Montre - A Sinfonia do Tempo
4 Automata
– Desconheço – disse Alistair depois de ler o nome do remetente da carta.
– Catherine é minha professora de piano – Lilet começou a explicar, um pouco desapontada com a reação do Lorde – Tem o hábito prever os acontecimentos, e as pessoas dizem que é isso um dom. Mas, a minha opinião é que ela é simplesmente esperta o suficiente para deduzir o que vai acontecer e acertar. Fato é que ela me deu essa carta há uns três anos e mandou guardar comigo até o dia em que encontrasse Lorde Alistair, achei que vocês se conhecessem...
– Essa carta é muito complicada... — reclamava Alistair, ignorando toda a explicação, ele provavelmente não teria dado atenção à metade das palavras da moça – Está cheia de símbolos estranhos! – e mostrou as inscrições a ela.
Lilet ficou encarando o papel por alguns minutos. Realmente era bastante incomum, não era o tipo de coisa que imaginasse que sua professora pudesse querer enviar para alguém. Depois de um tempo pensando resolveu dizer:
– Bem, de alguma forma isso se parece com uma partitura, vê? Tem indicações para notas e compassos, entretanto não consigo imaginar qual instrumento poderia tocá-la...
– E porque eu iria querer uma partitura, qualquer que fosse? – disse Alistair quase indignado.
– Isso já não é problema meu... – respondeu a jovem – Lady Catherine também me disse alguma coisa sobre um relógio, isso faz algum sentido para você?
– Bem, eu tenho aquele relógio problemático que Sr. Laynon me deu... – dizia Alistair sem dar muita atenção às próprias palavras. Ao mesmo tempo, virava a carta de ponta cabeça para observar os detalhes, na esperança de que a girando desse modo os símbolos se tornassem entendíveis.
– Posso vê-lo? – perguntou Lilet.
– Está na sala de jantar – respondeu Alistair sem tirar os olhos da carta. Agora tentava colocá-la contra a luz.
– Me mostre, então! – insistiu a jovem — Não posso ficar andando assim no castelo dos outros! – e o puxou da cadeira, fazendo com que Alistair mostrasse o caminho quase que a força.
O antigo relógio de pêndulo estava próximo ao aparador em um dos cantos da enorme sala de jantar. Lilet não pareceu pensar em nada ao vê-lo, então Alistair contou a história da noite do Festival e mostrou como o relógio não reagia a nenhuma de suas intervenções. Depois, Srta. Clermont passou longos minutos observando e remexendo no objeto a procura de qualquer coisa, quando de súbito, deu um pulo para trás.
– Eu reconheço esse relógio! – disse Lilet, boquiaberta – Mas seria tão improvável que estivesse aqui... Quero dizer, posso ter me confundido, mas...
– O que tem o relógio? — perguntou Alistair, que entendia menos o que estava acontecendo a cada momento.
– Conhece a história do Duque de Chamberlain? – perguntou a jovem.
Como Alistair dissesse que só havia ouvido falar uma coisa ou outra sobre o grande fabricante de relógios, Lilet sentou-se em uma das cadeiras da sala de jantar e disse:
– Bem, então vou conta-la a você.
...
O Duque de Chamberlain era um homem muito poderoso, dono de uma das maiores fabricantes de relógios do país. Pode-se dizer que ele tinha tudo o que alguém poderia querer: era inteligente, rico e estava a todo o momento nas festas da alta sociedade. Talvez não tenha sido de todo mau, mas sempre fora terrivelmente egocêntrico e indiferente aos problemas alheios, então não se preocupava em tratar as pessoas com dignidade. Não seria erro dizer que ele sempre se considerou superior a todos que conheceu.
Certo dia, não se sabe quando exatamente, alguém disse algo para o Duque. Algo que ficou em seus pensamentos por muito tempo, e que o fez anunciar uma enorme recompensa para a pessoa que pudesse garantir-lhe esse desejo que lhe surgira à mente. Esse anúncio reuniu pessoas de todos os tipos, vindas dos mais diversos lugares, em busca da generosa recompensa. Entretanto, ninguém foi capaz de dar ao Duque o que ele tanto queria. Afinal, de que valeria toda a sorte de Chamberlain, se ele não dispusesse de tempo para aproveitá-la?
O problema é que não se pode fazer algo surgir do nada, essa é uma regra da magia e do resto das coisas. Portanto, era impossível que alguém, mago ou o que quer que fosse, conseguisse criar o tempo que o Duque precisava para viver para sempre. Um dia, entretanto, um jovem mágico apareceu na mansão Chamberlain.
