O que houve naquele dia não ficou registrado da maneira correta nos jornais, já que a maioria dos profissionais da área teve de correr para procurar abrigo da confusão toda. E mesmo que tivessem ficado, não seriam capazes de entender muita coisa do que realmente estava acontecendo.

A Ordem dos Séculos estava sendo desfeita.

...

Alistair e Lilet perceberam que alguma coisa estava chegando quando o céu finalmente desabou em chuva. Os ventos e os raios haviam parado quando o Duque chegara, e agora uma nova mudança no clima mostrava que alguma coisa que estivera anunciando-se, finalmente se aproximava. Lilet abriu o guarda-chuva mecanicamente. O que iriam fazer?

No mesmo instante, um disco branco surgiu entre eles e o Duque, e Hector saiu de lá trazendo um papel e o objeto, que julgavam ser o instrumento mágico, nas mãos. Mal percebeu que estava chovendo e lançou um feitiço de proteção em torno deles:

– Aqui está! Espero que tenham conseguido... — mas se interrompeu ao virar-se para quem ele julgava ser Lorde Crawford.

Encontrou os olhos dourados de Chamberlain e parou. Eram os mesmos olhos que herdara quando primeiramente lançara o feitiço – um efeito colateral para lembra-lo do que havia feito, durante toda sua vida. E agora os via como num espelho, bem à sua frente — mas no rosto errado.

– Crawford, maldito, vai mesmo deixar as coisas assim? – disse, embora soubesse que o inventor não pudesse ouvi-lo. Depois jogou o instrumento com a partitura para Lilet – Pode começar quando quiser.

Chamberlain pareceu achar alguma coisa engraçada na tentativa de Hector de falar com Lorde Crawford:

– Não estou mesmo em meus melhores dias – admitiu, olhando pela primeira vez para o corpo que assumira, e averiguando a manga rasgada da jaqueta de Crawford – Mas você também parece infinitamente mais fraco do que eu me lembrava, Astaroth. Bem, na verdade, fiquei realmente decepcionado com esse... retorno, em termos gerais.

O barulho da chuva batendo nas folhas encobriu o curto silêncio que se deu antes de Hector tirar alguma coisa do bolso e erguer:

– Olhe só o que eu achei! – o Medalhão das Sete Luas reluziu em sua mão. Hector havia o conseguido de volta com Rhea no bosque, antes de reaparecer no jardim, e embora soubesse que não havia mais nada nele para ser usado, achou que pudesse enganar Chamberlain com aquilo por alguns momentos – Acho que está na hora de você se despedir, Duran.

O Duque dessa vez pareceu sério. Tinha pouco se movido desde que chegara, mas deu alguns passos para o lado para ficar frente a frente com o mago que lhe dera sua antiga imortalidade. Chutou a espada de Oliver para cima e a pegou no ar.

– Assim está melhor – disse Hector.

Alistair não estava suportando ficar parado, mas não tinha ideia do que fazer. Não conhecia nenhum tipo de ataque mágico que pudesse parar Chamberlain sem atingir Crawford, e tampouco podia tentar acertá-lo com a espada. Se era um Século, de pouco adiantava naquele tipo de situação. Queria saber o que houve com Garrett, mas não ousava sair de perto dali. Lilet também observava, sua mão firme da na arma, pronta para usá-la se necessário. Ainda mantinha o guarda-chuva aberto, mesmo sabendo que agora havia um feitiço de proteção à sua volta.

No instante seguinte, Hector e Chamberlain começavam a trocar ataques. Feixes de luz colorida explodiram a meio caminho de onde Alistair estava, enquanto ambos os magos se confrontavam pelo jardim. Hector aparecia e desaparecia, desviando-se dos encantos à longa distância. O Duque se limitava a defender os que chegavam a ele com a ajuda da espada de Oliver, e lançava feitiços que explodiam nas árvores e paredes do castelo, quando passavam direto por Hector. Lilet achou que o mágico pudesse segurar o Duque por algum tempo, então correu para a porta do castelo sem avisar, se livrou do guarda-chuva e da arma, abriu a partitura e começou a tocar. Chamberlain, ao ouvir o som, imediatamente lançou um feixe de luz em direção à Lilet, e se Alistair não tivesse entrado na frente, defendendo o raio com o florete, ele a teria atingido em um segundo.

– Segure-o! – gritou Hector, do outro lado do jardim, mas Alistair já estava fazendo isso. Parou uma investida do Duque com sua espada, e fez o possível para manter-se na defensiva enquanto Chamberlain, com uma velocidade sobre-humana, desferia ataque atrás de ataque com o sabre de Oliver. Quando Alistair foi forçado a recuar, o Duque aproveitou o momento para tentar acertá-lo com o feitiço que usara contra Garrett, Oliver e Catherine. Hector criou uma barreira a tempo de impedir que o dardo invisível o atingisse.

