Monotonia

1 Prólogo – Monotonia.


Elena estava debruçada sobre a mesa do refeitório de sua faculdade. Seus óculos de grau exagerado estavam pendendo sobre seu nariz e um livro grosso estava delicadamente suspenso em uma única mão. Afinal, na outra mão ela usa o dedo indicador para acompanhar e apontar cada palavra do texto. A capa do livro denunciava o título: "Internos de Torres Pratos e Recheios" de Jorge Navaes Caldas. Na verdade, Elena não conhecia o autor a fundo. Mas esse livro tinha bastante importância na área da engenharia química. Por isso, ele teria grande importância para ela também.

Elena Gilbert, mas conhecida por Gilbert porque não deixava as pessoas lhe chamarem de Elena. Afinal, ela não tinha amigos ali, então não teria o porquê dar essa intimidade para qualquer um. É uma jovem totalmente focada em seus estudos. Cursa Engenharia Química na universidade de G.I.T. (the Georgia Institute of Technology), uma das melhores universidades em pesquisa de tecnologia. Elena nasceu em Sófia, Bulgária, e se mudou para Atlanta na Geórgia (Estados Unidos) com dois anos de idade, onde ela foi criada e vive até hoje.

Atualmente, Elena tem vinte e um anos. Mora em um apartamento sozinha, cujas despesas eram pagas por seus pais que, agora, moravam em Toronto no Canadá para dar auxílio nos estudos de seu irmão mais velho, Alexander. É claro que ela gostava de ajudar nas despesas e até conseguia, pois tinha um estágio na biblioteca de sua faculdade que pagava 30% de seus estudos e um salário mínimo.

Quando Elena começa a contar sobre sua vida, não pode se esquecer de que ela sempre foi intitulada por nerd. Lembra que tudo começou aos três anos quando ganhou de seu pai um livro de química. Aos nove anos, ela ganhou seu próprio notebook e foi aí que sua paixão pela química se desenvolveu, pois ela passava horas e mais horas pesquisando sobre química, átomos, experiências químicas, tabela periódica, entre outros assuntos químicos. Lembra como sujou toda a cozinha de sua mãe quando tentou construir um vulcão e foi obrigada a limpá-la sozinha, mas no fim valeu a pena porque ela conquistou a medalha de ouro com sua experiência na I Feira de Ciências do Ensino Fundamental.

Com o passar do tempo, assim como os modelos atômicos, Elena também foi se aprimorando no estudo da química e de suas partículas atômicas. As consequências disso foram a total exclusão social no Ensino Médio e, graças às horas gastas na frente do notebook, desenvolvimento de miopia e astigmatismo, duas doenças que prejudicam sua visão. Com isso, usar óculos se tornou algo indispensável em sua vida. No ensino médio só tinha duas amigas: Caroline e Bonnie. Elas se conheceram desde o primário, quando Elena ainda era uma criança normal, e talvez por isso a amizade delas fosse tão importante.

Elena nunca foi normal. Uma garota que usava roupas de brechó e tinha óculos enormes de armação preta, não poderia ser considerada "uma pessoa normal" perante todas as outras garotas que ela conhecia que só gostavam de roupas de marca, salto, unhas pintadas e meninos. Aliás, Elena nunca se deu bem com o sexo masculino. Não que ela nunca tivesse sentido atração física por nenhum menino, até teve um! Mas ele era como aquelas blusas de marca que todas as garotas desejam, impossível para ela. Ela já beijou, é claro. E aconteceu no último ano do Ensino Médio quando em uma brincadeira da formatura, os garotos tiveram que escolher uma menina para beijar. Elena lembra que todas as garotas foram escolhidas de início, e no fim só restou ela e o pobre Matt, que era o garoto mais tímido da sala. Ela não pode dizer que ele beijava mal, porque nunca tinha tido essa experiência, mas ela não gostou do beijo. Fora isso, ela não teve nenhum namorado.

Entretida em marcar as partes mais importantes do livro com um marcador de texto verde, Elena nem se dá conta quando um garoto senta-se à mesa com ela. Particularmente bonito e da panelinha dos populares, o garoto finge limpar a garganta para atrair a atenção dela.

— Olá! — Ele diz em um entusiasmo invejável para os demais, mas tedioso para Elena. — Eu sou Aaron, da subdivisão de futebol acadêmico, sabe? — Seu timbre de voz era presunçoso, quase orgulhoso.

— É mesmo? — Ela fingiu ter interesse, sua atenção voltada ao livro.

— Pois é! — Ele tentou fazer alguns gestos bagunçando seu cabelo para tentar atrair atenção, isso sempre funciona. Ele sabia que as garotas adoram um cabelo levemente bagunçado, era símbolo de masculinidade. Porém, Elena apenas apoiou o peso do livro sobre as duas mãos e virou a página dele, sem nem olhá-lo. — Então... Eu queria te fazer uma pergunta...

