Monster
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O ar estava gélido, e a chuva caía fervorosamente pelo lado de fora da lanchonete, suas gotas se chocavam contra o vidro causando um enorme barulho. Eu coloquei o meu casaco preto por cima do uniforme — um vestido amarelo desbotado, com bolsos brancos nas duas laterais — enquanto bufava ao ver que as ruas estavam quase inundando lá fora. Percebi que tão cedo sairia daquele lugar.
—Calma, Bê, isso já vai passar. – disse Alison enquanto limpava o balcão. Eu ignorei o fato dela ter me chamado de Bê, eu sempre odiei apelidos e até então pensei que tinha deixado isso claro para ela. Alison era uma das minhas amigas ali no trabalho, ela era baixa e gorducha e seus cabelos encaracolados estavam presos em um coque, seu uniforme estava mais sujo que o meu por ser quase todos os cargos em um só na lanchonete. Ela nunca me disse sua idade, pois sempre dizia que era algo secreto, mas creio que já estava na casa dos cinquenta.
—Isso soou tão irônico, não acha? – perguntei sarcástica olhando pelo vidro, e ela sorriu sacudindo os ombros.
Bem na hora em que o meu expediente acaba e que minhas férias finalmente iniciam eu tenho que esperar mais tempo para sair dali, eu havia contado os dias para finalmente ficar presa aqui. As férias eram valiosas para mim, eu iria ter um tempo para pensar e organizar um pouco mais a minha vida — e o meu apartamento. Caminhei até um dos bancos na frente do balcão e me sentei olhando para vista lá fora.
—Justamente agora, Ali. – disse colocando os cotovelos no balcão e as mãos no meu rosto. – Parece que não tenho sorte mesmo. – suspirei pesado.
—Você devia parar de ser tão pessimista assim, uma hora as coisas mudam, você vai ver. – ela pega uns potes de maionese e ketchup que estavam secos em cima do balcão os levando para a parte de trás da lanchonete.
Virei-me para ver se a chuva parasse um pouco e pareceu que estava com menos potência do que antes, eu sabia que se esperar ali só estaria perdendo ainda mais o meu tempo, então saí com a garoa caindo por cima de mim.
Era um entardecer de uma terça-feira comum, o bairro em que eu morava era em uma das regiões mais perigosas de New York. Depois que minha mãe nos abandonou, quando eu tinha dez anos de idade, meu pai e eu não estávamos com condições para manter nossa casa no sul da cidade. Então ele usou o dinheiro que tínhamos na poupança e compramos esse apartamento por um bom preço, meu pai então deixou a sua carreira de professor de filosofia para trás e se afundou nas bebidas como uma forma de depressão. Eu consegui concluir o meu ensino médio, mas sem o apoio de uma pessoa e sem dinheiro suficiente eu desisti do sonho de fazer faculdade. Já faz um ano que conclui o ensino médio e eu tive que arranjar esse emprego para sustentar à mim e meu pai a partir de agora, sim, com apenas um salário que a propósito varia todo o mês, às vezes aumenta outras abaixa, assim como varia às vezes o valor das gorjetas que recebo. Alison me questionou várias vezes se eu consigo aguentar tudo isso, e sempre me disse para deixar meu pai e ir morar com ela em seu apartamento, ela apenas mora com o seu filho já que o pai dele sumiu quando ele nasceu, mas eu nunca aceitei, porque por mais que ele pareça não se importar comigo tanto quanto antes eu acho que não sou tão cruel a ponto de deixá-lo sozinho, ele provavelmente morreria e eu me culparia para o resto da minha vida se isso acontecesse.