Esse mágico, em vez de tentar dar ao Duque tempo, fez algo diferente. Ele conseguiu enfeitiçar um grande relógio de pêndulo, de forma que todo o dano que os anos pudessem causar ao homem fosse transferido para o objeto. Dessa forma, o Duque duraria enquanto o relógio durasse, e para prolongar sua vida, o mago lançou também um feitiço capaz de aumentar a resistência do relógio, tornando-o praticamente indestrutível.
Assim, o Duque parou de envelhecer e o relógio, que se acabaria com o passar dos anos, continuava impecável como novo, pois nada nem ninguém era capaz de criar nele nem um único arranhão.
E terminaria por aí, pois o Duque viveu muitos de seus novos anos tão bem quanto os antigos e com o tempo acabou se tornando ainda mais poderoso e arrogante. Entretanto, já era de se esperar que alguém como o Duque não se contentasse com o que tinha, e admirado com os poderes do mago que lhe ajudara, decidiu também estudar magia.
Há uma grande variedade de divisões nos estudos mágicos e o Duque se especializou em cada um deles. Depois disso, detinha um poder gigantesco. Poderia ter qualquer coisa o que quisesse, e teve – mas, talvez por isso, tenha começado a rapidamente perder o interesse por tudo. Não havia nada que não conseguisse, nem nada que ainda não tivesse feito, e logo começou a pensar que a vida não tinha mais nada para oferecer.
Naturalmente, ele gostava demais de si mesmo para abandonar a própria vida, e continuou vivendo alguns poucos anos vazios antes de enlouquecer completamente. Foi nessa época também que a Ordem dos Séculos se instalou. Os conflitos entre a guarda do Duque e essa organização causaram a destruição de boa parte da área noroeste da Cidade Central, além de danos em alguns outros pontos mais ao norte. Ficou registrado que, depois dessa pequena guerra não se ouviu mais falar do Duque e nem da Ordem.
Lady Catherine contou que, provavelmente, ao matematizar um feitiço tão poderoso quanto o de imortalidade, o jovem mágico poderia ter dividido os anos já vividos pelo Duque, que naquele tempo contavam vinte e cinco, e criado essas entidades que se autodenominavam Séculos. Os vinte e cinco Séculos, surgiram aleatoriamente no resto mundo e depois de um tempo se organizaram para formar a Ordem. Eles pareciam humanos, mas cada um guardava uma habilidade diferente, provinda das características do próprio Duque. Sabendo disso, Chamberlain se esforçou para encontrar e destruir cada um deles, já que aquilo lhe parecia uma afronta pessoal. Desse modo a Ordem foi criada para que, juntos, os Séculos pudessem se defender.
A história que se conta nas ruas, entretanto, não é a mesma, já que são poucos os que sabem da Ordem. Para a maioria das pessoas, o feitiço simplesmente foi falho, pois o Duque, mesmo vivendo por um longo período de tempo não foi capaz de escapar de seu destino. Isso aconteceu já que naquela noite, na Cidade Central, o vigésimo quinto Século foi capaz de separar os ponteiros do relógio de pêndulo e despacha-los em trens diferentes para que nunca fossem encontrados. Muitos membros da organização morreram naquela batalha, inclusive ela.
Crê-se que, visto que havia uma forte conexão entre Chamberlain e o relógio, o caminho inverso do feitiço pudesse ter sido usado contra o Duque. Assim, o dano causado ao relógio resultara em um dano semelhante ao homem, embora não se saiba exatamente o que aconteceu com ele depois. Alguns dizem que desde aquele dia o Duque tem estado adormecido em algum lugar, esperando apenas o relógio ser remontado para transbordar sua ira contra o mundo... Entende o que quero dizer?
...
– Bem, é uma história complicada... – concluiu Alistair, levantando-se para observar o relógio, que continuava tão imóvel quanto antes. Não inspirava qualquer tipo de perigo. – Tem certeza que esse é o relógio do Duque?
– Depois do que você me disse, não acho que exista tanto espaço para dúvidas. Veja bem, o relógio não estava sem os ponteiros? E você mesmo disse que quando encaixou um deles o objeto não teve um comportamento muito comum para um relógio...
Alistair concordou, mas depois suspirou e disse:
– Bem, talvez devêssemos devolver o relógio para Duque. Não vai ter muita utilidade para mim afinal de contas...
Lilet ergueu as sobrancelhas numa expressão de choque:
– Está falando sério? Lidar com um mago louco, imortal e furioso não me parece uma boa ideia, Alistair! Se ele já estiver acordado virá para buscar esse relógio, e tenho certeza de que não vai vir pedi-lo com educação – suspirou – Na verdade, não dá nem mesmo para saber o que vai acontecer com o resto de Verre.
– Ora, se é tão problemático, é só livrarmo-nos disso logo! – disse Alistair, subitamente decidido. Ao mesmo tempo, já estava se preparando para erguer o relógio e leva-lo dali.