— Isótopos são átomos de um elemento químico cujos núcleos têm o mesmo número atômico. — Ela o interrompeu. — E sim, esse é o básico do básico da química. Portanto, você não conseguirá passar em um teste vocacional para entrar nessa universidade sem saber disso.

— Eu... — Ele tentou concertar a situação. No fundo, ele sabia que deveria ter ouvido os conselhos dos amigos e não ter se aproximado da "coisa". Balançou a cabeça em descrença. — Ah, quer saber?! Deixa pra lá!

Ele levantou-se em um movimento rápido e ríspido da cadeira, fazendo com que ela arranhasse o piso do refeitório e criasse um ruído agudo muito irritante. Elena, finalmente, dirigiu sua atenção ao rapaz para lhe pedir silêncio, mas algo chamou sua atenção...

— Hey! Seu cabelo está um pouco bagunçado. Acho melhor ir ao banheiro verificar isso. — Sua inocência saindo explícita em cada palavra. Aaron abriu a boca, incrédulo, para retrucar, mas percebeu que era perda tempo. Gilbert era perda de tempo. Ele apenas girou os calcanhares e sumiu pela multidão de universitários no refeitório.

Quando Elena se coloca delicadamente sentada em sua cadeira com uma postura invejável, abre o livro que deixou marcado pelo pincel marca-texto e escuta uma voz aguda lhe gritar.

— Gilbert! — É Tessa, a cheerleader da subdivisão de futebol acadêmico. — Aaron veio convidá-la para as férias na casa de praia dele? — Ela ofega.

— Hm, não. Na verdade, ele queria uma indicação para um livro de educação física de que precisava. — Mentiu.

— Oh, tudo bem. Não se preocupe, você poderá ir no ano que vem! — Sorriu cínica.

— Claro, claro. — Elena fingiu acreditar.

— Mas, enfim, as meninas estão querendo ir ao shopping comprar biquínis para passar essas férias de julho. E pensamos se você gostaria de ir conosco!

— Oh, claro! Eu estava mesmo querendo comprar um protótipo de modelo atômico feito com materiais renováveis.

— Ah... — Tessa estalou a língua no céu da boca. — Quer saber?! Acho que não vai dar pra ir dessa vez. Mas quem sabe na próxima?

— Ah, claro! Na próxima... — Elena responde mesmo sabendo que ninguém pode escutá-la, pois ela pode ver os cabelos platinados e a saia curta de Tessa balançando com o vento enquanto ela corre em passos rápidos para longe dali.

[...]

Depois de terminar seu almoço – suco natural e barra de cereal –, Elena jogou o peso de sua bolsa sobre um único ombro e segurou o livro de química, abraçando-o na frente de seu corpo. Estava dando os primeiros passos para a saída do refeitório quando o tema musical Over The Horizon começou a soar em sua bolsa. Elena procurou o aparelho celular no bolso da frente de sua mochila, poderia admitir em público que o toque musical de seu celular era aquele que já vem configurado no aparelho há anos porque não tinha paciência para ficar trocando-o por músicas que gostasse. Ela pressionou a tela do aparelho onde havia o botão verde de atender. Pesando ser um engano, porque ninguém além da operadora lhe ligava e número era desconhecido, ela atendeu.

Elena Gilbert! — A voz do outro lado da linha estava saindo em tom de repressão, como se ela tivesse feito algo errado e sendo repreendida por isso. — Por que você nunca me ligou?! Argh!

Ela ouviu o tom de frustração feminino do outro lado da linha acompanhado de um tom dócil e melancólico, levou alguns minutos de silêncio até ela resolver arriscar um palpite: — Forbes?

Caroline, Elena! Caroline Forbes! — A voz repreendeu rapidamente do outro lado e Elena riu baixo. — Ainda tem essa mania esquisita se chamar as pessoas pelo sobrenome? Achei que já havíamos conversado isso!

— Ora, Caroline! — Aumentou o tom de voz ao mencionar o nome, e não o sobrenome, da amiga de infância. — Antigos hábitos não mudam! Veja só você, continua tagarela como um papagaio. — Riu. Adora como conseguia manter uma conversa com Caroline, as palavras fluíam. — Tivemos essa conversa há um ano! Eu deveria, no mínimo, ter me esquecido.

Mas um elefante nunca esquece! — Caroline soou infantil. — Eu tenho memória de elefante, querida. Eles conseguem lembrar-se de algo que aconteceu em dez anos depois de ter acontecido. — Tagarelou. — Por isso, você pode me contar algo agora que eu me lembrarei! Mas só dez anos depois, é claro. — Acrescentou com ironia.

Elena riu alto como nunca mais tinha feito, como só fazia quando estava com Caroline ou Bonnie. Alguns alunos do refeitório observavam a aluna mais tímida do campus gargalhando ao telefone e se perguntavam qual o problema dela. Elena ajeitou o peso da bolsa no ombro, segurava o celular com uma mão e o tão amado livro com a outra, ainda abraçando-o.