Chamberlain se virou para o mágico instintivamente, e Alistair conseguiu acertar suas costas com o cabo da espada, fazendo o homem dar alguns passos à frente. A música de Lilet começava a ficar mais alta, mas o barulho da chuva estava encobrindo boa parte dos sons. Hector lançou uma rajada de fogo, que passou muito perto do Lorde e do Duque, mas que acabou só queimando duas árvores do lado esquerdo do jardim. Embaixo delas havia um círculo desenhado.

Hector indicou com a cabeça que queria o Duque naquela área e Alistair entendeu a ideia. Tentou acertar o homem outra vez com o cabo do florete, mas foi atingido por alguma coisa no braço e forçado a largar a arma. Sangue estava escorrendo por seus dedos, e percebeu que se não fosse pelo feitiço de proteção de Hector, teria perdido uma mão.

O tempo que levou para situar-se novamente foi o suficiente para que o Duque tivesse alcançado o florete, e Alistair não pôde fazer nada quando Chamberlain arremessou a espada com imensa força contra Hector — que ainda tentou defender-se com outra barreira invisível, mas que acabou sendo atingido no ombro pela arma. O impacto do lançamento fora tão grande que o florete se fincou na árvore incinerada, prendendo Hector a ela. Chamberlain ia lançar o feitiço dos dardos outra vez, mas foi interrompido por alguém que se materializou em uma repentina fumaça negra no meio do jardim.

Olhos vermelhos como rubis apareceram por entre a penumbra, e antes que a pessoa pudesse ser identificada, transformou-se em um negro cão fumacento, tão grande quanto um urso. Sua sombra rapidamente se esticou até encontrar com a sombra projetada de Chamberlain, que não foi capaz de reagir rápido o suficiente para escapar daquilo. Pela primeira vez ele pareceu estar realmente surpreso:

– Quem é você? – perguntou, ainda com desdém, de maneira semelhante a de quando questionara Alistair — embora, dessa vez, sua aparência desalinhada entregasse que aquilo parecia, para o Duque, ser um problema um pouco maior.

O cão não respondeu, mas a sombra de Chamberlain subiu até a altura de seu joelho esquerdo. Alistair pressentiu o que ia acontecer, mas não teve tempo de evitar. Em instantes a perna esquerda de Crawford havia sido partida, e Chamberlain caíra no chão com um grito de dor. O Duque não havia sido ferido por incontáveis anos.

– Sou De Winter – disse então o cão, com uma voz gutural – Mas não espero que se lembre de mim – e a sombra subiu até a altura do pescoço do homem. A melodia de Lilet havia ficado ainda mais alta, e agora podia ser ouvida por todo o castelo. O Duque respirava cada vez com mais dificuldade — uma mão tentando inutilmente impedir que a sombra o estrangulasse, e a outra se movendo rapidamente em algum tipo de conjuração. Mas Alistair não podia deixar que De Winter matasse Chamberlain agora. Correu para pegar a arma que Lilet abandonara no chão e mirou no cão gigante:

– Espere! – gritou, mas De Winter não reagiu a ele. Chamberlain havia conseguido se soltar, embora parecesse estar tendo dificuldades para se mover, em termos gerais. Mesmo assim, lançou rapidamente o feitiço dos dardos em direção a De Winter, que se desmaterializou em fumaça antes de ser atingido. A música de Lilet já estava indescritivelmente alta. O Duque se voltou então para Alistair, conjurando novamente alguma coisa, mas antes que o Lorde pudesse fazer um movimento, Chamberlain subitamente estacou. Seus olhos dourados ficaram muito abertos, como se o homem tivesse acabado de ser atingido por uma lança. A melodia havia chegado ao fim.

...

Todos estavam olhando para onde Chamberlain estava, mas o Duque agora fitava o chão, imóvel. O único som audível era o da chuva, que ainda caia incansavelmente. Hector até parara de tentar se livrar da espada que o prendia na árvore para ver o que estava acontecendo:

– Argh, pelos céus, o que houve com a minha perna?! – ouviram Chamberlain dizer, mas quando ele ergueu os olhos, já não eram mais dourados.

Alistair sorriu aliviado e Lilet não pôde conter uma gargalhada quando reconheceu Lorde Crawford novamente no controle do próprio corpo. Crawford se levantou muito desajeitadamente apoiando-se em Amaranth, que tinha estado largada no chão, resmungando a todo tempo sobre como sua perna doía (e também sobre como haviam estragado uma de suas melhores invenções). O machucado estava feio e era evidente que o homem não ia andar tão cedo.

– Não pretendia causar tantos problemas... — suspirou Crawford, sentando-se no banco mais próximo.

Hector se livrara da espada, mas continuava caído onde estava, com as costas na árvore, rindo da cena, enquanto os outros conversavam. Era isso? Havia finalmente acabado, depois de todo aquele tempo? Era tão estranho.

