Montre - A Sinfonia do Tempo
3 Clepsidra
O castelo de Alistair era temido por todos os moradores de Clarence. Desde que ele se mudara para lá, pouco a pouco, a construção fora sendo associada ao desastre que era seu dono. Juntos, o Lorde e seu castelo se tornaram inatingíveis ao povo da cidade, por isso ninguém ousava se aproximar daquela região.
A última visita que recebera fora há muito tempo atrás, quando sua fama ainda não era tão ruim. Era um garotinho — se sua memória não falhava — da cidade vizinha que saíra atrás da mãe, mas que acabara perdido no bosque. Pediu direções para Alistair e este se propôs a levar imediatamente o menino para Clarence. O problema foi que, distraído conversando com o garoto, Alistair acabara se enfiando no meio do bosque e terminara tão perdido quanto a própria criança.
Algumas horas se passaram até que os dois finalmente conseguissem chegar a Clarence, mas naquele momento a cidade toda já estava se movimentando para começar as buscas pelo garoto perdido. Alistair se dirigiu a uma mulher que chorava e tentou explicar a história, mas acabou sendo culpado pelo desaparecimento do menino e por isso foi banido da cidade durante um bom tempo.
Apesar do desgosto dos moradores para com ele, Alistair nunca pensara em se mudar. Sabia conviver tranquilamente com os praguejamentos e cochichos, porque na verdade não se importava com nada disso. Dessa forma, mesmo depois de ser taxado de ‘percussor do caos’, ele ainda tirava alguns dias da semana para passear por Clarence e observar as vitrines.
Mas tudo isso não mudava o fato de que agora, com a surpreendente visita, Alistair sentia-se muito feliz. E foi com grande contentamento que abriu os enormes portões frontais do castelo e cumprimentou o velho conhecido Sr. Laynon, mas o Lorde ficou um pouco chateado quando este se recusou a entrar.
– Me desculpe, mas tenho pressa. – dizia o relojoeiro. – Só achei que fosse importante vir aqui para avisar sobre o que tem acontecido recentemente, para que o Lorde não seja pego de surpresa, você sabe... – ele estava um tanto embaraçado, pois por mais que conhecesse Alistair ainda tinha enorme receio de estar perto daquele castelo. O seu relógio de bolso pagava o preço de sua ansiedade.
– Acontecimentos? – perguntou Alistair confuso.
– Ah sim. Achei que devesse avisar. Já apareceram umas três pessoas perguntando sobre o senhor hoje em Clarence – contava ele – O pior de todos, o que me fez vir até aqui, é um homem que carrega um enorme objeto nas costas. Suponho que seja uma arma, não sei, mas ele é perigoso, sim senhor, todos perceberam. – e acrescentou — Aconselho que fique longe dele.
– Isso é bem incomum... – Alistair dizia para si mesmo enquanto pensava sobre do que tudo aquilo poderia se tratar. Depois se voltou para Laynon – Não é ninguém a serviço da Rainha, eu suponho? – imaginava se talvez tivesse causado algum problema com a lei sem perceber...
– Posso assegurar que não. É um homem mais ou menos dessa altura... – disse enquanto fazia um gestou com as mãos indicando um ponto acima de sua cabeça. – Tem cabelos escuros e estava fumando um cigarro. Ele perguntou sobre o relógio que te dei...
– Bem, então realmente não faço ideia de quem seja... — Alistair deu de ombros, depois se lembrou de que o relojoeiro havia falado de mais pessoas – E quanto aos outros?
– Outros? Ah, sim. A segunda pessoa era uma mulher. Apareceu algumas horas depois deste homem, usava um vestido negro e um guarda-chuva da mesma cor. Mas me pareceu ser uma visitante comum, só quis saber sobre a história do castelo. Já o terceiro... – Sr. Laynon se interrompeu, parou para pensar, e depois disse – Bem, era só um visitante também. Vim aqui só para avisar sobre o homem do cigarro, você sabe...
– Entendo – respondeu Alistair, e vendo que o pobre homem parecia cansado agradeceu e o deixou ir embora. Esperou o relojoeiro sumir do seu campo de vista para depois entrar no castelo e se jogar em uma das poltronas de veludo vermelho da sala principal. Precisava pensar um pouco.
...
O interior das ruínas da antiga igreja era completamente branco. Cada detalhe, desde as cortinas até o piso perolado era do mais puro marfim, com exceção dos vitrais, que eram azuis.
– Devo me levantar? – perguntou o homem de monóculo quando alguns raios de sol que atravessavam as janelas atingiram seu rosto.
– Se acordar agora vai encontrar com seu irmão Século XIX. – respondeu a mulher, enquanto escolhia as teclas do grande piano branco que iria usar para começar uma música – Não temos obrigação de ajuda-los.
– Não me levantarei então – respondeu, e pôs-se a dormir novamente enquanto a melodia do piano preenchia o silencio do gigantesco salão iluminado.
...
