Monolith
4 Capítulo 2
Você me prometeu o mundo e eu caí nessa
Eu te coloquei em primeiro lugar e você adorou
Ateou fogo na minha floresta, e a deixou queimar
Cantou fora do tom no meu refrão
LOSE YOU TO LOVE ME | SELENA GOMEZ
ALISSA LUDBROOK
08 de Março de 2018. — Nova York.
Assim que pus os pés para fora do apartamento, fui envolvida pelo frio de Março, que parecia me bater como se eu fosse um saco de pancadas em um treino de boxe. As árvores sem nenhuma folha e cobertas de neve me faziam lembrar de quando cheguei na Big Apple sozinha, pronta para começar um novo capítulo da minha vida. Pronta para deixar a Alissa Ludbrook de Los Angeles para trás e ser uma nova pessoa.
Depois da proposta de trabalhar na nova turnê da banda, tudo me fazia lembrar o galã de olhos azuis e das malditas lembranças que por anos eu tentava enterrar e que assombravam. Pude sentir o cheiro de café que vinha do Starbucks que ficava do outro lado da rua, esse vento frio estava me deixando completamente irritada.
Nova York tem aquele típico cenário de filme em que todos estão alegres, em que os pais estão brincando de fazer bonecos de neve com seus filhos; estavam todos animados para a chegada da páscoa, e olhar tudo isso me faz sentir saudades de casa e até mesmo dele, até mesmo de quando fazíamos planos de um futuro que ambos sabíamos que jamais teríamos, mas de algum modo planejar uma vida com ele parecia real, ou era para parecer.
As crianças da senhora Green faziam bolas de neve pela calçada enquanto brincavam com o cachorro do senhor Hills.
— Por favor Alissa, você vai passar meses longe da gente, teremos que ficar com a velha Johnson por sua causa, merecemos ao menos termos uma tarde com você antes que parta. — Valentim pediu.
— Tudo bem, crianças, brinco com vocês se prometerem que ajudarão a sua mãe a cuidar da Prada e da Gucci. — propus.
Os dois assentiram freneticamente com as cabeças e me puxaram até o Vader. O labrador corria atrás de nós enquanto tentávamos confundi-lo, alguns pais olhavam pelas janelas com o decorrer que outras crianças se juntaram à brincadeira.
Um carro grande e preto, parou próximo à calçada, e todos pararam de brincar, inclusive o Vader.
— Senhorita Ludbrook, está na hora. — o motorista falou ao descer.
Assenti e me aproximei da Rachel e do Valentim, os dois me abraçaram.
— Se der tudo certo jantarei com vocês essa noite antes de partir, quero waffles, diga à sua mãe.
Ordenei vendo os dois assentirem com a cabeça, e caminhei até o carro, mas antes de entrar olhei mais uma vez para os gêmeos que me olhavam com certa atenção. Dei um meio sorriso e entrei fechando a porta. Me surpreendi quando vi que o Leto mais velho, Shannon, estava ali, sorrindo.
— Sempre achei que você era excelente com crianças, daria uma ótima mãe. — comentou.
— É bom rever você também, Shannon. — falei e dei um pequeno sorriso sem mostrar os dentes.
Ele não tinha mudado tanto, nada, na verdade. Apenas havia amadurecido mais do que eu lembrara. Os olhos verdes me analisavam por completa, de tempos em tempos ele digitava algo no celular e isso me deixava extremamente tensa.
O silêncio incomodava, tanto eu quanto ele queríamos comentar algo, queríamos saber como foi durante esses sete anos, mas estávamos com medo de fazer alguma pergunta ou comentário que fosse desagradável. Encostei minha cabeça no banco do carro e me concentrei em olhar para o lado de fora.
As buzinas ressoavam em meio à disputa milimétrica dos táxis por espaço, interrompidas pelo guinchar dos freios diante de pedestres corajosos o bastante para pisar no cruzamento segundos antes do sinal fechar.
Estou quebrando a promessa que jurei anos atrás, que jamais, em hipótese alguma iria me envolver com algo que Jared Leto estivesse envolvido, até mesmo respirar o mesmo ar que ele, jurei que nunca mais o veria outra vez, que a única memória que ele carregaria pelo resto da vida seria daquela noite, seria o meu choro e os meus gritos implorando que voltasse. Mas aqui estou eu, dentro de um carro na companhia do seu irmão mais velho, indo para uma reunião em que o próprio estaria.
Céus!
Eu não deveria ter aceitado, estou completamente arrependida de ter ouvido a minha teimosia ao invés de seguir minha razão e os sinais de alerta que minha mente dava, me avisando do quão errado aquela decisão era.
Foram minutos torturantes dentro daquele maldito carro. A cada segundo o nervosismo fazia meu estômago revirar e o nó que começara a se formar na garganta resultava em abrir a boca para inspirar o ar. Quando o carro parou na frente de um enorme prédio espelhado, eu observei atenta todos os movimentos do Leto mais velho, desde sorrir pra mim até abrir a porta e contornar o carro abrindo a minha em seguida. Hesitei. Eu não estava pronta para aquilo.
A minha única vontade era correr dali, e eu já previa as lágrimas querendo descer pelo meu rosto. Minhas mãos começaram a suar e a tremer, Shannon estendeu a mão em minha direção enquanto seu olhar me encorajava a aceita-la, suspirei e acabei me rendendo.
Ao sair andamos até a entrada do prédio, e após chamar o elevador, ele se encostou na parede próxima e colocou as mãos dentro da calça de moletom que usava, enquanto olhava a forma como agarrei minha bolsa, como se a qualquer momento ela fosse escapar das minhas mãos. O pânico me dominava por saber que o meu passado estava a 14 andares de distância, esperando por mim.
— Você precisa ficar mais calma. Relaxe Alissa ou vai acabar passando mal. — sai dos meus pensamentos por causa da voz dele. — Não se desespere por algo que não sabe como vai ser. — completou.
— Justamente por isso que estou nervosa. Eu não sei como vai ser. — me esforcei para minha voz sair.
— Então porque aceitou?
Bingo. Está aí uma pergunta que eu adoraria saber responder, talvez eu até soubesse, mas tinha medo suficiente para pronunciar em alto e bom tom, abri minha boca uma, duas, até ousei uma terceira vez, mas nada saiu.
O elevador chegou, era a minha chance de desistir, dar meia volta e ir embora, de firmar a minha promessa ou entrar naquela caixa de metal e dar de cara com o meu passado ao vivo e em cores. Quando Shannon apertou o botão do 14º andar, eu precisei me encostar no espelho do elevador e inspirar com força.
Tive a impressão de estar ali dentro há horas, meu olhar estava grudado no painel que mostrava o andar em que estávamos e eu pude sentir meu corpo inteiro formigar e gelar. Quando o elevador parou, jurei que meu coração também pararia, as portas se abriram em câmera lenta, meu corpo queria amolecer e eu precisei segurar na barra fria de metal, e então aqueles olhos azuis, aquele maldito olhar que era muito bem conhecido por mim me atingiu em cheio.
Há uma mistura de emoções, um pouco de tudo: surpresa, culpa, dor, arrependimento, intensidade, e foi o bastante para me deixar desconcertada.
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