De Winter materializou-se outra vez, tomando a forma humana, mas não mostrava nenhum tipo de expressão, boa ou ruim:

– Onde está Lenore? – perguntou ele a Alistair.

– Provavelmente na sacada – respondeu o Lorde, indicando a seção mais arruinada do castelo. O conflito havia derrubado quase metade da base do alpendre, e tirado muitas pedras do lugar. De Winter desapareceu em fumaça novamente.

Foi quando ele sumiu que Alistair percebeu que aquele não era o fim. Alguma coisa estava se recompondo em um ponto atrás de onde De Winter estivera – uma imagem translúcida, de rosto desconhecido tomava forma. Alistair foi o primeiro a perceber e ainda tentou dizer alguma coisa, mas a imagem desapareceu e reapareceu perto dele em instantes, como um fantasma, e o arremessou com imensa força para dentro do castelo.

O Lorde percebeu que havia quebrado uma porção de móveis antes de finalmente encontrar a parede. A figura que o atingira andava devagar agora e ficava mais sólida a cada passo. Alistair nunca tinha o visto, mas sabia, pelos olhos dourados, que aquele era o verdadeiro Duque de Chamberlain.

– Eu sei quem você é! – disse o Duque, o desdém da voz havia sido substituído por fúria – Ah, sim! O Século Imortal!

Alistair havia se levantado e procurava alguma coisa para usar como arma. Chamberlain ainda estava carregando a espada de Oliver, e seu olhar furioso indicava que pretendia utilizá-la logo. Entretanto, teve de usá-la, não para atacar Alistair, mas para defender-se de um tiro que veio do jardim. A bala flamejante de Crawford explodiu na espada e seus estilhaços voaram nas cortinas, que rapidamente se incendiaram, criando uma parede de fogo. Chamberlain aproveitou a oportunidade para lançar uma barreira na entrada do castelo. Alistair ia ter que se contentar em se defender com um abjaur, caso não conseguisse chegar à próxima sala, onde ele imaginava ter uma velha espada de metal corroído guardada.

– Ouvi muitas histórias sobre a alma que não conhece a morte – disse Chamberlain, se aproximando. Seus cabelos eram muito escuros e brilhavam com o vermelho do fogo que consumia as cortinas. Ele desapareceu e reapareceu novamente, numa tentativa de acertar outro golpe em Alistair, mas dessa vez o Lorde estava atento. E não tinha mais que se preocupar em machuca-lo ou não. Desviou e acertou um soco na barriga do oponente, que voou exatamente na direção da sala que Alistair queria chegar. Chamberlain cuspiu o sangue no tapete. Estava agora envolto em uma bruma avermelhada e seus olhos faiscavam:

– Achou que podia rouba-la de mim? Eu sou o mago mais poderoso que já pisou nessa terra! Eu sou imortal! – gritou.

Alistair não pode deixar de pensar que apesar de tudo, Chamberlain não parecia mais tão ameaçador em seu próprio corpo. Tinha uma aparência muito mais jovem e magra do que seus poderosos nome e história faziam parecer. Não parecia ser muito mais velho que Hector, e a única coisa que impedia que sua fisionomia se tornasse completamente comum eram os profundos olhos dourados, que fitavam Alistair enfurecidos. Seus olhos é que eram verdadeiramente antigos.

Mas Alistair não se preocupava com isso. Havia conseguido recuperar a velha espada que estava pendurada na parede. Chamberlain já estava de pé e se lançara novamente em sua direção, mas fora repelido a tempo. O vento gerado pelo choque jogou papéis, móveis e outros objetos do escritório para todos os lados. O aço das espadas retiniu quando entraram em contato e Alistair achou que o velho sabre não ia durar muito daquele jeito. A segunda investida do Duque foi frustrada quando o Lorde aproveitou o movimento para jogar Chamberlain para longe outra vez. A parede com a qual ele colidiu foi destruída, dando acesso a um dos quartos do primeiro piso.

– Você vai pagar! – bradou Chamberlain.

Tiros podiam ser ouvidos vindos do lado de fora, o que provavelmente era uma tentativa dos amigos de Alistair de destruir a barreira mágica. Na verdade, foi um momento infeliz quando um deles realmente a quebrou. Os grandes vidros do quarto onde estavam foram destruídos e o Duque aproveitou o momento para passar para o jardim. Parecia que era incapaz de usar muita magia naquela forma, já que devia estar consumindo quase tudo que tinha para manter o corpo materializado. Mesmo assim, parou logo que pulou a janela, e começou a dizer algumas palavras de um feitiço, antes que alguém pudesse fazer qualquer coisa para detê-lo. Alistair sabia que estava mirando nos amigos e, sem pensar por um momento, correu para impedi-lo. Então Chamberlain rapidamente se virou e cravou a espada em seu peito.

– Vamos ver quem é que vai sobreviver aqui, maldito – disse o Duque.