Eu não recebi ligações, mensagem, email, carta ou sequer uma única coruja com notícias suas! Mas, é claro, eu te entendo... Você deveria estar se importando demais com seus amiguinhos elétrons, prótons e neutros para sequer pensar em mandar uma notícia para a vadia aqui, não é?! — Quase gritava.

— É bom saber que você me entende! — Gilbert riu anasalado, ela usou uma ironia!

Entendo o caramba! — Elena precisou afastar um pouco o celular para não correr o risco de ficar surda de um ouvido. — Você terá que me recompensar por isso... E eu até sei como! —Caroline soltou uma gargalhada maléfica que terminou em um excesso de tosses, fazendo Elena segurar um riso.

— Eu sei que me arrependerei de perguntar, mas aqui vai: como?

Que bom que perguntou! — Caroline riu. — O negócio é o seguinte: acabei de alugar uma casa em Miami. Cheguei aqui ontem! E, não que eu queira me gabar, mas a casa é enorme! Então, eu estava pensando... Eu tenho mantido contato com o pessoal do colégio, diferente de você, e acho que seria muito legal uma festa de reencontro. Afinal, todo mundo está de férias e eu estou com uma casa disponível em Miami! Quer coisa melhor?! — Caroline se exaltava animava, era perceptível.

— É impossível pra mim, Caroline. Estou tendo faculdade e...

Mas hoje é o último dia do mês de junho! Amanhã já é dia primeiro de julho, ou seja, férias! Você também terá férias, não é? — Caroline interrompeu.

— Sim, mas eu passei o mês de junho inteiro planejando meus próprios planos solitários para as férias e até baixei uma temporada inteira de Falling Skies para assistir! — Ajeitou o celular na orelha e reajustou o peso da bolsa no ombro.

Coleguinha, esse Falling não-sei-o-quê é uma daquelas séries estúpidas de ficção científica onde nada tem haver com nada, não é? Só porcaria!

— Sim, é uma série! Mas não é estúpida nem é uma porcaria. É incrível, fala sobre a invasão da terra por alienígenas e...

Que seja! — Gritou por fim. — Mas vamos, Elena! Bonnie disse que viria e traria o namorado. Rebekah, Kol, Matt e Elijah eu ainda tenho que confirmar, mas é quase certeza que venham. Até o Damon, que está sempre ocupado em ser vagabundo não fazendo nada da vida, vem! Por favor, Elena!

— O Salvatore? — Tomou cuidado para sua voz não sair afetada.

Aham! — Caroline não percebeu. — Se você for legal eu até deixo você trazer esse Falling não-sei-o-quê com você. E se você for incrível e me trouxer um presente, eu assisto com você! Mas venha, por favor!

Falling Skies. — Elena corrigiu e Caroline bufou. — Eu... Eu... Vou?

AH! Sabia que você não me decepcionaria, minha alienígena favorita! Agora eu tenho que ir arrumar as coisas para quando vocês chegarem e... Ai, meu deus! Isso vai ser mais que incrível. Beijo, tchau. E até Miami, babe! — Caroline estava aos gritos quando sinal da ligação foi cortado.

— Mas eu nem disse que sim! — Elena falou pra si mesma.

A Gilbert bloqueou o celular e segurou-o com forças na mãos, apertando-o contra o corpo. Ela segurava com a outra mão trêmula o livro de química e, agora, pouco se importava com ele e com todos os olhares redimensionados a ela.

Damon Salvatore. Era impossível não lembrar-se de Damon. O rapaz que todas desejam, e que todas conseguiam! Bom, nem todas. Uma garota, em específico, teve uma paixão platônica por ele, mas nunca teve coragem de admitir em alto e bom som. Essa garota observava-o o tempo todo. Tinha como alguém não observar? Esse garoto era bonito, sabia sempre o que dizer. Nunca repetia uma única peça de roupa. Chamava atenção e adorava causar confusões. Essa garota era extremamente tímida. Era bonita, mas tinha a beleza escondida por suas roupas de brechó e óculos. Mas, mesmo assim, ela conseguiu sentir atração por ele. Atração essa que nunca foi revelada durante o Ensino Fundamental e nem do Ensino Médio. Após a formatura, essa paixão foi esquecida por ser impossível de se realizar.

Elena, ainda com as mãos trêmulas, ajeitou o óculos corretamente alinhado no nariz e guardou o celular no bolso da frente da mochila. Sem se importar com os olhares, ela abraçou o livro de química novamente e saiu do refeitório.

Aquele garoto era Damon Salvatore. Aquela garota, Elena Gilbert.

Notas finais
Se você resolver acompanhar, eu vou ficar muito agradecida. É uma história que surgiu do nada e eu espero que se saia bem! Passei uns anos aprimorando minha escrita para poder voltar. Bom, voltei! E se você for acompanhar, considere-se abraçado por mim. Obrigada! ♥