosa ironia. Tentava, entretanto, compensar sua falta de habilidades com um pouco de inteligência. E tinha um plano naquele momento: passara algum tempo não só lançando chamas na espada, mas também escondendo um círculo mágico entre as árvores, que agora estavam em seu lado oposto. Se conseguisse fazer com que Chamberlain recuasse até pisar no círculo, conseguiria pará-lo por tempo suficiente para atravessá-lo com a espada, dando fim a sua odiosa existência. Pôs-se de pé para o ataque decisivo.
Alistair percebeu o que Oliver ia fazer, e por mais que quisesse se livrar do Duque tanto quanto ele, não podia permitir que matassem um amigo para isso. Lilet tinha a mesma convicção, mas nenhum dos dois foi capaz de acompanhar o que houve em seguida.
Oliver disparou em direção ao Duque, que desta vez estava preparado para o que vinha. Em vez de recuar, como Blackwood esperava, ele pôs um pé à frente, e no momento em que ia ser atingido pela espada, tirou-a da mão do Século. Com a outra mão, em uma fração de segundo, deu um pequeno empurrão em Oliver, que devido ao impulso ainda andou um pouco, antes de cair imóvel perto de onde Catherine jazia também desacordada.
Chamberlain jogou a espada no chão, que se apagou em seguida, e chutou-a para longe. Agora, de todos que haviam entrado no castelo só restavam Alistair e Lilet para impedir o Duque de fazer o que quisesse.
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