– Obviamente que não é tão simples assim... – tentou dizer Lilet, mas era tarde. Alistair carregava o relógio com absurda rapidez e ia em direção à sala de entrada e depois, com certeza sairia do castelo.
Lilet seguiu-o e ainda tentou argumentar no caminho, mas Alistair parecia não estar dando muita atenção. Já estava chegando ao jardim, ignorando completamente os protestos da jovem, quando ouviu:
– Olá! Tem alguém aí? – perguntou uma voz vinda do portão principal.
Alistair, ao distinguir quem estava no portão, parou de andar e largou bruscamente o relógio no chão. Lilet, agradecida, acreditou por alguns instantes que ele tivesse finalmente dado ouvidos ao que ela dizia, mas teve de mudar de ideia assim que o escutou falar:
– Saia! Já tenho problemas suficientes por hoje! – disse ele ao novo visitante. Não havia dúvida: aquele era o homem cujo qual Sr. Laynon mandara tomar cuidado. Estava encostado no portão tragando seu cigarro e parecendo achar alguma coisa muito engraçada, o que contribuiu para a péssima primeira impressão que causou no Lorde. Carregava uma bolsa nas costas, exatamente como o relojoeiro descrevera.
– Ah, desculpe, não ouvi. – disse o visitante-intruso empurrando o portão que Alistair esquecera aberto quando deixara Lilet entrar – Vou chegar mais perto para escutar melhor... – disse ele, mas estava claro que era só uma péssima desculpa para entrar no castelo.
Alistair não podia acreditar em tamanha ousadia. Onde estava seu florete? Poderia dar um susto suficientemente grande no invasor para que ele nunca mais pensasse em passar perto daquela região. Infelizmente um florete não era um item que Alistair carregava sempre para todos os lados.
– Que belo jardim você tem! – disse o homem, que agora estava muito próximo de Alistair. Uma pessoa normal, mesmo que andando depressa ainda estaria na metade do caminho entre o portão e o Lorde, entretanto o invasor tinha chegado ali no tempo em que Alistair gastara pensando em como iria expulsá-lo do castelo.
Lilet havia tomado uma posição defensiva em relação ao relógio, já que não fazia ideia do que estava acontecendo e preferia não arriscar perder o objeto, seja lá para quem fosse. Entretanto, enquanto se preocupava com isso, não notara a aproximação do intruso, o que a fez levar um bom susto assim que pôde perceber a distância que o homem percorrera naquela fração tão curta de tempo. Essa aparição inesperada foi o suficiente para fazê-la recuar e esbarrar no gigantesco relógio, que estava mal equilibrado no caminho de pedra. O objeto caiu e o impacto causou um longo estrondo. Depois dele, tudo que restou foi um pesado silêncio. Lilet e Alistair ficaram encarando a pessoa parada a sua frente por alguns segundos.
O visitante, entretanto, sorriu e se abaixou para por o relógio de pé. O vento soprou e tirou algumas folhas das árvores de seus lugares.
– Ora, se esse não é mesmo o relógio do velho Duran? – disse ele então – Pode-se ver que não está nos seus melhores dias...
– O que é que você quer? – perguntou Alistair secamente.
O homem riu uma risada alta e depois disse:
– Vocês de Clarence são bem mais diretos do que eu imaginava! Mas não se enganem, não teria vindo aqui se as circunstâncias não pedissem. Tem a ver com esse relógio, se quer saber.
– E quem é você? – perguntou Alistair novamente, de mau-humor.
– Ah, que educado de sua parte perguntar – disse o visitante, sarcasticamente – Sou Hazel Crawford. Lorde Crawford para grande parte das pessoas...
Um Lorde? Impossível. Não importava onde olhasse, Alistair não conseguia ver uma gota de “lorde” naquela pessoa. As roupas, embora relativamente limpas, eram velhas e amarrotadas. O cabelo escuro estava completamente despenteado, boa parte por causa do vento, e ele acabara de apagar um cigarro, simplesmente jogando-o no chão e pisando em cima. Não era uma atitude de muita nobreza... Lilet pensava mais ou menos a mesma coisa, embora estivesse mais conformada, já que o próprio Alistair era um lorde tão incomum quanto o outro.
Mas ele tinha despertado a curiosidade de Alistair, que tinha algumas outras perguntas em mente:
– E o que é isso que você está carregando, “Lorde”? – perguntou então.
– Ah, isso? – olhou para a grande bolsa que levava pendurada ao ombro – Isso é uma máquina. – O homem não ia dizer mais que isso, e Alistair sabia.
– Bem, Lorde Crawford. Você pode entrar e responder nossas perguntas ou serei obrigado a fazê-lo desaparecer daqui. O que vai ser?
– Eu aceito uma xícara de chá, obrigado. – riu ele novamente, e os três voltaram para dentro do castelo sem dizer uma palavra sequer no caminho.
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