Notas iniciais
Comentem, compartilhem, votem e não esqueçam de adicionar o livro na biblioteca. Um big beijinho, Mah.

JARED LETO

Ela está chorando por mim
Porque eu não posso ser o que eu quero ser
Eu não entendo
Ela foi longe de mim
Mas ela ainda diz que ela precisa de mim.
She's crying for me | N.Flunders

Estava estacionado há alguns minutos encarando o painel desligado do carro. Não estava preparado para o que iria fazer naquela noite, mas era uma questão de necessidade. Ela me ligava outra vez, respirei o mais fundo que consegui enquanto pegava meu celular e rejeitava a chamada novamente.

Pela última vez.

Quando coloquei os pés para fora do carro, o vento da Califórnia balançou meus cabelos a medida em que suspendia minha cabeça para olhar a fachada do hotel, estava com coragem suficiente para acabar aquilo tudo de uma vez por todas, mesmo que me machucasse, mesmo que a machucasse. Ao passar pela porta giratória fui direto para a recepção, onde dei meu nome e o número do quarto em que ela me esperava.

Me encostei no espelho do elevador, fechei os olhos e, tentei acalmar a tensão e ansiedade que meu corpo demonstrava sentir; por semanas hesitei tomar aquela decisão, até cogitei a hipótese de ir embora, de simplesmente sumir sem dar nenhuma explicação, mas ela merecia uma, era o meu dever dar um ponto final no que comecei.

Forcei meu corpo a sair do elevador quando o mesmo parou e as enormes portas se abriram. A medida em que caminhava pelo corredor extenso, tinha a impressão que a última porta dele se afastava a cada passo que eu dava em sua direção. Girei a maçaneta e assim que pus os pés para dentro tive a visão dela sentada, assistido a algum programa aleatório da tv, vestia um hobbie preto e pude perceber o seu nervosismo pela maneira como apertava as mãos umas nas outras.

Os únicos pontos de iluminação do quarto eram pelos dois abajures ao lado da cama de casal no centro, e a luz que a televisão refletia. Fechei a porta com o pé e ela virou a cabeça para me olhar, na mesma hora seu rosto se iluminou e um sorriso doce, mas carregado de alívio tomou seus lábios. Pigareei e continuei com minha expressão séria, nunca me sentir tão canalha quanto naquele momento.

— Você demorou.

A voz saiu baixa e um pouco trêmula. Meu coração acelerava cada vez mais enquanto ia na direção da garota loira, seus olhos preocupados me atingiram em cheio, e eu pude jurar que ela ouvia as batidas fortes e rápidas do meu coração.

— Aconteceu alguma coisa?

Sentei ao seu lado e forcei meus olhos a encarar apenas o programa que antes ela assistia. Parecia ser mais fácil dizer tudo o que pretendia sem olhá-la, seu corpo impediu minha visão quando ela sentou em meu colo e suas pequenas mãos tocaram meu rosto forçando-me a olhá-la.

— Nós precisamos conversar.

Minha voz saiu carregada. Não sei se de tensão ou devido à bolha que ameaçou se formar em minha garganta. Ela mordeu os lábios e assentiu com a cabeça, concordando comigo.

— Você está estranho. — Afirmou em voz alta o que provavelmente suspeitava. — Mas antes eu preciso te contar uma coisa.

Sua voz tremia e o brilho de seus olhos se iluminou ainda mais. Minha respiração falhou, eu já tinha a noção do que vinha pela frente, eu já cheguei naquele hotel sabendo do que se tratava, mas eu precisava ouvir de sua boca.

— Sou todo ouvidos. — Dei de ombros. Tentando convencê-la e até mesmo me convencer de que não me importava.

Suas mãos abandonaram meu rosto, seus olhos se desviaram dos meus. Assim como eu, ela também concordava que a melhor opção para falar era não me encarando. Um breve momento de silêncio tomou conta do ambiente, então ela respirou fundo antes de começar.

— Eu estou grávida. — falou quase em um sussurro. Precisei até me inclinar em sua direção para escutar o que acabara de sair de seus lábios.

— Você o quê? — o meu tom de voz saiu mais alto do que pude perceber e notei que seu corpo estremeceu.

— Estou grávida, Jared. — agora seu timbre de voz saiu audível, seu olhar tomou o meu e uma de suas mãos mexia inquietamente dentro do bolso do tecido sedoso que usava, e um papel amassado ganhou a minha atenção.

Tirei-a do meu colo antes de pegar o papel e me levantar. Ela se encolheu no sofá, seu rosto estampava desespero e parecia esperar uma reação minha. Era nítido que ela não estava preparada para ter aquela criança, não sabia o que fazer ou como reagir diante daquela notícia e esperava que eu soubesse conduzir como seria dali para frente.