Afastei esses pensamentos ruins da minha mente, pois nunca gostei de relembrar da minha mãe, eu a odiava e nunca culpei meu pai por está nas situações em que se encontra, pois a culpa fora dela. Mas eu segui em frente no meu trajeto. Já estava completamente à noite, e ainda chuviscava fraco, meu dentes tremiam um no outro e minhas mãos estavam enrugadas por conta do frio. O casaco que eu usava estava praticamente encharcado e grudava na minha pele. Eu estremeci ao ver que ainda faltavam quatro quadras para chegar ao prédio em que eu morava, quando de repente vi três homens suspeitos vindo em minha direção, nada que eu não tenha visto antes por ali, mas eu sempre volto antes que escureça e digamos que esse horário já é considerado perigoso. Eu tento mostrar que não estou intimidada com a presença deles e ajeito a minha postura seguindo em frente com os meus passos largos.
O olhar de um deles para em mim e ele cochicha algo para os outros que estão ao seu lado, desvio o olhar imediatamente. E então quando olho de relance novamente para eles vejo que eles me encaram e continuam cochichando. Pigarreio e tento apressar o passo para passar logo de uma vez por eles, mas parece que não passo despercebida. Tento me apressar mais quando eles estão passando ao meu lado, mas quando percebo eles já me cercaram. Tento escapar entre as brechas que entre eles aparece, mas não consigo.
—Ei, para onde você pensa que vai. – disse um deles. sua voz era grossa e ameaçadora.
—É, acabou de chegar. Não vai embora não! – disse um outro bem ao pé do meu ouvido.
—Por favor, me deixem passar. – disse ainda tentando me desviar, e minha voz saiu trêmula.
Mas já era tarde demais ele já estavam me arrastando para o beco mais próximo. Eu tentei sair várias vezes, mas eles sempre davam um jeito de me puxar de volta. Eu pensava apenas no pior que poderia acontecer. Porém de repente um homem ataca um deles e eu consigo sair.
Eu corri para sair um pouco de perto dele, quando volto o meu olhar para a situação com mais atenção. O homem que os atacou usava um moletom preto com um capuz e mangas longas, ele lutava com os três ao mesmo tempo e me pareceu incrivelmente forte. Mas me apavorei quando um dos três homens tirou um canivete do bolso e deu um golpe no que tentou me salvar. Os três saíram correndo pelo beco escuro e eu corri para tentar ajudar o homem caído no chão, ele estava com a mão no ferimento e eu não pude deixar de notar que sangrava descontroladamente.
—Meu Deus! – disse ao chegar perto dele. – Vem, eu vou te levar para um hospital. – disse tentando levantar, mas ele era muito mais alto que eu e consequentemente mais pesado. O capuz tinha caído para trás e revelou um homem de cabelos até o ombro com a barba por fazer.
—Não... – ele disse quase que em um sussurro, sua voz estava fraca e ele pressionava fortemente o ferimento. – Eu não posso ir para um hospital, eles vão saber... — pausou.
—Saber o que? – perguntei temendo a resposta. E se ele fosse um criminoso como aqueles homens, só que mais perigoso?
Ele hesitou e permaneceu em silêncio. Sem querer lançou um olhar de relance para o seu braço esquerdo. A beirada do seu moletom estava um pouco levantada para cima, e pude ver algo brilhando, como se o seu braço fosse de... Metal.
—O que?... O que é você? – perguntei me afastando dele, eu estava de joelhos e quando dei um impulso para trás acabei caindo.
—Você tem que ir embora! – ele quase gritou.
—Não... – disse hesitante me aproximando dele novamente. – Você me salvou, eu tenho que te ajudar também. – disse.
—Eu não posso ir para o hospital. – ele disse novamente.
—Mas você está sangrando. – disse até que me lembrei de uma coisa. – Você não pode ir para o hospital, está bem eu entendo, eu sei de um lugar que ninguém vai te achar. É um galpão abandonado atrás do prédio onde eu moro, eu vou te ajudar com os curativos.
Ela o ajudou a levantar e seguiu em direção até o galpão. Seja lá quem era aquele homem, ele a livrou do pior, e a partir de agora ela tinha um divida com ele.
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