Alistair tinha pegado no sono, e por causa das voltas e reviravoltas dos sonhos, acabara caindo da poltrona, acordando com o impacto no chão. Tentou se situar, ainda sentado no tapete no mesmo lugar onde caíra. A visão ainda estava embaçada e ele pensou em pegar seus óculos, mas a ideia foi interrompida quando uma voz vinda de fora do castelo chamou sua atenção:
– Alistair? Lorde Alistair?
“O que é isso agora?” se perguntou, estranhando o repentino movimento de pessoas no castelo. Piscou duas ou três vezes para garantir que já estava acordado e levantou-se devagar para olhar pela grande janela de vidro da sala principal. Poderia ser o homem o qual quem Sr. Laynon mandara tomar cuidado, embora a voz parecesse fina demais para ser de uma pessoa como a descrita pelo relojoeiro. De qualquer forma foi andando até a janela quase na ponta dos pés, fazendo de tudo para não ser visto.
Mas de onde estava tudo que conseguia ver era a ponte de pedra e as árvores e flores do belo jardim, que agora estava iluminado por uma luz amarelo-clara, sinal de que o tempo ruim começava a se dissipar. Como a pessoa não parasse de gritar, ele resolveu abrir uma das portas de madeira da entrada e espiar.
Pela fresta da porta pôde ver uma figura de roupas escuras, mas que se mostrava completamente indistinguível por conta dos problemas de visão de Alistair. Ele já conseguia ver com clareza os arredores, mas a pessoa estava longe o suficiente para não ser pega por completo pelos olhos do Lorde.
– Alistair? – a voz continuava.
Dali parecia ser uma pessoa relativamente grande, não demorou a que Alistair chegasse à conclusão de que aquele era mesmo o homem do cigarro. Quem mais o visitaria? E aquele com certeza não era o Sr. Laynon. Depois dessa conclusão passou rapidamente pelas portas e gritou, sem se dar ao trabalho de chegar mais perto:
– Não tenho nada para tratar com você!
– Ora, deixe disso, Alistair. Preciso falar com você! — a voz respondeu.
– Mas eu não! Não perca mais o seu tempo em frente do meu portão, ande! — retrucou piscando de novo para poder enxergar melhor o intruso. Agora lhe parecia que este era mais baixo do que de início, já que a primeira impressão tinha sido causada por culpa de um guarda-chuva que a pessoa mantinha aberto – E pare de falar como se me conhecesse, ora essa!
– Se não me deixar entrar pelos portões da frente encontro um jeito de chegar até aí por outro caminho! – ameaçou a voz fina do outro lado do portão.
Alistair deu alguns passos a frente antes de responder a gritos novamente, e talvez por isso tenha ficado mais fácil notar que, ali parado no portão não estava em hipótese alguma um homem com um cigarro:
– Uma mulher?! – deixou escapar.
– Claro que sim! Não se vê muitos homens de vestido por aí – respondeu a jovem rindo – Embora eu não saiba dizer exatamente por quê.
Alistair andou um pouco mais para ter certeza do que via, e depois de perceber o embaraçoso engano apressou-se a abrir os portões do castelo.
– Me desculpe, pensei que fosse outra pessoa – disse ele um pouco constrangido, e depois tentou explicar – Tenho alguns problemas de visão de vez em quando...
– Bem, também acho que precisa de óculos. – disse a mulher sorrindo enquanto fechava o guarda-chuva rendado preto – Sou Lilet Clermont.
– Prazer em conhecê-la – disse Alistair enquanto atravessava ponte ao lado da visitante – Sou Alistair Delacroix, mas parece que você já sabe meu nome... – acrescentou, abrindo por completo a porta de madeira do castelo que havia ficado semiaberta por causa do incidente.
Olhou então para a moça para ver se a reconhecia — seria muito problemático se já a conhecesse e não conseguisse lembrar-se de onde. Reparou nas roupas completamente negras que usava, desde os sapatos até o guarda-chuva que carregava nas mãos.
– Por acaso houve alguma morte que eu precise saber? – perguntou ele diretamente, imaginando que a jovem estivesse de luto.
– De forma alguma – respondeu ela — Apenas gosto desta cor, mas estou acostumada a ouvir comentários como esse... – disse Lilet ainda sorrindo. Parecia estar achando tudo muito divertido.
– Compreendo – respondeu Alistair, embora ainda estivesse bastante confuso. Depois indicou a Srta. Clermont uma das poltronas vermelhas da sala de estar. Sentou-se na cadeira oposta, de forma que ficaram separados pela mesa de centro. Pela janela o dia parecia clarear:
– Posso perguntar o que a trouxe aqui? – disse ele então.
– Ah, sim. Vim para entregar-lhe isso. – respondeu a jovem. Colocou uma carta fechada com um selo e carimbada com o símbolo de uma chave em cima da mesa – Talvez reconheça a marca...
Alistair aproximou-se da mesa para olhar o selo mais de perto.
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