— Não, Alissa. Você estava tomando anticoncepcional, estávamos sendo cuidadosos em relação a isso. — levei as mãos à cabeça e fechei os olhos.

Por um momento a ideia de ir embora sem dar nenhuma satisfação estalou dentro de mim, fazendo-me arrepender de não tê-la escolhido.

— Eu sei, mas... — sua voz morreu antes de completar a frase quando me virei para olhá-la.

— Não pode ser Alissa, você não pode estar grávida. Você deveria ter tido mais cuidado, porra.

Fui obrigado a limpar a garganta quando seus olhos marejaram por conta das minhas duras palavras, ela estava assustada.

— Eu não engravidei de propósito, Jared. Acha que eu queria isso? Eu não planejei essa criança, apenas aconteceu.

Havia tanta mágoa, tanta desilusão e desespero, tudo isso em suas palavras.

— Olhe o tamanho do problema que causou, vai ter uma criança indesejada. — elevei a voz e ela passou as mãos pelo rosto negando com a cabeça.

— É nosso filho. Como pode falar assim? — andou em minha direção a passos duros. — Você veio aqui para dizer que não quer ficar comigo de verdade, não é?

Adivinhou o que eu pretendia dizer. E sua resposta veio com o meu silêncio. Sua boca abriu uma, duas, até três vezes, mas fechou-se quando seu queixo tremeu.

— A minha vida já é complicada o bastante para assumir a responsabilidade de ser pai. Eu não quero esse filho, eu não posso.

Tentei aproximar minhas mãos de seu rosto na intenção de enxugar as lágrimas que desciam por ele, mas ela recuou com a minha menção de tocá-la.

— Para pra prestar atenção nas suas palavras, é apenas uma criança. — chorou ainda mais. — Não pode rejeitá-lo por um erro que nós dois cometemos.

— E você é outra criança, Alissa. Você tem 18 anos, o que vai contar para sua mãe quando a barriga começar a crescer? E você está certa. Nosso erro, nunca esqueça das suas palavras. Nunca esqueça a sua irresponsabilidade, vai ser a responsável pela metade do sofrimento dessa criança. Você a condenou.

Minha garganta arde devido ao nó, mereço todo o sofrimento só pelo fato de magoá-la profundamente. A garota deu alguns passos para longe de mim, desesperada e, eu precisei me esforçar para manter a postura que até agora fui capaz, e não abraça-la e dizer que poderíamos passar por aquilo juntos.

— Agora me culpa? Agora eu sou nova demais para você, mas não pensou na possibilidade enquanto transamos por meses escondido. — de repente seu olhar mudou para raiva. — Não pode culpar o bebê por algo que ele não tem culpa.

Lagrimas e mais lágrimas desciam pelo seu rosto.

— Ele não tem, mas você sim. E eu nunca vou perdoá-la por causar tamanho sofrimento à nós dois.

Ela estava em choque.

— Você vai se arrepender de ter falado tudo isso, Jared Leto.

— Já estou, Alissa. Não precise de tanto tempo assim para me arrepender. Estou arrependido de ter sido teimoso e me permitido envolvê-la na minha vida.

— Jared, não.

Ela sentou na cama, processando tudo o que estava acontecendo.

— Acabou, Alissa. Acabou.

Vi-a negar com a cabeça as minhas palavras. Estava determinado a ir embora o mais rápido dali, sem olhar para trás.

— Não. Você não pode fazer isso comigo. — Ela se levantou em um pulo e veio em minha direção quando eu comecei a dar passos para trás, indo para a porta. — Eu arrisquei tudo por nós, eu menti para meus pais, eu...por favor, não faça isso comigo, não dê as costas para o seu filho. — implorava agarrada à minha camisa.

— Eu não queria prejudicar a sua vida. Desde o início deixei claro as minhas intenções, sempre fui sincero com você quando falei o que escolheria caso não déssemos certo, e eu escolho a minha carreira. — fiz uma pausa enquanto tentava memorizar cada detalhe de seu rosto. — Adeus, Alissa.

Encarei pela última vez aquela menina, aqueles olhos que antes brilhavam ao me ver, agora estavam repletos de dor. Não queria que terminasse daquela forma, não queria que aquela fosse minha última lembrança dela, e minha para ela, mas eu estava decidido e era tarde demais para voltar atrás.

Sai do quarto puxando a porta atrás de mim, ainda com a mão na maçaneta pude escutar seus soluços e protestos, me pedindo para voltar.

E aquela foi a última vez que a vi.